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ANO C

2009-2010

 

XXIII DOMINGO

DO

TEMPO COMUM

5 de Setembro

 

XXII DOMINGO

DO

TEMPO COMUM

29 de Agosto

 

XXI DOMINGO

DO

TEMPO COMUM

22 de Agosto

 

ASSUNÇÃO

DA VIRGEM MARIA

15 de Agosto

 

XIX DOMINGO

DO

TEMPO COMUM

8 de Agosto de 2010

 

XVIII DOMINGO

DO

TEMPO COMUM

1 de Agosto de 2010

 

 

 

 

 

LITURGIA DA PALAVRA

 

(Comentários do Padre João Resina Rodrigues)

ANO C

2009-2010

O Evangelho de S. Lucas vai ser o mais lido neste ano litúrgico. Os textos  escolhidos para os Domingos e Festas não são cronológicos nem contínuos, pelo que recomendamos a  leitura prévia, integral e seguida deste Evangelho.

 

 

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

5 de Setembro de 2010

«Assim quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens,
não pode ser meu discípulo
».
                                                      (Lc 14,  33) 

Primeira Leitura: Sab 9, 13-19

«Qual o homem que pode conhecer os desígnios de Deus?».

Salmo 89 (90): 3-6. 12-14.17

Refrão: Senhor, tendes sido o nosso refúgio
                 através das gerações.

Segunda Leitura: Flm 9b-10.12-17

«Eu, Paulo, prisioneiro por amor de Cristo Jesus, rogo-te por este meu filho, Onésimo».

Evangelho: Lc 14, 25-33

O cristão deve renovar constantemente o seu compromisso em Cristo, que não será de verdade se não houver uma renúncia ao amor próprio, ao egoísmo, etc.

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XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

            "Se alguém vier ter comigo, e não me preferir ao pai, à mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos, às irmãs, e até à própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lc 14, 25). estas palavras só podiam ter sido pronunciadas por um louco (e Jesus comportou-se sempre como um homem profundamente equilibrado) ou por Aquele que é, realmente, o Senhor.

            Nós acreditamos que Ele é o Senhor. Percebemos que estas palavras não nos propõem um exercício psicológico, averiguar por quem temos um afecto mais intenso, são um apelo à fidelidade. Recordam que, no dia em que em que as coisas do mundo puxarem por nós contra Ele, Ele está primeiro.

            Jesus viu com os seus olhos uma coisa que já conhecia como Deus: há muita gente "profundamente religiosa" que não quer saber dos pobres, rouba nos impostos, tudo vende e tudo compra, é pouco fiel ao casamento. Rejeitou esta "religião" e, por isso, morreu na cruz. Aceitou ter discípulos, mas exigiu que procurassem viver como Ele viveu - e, quem sabe, morrer de maneira parecida.

            Entendamo-nos: ser cristão não é desistir, por sistema, das coisas deste mundo. Mas é julgar as coisas deste mundo pelos critérios do Evangelho e é renunciar a tudo o que seja oposto à palavra e ao exemplo de Jesus. è estar pronto a perder tudo por causa d|Ele, se isso alguma vez for pedido. Os primeiros cristãos procederam assim e impressionaram os próprios descrentes. Na Alemanha de Hitler, na Rússia de Estaline, na China de Mao, e em muitos pontos do mundo de hoje, houve e continua a haver quem faça o mesmo. Nas nossas "terras cristãs", os cristãos parecem ter uma fidelidade embotada - e ninguém nos leva a sério.

