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BOAS FÉRIAS
1.
Quem parte para férias
tem primeiro que arrumar as malas, de tal maneira que nada lhe falte nos
dias em que está fora. O curioso é que tem também de arrumar a casa para
a deixar suficientemente acolhedora para o regresso. Estes últimos dias
são, então, de intenso trabalho.
·
É preciso pagar as
últimas contas para não haver
surpresas, com as multas a aplicar aos atrasados, com o desligar do
telefone, da água e da luz, com o acumular de dívidas que complicam a
vida em Setembro.
·
Será bom ter tudo em
ordem, a roupa lavada, o
frigorífico vazio, o congelador só com o indispensável, as camas feitas,
as roupas de inverno nas gavetas, os aparelhos eléctricos desligados.
·
Depois, convém fazer a
mala onde não faltem roupas de
praia ou campo, objectos de higiene pessoal, um par de sapatos
suplementar, uma ou duas camisolas para dias mais frios.
·
Têm de escolher-se os
livros que ficaram por ler ao
longo do ano, acrescentando-lhes os que estão na moda e de que todos
falam. A par disso, talvez convenha levar alguns DVDs, e alguns CDs para
não falar dos Ipod ou mesmo do computador para espreitar a internet e
entreter-se com jogos imaginários.
·
É claro que não podiam
faltar os instrumentos de desporto, a raquete de ténis, os calções de banho, os sapatos de jogging ou até
a bola de volley ou de football.
A acompanhar isto podem meter-se na mala
os livros de oração, ao menos o Novo Testamento e a liturgia diária,
para criar momentos de diálogo com Deus ou de preparação para a missa
dominical.
Na mala, não podem levar-se coisas a
mais, mas tem de se meter nela todo o indispensável para umas férias
tranquilas. Em casa, tudo tem de ficar impecável, para que, no regresso,
se encontre tudo no lugar.
2.
Mas em férias é necessário, também, preparar o coração.
Vão encontrar-se inúmeras pessoas, quase desconhecidas, com muitas
experiências e alguns problemas. Quer com os mais próximos, quer com os
nossos amigos, torna-se indispensável um coração disponível. Porquê e
para quê?
·
Para acolher e
compreender toda a gente,
sejam crianças ou adultos, jovens ou mais velhos, pobres ou ricos,
pessoas conhecidas ou desconhecidas, com problemas ou sem eles, com
alegria ou com sofrimento;
·
Para acompanhar,
sobretudo aqueles que estão vencidos pela solidão ou pela saudade e não
sabem que volta dar à vida, para serem felizes e fazerem outros felizes
também;
·
Para conversar sobre
coisas interessantes, o último
filme que chegou às salas de cinema, um livro do escritor que está na
berra, um programa de televisão que traz novas ideias, um museu que
abriu há pouco tempo, um espectáculo original, uma conferência, inúmeras
coisas (sem maldizer);
·
Para colaborar-servindo,
talvez com a organização de programas, passeios, visitas a monumentos,
torneios de desporto, ou, simplesmente, ajudando em casa, no cuidado de
irmãos, dos filhos ou dos netos, em inúmeras coisas.
Só um coração que é capaz de amar se
dispõe, nas férias, a atitudes destas. Se não, cai-se no egoísmo, no
jogo de interesses, quando não nos caprichos, nas brigas, nas discórdias
ou no mal querer.
3.
E porque não um lugar privilegiado a Deus?
Com um programa de oração, as férias adquiriam uma cor mais suave, com
rasgos de sobrenatural em que a contemplação daria um tom diferente a
todos os momentos. Recordo as férias longínquas, oito dias no Mosteiro
de Singeverga em 1959, dez dias de silêncio total em Janeiro de 1975 no
Mosteiro de Monserrat, em Barcelona, e de encontros de 15 dias, na
Maison de Prière em Troussures,
ao pé de Paris, com o Abbé Caffarel em 1981 e 1982. Foram férias únicas
que não esquecerei mais.
Nós, os padres, também fazemos férias e
também as preparamos com cuidado.
·
O Padre Arcanjo
está na Alemanha e na Áustria, a ajudar sacerdotes em paróquias que não
podem parar no Verão.
·
O Padre António
estará no mês de Setembro com a família, na sua aldeia da Beira, entre
Coimbra e o Fundão.
