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ANO C

2009-2010

 

IV DOMINGO

DO

TEMPO COMUM

31 de Janeiro 2010

 

III DOMINGO

DO

TEMPO COMUM

24 de Janeiro 2010

 

II DOMINGO

DO

TEMPO COMUM

17 de Janeiro 2010

 

BAPTISMO

DO SENHOR

10 de Janeiro 2010

 

EPIFANIA

3 de Janeiro 2010

 

 

SANTA MARIA,

MÃE DE DEUS

1 de Janeiro 2010

 

 

LITURGIA DA PALAVRA

 

(Comentários do Padre João Resina Rodrigues)

ANO C

2009-2010

O Evangelho de S. Lucas vai ser o mais lido neste ano litúrgico. Os textos  escolhidos para os Domingos e Festas não são cronológicos nem contínuos, pelo que recomendamos a  leitura prévia, integral e seguida deste Evangelho.

 

JANEIRO DE 2010

 

 

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

31 de Janeiro de 2010

 

"Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca.

E perguntavam: «Não é este o filho de José?»".

                                                                      (Lc 4, 22)

I Leitura: Jer 1, 4-5. 17-19

A vocação de Jeremias. É um erro entender este texto como se significasse que o homem é uma simples peça num jogo de xadrez que Deus joga. Deus, que é livre, cria pessoas livres. Convida algumas, como convidou Jeremias, para uma colaboração muito próxima. Jeremias terá de agir. E «Eu estou contigo».

 

SALMO -  70 (71), 1-2. 3-4a .5-6ab. 15ab.17 (R. cf. 15ab)

Refrão: A minha boca proclamará a vossa salvação.

            

II Leitura - Forma longa 1 Cor 12, 31 – 13, 13

Um dos textos célebres de S. Paulo: sobre a caridade.

EVANGELHO - Lc 4, 21-30

Encontros e desencontros entre Jesus e os homens.

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IV DOMINGO DO TEMPO COMUM

O texto mais importante é a segunda Leitura, tirada da I Epístola de S. Paulo aos Coríntios. Mas houve sempre dificuldades na sua tradução.   

Há palavras que têm má sorte. Conheci uma criança que ficou chocada quando lhe disseram que Deus nos ama – porque para essa criança amar era fazer aquilo que a TV mostra entre homens e mulheres. (Em português, ainda podemos dizer que Deus gosta muito de nós, mas isso não se diz da mesma maneira noutras línguas).

S. Paulo teve um problema parecido. Escrevia em grego. Ora, nessa língua, havia a palavra “eros”, que designava o amor do homem e da mulher, a palavra “filia”, que designava a estima dos amigos e a palavra “agape”, menos usada, que tinha um significado mais geral e mais vago, parecido com o “gostar de“ da nossa língua. S. Paulo vai usar esta palavra, mas dá-lhe um significado rico: para ele, passa a designar o amor verdadeiro, fiel e feliz, seja o amor do homem e da mulher, o amor dos pais e dos filhos, a amizade dos amigos, a dedicação pelos pobres e pelos doentes, o amor a Deus. Quando o Novo Testamento foi vertido para latim, a palavra “agape” foi traduzida por “charitas”, donde o termo português “caridade”.

Na antiguidade cristã, por esta influência de S. Paulo, a palavra “caridade” tornou-se fundamental. Ensinámos que a relação do homem com Deus assenta no trinómio fé - esperança - caridade e que, na relação com o próximo, a caridade é a base. Seguindo o evangelho (Mat 22,39), ensinámos que a caridade para com Deus e a caridade para com o próximo são coisas semelhantes.

Mas, com o tempo, estragámos a palavra. Uma falsa espiritualidade passou a designar por caridade o serviço feito ao próximo, com gosto ou sem ele. Finalmente, a “caridadezinha“ passou a significar a ajuda superficial com que arranjamos boa consciência. No séc. XIX inventaram-se “bailes de caridade”. Ao menos, podia ser para dançar com as feias. Mas nem era isso, era a um recurso com vista a angariar dinheiro para “boas obras”.