            A primeira Leitura é tirada do Livro da Sabedoria, obra do séc. II a.C., ou mesmo do séc. I a.C.: "Os pensamentos dos mortais são mesquinhos e inseguras as nossas reflexões. (...) Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso espírito santo?" (Sab 9, 14-17). Não se trata de reduzir a zero as nossas possibilidades, mas de sublinhar que, a respeito de Deus e das coisas de Deus, o nosso pensamento tem de proceder com prudência e humildade. O mal é que pomos as nossas convicções à frente da Escritura. Jesus viveu sem riqueza e sem poder, viveu como "leigo", foi hostilizado pela sinagoga. Por que é que os cristãos conservadores querem uma Igreja e um clero à imagem da sinagoga? Jesus pediu que que renunciássemos a tudo que fosse contra Ele. Por que é que os cristãos progressistas prezam menos a pureza do coração e da vida?

            A segunda Leitura, da Epístola a Filémon, é um texto breve, mas com muito peso. Filémon era um pagão rico e generoso, que se tinha convertido a Cristo por influência de S. Paulo. Como todos os ricos, tinha escravos. Ora um deles, Onésimo de seu nome, roubou-lhe uma quantia avultada e fugiu. Era, para a lei daquele tempo, um crime passível da pena de morte. Refugiado em Roma, Onésimo ouviu falar de Paulo, que conhecera em casa do seu senhor: em prisão domiciliária, passava o dia a falar de Jesus. Foi também, e converteu-se de vez. S. Paulo tinha grande experiência da vida. Entendeu que esta conversão era profunda e segura. Embora Onésimo quisesse ficar com ele para o servir, enviou-o de regresso a Filémon, com uma carta do seu punho. Nesta carta pede-lhe não só que perdoe, mas receba o antigo escravo "como irmão muito querido". Filémon não se tinha queixado do roubo, e recebeu Onésimo como S. Pulo lhe pedia. A comunidade cristã deve ter reflectido sobre o caso. Depois da morte de S. Paulo e de Filémon, a carta entro no cânone do Novo Testamento.

P.e João Resina Rodrigues (extracto de A Palavra no Tempo II)

 

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM

29 de Agosto de 2010

 

«Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».
                                                     
(Lc 14,  11) 

Primeira Leitura: Sir 3,19-21.30-31

«Meu filho, quanto mais fores mais deves ser humilde».

Salmo 67 (68), 4-7ab.10-11

Refrão: Na vossa bondade, Senhor, preparastes uma casa para o pobre.

Segunda Leitura: Heb 12,18-19.22-24a

«Não vos aproximastes dum coisa papável, mas da cidade de Deus».

Evangelho: Lc 14, 1.7-14

«Quando um homem te convidar para um banquete, não tomes o primeiro lugar».

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XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM

            Um dos principais fariseus convida Jesus para um banquete. Jesus não se coíbe de criticar, com alguma dureza, quer os convivas, quer aquele que O tinha convidado.

            Critica nos convivas, a pressa com que ocupam os primeiros lugares. Ninguém como Ele tem o direito de fazer essa crítica. “Ele, que é de condição divina, não reivindicou ser tratado como Deus; mas despojou-se de si mesmo, tomando a condição de servo…” (Fil 2, 6-7). È claro que nós cá em baixo temos outra lógica. Queremos subir na vida, ficamos contentes quando os outros reconhecem a nossa importância, exibimos os nossos títulos e diplomas (conquistados às vezes com atropelo da justiça).

            Houve quem dissesse que este texto é um convite aos cristãos para renunciarem a progredir. Discordo. O cristão tem o direito e o dever de se inserir na vida e dar o melhor de si mesmo. Jesus não cruzou os braços. O que nos pede é que vivamos para a verdade, a justiça, o amor, e não para a vaidade. Se isso não conduzir à cruz, aceitemos como Ele aceitou. Se nos conduzir ao triunfo, aceitemos com alegria, mas não nos iludamos com a glória. Não percamos de vista o julgamento definitivo das nossas obras; é Ele que o fará um dia. Recordo uma palavra do Concílio II do Vaticano: “Os cristãos que desempenham parte activa no actual desenvolvimento económico-social e lutam pela justiça e pela caridade reconheçam que podem contribuir muito para o bem da humanidade e para a paz no mundo…. Fieis a Cristo e ao seu Evangelho, adquirindo a competência e a experiência absolutamente indispensáveis, respeitem a hierarquia entre actividades terrenas, de maneira que toda a sua vida, tanto individual como social, seja penetrada do espírito das bem-aventuranças e especialmente do espírito da pobreza.” (Constituição Gaudium et Spes, 72).