·
Eu passarei uma semana
em retiro e, depois de visitar uns amigos, ficarei com a família 15 dias
na Figueira da Foz.
Desejemo-nos boas férias uns aos outros.
Sacerdotes e leigos da nossa comunidade devemos descansar, cada um à sua
maneira, para regressarmos cheios de energia, podendo depois avançar nos
caminhos da evangelização que o nosso programa pastoral requer em
2010/2011.
4.
Antes de partirmos para férias,
uma notícia muito boa para nós todos: em Setembro virá trabalhar na
paróquia o Padre Joaquim Tyombé, da Arquidiocese de Lubango, em Angola.
Vem estudar para a Universidade Católica e ajudar-nos-á na vida da
paróquia. Agradecemos ao Senhor Patriarca a oferta deste sacerdote à
nossa comunidade.
Para todos, boas férias!
11 de Julho de 2010

FAZER SILÊNCIO, UM DESAFIO
1.
O mundo actual poderia ser chamado “sociedade do barulho”.
De facto, sobretudo nas grandes
cidades, o ruído é ensurdecedor. O trânsito nas ruas, a vozearia nos
cafés e restaurantes, o atropelo das palavras nos autocarros ou nas
filas de espera em qualquer repartição, tudo traz à cidade um barulho
constante. Quando se entra em casa, mais tarde, logo se liga a televisão
e a rádio, diz-se para ter companhia. Os noticiários e os outros
programas exigem sempre o contraditório que é o sinónimo de uma
discussão que não termina mais. É claro que já se não fala das
discotecas ou das festas populares, porque aí, então, o volume das vozes
abafa qualquer conversa. É a “sociedade do barulho” em que o ruído
parece indispensável.
2.
Em férias, não seria possível criar tempos de silêncio?
Talvez fosse uma oportunidade para acalmar os sentidos e, sobretudo,
para renovar o espírito. Alguns momentos de silêncio, ao longo
dos dias, são um tónico para a saúde física, mas são-no sobretudo para a
saúde mental ou, porque não dizê-lo, para o equilíbrio espiritual da
pessoa humana. Passa-se a vida a correr de um lado para o outro, a
multiplicar conversas de negócios ou de entretém, a ouvir recomendações
e conselhos quando não gritos e insultos. Nesta vida agitada de um ano é
urgente parar, respirar fundo, fazer silêncio, para ter a serenidade
indispensável à harmonia e ao equilíbrio que fazem saudável o ser
humano. Este silêncio tem inúmeras dimensões. É no conjunto delas que o
silêncio se torna indispensável.
·
Só no silêncio se dão
asas à recordação. Trazer à
memória todo um passado de que se tem saudades é um exercício que no
silêncio se consegue. Pessoas e acontecimentos passam pelo coração e
recriam a vida.
·
Só no silêncio se
aprofunda a fé. O encontro
coma pessoa de Jesus, na fé cristã, exige percorrer os seus caminhos,
ouvir de novo as suas palavras, entender os seus gestos. Tudo isto só é
possível quando o ruído, à volta, se cala.
·
Só no silêncio é
possível a contemplação e o êxtase. O nascer e o pôr do sol, a quebra das ondas junto à praia, a brisa da
tarde nas florestas, o sorriso das crianças e a beleza das flores, tudo
reclama a paz interior que sem o silêncio não se consegue.
·
Só no silêncio se pode
fazer investigação científica ou produção literária.
Criar acontecimentos úteis à humanidade,
descobrir fórmulas que concretizem esperanças, escrever contos e poemas
que recheiam o espírito e tantas outras coisas que são inovação, tudo
nasce no silêncio que se abriu ao que era novo.
·
Só no silêncio pode
viver-se em intimidade com
Deus. Com razão, o Evangelho de Mateus refere que é preciso cada um
fechar-se no seu quarto e, ali, a sós com Deus, falar com Ele como um
amigo fala a seu amigo. Esta experiência vital de Deus não admite o
barulho, pede um silêncio sempre maior.
·
Só no silêncio o amor se
revela. Depois de muito terem
conversado, aqueles que se amam de verdade, caminham de mãos dadas sem
nada precisarem de dizer. O silêncio é a consagração do amor.
