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ANO C

2009-2010

 

SAGRADA FAMÍLIA

27 de Dezembro de 2009

 

NATAL DO SENHOR

25 de Dezembro de 2009

 

IV DOMINGO DO ADVENTO

20 de Dezembro de 2009

 

III DOMINGO DO ADVENTO

13 de Dezembro de 2009

 

IMACULADA CONCEIÇÃO

8 de Dezembro de 2009

 

II DOMINGO DO ADVENTO

6 de Dezembro de 2009

 

I DOMINGO DO ADVENTO

29 de Novembro de 2009

 

LITURGIA DA PALAVRA

 

(Comentários do Padre João Resina Rodrigues)

ANO C

2009-2010

O Evangelho de S. Lucas vai ser o mais lido neste ano litúrgico. Os textos  escolhidos para os Domingos e Festas não são cronológicos nem contínuos, pelo que recomendamos a  leitura prévia, integral e seguida deste Evangelho.

 

NOVEMBRO - DEZEMBRO 2009

 

Liturgia da Palavra

(Mês em curso)

 

 

SAGRADA FAMÍLIA

 DE

 JESUS, MARIA E JOSÉ

 

27 de Dezembro de 2009

 

I LEITURA -  Sir 3, 3-7. 14-17a  (gr. 2-6.12-14)

"Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe."

SALMO - 127 (128), 1-2. 3. 4-5 (R. cf. 1)

Refrão:  Felizes os que esperam no Senhor e

              seguem os seus caminhos.

         
 Ou:       Ditosos os que temem o Senhor, ditosos
              os que seguem os seus caminhos.

II LEITURA - Col 3, 12-21

"Como eleitos de Deus, santos e predilectos, revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente."

EVANGELHO -  Lc 2, 22-40 (Forma longa)

A apresentação no Templo.

Para leitura dos textos  litúrgicos clique aqui

SAGRADA FAMÍLIA

 Enviando seu Filho ao mundo, o Pai quis que Ele "nascesse duma mulher" (Gal 4,4) e fosse formado numa família. A epístola aos Hebreus não receia dizer que Jesus teve de aprender a condição humana (Heb 5,8). Aprendeu com José e Maria a andar, a falar, a comportar-se. Aprendeu o amor sendo muito amado em criança, crescendo entre um homem e uma mulher que gostavam muito dele, e que gostavam um do outro na alegria e na paz. Formou os seus próprios critérios dialogando com os pais; que, sem Lhe imporem as suas próprias opiniões e perspectivas, tinham perspectivas e opiniões que eram para Ele convite à reflexão.

 Ultrapassámos hoje aquela concepção para a qual liberdade significa estar no mundo sem relações. Compreendemos portanto que o Pai não tenha achado que era uma limitação para seu Filho receber de Maria um dado conteúdo genético (necessariamente finito), aprender a falar a língua daquele povo (e não as línguas todas), ser inserido naquela cultura (que tinha valores e defeitos), receber o influxo das personalidades de seus pais (que, sendo santos, não eram iguais a Deus).

O que foi bom para Jesus é também bom para cada um de nós. Por isso, é muito importante que a Igreja recorde o valor da família.

É verdade que a família, como tudo o que é humano, evolui ao longo da História. É verdade que a dignidade do homem e da mulher, a liberdade da criança e dos adultos, devem ter hoje expressões mais ricas que no passado, não se esgotam nas formas que foram boas em certas civilizações que nos servem de referência.

Mas é também verdade que nos nossos dias a família está a experimentar uma crise profunda, de consequências verosimilmente muito graves. O amor do homem e da mulher aparece cada vez mais como provisório, como uma aventura intensa e fascinante da afectividade e da sexualidade, mas a manter enquanto for boa para os dois. Aparece como um bem de consumo importante; mas, como todas os bens de consumo, de duração limitada.

