TEXTOS DE APOIO A CATEQUISTAS
Pe. João Resina Rodrigues
II - Certas maneiras erradas de ensinar quem é Deus
1. Deus é o Absoluto, não precisa de nenhuma coisa, de nenhuma relação exterior a Si, para ser Quem é. Deus acompanha cada uma das criaturas, mas permanece igual a si mesmo. Deus é.
2. As coisas deste mundo por um lado permanecem, por outro lado mudam. Hoje, o meu pai e a minha mãe são os mesmos que eram ontem; mas, daqui a uns anos vou reconhecer que envelheceram. O ser e o evoluir são dois aspectos de todas as coisas deste mundo. Mas Deus é. Curiosamente, dos muito grandes pensadores que estão na origem da filosofia, uns insistiram na mudança, outros na permanência. Heraclito afirmava que tudo flui, Platão achava que as coisas, várias e transitórias que são, têm a ver com modelos perfeitos e eternos.
3. As coisas deste Universo, e o Universo no seu conjunto, dependem, em última análise, do querer de Deus. É isso que queremos dizer ao afirmar que Deus é o Criador.
Mas atenção! Explicar exactamente em que consiste a criação não é fácil. Os judeus começaram por acreditar que o seu Deus era o Senhor do seu Povo, e era mais poderoso que os outros deuses. E depois acreditaram que há um só Deus e todas coisas dependem dEle. Mas na mente destes homens aquilo que parecia a dependência mais radical é a do objecto que o artífice faz. Por isso pensaram que Deus fez, fabricou com as suas mãos, cada uma das coisas. Hoje, lemos na Bíblia: “No princípio, Deus criou o céu e a terra.” (Gen 1,1). Realmente, o que texto original diz é mais singelo: “À cabeça, Deus fez o céu e a terra.” Naquele tempo, ainda não se pensava em princípio, nem em criação a partir do nada. Isso são noções e linguagem que só se tornaram correntes mais de mil anos depois. (A actual tradução desse passo da Bíblia é portanto uma interpretação do texto original). O mesmo escritor, ou alguém depois dele, deu um passo maior quando, adiante, escreveu que bastou a Deus dizer para que as coisas existissem: “Disse Deus: haja luz, e houve luz”. (Gen 1, 3).Este textos são porventura do séc.V a.C. Há um texto, porventura do séc.X a.C., mais ingénuo: “Então, o Senhor Deus formou o homem do pó a terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida.” (Gen 2, 7).
4. Os judeus imaginaram que Deus fez directamente todas as coisas, estrelas e planetas, gatos e cães. Outras culturas imaginaram que Deus fez uma espécie de ovo primordial, donde provieram todas as coisas. Não me parece muito diferente. Em ambas as culturas houve um homem, ou uma comunidade humana, que teve a intuição fundamental de que todo o Universo depende de Deus. E disse isso, servindo-se de imagens expressivas. Talvez uma das culturas se admirasse muito com a multiplicidade e variedade das coisas e a outra se espantasse com a riqueza que está contida num ovo.
5. Que tem a Revelação a ver com isto? Não estarei eu a por em pé de igualdade a Bíblia e as outras tradições humanas?
a) Não me custa aceitar que, não só no Povo eleito, mas também em outros povos, tenham desde sempre existido homens que viveram mais perto de Deus e O reconheceram como o Criador do Universo.
b) Durante séculos, os cristãos acreditaram que o texto da Bíblia podia e devia ser tomado à letra. Mas, em 1943, na Encíclica Divino Afflante Spiritu, o Papa Pio XII ensinou que o texto tem de ser entendido tendo em consideração o seu género literário. E o género literário dos 11 primeiros capítulos do Génesis não permite uma interpretação literal. Deus revelou-se aos “autores sagrados” como o Criador; mas achou normal que eles se exprimissem nos termos das culturas em que viviam. Uma interpretação correcta deve ter em conta as riquezas e as limitações dessas culturas.
Penso, nomeadamente, que é errado invocar a Bíblia para contrariar a hipótese dum Universo evolutivo que se desenvolve a partir dum big bang e onde, de acordo com as leis que são da vontade de Deus, surgem as galáxias, as estrelas, os planetas, a vida e finalmente o homem.