            A crítica ao dono da casa parece-nos mais insólita. Então um rico não pode convidar parentes e amigos, tem de convidar sempre os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos? Não esqueçamos que a linguagem das parábolas é tipicamente exagerada, não é para ser levada à letra. Por outro lado, uma vez mais, Jesus é o único que poderia dizer isto a sério, se quisesse. O Pai convidou os homens (a maioria são pobres, doentes, criminosos) e mandou que Ele fizesse as honras da casa. Ele lidou com os pobres e os ricos, bons e maus, mas conviveu sobretudo, com os pobres e os pecadores.

            Claro que um rico pode convidar os amigos (Jesus aceitou o convite de Marta e Maria). Mas tem de aprender a olhar para a sua riqueza e para a dor dos pobres com o olhar de Jesus. É verdade que o Evangelho não dá a este respeito normas taxativas. Mas a ideia vulgar de que “é meu é meu” e que cumprimos com a nossa fé dando aqui e além umas moedas aos pobres parece muito diferente da vida e da palavra de Jesus.

            Era preciso que empenhasse-mos no amor dos pobres mais bens, mais tempo, mais carinho. Por exemplo, não imagino Jesus a gastar milhares de contos para passar férias no outro cabo do mundo. “Mas esse dinheiro é meu, foi ganho com o meu trabalho!” De acordo, mas há homens e mulheres que dão o mesmo esforço e a mesma dedicação, e ganham o salário mínimo. Alguns têm familiares doentes. Além disso, a questão não é só de dinheiro, é também de presença e calor humano. Há nesta cidade tantos doentes que passam o dia na solidão! Finalmente, já a obra da transformação das estruturas da sociedade. Cito de novo o Concílio: “Não se dê ao mundo o escândalo de haver algumas nações, geralmente de maioria cristã, na abundância, enquanto outras não têm sequer o necessário para viver e são atormentadas pela fome, pela doença e por toda a espécie de misérias. Pois o espírito de pobreza e caridade são a glória e testemunho da Igreja de Cristo”. (Constituição Gaudium et Spes, 88).

P.e João Resina Rodrigues (extracto de A Palavra no Tempo II)

 

XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM

22 de Agosto de 2010

«Eis que há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos»

(Lc 13,  30) 

Primeira Leitura: Is 66,18-21

O dia da aliança definitiva

Salmo 116 (117), 1-2

Refrão: Ide por todo o mundo, anunciai a boa nova.

Segunda Leitura: Heb 12, 5-7.11-13

«O Senhor corrige aquele a quem tem amor»

Evangelho: Lc 13, 22-30

«Entrai pela porta estreita»

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XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM

Alguém pergunta a Jesus: “São poucos os que se salvam?” Jesus não fornece a estatística, em vez disso pede que cada um seja exigente consigo próprio. Uma das ilusões dos judeus era estarem convencidos de que a condição primeira da salvação era pertença ao povo de Moisés. Ora Jesus, que anunciou um Reino novo, tornou claro que a pertença a esse Reino, dependia muito mais da fidelidade que dos ritos, dependia muito mais da fidelidade interior do que o cumprimento material das leis. Aquilo que é pedido a cada homem é que vá tentado amar como Deus ama. Na rectidão e no dom, sem limites nem fronteiras. Por isso, acrescentou que muitos dos que “tinham comido e bebido com Ele” e “O tinham ouvido nas suas praças” iam ser rejeitados, “porque praticavam a iniquidade”. Disse que a porta do Reino é estreita.

