ENCONTRAR JESUS RESSUSCITADO – Neste tempo de Páscoa é preciso reconhecer as encruzilhadas em que cada cristão pode encontrar-se com Cristo. Há muitas estradas de Emaús. São os lugares onde, no meio das maiores dificuldades, o Senhor Jesus Cristo se revela. Foi assim com os discípulos na tempestade do lago, onde eles julgaram que Jesus era um fantasma; foi assim quando os filhos de Zebedeu O consideraram apenas uma oportunidade para se tornarem alguém no reino da Terra; foi também assim quando no caminho de Emaús os dois discípulos julgaram viver uma terrível desilusão, porque Ele morrera e já tinham passado três dias. Os cristãos têm também dificuldade em reconhecer Cristo Ressuscitado, quando o sofrimento lhes bate à porta, quando não conseguem alcançar os objectivos, quando as esperanças fundamentadas num sonho se não concretizam. Vale a pena aplicar à vida o acontecimento dos discípulos de Emaús que só reconheceram Jesus no partir do pão. Ao dar-se conta de que era Ele, correram a Jerusalém para O anunciar à comunidade (evangelho). Em todos os tempos o Povo de Israel teve dificuldade em aceitar os sinais de Deus. Por isso, na liturgia de hoje, Pedro ao falar em Jerusalém, sentiu necessidade de reler a tradição de Israel. De facto, o antigo povo de Deus não reconheceu o Justo e acabou por matar Aquele que, depois, voltou à vida. Pedro afirma-se então, testemunha da Ressurreição de Cristo (1ª leitura). É necessária porém, a amnistia completa, e o novo povo de Deus abre-se a um tempo diferente, fundamentado no perdão de todos os caminhos percorridos, longe do projecto de Deus (2ª leitura).

1. A estrada de Emaús
O realismo da descrição feita por Lucas no Evangelho, revela a profunda desilusão que aqueles discípulos sofreram. A sua confiança estava naquele Homem que seguiam há vários anos. Acontece, porém, que foi morto pelos sacerdotes do tempo e pela justiça romana. Ainda esperaram qualquer coisa mas, como nada acontecera, regressaram ao trabalho no campo, na aldeia de Emaús. Um outro viajante acompanhou-os, partilharam o seu infortúnio, releram com Ele as escrituras, mas o seu coração estava fechado. Á porta de casa sentiram ternura pelo companheiro de viagem. Foi o primeiro gesto de ressurreição. O viajante aceitou e sentou-se com eles à mesa. Ao repartir do pão, reconheceram-n’O. Afinal, Jesus estava ali com eles. Apesar do cansaço ninguém os parou. Correram a Jerusalém,ao Cenáculo para dizerem a todos que Jesus ressuscitara. Os Apóstolos limitaram-se a confirmar com uma expressão muito simples: “Ele já apareceu a Simão”. Esta história contada muitas vezes tem sempre novos contornos: a desilusão, a dúvida, o diálogo, a dúvida continuada, um toque de ternura, um convívio na mesa comum, a descoberta de Cristo Vivo na comunidade dos irmãos.

2. Na tradição judaica
É difícil entender como é que o povo de Israel não reconheceu em Jesus o Messias que vinha para salvar. É certo que tinham recusado a voz dos profetas, é certo também que o povo simples se encantava com as palavras e os gestos de Jesus e é certo ainda, que um ou outro fariseu, como Nicodemus, era capaz de se interrrogar querendo mesmo conversar com Jesus. Pedro sentiu por tudo isto que tinha de falar ao Povo sobre Abraão, Isaac e Jacob, sobre a promessa feita a Israel, sobre a vinda de Jesus que os judeus haviam condenado à morte. Mas Deus ressuscitou-O dos mortos. Pedro, na sua sabedoria simples, disse apenas: “e nós somos testemunhas disso”. Os cristãos, todos os cristãos, pela vida e pela palavra oportuna temos de ser testemunhas da Ressurreição.

3. O perdão total
Todos os humanos, judeus ou gregos, homens ou mulheres, servos ou homens livres, todos são pecadores. O pecado outra coisa não é do que a recusa do projecto de Deus. Assim sendo, compreende-se que João na sua primeira carta reafirme um perdão universal. De facto, Deus está repassado de amor, e esse amor, atinge todos os humanos. A liturgia de hoje dá-nos esta garantia, e é por isso que, reconhecendo Jesus Ressuscitado, sentado à mesa connosco, não temos outra alternativa senão regressar à comunidade cristã para anunciar a justiça, o amor, o perdão, valores que emanam do coração de Deus para as nossas vidas.

Monsenhor Vítor Feytor Pinto
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LITURGIA A PALAVRA:

«

ASSIM ESTÁ ESCRITO QUE O MESSIAS HAVIA DE SOFRER

E DE RESSUSCITAR DOS MORTOS AO TERCEIRO DIA.»

(Lc 24, 46)

I LEITURA – Act 3, 13-15, 17-19

«Matastes o autor da vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos, e nós somos testemunhas disso. »

Leitura dos Actos dos Apóstolos
Naqueles dias, Pedro disse ao povo: «O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus, que vós entregastes e negastes na presença de Pilatos, estando ele resolvido a soltá-l’O. Negastes o Santo e o Justo e pedistes a libertação dum assassino; matastes o autor da vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos, e nós somos testemunhas disso. Agora, irmãos, eu sei que agistes por ignorância, como também os vossos chefes. Foi assim que Deus cumpriu o que de antemão tinha anunciado pela boca de todos os Profetas: que o seu Messias havia de padecer. Portanto, arrependei-vos e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados».
Palavra do Senhor.

SALMO – 4, 2.4.7.9 (R. 7a)

Refrão: Fazei brilhar sobre nós, Senhor,  a luz do vosso rosto. Repete-se

Quando Vos invocar, ouvi-me, ó Deus de justiça.
Vós que na tribulação me tendes protegido,
compadecei-Vos de mim
e ouvi a minha súplica. Refrão

Sabei que o Senhor faz maravilhas pelos seus amigos,
o Senhor me atende quando O invoco. Refrão

Muitos dizem: «Quem nos fará felizes?»
Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz da vossa face. Refrão

Em paz me deito e adormeço tranquilo,
porque só Vós, Senhor,  me fazeis repousar em segurança. Refrão

II LEITURA – I Jo 2, 1-5a

«Não pequeis. Mas se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, o Justo, como advogado junto do Pai.»

Leitura da Primeira Epístola de São João
Meus filhos, escrevo-vos isto, para que não pequeis. Mas se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, o Justo, como advogado junto do Pai. Ele é a vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro. E nós sabemos que O conhecemos, se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz conhecê-l’O e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele. Mas se alguém guardar a sua palavra, nesse o amor de Deus é perfeito.
Palavra do Senhor.

ALELUIA – cf. Lc 24, 32

Refrão: Aleluia. Repete-se

Senhor Jesus, abri-nos as Escrituras,
falai-nos e inflamai o nosso coração. Refrão

EVANGELHO – Lc 24, 35-48

Jesus ressuscitado aparece aos apóstolos e convida-os a tocarem no seu corpo.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto diziam isto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. Disse-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?». Deram-Lhe uma posta de peixe assado, que Ele tomou e começou a comer diante deles. Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’». Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de todas estas coisas».
Palavra da salvação.