A confirmar-se esta tendência, haverá cada vez menos crianças – e depois menos jovens e menos adultos – a terem crescido, como Jesus, num ambiente de amor e de paz, num ambiente de maturidade e de dom. Os educadores estão já colocados perante este facto: de ano para ano recebem crianças mais frágeis, mais instáveis, de relacionamento mais difícil. Mas tenhamos a coragem de ir mais longe: o amor fiel do homem e da mulher aparece na Escritura como uma projecção do amor de Deus. Na Igreja há celibato e há casamento. Muitas vezes a preocupação de defender o celibato levou pessoas da Igreja a minimizar o casamento. Mas a boa tradição cristã reconheceu sempre que um amor grande e fiel entre um homem e uma mulher é um convite à fé em Deus. A morte do amor humano é assim uma grande machadada na fé.

Lê-se nesta missa um trecho muito importante de S. Paulo (Col 3,12-21). S. Paulo não tem a ilusão de que a santidade seja um tecido contínuo de heroísmos vistosos. Sabe que o mais difícil é que o cristão seja capaz de enfrentar de ânimo igual as cruzes grandes e as cruzes pequenas, o martírio e o cinzento dos dias sem luz. "Como eleitos de Deus,... enchei-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, serenidade e paciência. Aturai-vos uns aos outros e perdoai, se tiverdes alguma razão de queixa. Acima de tudo, tende amor,... reine nos vossos corações a paz de Cristo, vivei em acção de graças." Palavra que diz respeito à vida do cristão na terra, mas nomeadamente à vida em família.

P.e João Resina Rodrigues (in a Palavra no Tempo II)     

NATAL

DO

 SENHOR

25 de Dezembro de 2009

Nascimento Místico (1500)

National Gallery - Sandro Botticelli

MISSA DA MEIA NOITE

«Nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador...».

(Lc 1, 11)

I LEITURA - Is 9, 2-7 (1-6)

«Um Filho nos foi dado».

SALMO - 95 (96), 1-2a.2b-3.11-12.13

Refrão: Hoje nasceu o nosso Salvador,

             Jesus Cristo, Senhor

II LEITURA  – Tito 2, 11-14

«Manifestou-se a graça de Deus para todos os homens».

EVANGELHO - Lc 2, 1-14

Contrastando com a sua condição divina, o nascimento de Jesus reveste-se de grande pobreza

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MISSA DO DIA

«O Verbo fez-se carne e habitou entre nós».

 (Jo 1, 14)

 

I LEITURA - Is 52, 7-10

É bom anunciar a paz. E todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus.

SALMO - 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4.5-6 (R. 3c)

Refrão:Todos os confins da terra viram a

             salvação do nosso Deus.

II LEITURA  –  Hb 1, 1-6

Deus, que falou outrora pelos profetas, nestes tempos que são os últimos, falou-nos pelo Seu Filho.

EVANGELHO –  Jo 1, 1-18

O Natal é o Nascimento no meio dos homens do próprio Filho de Deus. S. João faz-nos meditar sobre as relações misteriosas que unem o Verbo ao Pai

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NATAL DO SENHOR

Reunimo-nos, nesta noite, para celebrar o nascimento de Jesus.

Ouvimos a palavra de Isaías, o grande profeta do séc. VIII a.C. Ele imagina-se colocado no futuro: "O povo que tinha andado nas trevas viu uma grande luz. (...). Multiplicastes a tua alegria. (...). Quebrastes o jugo que pesava sobre o povo. (...). Porque um menino nasceu para nós. (...). Será chamado Príncipe da paz." (Is 9, 2-7).

Ouvimos a palavra de s. Paulo, ou de um dos seus companheiros: "Manifestou-se a graça de Deus, que traz a salvação para todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos, para vivermos com temperança, justiça e piedade, aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que se entregou por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e constituir um povo que seja seu." (Tt 2, 1-14).