Esta afirmação não é contraditória da infinita misericórdia de Deus. Somos todos pecadores A diferença parece ser entre aqueles que compreenderam que o essencial está no amor a Deus e aos irmãos, sobretudo se são necessitados, e aqueles que só entenderam que é bom subir na vida, e se sobe com “esperteza”. Deus vai perdoar infinitos pecados aos que apesar de tudo fizeram algum bem, mas vai desprezar a “esperteza”. Daí o aparente paradoxo: muitos dos que se imaginam em segurança (eram respeitados e aclamados pelo sistema) vão ser rejeitados, muitos zé-ninguéns, vindos de terras obscuras, viram sentar-se à mesa do Reino de Deus.

A segunda Leitura, da Epístola aos Hebreus, recorda que, às vezes, Deus nos corrige neste mundo. Felizes de nós se entendermos, e arrepiarmos caminho.

A primeira Leitura é tirada da terceira parte do Livro de Isaías, escrita já depois do Exílio, no século V a.C. Quinhentos anos antes de Jesus, anuncia que Deus é Deus de todos os homens e todos os homens estão convidados para a festa final.

Permanece uma questão. O Senhor Jesus mandou que a sua palavra fosse anunciada a toda a Terra. É claro que desejou que todos os homens acreditassem n’Ele. Mas a maioria ainda não acreditou, são muitos os que se lhe opõem. Qual é o nosso papel? Voltemos ao Evangelho. Jesus enviou os Apóstolos a proclamar a Boa Nova. Recomendou-lhes, que não se deixassem contaminar pela lógica do poder. Deu a vida em firmeza daquilo que tinha ensinado, nunca maltratou aqueles que se lhe opuseram. Anunciou aos Apóstolos que porventura lhes sucederia o mesmo, e eles aceitaram. Infelizmente, houve um dia em que os cristãos regressaram à lógica deste mundo. Inventaram a Inquisição.

Em boa hora, o Papa João Paulo II pediu ao mundo perdão por estas coisas. Seguia, aqui, o Consílio II do Vaticano: “Acreditamos que esta única religião verdadeira se encontra na Igreja católica e que a Igreja católica recebeu do Senhor Jesus o encargo de a anunciar a todos os homens… O Concílio declara que a verdade não se impõe senão pela sua própria força… Todos os homens devem estar livres de coração, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais, quer de qualquer autoridade humana, de tal modo que em matéria religiosa ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência… O homem deve responder voluntariamente a Deus com a fé e portanto ninguém deve ser forçado a abraçar a fé contra a vontade… Os cristãos, procedendo cordatamente com aqueles que estão fora da Igreja,  procurem difundir com desassombro e fortaleza a palavra da vida, até ao dom do seu sangue… O amor de Cristo incita os cristãos a agir com amor, prudência e paciência para com os homens que se encontram no erro ou na ignorância relativamente à fé”. (Declaração Dignitatis Humanae, 1-14).

P.e João Resina Rodrigues (extracto de A Palavra no Tempo II)

ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA

15 de Agosto de 2010

 

Assunção de Msria

Ticiano - Santa Maria del Fiori

Veneza

«O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas...e  exaltou os humildes».

(Lc 1, 49,52)

 

 

LEITURA I Ap 11, 19a; 12, 1-6a.10ab

«Uma mulher revestida de sol e com a lua debaixo dos pés.

SALMO 44 (45), 10-12.16

Refrão  À vossa direita, Senhor, a Rainha do Céu,
            ornada do ouro mais fino.

ou        À vossa direita, Senhor, está a Rainha.

LEITURA II 1 Cor 15, 20-27 – 5, 2

«Primeiro, Cristo, como primícias: depois os que pertencem a Cristo».

EVANGELHO Lc 1, 39-56

Maria sabe, que a glória de ser Mãe de Deus se deve apenas à escolha de Deus. Por isso, no seu hino de louvor exulta o poder de Deus.