Corajosamente, a edição mais recente da Bíblia em português (1998) desistiu da palavra “caridade” e  traduz “agape” por “amor”. E o texto de S. Paulo fica assim:

”Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. (...). Ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita. O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento, (...) tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará. (...). Permanecem estas três coisas: a fé, a esperança, o amor; mas a maior de todas é o amor.” (I Cor 13,1-13).

Como tudo  que é humano, o amor é complexo. Idealmente, seria dom, na alegria, na paz, na fidelidade. O marido e a mulher seriam felizes por gostarem um do outro, exprimiriam essa felicidade na palavra, no gesto de dom, na comunhão das vidas. Os pais e os filhos seriam felizes por gostarem uns dos outros, todo o ser humano sentiria paz ao ajudar outro ser humano, a procura de Deus seria amor. Idealmente, a fidelidade seria óbvia, corresponderia ao desejo mais fundo. Sabemos que a vida não é só sonho: podem surgir dificuldades, resultantes dos limites do outro, e dos nossos próprios limites. O amor é isto também: no dia em que aparecer uma sombra, não desistir da fidelidade, teimar em construir, procurar reencontrar a alegria perdida.

P.e João Resina Rodrigues – (Extraído da "Palavra no Tempo II")

 

 

III DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

24 de Janeiro de 2010

 

«Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem

da Escritura que acabais de ouvir».
                                                                      (Lc 4
21)

I Leitura: Ne 8, 2-4a. 5-6. 8-10

Depois do regresso do cativeiro e da reconstrução de Jerusalém, o reencontro com a Bíblia.

 

SALMO -  18 B (19), 8.9. 10. 15  (R. Jo 6, 63c)

Refrão: As vossas palavras, Senhor,

             são espírito e vida.   

II Leitura - Forma longa 1 Cor 12, 12-30

A unidade dos cristãos em Cristo

EVANGELHO - Lc 1, 1-4; 4, 14-21

Jesus passa por Nazaré e ensina na sinagoga. Encontra alguma simpatia; mas sobretudo, o desdém.

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III DOMINGO DO TEMPO COMUM

Poucas semanas depois do baptismo no Jordão, Jesus voltou a Nazaré, a terra onde vivera desde a infância. Todo o judeu tinha o direito de fazer leituras na sinagoga, e acrescentar um comentário. No dia de sábado, Jesus levantou-se e deram-Lhe o Livro de Isaías. Leu: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação dos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor”. ( Is 61, 1-2). A seguir, afirmou que nele se cumpria esta palavra da Escritura.

Os presentes dividiram-se. Uns poucos tinham ficado tocados pela autoridade e pela singeleza com que Ele tinha falado. Mas os mais “sabiam” que Ele não passava de um pobre carpinteiro, tão ignorante como eles. Que atrevimento ver-se retratado na Escritura! Finalmente, puseram-se de acordo para O expulsar da aldeia. (Lc 4, 14-30).

Os judeus esperavam um Messias, mas o Messias estava definido nas suas imaginações: seria um descendente de David, cheio de poder e de glória militar, capaz de vencer e expulsar os romanos, capaz de trazer a riqueza, a prosperidade e a força a este Povo há tanto tempo humilhado. Jesus não tinha nascido em nenhum palácio, não constava que fosse descendente de David, não tinha corte nem soldados, que loucura!

Jesus disse, naquele dia, que estava a inaugurar o Reino, pois vinha anunciar a Boa–Nova aos pobres, proclamar a libertação dos cativos e dos oprimidos, dar vista aos cegos, proclamar o tempo da graça do Senhor. Diria o mesmo, por outras palavras, dias depois: os bem-aventurados não são os ricos, nem os que têm tudo o que querem, nem aqueles a quem a vida corre bem, nem os que são louvados e aclamados pelo sistema, são os pobres, os que têm fome, os que sofrem, os que são excluídos (cf. Lc 6, 20-26; Mt 5, 1-12).