Ouvimos a palavra do Evangelho: "O Anjo do Senhor aproximou-se dos Pastores e disse-lhes: «Não temais, porque os anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». Imediatamente, juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados»." (Lc 2, 1-14).

Acreditamos que, realmente, Deus veio até nós. Acreditamos que é aquele Menino, nascido naquela noite, há cerca de 2000 anos, em Belém da Judeia, deitado numa manjedoura. Acreditamos que é o Príncipe da paz. Mas pensamos que a esperança do povo judeu segundo a qual o Messias viria tomar conta do poder e mandar na terra não era o projecto de Deus. Aquele Menino era e é o Príncipe da paz. Mas ensinou-nos que a verdadeira paz não se conseguirá por nenhuma estratégia de poderes, só se conseguirá pela força do amor.

Estamos aqui a adorá-lO e a dizer que aceitamos esta vontade e esta revelação. Prometemos que vamos trabalhar mais a sério no anúncio do seu Reino. E que, portanto, vamos ter mais paciência com os da nossa casa, vamos ter mais trabalho com os pobres e com os doentes, vamos perdoar todas as ofensas, vamos pedir perdão a quem tenhamos feito mal. Vamos insistir com os nossos Pastores no sentido de que o cuidado com os pobres e desprotegidos seja realmente uma opção fundamental da Igreja.

Nesta noite, pensamos em todos aqueles que celebram também o nascimento de Jesus. Católicos, ortodoxos, protestantes ... Que bom seria que esta noite nos aproximasse! Se os anjos nos gritassem que as nossas divisões entristecem o Menino. E que Ele não percebe porque é que nós não conseguimos entender-nos. Era tão simples: gostarmos de Deus e gostarmos uns dos outros!

Nesta noite, pensamos também em todos aqueles que não acreditam neste Menino, ou alteram a sua imagem.

Não nos atrevemos a julgar - embora soframos por eles - os que se recusam a acreditar em Deus. Magoam-nos aqueles que adoram um deus que não é Deus, o deus do dinheiro e do poder, e tentam dizer que o Menino é um deles.

Pensamos muito naqueles que nesta noite têm fome e têm frio, continuam a ser humilhados e ofendidos. Pensamos naqueles que, à força de serem vilipendiados, deixaram de acreditar no amor. Naqueles que, esmagados pelo trabalho, pela fome e pela doença, não têm vontade de pensar em mais nada.

E  surge em nós a pergunta. Quem está mais perto deste Menino? Nós, ou alguns desses que não acreditam nEle? Ele também teve frio, também foi desprezado, e acabou por morrer na cruz...

   P.e João Resina Rodrigues (in a Palavra no Tempo II)        

IV DOMINGO DO ADVENTO

20 de Dezembro de 2009

«Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?»

                                                               (Lc 1, 43)

I LEITURA – Miq 5, 1-4a

«De ti, Belém - Efratá, pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá aquele que há-de reinar sobre Israel. Ele será a paz».


SALMO  – 79 (80), 2ac. 3b. 15-16. 18-19 (R.4)

Refrão: Senhor nosso Deus, fazei-nos voltar,

               mostrai-nos o vosso rosto e seremos

               salvos.

              
Ou:       
Mostrai-nos, Senhor, o vosso rosto
e

               seremos salvos

            

II LEITURA  –  Heb 10, 5-10

"Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade."

EVANGELHO – Lc 1, 39-47

A visitação

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IV DOMINGO DO ADVENTO

 

Domingo antes do Natal. O Evangelho conta uma história que não tem a ver com esta data: A Visitação de Nossa Senhora  a sua prima Isabel (Lc 1, 39-47). Certamente porque esse encontro nos revela aspectos importantes da personalidade de Maria.

Maria recebeu a Anunciação do Anjo, aceitou ser Mãe de Jesus. É informada, a propósito, que sua prima Isabel, que é idosa, vai ter um filho dentro de poucos meses..Põe-se imediatamente a caminho, a fim de a ajudar.