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ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

            Cristãos católicos e cristãos ortodoxos têm uma grande ternura por Maria, “de quem nasceu Jesus” (Mat 1,16). Os cristãos protestantes “ignoram” Maria, com o argumento de que só Cristo é Senhor. Entendamo-nos. Católicos e ortodoxos dizemos, no Glória: «Só Tu és o Santo, só Tu o Senhor, só Tu o Altíssimo, Jesus Cristo». Mas não temos medo de acreditar que, sob a graça de Deus, o homem se vai tornando santo. Em particular, Aquela que o Anjo Gabriel saudou como “cheia da graça”, a quem disse : “O Senhor está contigo.”

            Veneramos esta rapariga que se entregou radicalmente a Deus, sem cálculos nem condições. Esta mulher que viveu como mais ninguém a proximidade de Deus e nunca tirou daí qualquer vaidade. Esta mulher que cumpriu a sua missão no silêncio, longe das luzes do mundo. Esta mulher a quem, à hora da morte, Jesus nos confiou (Jo 19, 26-27).

            Os primeiros textos do Novo Testamento são as epístolas de S. Paulo, escritas a partir do ano 50 [1]. S. Paulo anuncia Jesus Cristo como o Filho de Deus, que o Pai enviou à Terra. Para S. Paulo, é tão importante acentuar a transcendência de Jesus, a sua origem divina, como sublinhar que, para nos trazer a salvação, Ele assumiu a nossa condição.

            “Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido duma mulher, nascido sob o domínio da Lei, ... a fim de recebermos a adopção de filhos.” (Gal 4,4-6). (S. Paulo, anos 55-57).

            "...seu Filho, nascido da descendência de David segundo a carne, manifestado Filho de Deus em todo o poder, segundo o Espírito Santo, na sua ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo, Senhor nosso, ...” (Rom 1, 3-4). (S. Paulo, anos 55-57).

            “Ele (Cristo), que é de condição divina, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tendo-se tornado semelhante aos homens e sendo identificado como homem, rebaixou-se ainda mais, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz.” (Filip 2,6-8). (S.Paulo, 57 ou 63).    

            “É Ele (Cristo) a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura; nele todas as coisas foram criadas, nos céus e na terra (...). Todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele. Ele é anterior a todas as coisas e todas elas subsistem nele.” (Col 1,15-17). (Epístola escrita provavelmente por alguém do grupo de S.Paulo, anos 60).

            “Bendito seja o Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo (...) Ele nos  escolheu em Cristo antes da fundação do mundo (...) para sermos adoptados como seus filhos por meio de Jesus Cristo. (...) Manifestou-nos o mistério da sua vontade (...): submeter todas as coisas a Cristo, reunindo nele o que há no céu e na terra.” (Efes 1,3-10). (Escrita provavelmente por alguém do grupo de S. Paulo, anos 60).

            Conta-se que, logo após a morte de S. Pedro, em 66 ou 67, os cristãos de Roma pediram a Marcos, de há muito seu companheiro, que escrevesse tudo aquilo que ele costumava ensinar. Assim apareceu, por volta de 70, o primeiro Evangelho. Na década de 80, Mateus e Lucas, consultando os que tinham contactado com Jesus, procuraram completar a informação.

            S. Mateus retoma a palavra de S. Paulo, segundo a qual Jesus é o Filho de Deus, que Deus enviou à Terra a nascer de uma  mulher: “Maria, sua mãe, estava noiva de José. Antes de viverem em comum, concebeu pelo poder do Espírito Santo. (...). O anjo do Senhor apareceu a José e disse-lhe: «José, filho de David, não temas receber Maria por tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.» Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco.” (Mat 1,18-23).

           S. Lucas dá-nos um desenvolvimento maior: “Deus enviou o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem noiva de um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Ave, ó cheia de graça, o Senhor está contigo. (...). Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo.(...)». Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?». O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, Aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus.(...).» Maria disse então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.»” (Luc 1, 26-38).

