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SER CRISTÃO EM TEMPO DE CRISE
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Foi ao longo do ano 2009 que, a nível
mundial, se sentiram os efeitos da crise. A banca, com todo o seu
poder económico, criou a instabilidade generalizada; grandes
empresas de renome internacional ruíram como baralhos de cartas e a
crise instalou-se na maioria dos países, porque a sua referência se
perdeu. É certo que as crises desafiam a um crescimento maior, mas é
certo também que a crise que o mundo está a viver se repercute em
todas as estruturas da sociedade e todas as pessoas, desde as mais
importantes até às mais simples, perguntam-se “para onde
caminhamos”.
Por altura do Natal, os
voluntários para o Quarto Mundo escreviam uma carta em que citavam uma
pessoa em angústia. Dizia ela:
·
Como é bom poder voltar a trabalhar a tempo inteiro
e receber um salário de verdade…
·
Como é bom fugir à pobreza, mesmo provisoriamente,
e exercer uma profissão que nos agrada…
·
Como é bom poder dar, ou antes: partilhar um pouco
do que ganhamos com os outros…
Por detrás destas
simples frases, é fácil adivinhar como são difíceis os anos deste início
de milénio, como se tornaram muito duros estes tempos marcados pela
crise.
-
Simplesmente esta crise é global,
apanha todos os aspectos da vida pessoal e social. É cada um que tem
de descobrir a forma de controlar este tempo em que as faltas são
maiores e o projecto-esperança é mais difícil.
·
É uma crise económica que leva muitos a não ter
sequer dinheiro para uma refeição diária. A pobreza envergonhada
assentou arraiais no viver comum de tantos, e são amigos e conhecidos
que vivem amarrados às dificuldades.
·
É também uma crise social que multiplica os pobres
e os desempregados, que não absorve os imigrantes e cria emigração, que
atira os mais velhos para lugares de sobrevivência, nada mais.
·
É ainda uma crise espiritual e religiosa, muitas
vezes surgida no culpabilizar de Deus pela não resolução de todos os
problemas. Avoluma-se então a crise de fé nas novas gerações e os mais
velhos acabam por perder a esperança.
·
E é até uma crise eclesial porque as próprias
comunidades cristãs não conseguem absorver todos aqueles que as
procuram, dando resposta aos problemas emergentes de que cada um é
portador.
Curiosamente, os
políticos, os economistas, os empresários, a par dos profissionais, dos
gestores, dos líderes, todos querem resolver a crise, mas centram-se
apenas nas questões económicas, eventualmente as menos importantes para
vencer as dificuldades que são globais.
-
Faltam valores na cidade e só
encontrando valores de referência se consegue abrir o caminho novo
que a humanidade deve percorrer para reencontrar o sentido da
própria vida. João XXIII dizia na Encíclica Pacem in Terris,
que os pilares da paz são a verdade, a justiça, a liberdade e o
amor. Nos estudos da sociologia política diz-se muitas vezes que não
é possível uma organização eficaz se se não têm em conta a
tolerância, a convivência, o diálogo, a solidariedade e a harmonia
em sociedade.
Ficam aqui alguns
valores que é imperioso implantar na sociedade, para um futuro melhor,
um amanhã sem crises constantes:
·
A procura da justiça sempre, dando a cada um aquilo
a que ele tem direito, desde o salário justo, ao trabalho necessário,
aos cuidados de saúde indispensáveis, à educação suficiente, a tantas
outras coisas que alimentam a esperança do melhor.
·
A oferta da liberdade a que cada pessoa tem
direito, para que possa escolher, decidir, afirmar-se, sabendo que ser
livre é o elemento fundamental para a realização integral da pessoa.
·
A garantia da verdade em todas as relações humanas,
sobretudo através da informação bastante para percorrer caminhos
pessoais de autêntica realização e não caminhos de outros que conduzem à
desilusão e à frustração completa.
·
O sentido de Deus que permita ver todas as coisas
com os olhos de alguém que é superior e viver com alegria todos os
momentos de realização num projecto diferente, marcado de uma mais
valia, a da construção do bem comum.