Na sociedade do ruído, descobrir o
silêncio é um desafio de maior importância. E o que é pena é que a maior
parte das pessoas ainda não o entenderam.
3.
O silêncio das palavras abre a porta à linguagem dos gestos
Durante as férias, pode ser original programar tempos de silêncio.
Alguns fazem-no durante alguns dias, num retiro espiritual ou cultural;
outros consagram um dia por semana para se isolarem, passeando sozinhos
na montanha ou à beira-mar; outros ainda reservam meia hora diária para
“desintoxicar” do ruído de um dia em que continuam a estar no meio do
barulho da família ou do grupo de amigos. Estes tempos de silêncio são
essenciais, no tempo de férias. As férias são dias únicos para dar tempo
em silêncio àquilo que quase se não faz durante o ano:
·
Dar tempo à poesia:
ler os poetas e entender as suas mensagens, tantas vezes fundamentais
para construir mundos novos;
·
Dar tempo às artes:
parar diante de um quadro, de autor preferido e tentar entender a sua
linguagem; na pintura, na escultura, nas artes plásticas há sempre
segredos a descobrir;
·
Dar tempo à ternura:
acompanhar o silêncio de um velho, com tantas histórias de vida, ou
admirar a paz de uma criança no silêncio do berço, ou deixar a saudade
invadir o coração;
·
Dar tempo à oração:
criar espaços de silêncio para fazer a experiência vital de Deus que
constantemente interpela para uma felicidade diferente, a alegria dos
seus dons;
O silêncio das palavras não é o silêncio
do coração. Sem ruído, o coração fala mais alto e sentem-se mais os
desafios da realização e da esperança.
4.
Porquê falar do silêncio neste tempo de férias?
Calar as vozes que inquietam, calar as vozes que magoam, calar as vozes
que dispersam, é um exercício magnífico para o tempo que todos os anos
se repete no Verão. Porque as férias são necessárias perante o trabalho
que a todos espera no ano que começa em Setembro, o silêncio é agora
muito importante.
·
Para descansar dos
inúmeros ruídos que a todos
envolveram meses a fio e que impediram algum melhor acerto nas decisões;
·
Para sonhar novos ideais
que vão dar mais beleza ao
cansaço de cada dia, com projectos inovadores que respondam ao anúncio
da Boa Nova e ao serviço da caridade;
·
Para dialogar com Deus
na oração que cada um
procurará ter, com mais intimidade e com a criatividade necessária para
a plena e perfeita identificação com Cristo que nos conduz à santidade.
Aproveitemos as férias para fazer
silêncio, a fim de que possamos depois conversar com os outros, a partir
de um coração novo, um coração que sabe amar.
4 de Julho de 2010

AS FÉRIAS ESTÃO A CHEGAR
-
O Verão começou, como acontece
todos os anos, a 21 de Junho. Já fazia falta o sol e a pontinha de
calor que dá alegria à vida, uma vez que a chuva e o frio teimavam
em continuar. Os próximos meses, Julho, Agosto e Setembro, são
oportunidade para, à escolha de cada um, se programarem as férias.
Muitos não conseguem mais do que uns 15 dias de descanso. Alguns
propõem-se, durante um mês, sair do seu meio habitual e rumar para
outras paragens, deixando para trás todas as preocupações. Só as
crianças e os jovens nas escolas podem alargar mais os dias de
repouso. Mas será que as pessoas são capazes de preparar os dias de
férias, programar as actividades a desenvolver, escolher com cuidado
a forma de ocupar os dias? É a isto que se chama “preparar as
férias”. O que são afinal as férias?
·
Tempo de descanso, após um ano de trabalho,
muitas vezes carregado de dificuldades, com sofrimento à mistura e sem
os resultados desejados. É, então, oportunidade de recuperar forças.
·
Tempo para rumar a outras paragens, ver outros
lugares, conhecer outras culturas, contactar com outras pessoas, fazer
outras experiências, experimentar outros sabores, um sem número de
coisas que uma viagem proporciona.
·
Tempo para estar com velhos amigos que, ao longo do
ano, vivem longe. É o momento de fazer crescer uma amizade que nem os
silêncios, nem as distâncias conseguem apagar. De facto, os verdadeiros
amigos são os primeiros e nem sempre pode estar-se com eles…
·
Tempo para fazer coisas que se guardaram para as
férias: ler alguns livros, ver alguns filmes, ouvir música, visitar
algum museu, experimentar alguns “pratos exóticos”, saborear a vida no
convívio da família, com filhos e netos por perto.