            Escrito entre 90 e 100, o Evangelho de S. João é mais uma teologia do que um relato: procura estabelecer relações entre os dados, sublinha os temas maiores, propõe significados. “Desde sempre (no princípio) era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Desde sempre o Verbo estava em Deus. Pelo Verbo tudo começou a existir e sem Ele nada veio à  existência. Nele estava a Vida, e a Vida era a Luz dos homens. A Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam. (...) O Verbo era a luz verdadeira, que veio ao mundo iluminar todo o homem. (...). Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. (...). O Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. (Jo 1, 1-14).

            Estes textos ensinam que Deus amou tanto os homens que lhes entregou o seu Filho Único (Jo 3, 16). Há aqui uma diferença fundamental entre a perspectiva cristã e as perspectivas judaica e islâmica. Judeus e maometanos acreditam num Deus único, transcendente, misericordioso, capaz de perdoar todos os pecados dos homens. Para eles, no entanto, a doutrina da encarnação do Verbo parece um absurdo: acham que Deus deixaria de ser Deus se entrasse na condição humana. Nós, cristãos, acreditamos nesse quase-absurdo: que o Verbo de Deus tomou a condição humana e veio morrer numa cruz.

            Mas estes textos levam-nos muito mais longe. Deus não é só aquele Infinito absurdo que ama os homens até ao ponto de permitir que o seu Verbo morra por eles numa cruz. É o Infinito absurdo que elege uma criatura, uma mulher, e faz dela sua Mãe.

             Sempre os crentes perguntaram como é que se ama a Deus. Os cristãos encontram aqui uma pista. Amar a Deus é entrar na disposição de dar tudo por Ele: querer que a minha vida seja sinal d'Ele para os outros homens, abrir-Lhe o coração e o olhar para Ele numa confiança sem fim. Como, acreditamos, fez Maria.

            Desde o séc. II, a tradição católica e a tradição ortodoxa afirmam que, em honra deste mistério da Encarnação do Verbo, Maria e José continuaram a viver o casamento na virgindade. Nos evangelhos fala-se nos “irmãos” de Jesus; questão pouco significativa, por isso que, na língua da Bíblia, todo o parente próximo pode ser designado por irmão. No século XVI, o protestantismo decidiu que a Bíblia deve ser tomada à letra e, portanto, José e Maria tiveram, depois do nascimento de Jesus, outros filhos.

            Maria viveu a infância, a juventude, a maturidade e a velhice nesta terra dos homens. Uma tradição, acolhida pelos católicos e pelos ortodoxos, afirma que, terminado o seu tempo de vida na terra, Maria foi “assumida” ao Céu. Gratidão de Deus àquela que Lhe tinha dito “sim”.

..............................

[1] Jesus deve ter nascido 6 ou 7 anos antes da data que a tradição fixou como início da era cristã. Foi crucificado e ressuscitou no ano 30, portanto com 36 ou 37 anos.

Paulo era uns anos mais novo. O próprio Jesus o converte na estrada de Damasco, talvez em 37. Após longos meses de retiro, começou a trabalhar com Barnabé na evangelização de Antioquia, por volta de 43. Em três longas viagens, Paulo funda numerosas comunidades, na Ásia Menor e na Grécia. Com elas, e com a comunidade de Roma, troca epístolas.

P.e João Resina Rodrigues (extracto de A Palavra no Tempo II)

 

XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM

8 de Agosto de 2007

 

«Felizes os servos que o senhor, à sua chegada, encontrar vigilantes»

                                                                    (Lc 12, 37)

Primeira Leitura: Sab 18, 6-9

«Os antigos estabeleceram esta norma: os justos devem aceitar quer os bens, quer os perigos».

Salmo: 32 (33), 1.12.18-20.22

Refrão: Feliz o povo que o Senhor escolheu para sua herança.

             

Segunda Leitura:  Heb 11,1-2.8-19

«A fé é a garantia das coisas que se esperam».

Evangelho:  Lc 12, 32-48

«Onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração».