·
A pertença à Igreja, valor eminentemente cristão
que assegura que em situação alguma se está só, uma vez que a Igreja é
uma comunidade de irmãos em que a grande lei é o amor.
Estes e muitos outros
valores iriam permitir vencer todas as crises, uma vez que cada pessoa e
cada grupo deixaria de estar no centro de todas as atenções. Bem ao
contrário, seria o bem comum a referência para todas as mudanças de
atitude, em cada pessoa e em cada grupo de influência.
-
Para mudar o rosto do mundo, para
superar a crise, o cristão poderia alicerçar-se no pensamento de
Bento XVI, com as suas três grandes encíclicas:
·
Em “Deus é Amor”, aprendia-se a arte de, com
justiça, amar, perdoar e reconciliar-se.
·
Em “Salvos na Esperança”, descobria-se que a partir
do trabalho e do sofrimento, também com a oração, tudo pode ser
diferente, encontrar um sentido novo.
·
Em “Caridade na Verdade”, compreender-se-ia que a
grande transformação económica e social também passa pela conversão do
coração, a única que é capaz de vencer os erros dos sistemas.
Os cristãos estão na
vanguarda ao procurarem uma nova cultura: alicerçados na Palavra de
Deus, confiantes no pensamento da Igreja, privilegiando sempre os mais
pobres, é possível transformar radicalmente o mundo, fazê-lo melhor.
-
O desafio está lançado: por uma
atitude cristã é possível ir mudando o nosso pequeno mundo, na
família, no trabalho, na vida económica, na interpelação política ou
na vida social. Pelo testemunho dos cristãos e pela sua acção
responsável à sociedade no seu todo pode ser lugar de esperança,
lugar de felicidade.
7 de Fevereiro de 2010

No diálogo entre a Fé e a Ciência
1.
Acabo de ter
conhecimento de que o tema para reflexão, no dia da Universidade
Católica (7 de Fevereiro), é este: “No diálogo entre a Fé e a
Ciência”. É um tema do maior interesse, uma vez que muitos
considerem incompatíveis Ciência e Fé. Antecipo a reflexão que nos é
proposta pela Universidade Católica, com dois documentos notáveis, um do
Frei Bento Domingues, no Público de 24 de Janeiro e outro de uma
informação recebida por e-mail e que é da autoria de Gabriel García
Márquez, prémio Nobel da Literatura, uma carta enviada aos seus amigos.
2.
O texto de Bento Domingues,
quero que seja uma grande homenagem ao
nosso querido Padre João Resina. Diz o autor:
“Entre nós, o Padre João Resina, que foi
professor do Instituto Superior Técnico de Lisboa e investigador do
Centro de Física da Matéria Condensada, soube marcar sempre, com muita
clareza, a distinção entre o campo da ciência e o da religião. Para este
grande espiritual e pouco amante de liturgias farfalhudas, os conflitos
entre a ciência e a Igreja católica não se colocaram entre duas verdades
em conflito – como às vezes se diz -, mas entre duas maluqueiras.
Apetece-me sugerir a edição, em livro, dos seus textos referidos em
nota, para leitura dos estudantes de teologia, dos pregadores e dos
catequistas. Sem ter em conta que o clima cultural se modificou a partir
da prática das ciências, corre-se o risco de criar dificuldades
escusadas, no campo religioso, às crianças e aos adultos, que podem ver
conflitos onde não existem. Quando dirigia a catequese na paróquia do
Campo Grande (Lisboa), o Padre Resina manifestou a sua preocupação
antecipadora: que se fale dessas coisas às crianças antes de se falar no
liceu; e que se diga que uma coisa é tudo o que vem de Deus, que é a
criação, e outra a maneira como o Universo evoluiu e que não tem nada a
ver com religião.
Referindo-se às acusações que lhe faziam
em nome da Bíblia, o próprio Galileu observava com ironia: ‘A intenção
do Espírito Santo é ensinar-nos como se deve ir para o céu e não como
vai o céu.’ Sabia que estava a usar a palavra ‘céu’ em sentidos
completamente diferentes.”
3.
O texto de García Márquez
em carta aos seus amigos, aparece
agora na Internet: “Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma
marioneta de trapos e me presenteasse com mais algum tempo de vida, eu
aproveitaria esse tempo o mais que pudesse.