O pior é que nós cristãos – salvo excepções – continuamos a pensar como os judeus. Todos estamos de acordo em que o mundo está muito mal. Sabemos até quantificar a miséria: produzem-se alimentos que permitiriam alimentar toda a gente, até sobejava, mas todos os anos morrem 30 milhões de pessoas à fome. Um sexto da humanidade – mil milhões de pessoas – tem de sobreviver com 1 euro por dia. Há 40 milhões de pessoas infectadas com sida, muitos milhões com malária.

“Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar!” Mas, depois, cruzamos os braços. É mais simples convencermo-nos de que as coisas são assim, e não há solução realista. Alguém nos disse, a nós e aos governos dos países ricos, que, se ajudarmos os pobres, eles deixam de trabalhar e o caos aumenta. Continuamos a acreditar que, para que o mundo progrida, é necessário que exista uma massa de capital muito forte; e que a única solução possível passa pela consolidação deste capital sedeado nos países fortes – os donos do mundo. E ensinamos isto nas nossas Universidades.

Há os que, como os antigos judeus, continuam a esperar que Deus resolva. Há os que não acreditam em coisa nenhuma. (Destes, há os que se fecham no seu bem pessoal e há aqueles – honra lhes seja – que tentam endireitar o mundo “porque sim”). Há os que tentam impor soluções pela violência terrorista. Nós, cristãos, éramos aqueles que podíamos seguir Jesus. Ele veio dizer-nos que é possível transformar a Terra pelo amor. Infelizmente, nós “não somos parvos”: não acreditamos nessa balela, e tentamos uma solução mais inteligente que a dele: que a Igreja imponha ao mundo as suas leis e o resto venha por acréscimo. O resultado está à vista. Os “parvos”, S. Francisco de Assis, S. Vicente de Paulo, a Madre Teresa de Calcutá, não mudaram a Terra. Mas fizeram muito mais do que nós. E se tivessem tido centenas ou milhares de seguidores?

P.e João Resina Rodrigues – (Extraído da "Palavra no Tempo II")

II DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

17 de Janeiro de 2010

 

 

 

 

"Manifestou a sua glória

   e os discípulos acreditaram n’Ele."

 

                                                          (Jo 2, 11)

 

       Bodas de Caná - Veronese

I Leitura: Is. 62, 1-5

No contexto da libertação e da reconstrução de Jerusalém: a exigência da justiça e o convite à alegria.

SALMO -  95 (96), 1-3. 7-8a. 9-10a.c (R. 3)

Refrão: Anunciai em todos os povos

             as maravilhas do Senhor.       

II Leitura - 1 Cor 12, 4-11

A diversidade dos dons e das vocações, a unidade do povo de Deus.

 

EVANGELHO - Jo 2, 1-11

As bodas de Caná.

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II DOMINGO DO TEMPO COMUM - As Bodas de Caná

Após 33 ou 34 anos de oração e silêncio em Nazaré, Jesus recebe o baptismo de João. Tem, enquanto homem, uma experiência funda da sua comunhão com o Pai e o Espírito Santo (Mt 3, 13-17; Mc 1, 9-11; Lc 3, 21-22). João testemunha que é Ele o Messias (Jo 1, 29-34).

A seguir, Jesus retira-se para o deserto da Judeia, onde passa quarenta dias na austeridade e na oração, e onde tem o grande encontro com o Maligno (Mt 4, 1-11; Mc 1, 12-13; Lc 4, 1-13).

Regressando ao ao convívio dos homens, escolhe os primeiros discípulos (Jo 1, 35-51) e, com eles, acompanha sua Mãe a um casamento (Jo 2, 1-12).

Esta presença numas bodas é claramente um sinal da sua confiança na condição humana. Não consta que tivesse dado conselhos aos noivos. Jesus entende que um rapaz e uma rapariga que são bons e gostam um do outro não precisam de pregações. (Nós os padres e os moralistas, é que somos especialistas nesses sermões). O que pode ser bom para os noivos é a experiência de que os familiares e os amigos confiam neles. Mas o vinho era pouco para tantos convivas, e Maria percebeu a inquietação nos que serviam. Avisou Jesus, e não se desconcertou com a sua aparente indiferença. "Façam tudo o que Ele lhes disser". Jesus mandou encher de água seis talhas grandes e, quando a retiraram, era vinho bom. "Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram nele" (Jo 2, 11).