No momento em que Isabel houve a voz de Maria, tem a revelação de que Ela concebeu e vai dar à luz o Filho de Deus. Trata-a com todo o respeito, chama-lhe bendita entre as mulheres e tem uma palavra profunda: «Feliz de ti, que acreditas-te.» Isabel aprendeu na sua longa vida e na sua relação com Deus que é uma bênção poder acreditar no Senhor, poder acreditar nos seus.

A resposta de Maria tem nova profundidade. Responde que sim, é feliz. Sabe mesmo que todas as gerações a vão proclamar bem-aventurada. Não lhe passa pela cabeça que tenham sido as suas qualidades que motivaram a escolha de Deus. Diz que Deus pôs os olhos na sua pequenez e decidiu fazer nela maravilhas.

A segunda Leitura é tirada da Epístola aos Hebreus (Heb 10, 5-10). Esta carta dirige-se aos cristãos convertidos do judaísmo, que se sentiam desconfortados com a pobreza do  novo culto, comparado com o esplendor das cerimónias do Templo de Jerusalém. O autor, provavelmente um discípulo de São Paulo, começa por recordar que os sacrifícios e cerimónias da Lei antiga não tinham valor intrínseco, não passavam de símbolos. Mas na Eucaristia o dom é o próprio Cristo. Infinito como o Pai, e que se entregou por amor até ao fim.

A primeira Leitura é do Profeta Miqueias, contemporâneo de Isaías, sec. VIII a.C. (Miq 5, 1-4): Miqueias é menos brilhante que Isaías, mas proferiu um oráculo singular. Por um lado, abandonando o estilo enigmático da maioria dos vaticínios, diz, com precisão, que o Messias nascerá em Belém, povoação a Sul de Jerusalém, onde já nascera David. Por outro lado, quando todos pensavam que o Messias seria um rei poderoso e dado à guerra, Miqueias afirma que «Ele será a Paz».

Estes três textos desafiam-nos a reflectir sobre as escolhas de Deus. Deus, que podia ter ficado encerrado na sua vida de Trindade, decidiu criar o mundo. O mundo é palco de muito bem e de muito mal, de muitas alegrias e de muitas dores. Deus entrou no mundo sem poder nem protecção e acabou por morrer na cruz.

Há quem ache isto tudo absurdo: o mundo tal como é, e a própria ideia de Deus. Há quem acredite num Deus diferente, que tudo decide, tudo governa, puxa por todos os cordéis, premeia, castiga: mas nunca desce à liça e não dá explicações a ninguém. Há quem tenha o espírito suficientemente humilde e o coração suficientemente pobre para acreditar no Evangelho: Deus criou o mundo para espalhar o seu amor e entrou no mundo porque não se conformou com a rejeição do seu projecto.

Deus tem inimigos. O Livro de Génesis fala, de maneira misteriosa, de um mal inimigo de Deus e inimigo do homem, personificado na serpente. No «Pai Nosso», Jesus ensinou-nos a pedir ao Pai que nos livre do maligno. Mas os piores inimigos de Deus são as religiões e as pessoas religiosas. Que julgam saber tudo a respeito d'Ele; que, em vez de ensinarem a amar, ensinam a cumprir receitas. Quem descobriu o Evangelho e acreditou em Jesus sabe que não sabe tudo, sabe que precisa de aprender cada dia um pouco mais. Acredita que aprende todos os dias com Deus, vivendo a fé e a oração, e aprende todos os dias no encontro bom com os irmãos.

 

 

III DOMINGO DO ADVENTO

13 de Dezembro de 2009

«Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos faça o mesmo».

                                                               (Lc 3, 11)

I LEITURA – Sof 3, 14-18a

"O Senhor, Rei de Israel, está no meio de ti e já não temerás nenhum mal."