6. A aventura da ciência ora tem simplificado, ora tem complicado estas interpretações.
No séc.XVII, Newton cria a primeira grande teoria científica, hoje chamada a Mecânica Clássica. Newton era crente e pensava que o espaço e o tempo eram atributos infinitos de Deus, que albergam o “espaço absoluto” e o “tempo absoluto” do Universo físico. Filosoficamente, isto era voltar atrás de S. Agostinho que, no séc.V, tinha tido a lucidez de afirmar que Deus está “fora” do espaço e do tempo, não pode ser medido em termos de espaço nem de tempo. Ainda segundo S. Agostinho é uma estupidez perguntar que fazia Deus antes de criar o Universo, pois, antes da criação do Universo, não havia tempo.
No séc.XX, as teorias da relatividade ensinaram que o espaço e o tempo são condições do Universo físico. Um físico que seja crente revê-se então nas ideias de S. Agostinho: crê que Deus é a realidade suprema, sem se confundir com nenhuma coisa do mundo.
As ciências dos séc.XVIII e XIX falavam muito de causas. Certos pensadores cristãos entenderam que isto confirmava as ideias de Aristóteles e de S. Tomás de Aquino, e fortalecia portanto uma das “vias” para provar a existência de Deus. Entretanto, o materialismo científico defendia que as causas que a ciência descobre são suficientes para explicar o Universo, tornando inútil o recurso a Deus.
A meu ver sensatamente, Kant, no séc. XVIII, defendeu que a razão humana pode fazer ciência e pode encontrar caminhos para Deus; mas que o processo é diferente. Isto inova sobre o racionalismo do séx.XVII e de certos autores cristãos, encantados com uma razão humana que descobre com igual facilidade as coisas da terra e os caminhos para Deus.
No séc.XX, a Mecânica Quântica mostra que a causalidade não se reduz aos esquemas simples da Física Clássica.
De há 150 anos para cá, a Biologia mostrou que a evolução dos seres vivos na Terra é um facto indiscutível.
A Física de Newton e sucessores imediatos passava-se num Universo como que eternamente igual a si mesmo. Os anos 1930 trouxeram a teoria do big bang: “No começo”, todo o Universo estaria concentrado num espaço muito pequeno, talvez um ponto; houve uma grande explosão e uma grande evolução . Isso passou-se há coisa de 12 mil milhões de anos. e conduziu o Universo ao seu estado actual (continuará a evoluir).
Recorde-se que a ciência não tem dogmas, não há “verdades cientificamente demonstradas”. A teoria do “big bang” é, como os outros conhecimentos científicos, uma hipótese, embora com peso considerável. Há teorias muito mais ousadas, segundo as quais todo o Universo pode ter resultado duma flutuação quântica do vácuo; são precisos mais dados para fortalecer ou para enfraquecer estas teorias.
Como quer que seja, parece seguro que o Sol brilha há 5 mil milhões de anos, a crusta terrestre está firme há 4 mil milhões de anos, a vida evolui na Terra há mais de 3 mil milhões de anos. Os australopitecos apareceram há 10 milhões de anos, os homens de Neanderthal há 100 mil anos e os homens iguais a nós há 40 mil anos.
7. Volto ao princípio: Deus quis que existisse Universo, e o Universo existe. (Se o Universo começou num instante t=0 ou se vai de t = – ¥ a t = +¥ é coisa que eu ignoro; é verdade que o Livro do Génesis diz: “no começo…”, mas não se esqueça que quem escreveu o Livro do Génesis tinha as ideias da sua época, não as da matemática e da física do nosso tempo). Deus quis que o Universo existisse, e o Universo existe. Podia tê-lo “fabricado” peça a peça (assim imaginou quem escreveu o Génesis), pode ter querido que o Universo tenha o poder de evoluir (disso testemunham os factos observados).
Mas é importante não confundir o big bang com a criação de Deus. A criação é uma decisão de Deus. O big bang é uma teoria física que tenta dizer como é que o Universo – evolutivo – começou a evoluir. Como curiosidade: os físicos têm algumas ideias sobre aquilo que se passou nos primeiros minutos a seguir ao tempo de Planck (10-43 s); sentem-se muito ignorantes quanto àquilo que aconteceu entre o big bang e o tempo de Planck.