Jesus não cessou de desconcertar os homens. Os judeus ansiavam por um rei poderoso, e Ele era simples carpinteiro em Nazaré. A religião sempre tinha prezado a austeridade, olhado com desconfiança para os folguedos, e a sua primeira manifestação é numa festa. Desde há séculos, a Bíblia ora exaltava a sexualidade ora alertava contra os seus perigos, e a festa em questão é a celebração de um casamento. Vamos mais longe. O espírito de bom gestor que está no fundo de cada um de nós não resiste a perguntar: então não havia nada mais importante para o mundo do que resolver a falta de vinho numa festa?

A alegria, sobretudo a alegria que surge no contexto da justiça e da paz entre os homens e os povos, é um bem fundamental. A primeira Leitura (Is 62, 1-5) é uma palavra de esperança, dirigida pelo Profeta aos seus concidadãos que sofrem as privações e as humilhações do desterro. O Profeta promete que a provação vai ter termo, a justiça e a salvação vão chegar. A alegria vai regressar. Mas o profeta sugere que a verdadeira alegria precisa de se apoiar em Deus. Quando os que tinham sido humilhados e ofendidos reencontram a liberdade, mas se esquecem de Deus, ficam prontos para, por sua vez, humilhar e ofender. Só o amor que vem de Deus pode conseguir que o ciclo da vingança tenha fim.

Na segunda Leitura (1 Cor 12, 4-11), S. Paulo ensina que Deus não tem a preocupação de nos tratar a todos da mesma maneira. Somos diferentes pelos dons da natureza, Ele distribui os dons da sua graça como entende. Espera que não entremos em invejas e competições inúteis, espera que cada um faça render aquilo que recebeu com zelo e com humildade. Feliz de quem é capaz de dizer, como o Poeta, "Aqueles dons, merecidos ou não, vinham de Deus. Por isso os aceitei." (Sebastião da Gama); feliz de quem não se envaidece com o que possui, nem sequer o contabiliza, e ao dom responde com dom. De resto, Deus não é como aqueles patrões para quem só os resultados contam: Deus ama, e espera que Lhe respondamos com amor.

P.e João Resina Rodrigues – Extraído de “A Palavra no Tempo II”

 

BAPTISMO DO SENHOR

 

10 de Janeiro de 2010

 

"Quando todo o povo recebeu o baptismo,

Jesus também foi baptizado; e, enquanto orava,

o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele

 

(Lc 3, 21-22)

Baptismo de Cristo

Verrocchio / Leonardo da Vinci

Galleria Uffizi - Florença

                                                

I Leitura: Is 42, 1-4. 6-7

"Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações."

SALMO -  28 (29), 1a.2. 3ac-4. 3b. 9b-10 (R. 11b)

Refrão: O Senhor abençoará o seu povo na

             paz.           

II Leitura - Actos 10, 34-38

"Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem"

EVANGELHO - Lc 3, 15-16.21-22

O Baptismo de Jesus

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BAPTISMO DO SENHOR

Os caminhos de Deus cruzam-se com os nossos caminhos, mas não deixam de nos espantar. Nós temos sempre pressa. Deus esperou cem mil anos sobre a criação de Adão para enviar ao mundo o seu Filho. Jesus, o Filho de Deus feito homem, também não teve pressa: até aos 33 ou 34 anos viveu uma vida parecida com a de toda a gente numa aldeia perdida do Norte da Palestina. Conviveu com as pessoas, exerceu o ofício de carpinteiro, deve ter gasto a maior parte dos seus proventos a ajudar os necessitados, rezou na sinagoga à vista de todos e em segredo no silêncio da sua casa. Durante esses anos, ninguém se espantou com Ele; espantaram-se, sim, e muito, quando se ouviu dizer que tinha começado a pregar, de terra em terra. Os parentes próximos chegaram a pensar que Ele não estava bom da cabeça. Pregar, pregavam os padres, não se esquecesse de que era um simples carpinteiro!