·
Tempo para ir à praia, para estar no campo, para
respirar silêncio, para deixar o sol entrar na vida e ler, no caminho
das estrelas, o sonho de aventuras sempre mais belas, com a certeza de
que tudo isto tonifica o espírito e dá coragem para recomeçar.
-
As férias serão também tempo para
Deus? Esta é uma pergunta oportuna, uma vez que muitos, em
férias, se esquecem de conversar com este amigo único, “o Senhor
Deus das nossas vidas”. Há pessoas que consagram os primeiros dias
de férias a tempo de recolhimento, numa qualquer casa de oração.
Pode ser num retiro pessoal ou de grupo ou, simplesmente, num
mosteiro ou convento onde todo o ambiente facilita a relação com
Deus. Depois, ao longo dos outros dias de férias, podem programar-se
actividades mais voltadas para a espiritualidade:
·
Procurando aprofundar a fé, na leitura da Palavra
de Deus, no conhecimento mais exigente da pessoa de Jesus Cristo, na
afirmação de uma aproximação maior ao mistério da Igreja;
·
Consagrando um tempo significativo à oração,
“falando com Deus como um amigo fala a seu amigo” (cf. Ex 33, 7-11),
confrontando os acontecimentos lidos nos jornais com o projecto de Deus
que é sempre um projecto de amor e de paz;
·
Dedicando algumas horas a visitar os mais pobres,
levando-lhes o conforto de uma presença, com a partilha suficiente que
os alivie nas suas dificuldades e lhes garanta a suficiente qualidade de
vida;
·
Participando com mais frequência na Eucaristia, o
grande Sacramento que “é sinal de unidade, vínculo de amor e banquete da
alegria pascal” (S.C.47); a missa quase diária pode ser estímulo para
uma espiritualidade comprometida na vida;
·
Vivendo com o povo as festas dos oragos da aldeia,
dando assim testemunho de uma fé vivida dentro da comunidade local;
participar nas tradições das terras de referência é um sinal de que a
cultura, os ambientes mais abertos, o sucesso social não adormeceram a
fé cristã recebida no seio da família.
Deus não pode estar
ausente das férias de um cristão. Importante é saber como privilegiar a
relação com Deus, num tempo que está mais livre, em que melhor se pode
chamar a Deus “Abba, Pai”.
-
Desafios para as férias de 2010.
Este ano os cristãos estão envolvidos em acontecimentos que marcaram
muito a vida das famílias, das comunidades, dos movimentos.
·
Há uma crise económica, o que obriga os cristãos a
serem moderados nas suas despesas. Mesmo que tenham bens, também então
têm o dever de ser austeros, repartindo o que gastariam, por outros que
não têm possibilidade de fazer férias.
·
Bento XVI fez uma viagem apostólica a Portugal. Em
férias há oportunidade de reler os discursos do Papa, ver o DVD que
lembra a passagem do Santo Padre por Lisboa, Fátima e Porto, tirar
conclusões para a actividade pastoral do próximo ano.
·
O ano 2010 foi o Ano Sacerdotal. Poderá fazer-se um
estudo sobre o sacerdócio, descobrir a importância do sacerdócio comum
que todos os cristãos devem sentir ser elemento da sua consagração
baptismal e, também, sentir a responsabilidade pelo sacerdócio
ministerial. Conversar sobre a missão sacerdotal, interessar os jovens
pela beleza desta missão e orar constantemente ao Senhor para que “mande
operários para a sua messe” (Lc. 10, 3).
·
A passagem do Padre João para a casa de Deus obriga
a pensar como pode cada um compensar a sua falta: aceitando ser
catequista, querendo colaborar na liturgia das crianças ou em outras,
continuar a estudar para valorizar a sua acção pastoral.
Estes e outros
acontecimentos podem motivar uma programação diferente das nossas
férias. A criatividade faz parte da nossa maravilhosa aventura humana e
cristã.
-
A Paróquia também tem tempo de férias.