8. Insistindo: A descrição das coisas que existem no Universo e da maneira como o Universo está quieto ou evolui pertence às ciências, não pertence à religião. A religião ensina - nos a viver no Universo tal como ele é, amando a Deus e aos irmãos, trabalhando pela justiça e pela paz.
Em nota:
Certas editoriais católicas estão a produzir livros para crianças, com lindas ilustrações, em que se ensina que ao terceiro dia Deus criou os oceanos e a terra, e depois o Sol.
Recordo uma história verdadeira: os pais do menino Alberto Einstein (1879-1955) eram judeus não praticantes; quando o menino fez 6 anos, mandaram-no para a escola do bairro, que era uma escola católica. Teve aulas de catequese, aprendeu isto e rezava muito. Quando chegou ao Liceu, aprendeu que a Terra se constituiu muito depois do Sol. Achou que a religião era um conjunto de mentiras para domesticar as crianças e foi ateu até ao fim da vida.
Já agora outra história verdadeira: quando a futura Mme Curie (1867-1934) tinha 13 ou 14 anos, a mãe adoeceu muito gravemente. Umas almas devotas e benfazejas disseram-lhe que, se ela rezasse muito, a mãe não morria. Rezou muito, a mãe morreu, e ela nunca mais acreditou em Deus.
II – Certas maneiras erradas de ensinar quem é Deus
Acreditar em Deus não significa acreditar num determinismo universal. Não é verdade que tudo acontece segundo projectos que Deus estabeleceu no primeiro dia da criação. Há um texto de Isaías (Is 5,1-7) que é a este respeito importante. Começa por contar a história dum proprietário que compra um terreno e faz todo o possível para criar uma vinha modelo; mas a vinha só dá uvas azedas. Depois, Isaías explica que a Deus aconteceu coisa parecida: fez o possível para ter um Povo de justos, mas este Povo está cheio de maldade.
Então, Deus não é Senhor de tudo? É, mas importa não fazer confusões. Deus, que é Criador e Senhor do Universo, aceitou, ou quis, que neste Universo houvesse processos que são totalmente previsíveis, e outros que são totalmente imprevisíveis. É totalmente previsível que, se largarmos um fino copo de vidro, ele cai e se estilhaça no chão. Um dado átomo de urânio pode ser que se desintegre no minuto que vem ou daqui a um milhão de anos. Ninguém pode prever. Foi bastante fácil descobrir a lei ( N = No e-λt) que descreve como varia no tempo o número de átomos duma amostra, é impossível anunciar a data em que um determinado átomo vai desintegrar-se. Deus quis que o homem fosse livre. E resigna-se a não abafar essa liberdade, mesmo que ela se volte para o mal.
E nós? Deus convida-nos a compreender e a dominar a Natureza, a criar estruturas de justiça e de paz entre os homens. Mas ainda não somos capazes de prever os tremores de terra, ainda não temos protecção suficiente contra as grandes tempestades, as nossas estruturas sócio-políticas e económicas podem entrar em crise. Temos de enfrentar a vida com lucidez. Deus nunca prometeu que resolvia estas coisas em vez de nós.
Em nota:
Ouvem-se às vezes católicos praticantes e até padres a dizer que, como Deus existe, não pode existir acaso. Isto parece-me a suprema estupidez. E que querem dizer com isso?
a) Que é Deus quem resolve tudo? Então suponhamos que uma pessoa mata outra. Acham que foi Deus quem mandou ao assassino que disparasse ou enterrasse a faca? Suponhamos que uma pessoa se distrai ao atravessar uma rua e é atropelada. Será que foi Deus quem a distraiu e quem impediu o condutor de travar a tempo?
b) Que, como Deus transcende o espaço e o tempo, está “em toda a parte” e vê tudo o que aconteceu e há-de acontecer? Não lhe parece mais razoável dizer que Deus vê o copo partir-se e sabe que esse facto resultou dum processo causal; vê um dado átomo desintegrar-se no dia 30 de Setembro do ano 432057 e sabe que essa desintegração não teve causa? Como concluir do conhecimento de Deus que aquilo tinha de acontecer? Suponhamos que você vê um avião a cair; concluirá daí que o avião tinha de cair? Mas se o átomo se desintegrará no dia 30 de Setembro de 432057, Deus, que é eterno, sabe isso. Mas não o disse a ninguém. E sabe porque vai acontecer, não irá acontecer porque Deus o sabe.