João Baptista tinha tido um caminho mais fácil de entender. Filho de um sacerdote do Templo, educado, muito provavelmente entre os monges de Qumrân, um grupo judeu muito austero, vivia agora como um dos antigos profetas, na solidão do deserto e na oração.

No Outono do ano 27 da nossa era, Deus revela a João Baptista que o tempo se completou e está eminente a chegada do Messias. João fica encarregado de anunciar esta Boa Nova, deve procurar que todos acolham o Messias com um coração bom. Pegando num dos ritos dos monges de Qumrâm, João convida os homens a que aceitem ser baptizados no rio Jordão: ser baptizado é reconhecer que se está sujo pelo pecado e se precisa de uma lavagem radical. João não se esquece de acrescentar que a água do rio lava pouco, mas Aquele que vai chegar baptizá-los-á com o Espírito Santo e o fogo.

Entretanto, Jesus deixa a sua aldeia e caminha ao encontro de João. Entra sem dar nas vistas na fila dos que pedem o baptismo. Uma vez baptizado, e estando em oração, "O Céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba. E do Céu veio uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus o meu encanto." (Lc 3, 21-22). "E João testemunhou: «Vi o Espírito que descia do céu como uma pomba e permanecia sobre Ele. E eu não O conhecia, mas Quem me enviou a baptizar com  água é que me disse:  «Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer sobre Ele, é o que baptiza com o Espírito Santo». Eu vi, e dou testemunho de que é Ele o Filho de Deus.»  (Jo 1, 31-34).

Mas por que motivo quis Jesus ser baptizado, Ele que é sem pecado? A Tradição respondeu: para nos salvar, ele identificou-se connosco. "Aquele que não havia conhecido o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nos tornássemos, nele, justiça de Deus."  (ICor 5, 21; Gal 3, 13). Aceitará sujeitar-se à morte, como dom de amor, ao Pai e a todos nós. Por isso dirá uma coisa que os discípulos vão tardar a entender: aguarda um novo baptismo (que será o baptismo definitivo, o da cruz)) (Cf. Mc 10, 38-39; Mt 20, 22; Lc 12, 50).

O nosso baptismo (Mt 28, 19; Mc 16, 16) deriva do "segundo" baptismo de Cristo. Ser baptizado é ser enxertado em Cristo, é aceitar os riscos implicados no anúncio do Evangelho, é receber a promessa da ressurreição. Como diz S. Paulo, nós somos baptizados na morte e na ressurreição (Rom 6, 4-6; 8, 1-11). Ser imerso na água do baptismo é aceitar morrer para as alegrias vãs do pecado. e aquele que emerge da água do baptismo ergue-se para a ressurreição e para a vida eterna (Rom 6, 4-5).

P.e João Resina Rodrigues – Extraído de “A Palavra no Tempo II”

 

 

DOMINGO DA EPIFANIA DO SENHOR

 

3 de Janeiro de 2010

 

 

A adoração dos Reis

Fra Angelico - primeiros anos do Séc. XV

National Gallery

 

"...viram o Menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se diante d'Ele, adoraram - n'O"

(Mt 2, 11)

 

I Leitura: Is 60, 1-6

O horizonte da esperança: virá o tempo da alegria, da união entre todos os homens. Virá a luz. A vinda do Messias é o começo desta etapa definitiva.

SALMO -  71 (72), 2. 7-8.10-11. 12-13 (R. cf. 11)

Refrão: Virão adorar-Vos, Senhor,

            todos os povos da terra.

II Leitura - Ef 3, 2-3a. 5-6

Um dos aspectos do mistério de Cristo: os gentios e os judeus são herdeiros da mesma herança, pertencem ao mesmo corpo, beneficiam da mesma promessa. Em Cristo Jesus, por meio do Evangelho.

EVANGELHO - Mt 2, 1-12

Os Magos vêm adorar Jesus.