SALMO  – Is 12, 2-3. 4bcd. 5-6 (R. 6)

Refrão: Exultai de alegria, porque é grande no meio de vós

               o Santo de Israel.


Ou:       
Povo do Senhor, exulta e canta de alegria.

II LEITURA  –  Filip 4, 4-7

"Seja de todos conhecida a vossa bondade. (...). E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus."
 

EVANGELHO – Lc 3, 10-18

João Baptista indica aos homens o caminho da conversão, com o abandono do pecado e o amor ao próximo.


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III DOMINGO DO ADVENTO

 

O Advento é convite à conversão. Em honra do nascimento de Jesus, a Igreja convida-nos a corrigir tudo o que haja de errado nas nossas vidas, a trabalhar com mais afinco pelo bem dos homens. Mas, curiosamente, no 3º domingo do Advento, a liturgia interrompe essa pregação e fala-nos simplesmente da alegria.

      Todos os homens precisam de ser felizes. Mas há aqueles que põem a felicidade na riqueza, no poder, nas satisfações mais imediatas; e há aqueles que só se sentem verdadeiramente felizes no dom e na partilha.

      O Evangelho fala constantemente do amor. É claro que o amor tem concretizações muito diferentes: o amor do homem e da mulher, o amor dos pais e dos filhos, o amor que é amizade, o amor que nos faz sair à procura dos pobres e dos doentes, o amor que se empenha na justiça e na paz, o amor que nos leva a dar a vida por uma boa causa. São diferentes, mas têm algo de comum: a descoberta de que para além de mim existe o outro, a aceitação do risco de dialogar com o não totalmente conhecido, a partilha do que era só meu, a fidelidade (óbvia no caso do casamento, importante ainda se se ajudou desde há muito um pobre, um doente, uma região atrasada), a comunhão. Quando S. Francisco de Assis domina o seu horror pelo leproso e o abraça, comunga no mais sério da condição humana.

      Houve tempo em que a religião parecia apostada em matar a alegria. Aquele tempo em que os pregadores em tudo viam pecado, só se entendiam com mandamentos e castigos, não acreditavam que a alegria e o bem pudessem andar de mãos dadas. A Bíblia é mais sensata. No Cântico dos Cânticos não receia aprovar a alegria do amor do homem e da mulher: ”A tua ternura é melhor que o vinho” (1,2); o Livro de Isaías fala da alegria daquele que se consagra a ajudar os desfavorecidos: “O espírito do Senhor Deus está sobre mim ... Ele me enviou a levar a boa-nova aos que sofrem, a curar os desesperados, a anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos cativos... Rejubilo de alegria no Senhor, o meu espírito exulta no meu Deus.” (61, 1-10).

      Os tais pregadores parece que não entenderam que quem ama a sério cumpre o bem, e portanto os mandamentos, de maneira espontânea e superior. Uma mãe que tenha um filho doente não precisa que ninguém lhe diga: tens obrigação de o tratar. É capaz de passar noites em claro à sua cabeceira, espantar-se-ia se a louvassem. Gosta do filho e estará ali enquanto for preciso, enquanto tiver forças para o fazer. E enche-se de alegria quando o filho melhorar.

      Não ignoro que somos todos imperfeitos, a ponto de nos podermos deixar cegar por alegrias traiçoeiras. Temos de pedir a Deus, todos os dias, que nos mantenha no caminho, é sensato que não desprezemos eventuais críticas dos amigos.

      Mas isto tudo não destrói a afirmação de que, à medida que crescemos para a vida e para Deus, o amor e a alegria podem andar cada vez mais de mãos dadas. O amor dá paz e alegria, quem entrou nessa alegria e nessa paz sente-se cada vez mais convidado a ser dom.