Dormiria pouco, sonharia mais, porque
entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta
segundos de luz.
Aos homens eu provaria quão equivocados
estão ao pensar que deixam de se enamorar quando envelhecem, sem saberem
que envelhecem quando deixam de se enamorar.
A um menino dar-lhe-ia asas e apenas lhe
pediria que aprendesse a voar.
Aos velhos eu diria que a morte não chega
com o fim da vida, mas sim com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi convosco homens …
aprendi que todo o mundo quer viver em cima da montanha, sem saber que a
verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa.
Aprendi que quando um recém-nascido
aperta com a sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo de seu pai,
agarrou-o para sempre.
Aprendi que um homem só tem direito a
olhar o outro de cima para baixo, quando está a ajudá-lo a levantar-se.
São tantas coisas as que pude aprender
convosco, mas Deus tem-me ensinado o suficiente para continuar até
quando Ele desejar.
Sempre existe um amanhã em que a vida nos
dá outra oportunidade para fazermos as coisas bem, mas pensando que hoje
é tudo o que nos resta, gostaria de dizer-te quanto te quero, que nunca
te esquecerei.
O amanhã não está assegurado a ninguém,
jovens ou velhos. Hoje, pode ser a última vez que vejas aqueles que
amas. Por isso, não esperes mais, fá-lo hoje, porque o amanhã pode não
chegar. Senão lamentarás o dia em que não tiveste tempo para um sorriso,
um abraço, um beijo e o teres estado muito ocupado para atenderes esse
último desejo.
Mantém junto de ti o ouvido o muito que
precisas deles, o quanto lhes queres e trata-os bem, aproveita para lhes
dizer, ‘perdoa-me’, ‘por favor,’ ‘obrigado’ e todas as palavras de amor
que conheces.”
Um comentário: Não sei qual a dimensão
religiosa de García Márquez, mas sei que é cristão.
4.
No diálogo entre a Ciência e a Fé,
temos sempre motivos acrescidos para
acreditar em Deus e levarmos a toda a humanidade os valores que, por
Cristo em Cristo, Deus nos testemunha. Meu Deus, eu creio!
31 de Janeiro de 2010

Ser cristão hoje
1.
Num tempo caracterizado pela perda de valores espirituais, pode
dizer-se que não é nada fácil ser cristão e assumir-se como cristão no
meio da cidade. Muitos dizem-se agnósticos, constantemente à procura do
transcendente que lhes escapa. Alguns afirmam-se mesmo ateus, recusando
sistematicamente qualquer ideia de Deus. Há mesmo uns tantos que, a
partir de um laicismo radical, consideram seu dever lutar contra
qualquer ideia de religioso, vendo em Deus mais do que uma ilusão, um
adversário a combater. Num mundo assim, é mesmo difícil ser cristão.
·
A sociedade está condicionada pelo materialismo e o
racionalismo que dominam todas as opções de vida. Só se acredita naquilo
que é possível provar pela razão.
·
Os comportamentos estão dominados, pela
permissividade hedonista, pelo culto do mais fácil e do prazer. Chega
mesmo a dizer-se que “é proibido proibir”, elegendo a liberdade sem
fronteiras como o ideal.
·
O homem contemporâneo centra-se no egoísmo
individualista, pensando sempre em si, no que melhor lhe agrada e
mais lhe convém, no seu interesse pessoal.
·
As vantagens económicas ou sociais são o padrão de
conduta, a referência nas opções de vida que é urgente fazer, na
família, no emprego, no grupo social.
Havendo indiscutíveis
valores positivos, no mundo de hoje, como a defesa da dignidade humana e
a procura da paz, o progresso científico e técnico e a sensibilidade
ética, apesar disso, com as tradições e a memória do passado, o homem
contemporâneo tem muita dificuldade em se dizer cristão e em viver como
cristão.
2.