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EPIFANIA

Logo após o Pentecostes, os cristãos começaram a reunir-se ao domingo: celebravam a Eucaristia, em memória da ressurreição do Senhor. A seguir, substituíram a celebração judaica da Páscoa, pela nova Páscoa da Ressurreição. Não sabemos se no séc. II, se no séc. III, as comunidades da Itália e das Gálias começaram a celebrar o Natal, o nascimento de Jesus; e as comunidades da Grécia e da Ásia Menor começaram a celebrar a Epifania, a manifestação de Deus em Jesus Cristo. Finalmente, os dois grupos aceitaram um tempo de festa que começa no Natal e se completa na Epifania.

No Natal contemplámos o nascimento de Jesus no presépio de Belém. Era o grande convite à simplicidade, à ternura, à intimidade com Deus na pobreza e na humildade. Hoje, festa da Epifania, procuramos reflectir sobre a maneira como Deus se manifestou e continua a manifestar-se ao mundo.

A grande tentação é entrarmos na lógica mundana. Na Terra, os reis passeiam-se com fausto e esplendor. Espontaneamente, uma certa piedade cristã imaginou um cortejo de reis a visitar o presépio com ofertas valiosas e simbólicas: o ouro do poder, o incenso da adoração, a mirra que embalsamava os mortos.

Mas a grande manifestação de Deus é a maneira como Jesus Cristo veio ao mundo e viveu na Terra, convivendo com os pobres e falando a sua linguagem, arrostando o poder dos governantes e o poder religioso, na rectidão sem quebra e no amor sem limites, "até ao fim".

Ele mandou que anunciássemos o seu reino. Nesta festa, que se passa nos primeiros dias do ano, podemos apontar alguns projectos.

Ele quis que nós nos mantivéssemos unidos, e nós não temos cumprido esse desejo. Fomos criando divisões. Mas o tempo está maduro para a reunificação.

A Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas têm praticamente a mesma doutrina, celebram os mesmos sacramentos, rezam de maneira parecida, invocam Maria Santíssima e os Santos, honram a vida religiosa e a contemplação. Temos diferenças mínimas, que bem podiam ser ignoradas. Mas, de um lado e do outro, há zangas antigas em torno do poder. Estas zangas só podem ser superadas na humildade e na paciência. Era tempo de proclamar que somos a mesma Igreja. Era importante que Roma não quisesse mandar no pormenor, respeitasse a organização milenária daquelas Igrejas e confiasse que o Espírito Santo nos ajudará a caminhar para o encontro progressivamente maior. A fé e o martírio, a oração e o amor aos pobres, são título para esta esperança. Com as grandes Igrejas Protestantes da Europa as divergências doutrinárias são maiores. Mas todos nós acreditamos em Deus e na vida eterna, todos nós confessamos que Jesus Cristo é o Filho de Deus e o nosso Salvador, todos nós reconhecemos a importância da fé, da oração e da caridade fraterna. Era um dom de Deus que começássemos a rezar juntos e a conversar. Sem preocupações de hierarquia. Deixando falar aqueles e aquelas que o Senhor mais inspirar. Peçamos esse dom a Deus!

Perante o espectáculo da fome, das doenças e da guerra que ensombram o mundo, era urgente que os cristãos se unissem para exigir dos governos uma politica a favor dos pobres, a favor da paz. Estas acções não têm de ser compartimentadas pelas fronteiras confeccionais. Peçamos profetas, de qualquer confissão, que amem realmente a justiça e a paz e tenham, como o profeta Amós, intuição religiosa e politica.

As diferenças são evidentemente maiores relativamente ao Judaísmo, ao Islão, às religiões do Oriente. Mas podemos aprender as respeitar-nos uns aos outros. Nessa base de respeito, podemos rezar e trabalhar por todas as grandes causa humanas.

 

P.e João Resina Rodrigues – Extraído de “A Palavra no Tempo II”

 

SANTA MARIA,

 

MÃE DE DEUS

 

DIA DA PAZ

 

 

1 de Janeiro de 2010

 

Madona col Bambino

Giotto-1310

Galleria degli Uffizi-Florença

 

 

«Maria conservava todas estas palavras,

meditando-as em seu coração».

(Lc 2, 19)

I Leitura: Nm 6, 22-27

«O senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz».