      As Leituras desta missa são singelas. O profeta Sofonias promete que, para além da derrota e das desgraças, Deus fará chegar a alegria. (Sof 3, 14-18). S.Paulo diz aos Filipenses: “Meus irmãos, alegrai-vos sempre no Senhor, alegrai-vos!” (Fil 4,4-7). O Evangelho  conta a maneira como João Baptista pregava moral: Quem tem dois fatos dê um a quem não tem nenhum, quem tem muito de comer faça o mesmo; os cobradores de impostos não prejudiquem ninguém, os soldados não se sirvam das armas para intimidar e roubar. (Luc 3¸10-18).

 

 

IMACULADA CONCEIÇÃO

 DA

VIRGEM SANTA MARIA

8 de Dezembro de 2009

                                                                           A Virgem da Conceição - Murillo

                                                                          Museu do Prado - Madrid

I Leitura: Gn 3, 9-15.20

O «pecado original».

Este texto - que não é para ser interpretado literalmente - recorda que o pecado envenena a vida. Simetricamente, a conversão é 0 caminho para verdade e para a paz.

 

Salmo: 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R. 1a)

Refrão: Cantai ao Senhor um cântico novo: O Senhor

               fez maravilhas

II Leitura:  Ef 1, 3-6. 11-12

O projecto de Deus a nosso respeito. Deus pensou em nós ao criar o mundo. Criou-nos para sermos felizes como Ele é feliz. Na liberdade, no amor.

Evangelho: Lc 1, 26-38

A anunciação

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IMACULADA CONCEIÇÃO

      Os exegetas e os teólogos têm medo do sobrenatural de pacotilha. Têm razão. Sempre que suspeitam que certas histórias foram ampliadas pela devoção das primeiras comunidades cristãs, tentam reduzi-las. Terão razão. Pessoalmente não acredito nem na estrela, nem nos magos, nem na matança dos Inocentes.

     Mas há um sobrenatural, que é deus. Como eu acredito que Deus veio ao mundo na Pessoa do Filho, começo aqui a ter cuidado com as reduções. De resto, há uma coisa que aprendi com dois hereges, Platão e Einstein: que a muito grande beleza é um sinal da verdade. Isto tudo para dizer que acredito neste texto de S. Lucas.

     Acredito que Maria é a Virgem Mãe de Deus.

     Acredito que Deus se dirigiu a Maria.

     Acredito que Maria teve uma resposta simples, humilde e bela.

     Venham os psicanalistas explicar-me que a virgindade - maternidade são sonhos profundos do nosso inconsciente. E daí? Será que Deus não pode ter o bom gosto de os assumir?

     Venham os teólogos da «encarnação» explicar-me que lhes agrada mais uma maternidade como as outras. E daí? Por que há-de Deus ser tabelado por esse gosto?

 

II DOMINGO DO ADVENTO

6 de Dezembro de 2009

«Uma voz clama no deserto:

‘Preparai o caminho do Senhor,

endireitai as suas veredas.» 

                                                               (Lc 3, 4)

I LEITURA – Bar 5, 1-9

A promessa da libertação

SALMO  – 125 (126), 1-2ab. 2cd-3. 4-5. 6 (R.3)

Refrão: Grandes maravilhas fez por nós o Senhor:
               por isso exultamos de alegria.

Ou:        O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.

II LEITURA  –  Filip 1, 4-6. 8-11

"Peço que a vossa caridade cresça cada vez mais em ciência e discernimento".

EVANGELHO – Lc 3, 1-6

O início da missão de João Baptista


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II DOMINGO DO ADVENTO

 

Os textos desta missa (Bar 5, 1-9;S 125;;Fil 1, 4-11; Lc 3, 1-6) respiram fé e confiança, convidam judeus e cristãos a acreditarem na vitória final de Deus.

Nós acreditamos, e a fé dá novo sabor e novo impulso às nossas vidas. Mas pedimos ao Senhor que mantenha em nós a lucidez. Há, com efeito, uma religiosidade de aparência transcendente que se desdobra em louvores a Deus, mas fecha os olhos aos males do mundo - e não a queremos.