Nestes três meses, reduzem-se as actividades. Cada sacerdote terá um
mês de férias: Julho – Padre Arcanjo; Agosto – Padre Vitor; Setembro
– Padre António. O Padre Ernesto ajuda a cobrir as faltas. Ao
domingo deixarão de celebrar-se as missas das 13h 15 e das 17h 45.
As catequeses param até Setembro. Só a caridade continua em pleno a
responder aos desafios do amor repartido.
Preparemo-nos
para as nossas férias.
27 de Junho de 2010

AVALIAÇÃO
-
Quando se fala de avaliação,
acontece sempre uma certa angústia, porque as pessoas temem que os
outros se debrucem apenas sobre o que de negativo aconteceu na sua
acção ou na sua vida. Avaliação, porém, é extremamente importante,
para reconhecer o que de bem se fez e que é preciso continuar a
valorizar ainda mais, e para enfrentar o que houve de menos bom e
que pode ser corrigido, depois de ultrapassado, abrindo portas a
novos sonhos. Avaliar e ser avaliado faz parte do caminho normal das
pessoas e das organizações.
·
O exame de consciência, tão recomendado na nossa
vida espiritual, é uma forma bonita de avaliação pessoal.
·
As provas de exame propostas nas escolas, quer para
passar de ano, quer para fazer licenciaturas, mestrados e doutoramentos,
são indispensáveis a resultados importantes para as pessoas e as
instituições.
·
A avaliação de profissionais constitui um desafio à
mais qualidade, utilíssimo para garantir desempenhos – atingir melhores
objectivos.
·
As empresas são avaliadas pelos relatórios de
actividades e de contas que, com resultados positivos, permitem
projectar mais longe os novos programas e orçamentos.
·
Também as comunidades cristãs têm o dever de
avaliar-se e deixar-se avaliar, tendo em atenção a sua acção profética,
litúrgica e sociocaritativa. É por isso que as paróquias dão conta à
diocese das suas dificuldades e dos seus projectos, esperando a
aprovação sempre necessária.
·
Até a Igreja universal, em muitos Sínodos e
Concílios, faz exercício de avaliação, para corrigir erros (os Papas
chegam a pedir perdão por eles) e para abrir caminhos novos perante o
mundo que se renova, sobretudo, perante as constantes exigências do
Evangelho.
Avaliar é acto indispensável à vida humana, uma vez que os seres humanos
são imperfeitos e devem poder chegar mais longe, lutando constantemente,
para a perfeição desejada.
-
Jesus Cristo não teve receio de
avaliar e de deixar-se avaliar. Ao longo do Evangelho deparamos
com situações que são maravilhoso exercício de avaliação sem um
estudo exaustivo. Gosto de recordar alguns:
·
Depois de enviar os discípulos dois a dois,
deu-lhes orientação e eles partiram para levar a paz a toda a gente onde
chegavam (cf. Lc 10, 17-20). Depois, reuniu-se com eles e eles contaram
o que aconteceu, tendo Jesus dado a palavra final de avaliação de quanto
haviam feito.
·
A Pedro, cuja debilidade bem conhecia,
apesar do sua espantosa generosidade, pôde dizer: “E tu, uma vez
convertido, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 32). É o convite a uma
certa revisão de vida, autêntica avaliação pessoal para Pedro.
·
A João e Tiago, filhos de Zebedeu, Jesus foi capaz
de dizer “não sabeis o que estais a pedir” (Mt 20, 22). Ter este ou
aquele lugar não depende de mim mas do Pai que está nos céus.
·
A Judas, numa última tentativa de aproximação,
quase a pedir-lhe que revisse a sua posição, Jesus soube dizer: “Com um
beijo, entregas o Filho do Homem?” (Lc 22, 48). Era o último apelo à
avaliação necessária, para não cair na tentação de trair um amigo.
·
O próprio Jesus também quis avaliar-se. Na oração
em Getsmani Ele acabou por rezar: “Pai, se é possível, afasta de mim
este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22, 42).
Em todo o seu caminhar, Jesus foi-se avaliando para cumprir
sempre a vontade do Pai e soube avaliar os seus discípulos para que,
vencidas as dificuldades, pudessem com a força do Espírito Santo,
continuar a obra começada.