E não se esqueça que há questões sem sentido. As crianças perguntam se é ou não verdade que Deus pode fazer uma pedra tão grande que não consiga pegar-lhe. E nós respondemos que é uma questão sem sentido. Também é sem sentido perguntar o que teria acontecido se César não tivesse atravessado o Rubicão (atravessou!) ou se Alexandre tivesse morrido em pequeno (morreu com 33 anos!)
III - A QUESTÃO DO MAL E A ESCRITURA
A questão do mal é o grande enigma que desde sempre atormentou os homens. A Bíblia, desde o Antigo Testamento, sente o problema. Mas atrevo-me a dizer que não o resolve. E Jesus também não. Jesus nunca disse que o mal era um castigo pelos pecados (em especial, nunca falou de Adão nem de Eva), nunca disse que o mal é coisa pequena comparado com a vida eterna. Chamou a atenção dos discípulos para a realidade e para o peso do mal; mas, em vez de o explicar, disse: venham comigo e façam como Eu: amem os irmãos, sobretudo os que sofrem, amem, como Eu, até ao fim.
No AntigoTestamento há um bloco constituído pelos “Livros Sapienciais”: Job, Salmos, Provérbios, Qohelet (ou Eclesiastes), Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Ben Sirá (ou Eclesiástico). São reflexões sobre aspectos essenciais da condição humana, desligadas dos eventuais problemas concretos do tempo em que foram escritas. Falam da fé, da oração, do amor do homem e da mulher, da vida e da morte, do sofrimento, daqueles que ajudam e daqueles que fazem mal aos irmãos.
O Livro dos Salmos é uma colecção de textos, fundamentalmente de oração, adoração e louvor a Deus, mas também de súplica e desabafo. Devem ter sido compostos entre o séc.X e o séc VI a.C. O Livro dos Salmos não ignora que o mundo está cheio de sofrimento e injustiças; convida o crente a pedir a ajuda de Deus e a confiar. Infelizmente, alguns destes escritores transformaram os seus desejos mais profundos em profissões de fé: acreditaram e prometeram que os maus serão sempre castigados e os justos serão sempre premiados (neste mundo, pois os Salmos falam pouco da vida eterna). A este respeito é sintomático o salmo 37(36). “Não te irrites por causa dos malfeitores, (...) eles vão secar depressa como o feno e murchar como a erva verde. Confia no Senhor e faz o bem; habitarás a terra e viverás tranquilo. Procura no Senhor a tua felicidade, e Ele satisfará os anseios do teu coração. Confia ao Senhor o teu destino, confia nele e Ele há-de ajudar-te. Fará brilhar, como a luz, a tua justiça e, como o Sol do meio-dia, os teus direitos. (…). Pois os maus serão exterminados, mas os que esperam no Senhor possuirão a terra. (…). Fui jovem e agora sou velho; mas nunca vi o justo abandonado, nem os seus filhos a mendigar pão.” (Em que ilha afortunada terá vivido, desde a juventude, este escritor?!).
A Bíblia resultou da agregação de textos de teor religioso. Suponho que as autoridades religiosas aprovaram uns e rejeitaram outros; apetece-me pensar que, a respeito deste Salmo 37(36) houve um censor que disse: o homem é exagerado, toda a gente sabe que há filhos de justos a mendigar pão; mas toda a gente percebe que é um sonho humano, não uma promessa de Deus: não vai enganar ninguém, e é um convite à oração.
Em 587 a.C., Nabucodonosor destrói Jerusalém e deporta sacerdotes, nobres e artífices para a sua cidade da Babilónia. Os judeus sofrem um grande abalo religioso, pois tinham acreditado que o Povo de Deus jamais seria vencido. É um tempo de grande crise. Em 538 a.C., Ciro liberta estes cativos e encoraja a reconstrução de Jerusalém e do Templo. É nesta época e neste contexto que surgem dois Livros muito importantes: Job e o Cohelet (Eclesiastes).