Ser cristão constitui um enorme desafio para quantos receberam dos
pais uma herança de fé e se recusam a aceitar o vazio de uma vida sem
valores. Ser cristão não consiste em frequentar muito a Igreja, ir à
missa e celebrar os sacramentos. Ser cristão não está em repetir muitas
orações, participar em muitas iniciativas de caridade e fazer visitas
(peregrinações) aos santuários mais conhecidos. Ser cristão não pode
limitar-se a algumas atitudes que são bem vistas no grupo de pessoas
religiosas, próximas dos sacerdotes ou mesmo de Bispos mais conhecidos.
Ser cristão é muito mais do que tudo isto.
·
O cristão conhece-se pelo amor: “Amai-vos uns aos
outros como eu vos amei…por isso vos conhecerão como meus discípulos” (Jo
13, 34) é a palavra de Jesus aos primeiros cristãos, os seus
companheiros nos caminhos da Galileia e da Judeia.
·
O cristão afirma-se pela sua fé e a “fé consiste na
adesão plena e perfeita em Cristo” (L.G. 50). Mais do que confiança, a
fé exige conhecimento de Cristo. Depois, porém, uma pessoa que tem fé,
deverá tornar-se comprometida em Cristo Senhor, sempre e em todo o
lugar.
·
O cristão irradia valores que marcam toda a sua
vida. Pela justiça, procura dar a cada um aquilo a que ele tenha
direito. Pela verdade, é coerente em todas as atitudes que venha a
assumir. Pela liberdade, afirma-se capaz de deixar tudo, para seguir
Jesus, incondicionalmente, nos critérios do Evangelho.
·
O cristão é apóstolo, pelo testemunho e pela
palavra oportuna, faz discípulos em toda a parte, contagiando-os no
amor, até ao baptismo e à pertença responsável da Igreja.
3.
As primitivas comunidades cristãs desenvolviam processos de
iniciação à fé que hoje deveriam retomar-se. Nelas, “todos estavam
unidos na doutrina dos apóstolos, na fracção do pão e nas orações, e
tudo o que tinham punham-no em comum e, assim, aumentava cada vez mais o
número dos que aderiam à fé.” (Act 2, 42-47). Porque no dizer de João
Paulo II os cristãos adultos, hoje, são pouco mais que catecúmenos (cf.CT.
43 e 44), é necessário retomar a dinâmica catecumenal, com os seus seis
passos.
·
Reconhecer a senhoria absoluta de Cristo: não há
outro senhor, só a Ele se deve servir.
·
Aceitar reconciliar-se com Deus e com os irmãos
através de uma verdadeira penitência, aceitando o perdão que só de Deus
pode vir.
·
Deixando-se conduzir pelo Espírito em todas as
circunstâncias, porque só o discernimento do Espírito provoca opções
correctas e cristãs.
·
Celebrar os sinais, em cada sacramento, para
exprimir a fé e nela se fortalecer.
·
Deixar-se guiar pelo testemunho de quantos nos
precederam na fé, alguns deles essenciais no caminho cristão já
percorrido.
·
Viver em comunidade, porque todo o ser cristão
implica uma comunidade de pertença, de alegria, de felicidade.
É a partir deste “ser
cristão” que cada homem ou mulher encontra o sentido da vida e se dispõe
a imprimir um ritmo novo na vida familiar, profissional, social,
política, económica e cultural.
4. É
à luz do ser cristão de verdade que se renova a nossa comunidade do
Campo Grande. Pode haver muitas vocações, funções e carismas, mas a
comunidade cristã é sempre animada pelo mesmo espírito, vive sempre um
só baptismo e uma só fé e partilha sempre do mesmo amor.
“Num só coração e numa só alma”, ajudemo-nos
mutuamente a ser cristãos de verdade.
24 de Janeiro de 2010

Vós sois testemunhas do Ressuscitado
1. Todos
os anos, entre 18 e 25 de Janeiro, as muitas Igrejas cristãs,
celebram a Semana da oração pela Unidade dos Cristãos. Quem conhece os
caminhos da história sabe que entre o século IX e o século XI se foi
agudizando o grande Cisma do Oriente de que resultou a separação de
muitas comunidades cristãs da Igreja, nascendo então a Religião Ortodoxa
com inúmeras comunidades autónomas. Mais tarde, no século XVI
aconteceram outras separações: Lutero, Calvino e Henrique VIII acabaram
por fundar as comunidades vulgarmente chamadas protestantes que, por si,
têm depois um número grande de confissões com a sua própria autonomia.