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XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM

A segunda Leitura é tirada da Epístola aos Hebreus (Heb 11,1-2.8-19). Julga-se que esta epístola foi escrita, depois da morte de São Paulo, por alguém do seu grupo, tendo como destinatários os cristãos oriundos do judaísmo. Estes cristãos tinham nostalgia das grandes cerimónias do Templo de Jerusalém; ainda não tinham interiorizado que os mandamentos ou são consequência do mandamento do amor, ou têm pouca importância; sobretudo, nem todos tinham entendido que Jesus Cristo está infinitamente acima de Moisés e dos Profetas.

Por isso, a Epístola começa com a afirmação fundamental: "Muitas vezes e de muitos modos, nos tempos antigos, Deus falou aos nossos antepassados, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por quem criou o " (Heb 1, 1-2).

Mas Jesus, sendo Filho de Deus e o Senhor de todas as coisas, não se apresentou com a glória e o poder de Deus. "Partilhou a condição dos homens, a fim de destruir, pela sua morte, aquele que tinha o poder da morte, o diabo. (...) Ele assemelhou-se em tudo, aos seus irmãos (...) a fim de expiar os pecados do povo. É precisamente por que Ele mesmo sofreu  e foi posto à prova. (2, 14-18). "De facto, nós não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, pois Ele foi provado em tudo como nós, excepto no pecado. Aproximemo-nos, então, com grande confiança, a fim de encontrar misericórdia e ajuda. (4, 15-16).

No Templo de Jerusalém os sacerdotes da Antiga Lei ofereciam sacrifícios de bois e ovelhas, mas o seu valor era apenas simbólico. Agora temos a realidade: Jesus, Filho de Deus, vindo ao nosso mundo, é doravante o único sacerdote, a sua morte na cruz é o único sacrifício salvador. "Nos dias da sua vida terrena, Cristo apresentou (a seu Pai) orações e súplicas (...) Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a obediência no sofrimento, e, tornado perfeito, tornou-se para todos os que lhe obedecem fonte de salvação . (5, 7-9).

Um dos temas fundamentais nas epístolas de São Paulo tinha sido a fé. A Epístola recorda: que "a fé é garantia das coisas que se esperam e certeza daquelas que não se vêem. (Heb 11, 1). Nós acreditamos em coisas que não vemos, firmados na palavra de Jesus, Ele é para nós a garantia da realidade dessas coisas.

A fé é uma relação de confiança: confiança em quem conhecemos, confiança na sua palavra. Todo o amor exige confiança, por isso a fé está na base da nossa relação com Deus.

"Pela fé, Abraão obedeceu ao ser chamado por Deus, e partiu para um lugar que viria a receber como herança. E, partiu, sem saber para onde ia. (11, 8). Os autores desta Epístola tinham aprendido com São Paulo a situar aqui a grandeza de Abraão: acreditou e obedeceu à palavra de Deus, partiu sem pedir o mapa da viagem.

Abraão recebei a promessa de que a Palestina seria um dia dos seus descendentes. Em todo o caso, Abraão, "morou na terra prometida, como se fosse estrangeiro". 
(11, 9). O facto de saber, na fé, que aquela terra seria dada à sua descendência, não o autorizou a impor-se aos habitantes. Quase dois mil anos passados, compreendemos, nós também, que a fé não nos torna donos do mundo.

P.e João Resina Rodrigues (extracto de A Palavra no Tempo II)

XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

01 de Agosto de 2010

 

«Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?»

                                                                    (Lc 12, 14)

 

I LEITURA - Co (Ecle) 1, 2; 2, 21-23

Critica um tanto amarga, das concepções tradicionais a respeito do bem e do mal.

SALMO – 89 (90), 3-6. 12-14. 17 (R. 1)

Refrão: Senhor, tendes sido o nosso refúgio

             através de gerações

II LEITURA – Col 3, 1-5. 9-11

«Afeiçoai-vos às coisas do alto.»

EVANGELHO – Lc 12, 13-21

Jesus condena o procedimento do homem rico e avarento para quem o único motor da vida é o dinheiro.