O autor do Eclesiastes atreve-se a dizer, alto e bom som, que não é verdade que o justo seja sempre salvo e premiado. O início deste Livro costuma ser traduzido por: “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (Eccl 1,2). Mas não se trata duma pregação contra a riqueza e a toleima. A boa tradução é “Vazio e mais vazio, tudo é vão” e é a palavra agreste e desabusada de um homem cuja tentação é já não confiar em coisa nenhuma. “Tanto morre o sábio como o insensato. Há quem se esforce com sabedoria, conhecimento e bom êxito, e depois vai deixar o fruto do seu labor a outro que não trabalhou.” (2,16-21) Não há esperança de segurança neste mundo, tudo é vão. Nem há esperança de progresso, tudo permanece desesperantemente igual. “O Sol nasce e o Sol põe-se, os rios correm para o mar e o mar não se enche. Aquilo que foi é aquilo que será; aquilo que foi feito, há-de voltar a fazer-se. Vi tudo o que se faz debaixo do Sol e achei que tudo é vaidade e correr atrás do vento. O que é torto não se endireita e o que é incompleto não se completa.” (1, 5-15). “E eu vi ainda, debaixo do Sol, a injustiça ocupar o lugar do direito e a iniquidade ocupar o lugar da justiça.” (3,16). “ E de novo considerei todas as opressões que se cometem debaixo do Sol. Vede as lágrimas dos oprimidos: eles não têm consolador. Os seus opressores fazem-lhes violência: eles não têm consolador.” (4,1).
À primeira vista, o autor deste Livro é um quase ateu, furioso contra tudo o que lhe ensinaram. e lhe parece desmentido pela vida. Julgo que não. Suponho que é um crente, que vive uma solidão semelhante á de Sta Teresa do Menino Jesus ou da Madre Teresa de Calcutá e que tem a coragem de chamar as coisas pelos nomes. Esta vida é para muitos um horror. Mas pode e deve ser vivida na fidelidade que é o amor a Deus e aos irmãos. Só que não adianta, nem para mim, nem para os outros, nem para Deus, esmaltá-la com beatices.
O Livro de Job é uma espécie de parábola. Havia, numa terra longínqua, um homem, chamado Job, que era muito rico e muito santo. Casado, com sete filhos e três filhas, tinha grandes propriedades, rebanhos imensos e uma multidão de trabalhadores a seu serviço. Rezava, socorria todos os pobres das redondezas, tinha a palavra amiga capaz de consolar os doentes e os desesperados, era ouvido pelos grandes do povo nas questões importantes, e não se considerava superior a ninguém. Toda a gente pensava que nele se cumpria a promessa da Escritura: era o justo, a quem Deus abençoava e acarinhava, protegendo-o de todo o mal.
Mas, um dia, desaba sobre ele a desgraça. Os sete filhos e as três filhas morrem num desastre, os bandidos do deserto matam-lhe os servidores, roubam os rebanhos e incendeiam casas e celeiros. Job, de tudo despojado, fica triste, mas não disparata: aceitei o que a vida me trouxe quando eram bens, ser fiel é agora aceitar a tristeza e a miséria sem desistir de amar a Deus e aos irmãos. A seguir, vem-lhe uma doença maligna. Está cheio de úlceras dos pés à cabeça, mete nojo. Vendo-o persistir na fé, a própria mulher o insulta: “Continuas na beatice? Amaldiçoa Deus e mata-te!” E ele responde: “aceitamos os bens, temos também de aceitar os males.”(Job 2,9-10).
Job tem três amigos mais próximos, e eles sentem-se na obrigação de o visitar. Ficam tão espantados e tão perplexos, que, “durante sete dias”, não abrem a boca. E então Job começa a desabafar. Como o Cohelet, como a Madre Teresa de Calcutá. Não nega Deus. Mas diz que não entende, que tudo lhe parece absurdo. Mais valia não ter nascido! “O dia em que eu nasci morra e pereça!” (3, 1-26).
Os amigos, que tinham aprendido na catequese que todo o mal é um castigo e só é castigado o pecador, suspeitavam já que Job devia ser muito mau e um grande embusteiro, tão disfarçado de santo que conseguira enganar a todos; estas palavras, desconformes da Tradição, parecem-lhes uma prova da sua suspeita. Mas não desistem da obra benfazeja a que vieram. Têm é que o converter. “Olha, tu sabes que Deus perdoa tudo; reconcilia-te com Ele e Ele te restituirá a saúde e as antigas bênçãos.”