As Igrejas cristãs passaram a viver separadas umas das outras. Os
cristãos, porém, sentiram a necessidade de rezar pela unidade.
·
A Igreja Episcopal (Anglicana) dos E.U.A., em
1908 por iniciativa do reverendo Padre Paul Wattson, lançou a ideia
de uma semana mundial de oração, pela unidade dos cristãos.
·
Os delegados à Conferência de Edimburgo,
membros das sociedades missionárias protestantes encontraram-se
durante o Verão de 1910, na capital da Escócia, para ajudar os
missionários a criar um espírito comum.
·
O Concílio do Vaticano II, promulgando o
Decreto sobre o Ecumenismo, em 1964, considerou a oração como a alma
do movimento ecuménico e animou a celebração mundial da Semana para
a Unidade dos Cristãos.
·
O Movimento Ecuménico é hoje um dado adquirido
para os cristãos em geral. Basta lembrar o espírito de Assis nascido
da reunião interreligiosa de João Paulo II, com 23 líderes de outras
tantas religiões.
Esta semana de oração
pela unidade dos cristãos é, então, uma oportunidade única para educar
as comunidades cristãs, da igreja Católica e de outras Igrejas, no
caminho da reconciliação e planear acções ecuménicas, permanentes, na
vida de cada uma delas.
2.
“Vós sois testemunhas disso…” (Lc. 24) é o tema para este ano
2010, quando se celebra o centenário da Conferência de Edimburgo. No
capítulo 24 de S. Lucas, com o episódio dos discípulos de Emaús, que,
vendo Cristo Ressuscitado, de imediato quiseram vir ao encontro da
comunidade de Jerusalém, de que se haviam separado, faz-se um apelo a
que todas as confissões cristãs se reúnam à volta do mesmo Senhor em que
acreditam, Jesus Ressuscitado. É que o Senhor é a fonte de comunhão
eclesial, de envio para a missão, unidade e, portanto, da contínua
necessidade de renovar o compromisso com a unidade cristã. Poderá
perguntar-se: testemunhar o quê?
·
Testemunhar com a celebração da vida, uma vez
que a vida cristã tem valores e expressões que se não encontram em
mais parte alguma.
·
Testemunhar com a partilha das nossas experiências,
pois ser cristão permite experimentar a fé e provocar a ressurreição
nas mais diversas situações do quotidiano.
·
Testemunhar com a nossa atenção aos outros,
quando sabemos que o outro, seja quem for, é sempre uma presença
viva de Jesus a quem servimos, a quem amamos.
·
Testemunhar com a celebração da fé, sabendo que
muitos outros nos precederam na fé e nos desafiam a chegarmos sempre
mais longe, no acolhimento, no serviço, na entrega às causas mais
nobres da humanidade.
·
Testemunhar no sofrimento, porque este
constitui um apelo à plena e perfeita comunhão com Cristo na sua
paixão, na esperança da ressurreição.
·
Testemunhar pela fidelidade às escrituras,
porque só a Palavra de Deus é vida, só na Palavra se encontra a
mensagem essencial à construção de um mundo novo, mundo de verdade,
de justiça, de amor e de paz.
·
Testemunhar pela alegria de viver, uma vez que
acreditar na ressurreição de Cristo é, também acreditar que é
possível vencer as dificuldades e construir, na vida, a Páscoa da
Ressurreição.
·
Testemunhar pela hospitalidade radical,
oferecendo-a e aceitando-a, por saber que as portas abertas é que
convertem as solidões em tempo de solidariedade e consolação.
Poderiam ser estes os
temas de cada um dos dias da semana da oração pela unidade dos cristãos.
A partir deles, cada um pode inventar a melhor maneira de celebrar
Cristo ressuscitado de quem importa dar testemunho neste mundo difícil
em que vivemos.
3.
Se já somos testemunhas, poderemos tornar-nos testemunhas ainda maiores.
Encontrei um texto que nos pode dizer como.