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XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

As religiões antigas incluíam textos que falavam da criação do mundo e da origem do mal. Hoje, pensamos que esses textos nem eram resultado de uma revelação, nem de uma indagação cientifica, nem mesmo de um labor filosófico. Eram "mitos", através dos quais a imaginação e o inconsciente colectivo propunham certas maneiras de interpretar o mundo e a condição humana. (O mito não tem actualmente qualquer conotação negativa. Pensa-se mesmo que a reflexão filosófica surge como tentativa de clarificar e dar rigor a essas construções primitivas). Os primeiros capítulos do Livro do Génesis movem-se no ambiente de mitos. Infelizmente, houve uma época em que a Igreja tomou esses textos como narrativas históricas e abriu sucessivas guerras contra a visão cientifica do mundo. Por exemplo, teimando que a Terra ocupava o centro do Universo, ou afirmando que não tinha havido evolução da vida, pois todas as espécies animais e vegetais tinham sido criadas directamente por Deus.

É muito significativo que Jesus não tenha enveredado por este caminho. disse que o Pai é o Senhor do Céu e da Terra, mas nunca perdeu tempo a descrever a criação. Mandou que os eus discípulos lutassem contra o mal, mas nunca perdeu tempo a explicar a origem do mal. Que se saiba, nunca falou de Adão nem de Eva.

Sem deixar de ser Deus, Jesus veio à Terra como homem. E aceitou lealmente a condição humana. Aceitou que a sua inteligência de homem não sabia tudo e que a sua força muscular não levantava um penedo; precisava de comer e de dormir; sabia que tinha de trabalhar para ganhar a vida. Mais importante do que isto: Jesus sabia que é próprio da condição humana lutar por um futuro melhor, e que é preciso contar com as diferentes contribuições: há os que trabalham a terra, os que escavam as minas, os que pescam no mar; há os que têm tarefas de governo e de administração; há os que procuram caminhos novos; ... Jesus cumpriu a sua missão de mensageiro do Pai para nos anunciar a Boa Nova e para nos dar o exemplo do que é "amar até ao fim" (Jo 13, 1).

Mas é também significativo que Jesus não tenha dado nenhum conselho a respeito dos aspectos mais práticos da aventura humana. Não disse como é que se podiam melhorar os barcos e as redes, nem como se podia aumentar o rendimento dos trabalhos agrícolas, não deu sugestões a respeito da economia, da politica, do direito. Se bem entendo, não o fez porque isso seria intervir na História dos homens de maneira paternalista.

Isto ajuda-nos a entender o Evangelho desta missa (Lc 12, 13-21). Do meio da multidão, um homem pede a Jesus que resolva uma questão de partilhas. (Talvez o homem fosse sincero e acreditasse que ninguém melhor do que Jesus podia dizer o que é justo e o que é injusto). Mas Jesus rejeitou o pedido. Suponho que por duas razões. Primeira, porque, coerentemente com aquilo que acabo de expor, não quis substituir-se à justiça dos homens. Fossem aos tribunais! Segunda, porque achava incrível que dois irmãos se zangassem por uma questão de partilhas. Não tinha paciência para os aturar.

Infelizmente, nem sempre a Igreja reagiu assim. Quis dar certezas definitivas a respeito de todas as coisas importantes; e, muitas vezes, não se deu conta de que saía do domínio da sua competência. (Recorde-se o processo de Galileu). E o Senhor castigou-a, permitindo que se enganasse.

A primeira Leitura é tirada do Livro de Cohélet (Cohélet - Eclesiastes 1, 2 - 2, 23). Este livro. é uma reacção contra as pregações palavrosas e as soluções superficiais. Passando ao extremo oposto, Cohélet diz que não há nada seguro na Terra. Entendamos estas palavras como um convite à profundidade e ao rigor.

P.e João Resina Rodrigues (in a Palavra no Tempo II)