-
Também na Paróquia do Campo Grande
queremos avaliar todos os projectos que estão em curso. Neste
fim de ano pastoral, viveram-se inúmeras iniciativas, algumas de
extraordinária importância e mesmo excepcionais. Foi o caso da
passagem do Papa pela nossa paróquia (na Av. Estados Unidos e em
Entrecampos e Av. da República) e também o Ano Sacerdotal (com a
imagem do Bom Pastor entre nós). Tivemos em toda a acção pastoral
uns 38 projectos diferentes. Como realizámos esta aventura pastoral?
·
Pedimos a cada projecto um pequeno relatório numa
folha A4, com a indicação dos resultados conseguidos e a ideia para
prosseguir a acção.
·
A 9 de Julho, o Conselho Permanente (secretariado)
irá analisar o que se fez, cruzar os elementos que permitam fazer
crescer a comunidade, nesta grande aventura da evangelização.
·
Estabelecer-se-ão os critérios de acção para o
próximo ano pastoral, tendo em conta a profecia (o anúncio de Jesus
Cristo vivo), a liturgia (a celebração dos sacramentos, a vida de
oração), a acção sociocaritativa (a caridade generosa em tempo de grande
crise).
·
Conseguir-se-á lançar em Setembro o novo programa
pastoral para 2010/2011, desafio enorme para, com entusiasmo,
continuarmos a levar a todos os que no-la pedem a Boa Nova da Salvação.
São os serviços que
estão a autoavaliar-se, é a comunidade paroquial enquanto tal que deixa
avaliar-se, é cada pessoa, com exigência espiritual que tem de
avaliar-se. A avaliação, procura do bem que se faz para o projectar e do
menos bom que acontece para o contrariar, é isso que permite “fazer
novas todas as coisas” (Ap. 21,5)
4.
Já se está a preparar o novo ano pastoral. É no
esforço de todos, na generosidade de muitos e na alegria de cada um que
continuamos unidos “na doutrina dos apóstolos, na fracção do pão, nas
orações e, até, na partilha de bens” (Act 2, 42-43).
20 de Junho de 2010

CARTA DE ROMA
NO
GRANDE CENÁCULO DO ANO SACERDOTAL
Queridos Amigos
-
Escrevo de Roma, onde estou a
participar num encontro de sacerdotes que marcará o fim do Ano
Sacerdotal. Como sabem, este ano foi considerado “Jubilar”, pois
nele se comemoram os 150 anos da morte do santo Cura d’Ars, modelo
de sacerdote. O Papa Bento XVI quis encerrar o ano sacerdotal com um
“grande cenáculo”, tempo de fraternidade, de reflexão e oração.
Estamos quase 8.000 sacerdotes, dos cinco continentes, representando
umas centenas de países. Não podem imaginar a alegria que sentimos,
estando lado a lado, padres mais novos e mais velhos, padres
diocesanos e religiosos, padres cheios de vida e outros já cansados
por inúmeros caminhos. Durante estes três dias em Roma, 9, 10, 11 de
Junho, reunimo-nos em duas das Basílicas de Roma: S. Paulo fora de
Muros e S. João de Latrão. É nesta que estou a viver cada momento
deste grande encontro.
A Basílica de S. João
de Latrão é a cátedra da Diocese de Roma, o que a coloca acima de todas
as Igrejas do mundo. É aqui que se reúnem 50% dos 7.500 padres inscritos
neste “cenáculo”. Temos três grandes temas de reflexão:
·
Conversão e missão – Só um coração radicalmente
convertido ao Senhor Jesus Cristo, em caminho de santidade, será capaz
de viver a missão de ir por todo o mundo anunciar a Boa Nova. O próprio
Jesus dissera a Pedro: “E tu, uma vez convertido, confirma os teus
irmãos” (Lc 22, 32).
·
Invocando o Espírito Santo com Maria, em fraterna
comunhão – “O amor está difundido nos nossos corações, pelo Espírito
Santo que nos foi dado” (Ro 5,5). Esta certeza cria relação de amor no
presbitério, de tal forma que nenhum sacerdote fica sozinho, quanto ao
serviço do Reino, com Maria Mãe de Jesus.
·
Com Pedro, em comunhão eclesial – A vida, na
comunidade cristã, é uma vida em comunhão. “Que a minha comunhão
convosco seja também comunhão com o Pai e seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo
1,3). Esta densidade da unidade eclesial é parte integrante do
sacerdócio, também ele gerador de unidade.