A reacção de Job deixa-os siderados: “Eu não serei santo de altar, mas acho que não sou pior que o comum dos homens. Nunca me aproveitei da riqueza ou do poder para cometer injustiças, nem em novo corri atrás de mulheres levianas, gastei sempre grande parte da minha fortuna a socorrer os pobres…Portanto, não percebo isso que vocês me dizem.”
Eles insistem, a conversa azeda, e Job tem a insensatez de desafiar Deus para que compareça a explicar-se. (No fundo, como muitas pessoas crentes que sofrem, Job quer desesperadamente saber se é Deus quem o castiga, e porquê; e se não há razão para castigo, por que é que Deus, que é omnipotente, permite o sofrimento).
A parábola imagina que Deus, de facto, se manifesta. Fala com dureza a Elifaz de Teman: «Estou indignado contra ti e os teus amigos, porque não falastes com rectidão na minha presença, como Job, meu servo. Tomai, pois, sete touros e sete carneiros e ide procurar o meu servo Job. Oferecei por vós estes holocaustos, e o meu servo Job intercederá por vós. Em atenção a ele não vos castigo, por não terdes falado rectamente de mim, como o meu servo Job.” (42,7-8). Por outras palavras, Deus mostra-se indignado com a teoria corrente, inspirada numa leitura pouco inteligente dos Salmos. E, implicitamente, censura que se “ajudem” os doentes com pregações deste tipo.
Como acabamos de ler, o Senhor passa um certificado de santidade a Job. No entanto não deixa de lhe dirigir uma branda censura (censura branda porque Deus sabe – e reaprendê-lo-á na cruz – que é difícil não se falar demais quando se sofre): Job fez e disse coisas basicamente correctas, mas não tinha o direito de desafiar Deus, nem de proceder como se o sofrimento lhe tivesse conferido o grau de doutor em todas as coisas. (Então, do seio da tempestade, o Senhor respondeu a Job e disse: Quem é esse que obscurece os meus desígnios?(…). Onde estavas, quando lancei os fundamentos da terra?(…) Abriram-se-te, porventura, as portas a morte? Viste as portas da morada tenebrosa?(…).” (38-39).
Job fica feliz, não por ter obtido a resposta à sua pergunta – Deus não deu essa resposta, nem no Antigo, nem no Novo Testamento – , mas por sentir que Deus o toma a sério e o ama. “E Job respondeu ao Senhor, dizendo: «Falei levianamente. Que poderei responder-te? Ponho a mão sobre a minha boca; falei uma vez, oxalá não tivesse falado; não vou falar duas vezes, nem acrescentarei mais nada»” (40,3.5).
Tudo somado, o Livro de Job não explica o mal. Ensina-nos que o mal é uma realidade real, que não pode ser ignorada nem disfarçada. Contra o Livro dos Salmos e de acordo com o Cohelet, avisa que a santidade não confere uma apólice contra todos os riscos. O conselho deste Livro – um dos cumes do Antigo Testamento – é que vivamos como Job, aceitando com ânimo igual o triunfo e a derrota, a alegria e o sofrimento. Não na “apatia” e “ataraxia” dos estóicos, não no fatalismo muçulmano, simplesmente no amor total a Deus e aos irmãos, sejam quais forem as condições e as vicissitudes. Direi mais: o conselho do Livro de Job é que não gastemos tempo nem energia a procurar “porquês”. Aceitemos que Deus acreditou que seríamos capazes de não desesperar, e tentemos prosseguir.
Esta história continua e tem o remate em Jesus Cristo. Ama os homens e ensina-lhes o caminho da salvação, os homens respondem condenando-o à cruz. Não acredito na teoria de S.to Anselmo (séc.XI), segundo o qual isso tinha sido combinado entre o Pai e seu Filho para que pudéssemos ser salvos. Jesus veio, simplesmente, trazer-nos o amor sem fim e aceitou todos os riscos. A palavra no Jardim das Oliveiras é sagrada. Jesus acredita que o Pai tem todo o poder, mas não sabe se está na vontade do Pai salvá-lo. Tem a humildade de pedir: “E dizia; «Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice. Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres».” (Mc 14,36). Mais só do que nunca tinha estado Job, nem no futuro a Madre Teresa de Calcutá, dirá antes de morrer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (15, 34). Também disse: “Pai, perdoa-lhes, que não sabem o que fazem!” e : “Nas tuas mãos entrego o meu espírito”. (Lc 23,34,46).
Outubro de 2008