O Senhor Jesus ensinou-nos a acreditar em Deus e a louvá-lO sem cessar, mas ensinou-nos também que este mundo está dominado pelo pecado, pelo egoísmo e pela vaidade, pela sede da riqueza e do poder, pela injustiça e pela violência. O resultado são os pobres, os maltratados, os desprezados, os revoltados e também os que desistem. O Reino de Deus é claramente uma iniciativa de Deus contra este estado de coisas.

Mas, no pensamento de Jesus, instaurar o Reino de Deus não significa implantar na Terra uma autoridade que governe em nome de Deus. Jesus mostrou sempre grande desdém pelo poder, total falta de confiança nos poderosos, da politica ou da religião.

Também não disse que a única solução é sofrer e rezar.

Quis, antes de mais, que cada um dos discípulos começasse a amar a sério, a Deus e aos irmãos. E que, a partir daí - e instruído pela experiência que este amor alcança - assumisse de maneira nova a existência. Quis que os seus discípulos compreendessem que amar a deus é aceitar ser, não escravo de Deus, mas seu filho. Quem encontra o amor de Deus começa a rezar e a confiar na sua ajuda. É verdade que a ajuda de Deus é um grande mistério para todo o crente. Às vezes Ele parece infinitamente longe, ia a dizer absolutamente inexistente; e depois, dá-nos a força para acreditarmos na sua presença e para sermos fiéis.

Quis que os seus discípulos amassem os irmãos. Antes de mais, aqueles que a vida colocou no seu caminho. A mulher/ o marido, os filhos, os pais. Sabendo que às vezes isso é muito simples e cheio de encanto, e é às vezes difícil e muito duro.

Mas o amor aos irmãos não para aqui. No nosso tempo, como no tempo de Jesus, há pobres, há doentes, há muita gente à deriva. No tempo de Jesus não se conheciam os números, hoje sabemos que há mil milhões de pessoas que têm 1 euro para viver, 30 milhões morrem à fome cada ano, há mais de 40 milhões infectados com sida. Temos que ajudar os que moram perto - e não nos iludamos, há muitos destes ao pé de nós -, temos de trabalhar para enfrentar estes problemas á escala do mundo.

Se começamos a fazer estas coisas, ainda que de maneira imperfeita, vai crescer em nós o apelo a uma conversão mais funda. Descobrimos, por exemplo, que é absurdo ir fazer férias para o outro extremo do planeta. Começamos a ficar perplexos com a pergunta: por que é que eu tenho muito mais do que preciso e há milhões de seres humanos que trabalham e se dedicam mais do que eu e têm salários ou subsídios de miséria?

A questão da verdade na vida torna-se mais séria. Temos todos, uma ou outra vez, que assumir algumas responsabilidades (por exemplo votar). Há alguns que têm responsabilidades maiores, por exemplo na gestão de empresas ou em cargos políticos. Importa que nos ajudemos uns aos outros a não ceder à tentação de alinhar com aquilo que é mais cómodo, não dá maçadas nem prejuízos, é, como se diz, "politicamente correcto". O mal não pode ser disfarçado em bem, o injusto não pode ser aceite sob pretexto nenhum. "Seja este o vosso modo de falar: sim, sim; não, não" (Mt 5, 37).

É duro o projecto do Advento.

I DOMINGO DO ADVENTO

29 de Novembro de 2009

«vigiai e orai em todo o tempo, para que possais (...) comparecer diante do Filho do homem».

                                                                (Lc 21, 36)

I LEITURA – Jer 33, 14-16

Um dos textos do Antigo Testamento que anunciam o Messias e a Salvação.

SALMO  – 24 (25), 4bc-5ab. 8-9. 10. 14 (R.1b)

Refrão: Para Vós, Senhor, elevo a minha alma.