No último dia, na
Praça de S. Pedro, celebraremos a Eucaristia com Bento XVI. É o momento
mais alto deste nosso cenáculo.
-
A ideia da comunhão sacerdotal é
a marca destes dias do Ano Sacerdotal. De facto, no dia da ordenação
sacerdotal, o padre afirma a sua comunhão com o Bispo e, através
dele, a sua união a todo o presbitério. “Prometes-me obediência e
reverência” pergunta o Bispo, ao que o jovem padre responde:
“Prometo”. Esta obediência e reverência outra coisa não são do que a
entrega da inteligência e da vontade na missão que ao padre é
confiada. Esta comunhão total é indispensável, é o grande sinal da
unidade. Ao longo da minha vida tenho sentido, de muitas formas, o
desafio desta comunhão total.
·
Recordo o Bispo que me ordenou, D. Domingos, Bispo
da Guarda. Chamou-me para trabalhar com ele. Acompanhei os seus sonhos,
as suas esperanças, como as suas desilusões e sofrimentos. Foi um tempo
de entrega total.
·
Recordo o Padre Manuel, depois Bispo de Nampula.
Durante seis anos, em trabalho lado a lado, recriei o sacerdócio e
descobri as alegrias do serviço radical aos outros. Como ele me disse,
em cartão que me enviou: “Nunca queiras nada, serve sem medida”.
·
Recordo também o Padre Armindo, que um dia me
acolheu no Campo Grande e me aceitou para celebrar, em cada domingo, a
Eucaristia do Campo Grande. E a comunhão foi tal que acabei por ficar,
para continuar o milagre da Igreja na cidade.
·
Recordo ainda o Padre João, que agora nos deixou.
Durante duas dezenas de anos foi confidente a quem confiava
dificuldades, mas foi também exigente no pensar e sonhar ministério, e
foi sobretudo exemplo de desprendimento, de pobreza, de disponibilidade
total.
Falar de comunhão
sacerdotal reclama descobrir quem nos ajudou a caminhar e, ao mesmo
tempo, reclama também saber a quem podemos apoiar nas sendas do
sacerdócio.
-
Nestes dias de Roma, o cenáculo é
sobretudo um tempo de retiro espiritual e de oração comprometida.
Três marcas podem ficar do ano sacerdotal:
·
A referência constante à pessoa de Jesus. A vida
sacerdotal não assenta em doutrinas ou preceitos, radica na pessoa viva
de Jesus que dá sentido a todos os momentos do sacerdócio. A minha vida
está n’Ele.
·
A fidelidade à missão. Só o amor é garantia de
fidelidade. E porque se ama o que se é e o que se faz, a eficácia da
missão está garantida. Assim eu saiba amar.
·
A oração pessoal intensa. Sem tempos de intimidade
com Deus, sem a experiência vital de Deus, não é possível ser fiel e
realizar a missão que me é confiada.
Esta trilogia simples
pode ser a conclusão a tirar deste cenáculo sacerdotal que agora se
abriu em Roma e a que eu tenho o privilégio de participar.
-
Queridos Amigos, durante esta
semana no centro da cristandade terei sempre presente a nossa
comunidade paroquial de Campo Grande. Desejo que continuemos unidos,
pedindo ao Senhor que nos dê sacerdotes, para que a nossa missão
possa chegar mais longe.
Muito unido no Senhor Jesus Cristo.
13 de Junho de 2010

PASSOU PELA NOSSA PARÓQUIA FAZENDO O BEM
1. O dia do Corpo de Deus,
na nossa paróquia do Campo Grande, foi este ano diferente. Pelas 10 da
manhã, no hospital de S. José, o Padre João não resistiu aos sofrimentos
dos últimos meses e partiu ao encontro de Deus. Não podia ter um dia
mais bonito para celebrar a ressurreição. Ele sabia que “a vida não
acaba apenas se transforma e, desfeita a tenda do exílio terrestre,
adquirimos no céu uma habitação eterna” (2 Cor 5,1). Então, nesta Festa
do Corpo e Sangue de Cristo, o Padre João foi celebrar no Céu o banquete
eterno, a Eucaristia definitiva. Ele conhece, hoje, em toda a sua
plenitude, a glória do Cordeiro. A 17 de Dezembro passado, com uma queda
na rua, começou o calvário do Padre João Resina. Um hematoma
extensíssimo, uma cirurgia de risco e, depois, um coma de quase seis
meses.