SALMO -  66 (67), 2-3.5.6 e 8 (R. 2a)

Refrão: Deus se compadeça de nós e

            nos dê a sua bênção   

II Leitura:  Gl 4, 4-7

«Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei».

Evangelho: Lc 2, 16-21

A adoração dos pastores.

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SANTA MARIA, MÃE DE DEUS - DIA DA PAZ

Vivemos num mundo que conseguiu desenvolvimentos magníficos, mas onde continuam a existir sofrimentos inenarráveis

Cresce a riqueza global, as ciências progridem, os desenvolvimentos tecnológicos são fulgurantes. A filosofia, a literatura e as artes mantêm o seu poder criador.

Mas neste mundo de 6000 milhões de pessoas, há 4000 milhões de pobres. Apesar da produção mundial de alimentos exceder 10% aquilo que era exigido para que ninguém sofresse carências, morrem à fome cada ano 30 milhões de pessoas. Os países ricos guardam – e às vezes destroem – os excedentes. Há centenas de milhões de pessoas infectadas pela malária e 30 milhões infectadas pela sida. A indústria farmacêutica pouco se interessa pela malária, que é doença de pobres, mantém preços exorbitantes nos medicamentos para a sida. As guerras e os massacres não acabam. Os negócios mais rendosos continuam a ser o armamento, a droga, a prostituição e o jogo.

Os países ricos disputam entre si o domínio do planeta: o controlo das matérias-primas e do comércio, o protectorado das pequenas nações, o alargamento do espaço de influência. Têm ao seu serviço legiões de intelectuais, pagos a preços de ouro, para gizar e implementar estratégias. Gastam verbas imensas em armamento. Embora lhes fosse possível e até fácil de socorrer as populações vizinhas quando estas morrem à fome, não o fazem, temendo que isso desencadeie uma reivindicação global. Apoiam restrições a favor do ambiente e do saneamento da economia, desde que sejam cumpridas pelos outros, não por eles. Começam a querer impor dois direitos, um para castigo dos estrangeiros, outro para defesa dos seus. Decidem da guerra e da paz.

Os pobres sentem-se perdidos e entram na espiral da vingança. Sem força para alcançar a vitória através duma guerra convencional, empreendem actos de terrorismo.

É claro que o terrorismo não tem nem pode ter justificação moral. É mesmo duplamente absurdo, porque permite às nações ricas justificar mais opressão.

Que fazer?

Embora as estruturas internacionais estejam cada vez mais inviabilizadas pela vontade de poder das grandes nações, é preciso que as nações pequenas e os cidadãos comuns continuem a defender essas estruturas e propor melhoramentos.

A Igreja tem de recordar insistentemente, na pregação e na catequese, que os homens são todos irmãos. Tem de dizer alto e bom som, que explorar os pobres é pecado que brada aos céus. Tem de manter uma presença viva junto das populações que sofrem; anunciando-lhes o Evangelho, tem de os ajudar a encontrar os caminhos da libertação que não passem pelo terrorismo. É cada vez mais urgente que as Missões existam, além dos padres e das religiosas, leigos competentes, capazes de orientar estas acções.  Enfim, a Igreja tem de falar cada vez mais de rijo aos ricos e aos governantes dos países ricos. Tem de desmascarar a maneira como explora os países pobres, tem de condenar uma economia cujo fio condutor é o maior lucro dos que já têm riqueza.            

A Mensagem do Papa para o dia da Paz de 2004, foi dirigida prioritariamente aos chefes das nações, aos juristas, aos educadores da juventude “e também a vós, homens e mulheres que vos sentis tentados a recorrer ao inadmissível instrumento do terrorismo, comprometendo assim pela raiz a causa pela qual combateis”.

“A humanidade – diz - tem a necessidade de encontrar a estrada da concórdia, turvada como está por egoísmos e ódios, por sede de domínio e desejo de vingança”. “

A Igreja sempre ensinou…que a paz é possível. Mais, …a paz é um dever. E há-de ser construída sobre a verdade, a justiça, o amor e a liberdade”.

 P.e João Resina Rodrigues – Extracto de “A Palavra no Tempo II”