II LEITURA  –  1 Tes 3, 12 – 4, 2

Convite à caridade e à firmeza na fé

EVANGELHO – Lc 21, 25-28. 34-36

Ainda o tema do fim (quem começa deve saber para onde vai).

 

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I DOMINGO DO ADVENTO

 

A Igreja começa hoje um novo ano de oração. Começa-o com a preparação da festa do Natal.

Durante séculos, os judeus esperaram a chegada, o advento, do Messias. A ideia surgira, com contornos vagos, no tempo do rei David, no séc. X a.C., e tinha sido retomada, também de maneira pouco precisa, pelos profetas dos sécs. VIII e VII a.C.. Na altura em que Jerusalém é conquistada por Nabucodonosor e grande parte do povo é enviada para o exílio, Deus envia uma palavra de esperança pela boca de Jeremias:"Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para David um rebento de justiça que praticará o direito e a equidade na terra" (Jer 33, 14-16, primeira Leitura desta missa): O povo imaginou: na descendência de David há-de surgir um homem revestido da força de Deus que assumirá o poder, porá fim à dependência do estrangeiro, governará com sabedoria e deixará o mundo arrumado para sempre.

"No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério", isto é, no ano 27 da nossa era, João, filho de Zacarias, "começou a percorrer toda a região do Jordão, pregando um baptismo de penitência" e anunciando que estava iminente a chegada do Messias (Lc 3, 1-18). Nesse mesmo ano, Jesus começou a pregar. Seria, por parte de sua Mãe, da descendência de David, mas nunca se sentou num trono. Tinha vivido desde a infância em Nazaré, pequena povoação da Galileia, e era aí carpinteiro. Aprendera certamente os princípios da religião em casa e na sinagoga da aldeia, mas não tinha feito outros estudos.

Rapidamente a sua fama se espalhou. Anunciava a chegada do "Reino de Deus". Sem pompa nem comitiva, circulava pelas aldeias e bairros pobres, falando com todos. Havia nele o reflexo de uma profunda intimidade com Deus, a quem chamava "meu Pai", e de um profundo amor pelos homens. Curava os leprosos, os cegos, os mudos e os coxos, tratava com consideração as mulheres e as crianças, conversava com os marginalizados sentando-se à mesa com eles. Ensinava que Deus não é o Senhor da Lei, sempre pronto a castigar as infracções, é Aquele que ama como ninguém é capaz de amar, que perdoa, que compreende, que restaura, que salva. "Nunca nenhum homem falou assim" (Jo 7, 46). Houve um momento em que as multidões quiseram "arrebatá-lo para O proclamar Rei", mas Ele não o consentiu (Jo 6, 15). Muito menos se mostrou interessado no "poder religioso".

Nunca disse que seu Pai o tinha enviado a governar a Terra. Disse, sim. que seu Pai o tinha enviado a convidar os homens a uma aventura nova: vivermos todos, não para os nossos interesses pequeninos, mas para o amor verdadeiro. Amor àqueles que vivem connosco e aos pobres, aos doentes, aos humilhados e ofendidos, aos que se afundaram no pecado, aos que não têm esperança. Mostrou, com o seu exemplo, que isto é possível e disse que é urgente. "Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados..." (Lc 21, 25-36, Evangelho desta missa).

Os homens dividiram-se a respeito de Jesus e da sua mensagem. Os chefes dos judeus viram nele um transviado que podia subverter a religião verdadeira, o procurador romano concordou em em eliminá-lo porque sonhadores deste tipo são perigosos. Com o tempo, impôs-se um cristianismo diferente, que não incomoda muito. Reduziram o convite do Evangelho a uma moral mediana que obriga a ir à missa ao domingo e à confissão na quaresma, mas onde já não se divisa a loucura do dom. Os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os que precisavam de misericórdia, só por acaso ouviram falar de Jesus. Nós ouvimos e lemos o Evangelho de Jesus. Mas temos medo de o seguir a sério. Que faremos para libertar os nossos corações de tal peso?