• Depois desta situação extrema, em inconsciência
profunda, com total
incapacidade de comunicação, sem poder responder a familiares
e
amigos,
• Depois de intensos cuidados médicos, no Curry
Cabral, em S. José e no Hospital do Mar,
• Depois das inúmeras visitas das pessoas mais
próximas que, sem grandes sinais, procuravam adivinhar sentimentos e
expressões, sorrisos e angústias,
• Depois do carinho dos irmãos que o não deixaram um
único momento e tudo fizeram para o trazer de novo à vida,
• Depois do Sacramento da Unção dos Doentes e das
muitas orações repetidamente feitas na Comunidade Paroquial,
após todas as incertezas e as esperanças, abriram-se para o Padre João
Resina as Portas do Paraíso. Vale a pena rezar: “As portas da nova
cidade abrem-se para ti. Deus é Pai, é Amigo, salvar-te-á.”
2. O Padre João nunca gostou de homenagens, nem quando se jubilou,
deixando de ser professor no Técnico, nem quando completou 50 anos de
Sacerdócio. Nunca quis mais que uma Eucaristia de Acção de Graças e uma
refeição de amigos. Nem ‘prendas’, nem ‘discursos’, nem outras
expressões de festa. É claro que não pode fazer-se agora uma homenagem
póstuma. Mas é muito bom recordar o Padre João.
• Foi um sacerdote com total entrega à sua missão: em
Belém, com o Padre Felicidade; na Capela do Rato em tempos muito
difíceis; em S. Nicolau e em Moscavide, com responsabilidades pastorais
acrescidas; aqui na nossa comunidade paroquial do Campo Grande que
acumulou com a Paróquia da Cruz Quebrada; em tudo sempre o mesmo pastor.
• Foi um cientista de extraordinário rigor, desde
Lovaina onde se doutorou, ao Instituto Superior Técnico onde ensinou e à
Universidade Católica, com os seus vários institutos, onde ajudou a
formar profissionais de qualidade.
• Foi um pensador de rara cultura publicando artigos,
proferindo conferências, escrevendo livros, dando opinião, comunicando
as suas reflexões que se repercutiam depois na prática de muitos.
• Foi um catequista de rara intuição, abrindo caminhos
novos na transmissão da Palavra de Deus a crianças e a adultos, para a
descoberta da fé cristã, como razão de viver. No Campo Grande rasgou
horizontes, formou pessoas, iniciou uma catequese para o futuro,
provando que ciência e fé se não contradizem.
• Foi um amigo único,
no estar, no respeitar, no conviver e no
servir. Se amar é fazer felizes os outros, o Padre João teve atenção com
todos, relacionando-se com cada um segundo a sua cultura, a sua
sensibilidade, a sua fascinação pelo belo, pela riqueza que cada pessoa
trazia consigo.
• Foi um homem de oração que se perdia, noite adentro,
com um pequeno grupo de amigos, a conversar com Deus, na capela do
quinto andar aqui na Paróquia. Gostava muito de fazer silêncio,
cultivando a intimidade máxima com o Senhor a quem deu a vida.
O Padre João foi um homem de Deus, é a síntese que resume toda a sua vida
pessoal, quer na cultura, na ciência, na filosofia, quer na sua fé, no
seu sacerdócio, na sua acção pastoral.
3. Nos últimos trinta anos, o Padre João Resina foi nosso
companheiro de caminho ao serviço da Comunidade Paroquial do Campo
Grande. Estou certo de que não partiu. Como acreditamos na vida eterna,
compreendemos a morte, o maior limite, mas cremos também na
ressurreição, o maior desafio. De certeza que o Padre João junto de Deus
vai acompanhar dia a dia a vida da nossa comunidade. Mais do que
pedirmos para ele a paz, queremos pedir-lhe que junto de Deus peça por
nós, pelo nosso trabalho e por todos os que, de qualquer maneira,
recorrem à nossa comunidade.
Padre João, até breve!
6 de Junho de 2010

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