·
Louvando Aquele que nos dá o dom da vida e a
ressurreição (dia 1)
·
Sabendo partilhar com outros a história da nossa fé
(dia 2)
·
Reconhecendo que Deus age em nossas vidas (dia3)
·
Dando graças pela fé que temos recebido (dia 4)
·
Confessando a vitória de Cristo sobre todo o
sofrimento (dia 5)
·
Buscando sempre ser mais fieis à Palavra de Deus (dia
6)
·
Crescendo na fé, na esperança e na caridade (dia 7)
·
Oferecendo hospitalidade e sabendo recebê-la quando
nos é oferecida (dia 8)
É um caminho com uma
precisão maravilhosa. Em vez de lamentar a divisão dos cristãos, somos
convidados a dar testemunho da ressurreição e a chamar todos a
ressuscitar de vez com Cristo.
4.
Talvez na nossa comunidade possamos fazer uma Semana de Oração
diferente. Não com rituais, conferências ou debates, mas com
o testemunho das nossas próprias vidas. É um desafio maior.
17 de Janeiro de 2010

Mais um ano
1. Com o primeiro de Janeiro, começou o ano de
2010, ano que tem de ser tempo de esperança. No ano passado, a nível
internacional e também na gestão da casa comum, em Portugal viveram-se
muitos momentos de aflição. Todos falaram da crise e esta foi uma
realidade bem visível no nosso viver colectivo. Com a falência de
bancos, com a corrupção a invadir os sectores económicos, com a
dificuldade em encontrar soluções rápidas, o desemprego atingiu números
impensáveis, a situação dos mais pobres agravou-se exponencialmente,
muitas empresas faliram e pobres envergonhados começaram a bater às
nossas portas. É certo que se criaram “fundos de solidariedade”, mas
sempre insuficientes para responder aos problemas mais graves que vão
“apanhando” as pessoas. O ano que agora terminou, trouxe à nossa
comunidade muitas alegrias, mas também alguns sofrimentos.
·
A alegria das famílias que nos trouxeram os filhos
pequeninos para receberem o “Baptismo” e que aceitaram aprofundar a
própria fé;
·
A alegria de tantas crianças a viver a catequese
com a preparação para a 1º comunhão e, sobretudo, para o melhor
conhecimento de Jesus;
·
A alegria dos jovens que se prepararam para receber
a “Confirmação” num autêntico catecumenato, ou que se reuniram em grupos
para reflectir sobre os fundamentos da fé e os compromissos cristãos, na
vida quotidiana;
·
A alegria de tantos casais novos que concretizaram
o seu sonho de amor, com o sacramento do matrimónio, e aceitaram
continuar a encontrar-se para enriquecer de sentido cristão a sua casa;
·
A alegria de tantas famílias em crise que foram
ajudadas materialmente e, também, receberam ajudas espirituais, para
serem capazes de superar todas as dificuldades;
·
O sofrimento de tantos ao ver partir pessoas que
muito amaram, pais ou filhos, avós ou crianças pequeninas, sofrimento
este com o lenitivo da oração e do acompanhamento que ajudou a converter
a saudade em razão de esperança;
·
O sofrimento de muitos ao sentir a angústia de
quantos adoeceram e têm medo de ficar marcados por toda a vida.
É impossível enumerar todas as alegrias e todos os
sofrimentos de que a vida de uma comunidade é feita. O que se pretende é
que, em 2010, o sofrimento seja menor e a alegria cristã seja a razão de
viver.
2. A um ano novo deve corresponder, senão um
programa novo, pelo menos um caminho renovado. É isso que se sente
na nossa caminhada paroquial: renovar toda a nossa acção pastoral,
marcando o ritmo do nosso trabalho com sentimentos de comunhão, no amor,
até à unidade. A nossa paróquia tem inúmeros projectos que exigem uma
nova organização. O nosso esforço é grande, para respondermos a todos os
desafios que a acção pastoral, presente no nosso mundo, nos reclama.
Vamos ensaiar um trabalho mais estruturado. São estas as experiências
que vamos ensaiar:
·
Uma coordenação geral da responsabilidade do
pároco, de toda a equipa sacerdotal, da secretaria paroquial e do grupo
que se chama secretariado;
·
A missão profética, sobretudo ao nível da formação,
com as catequistas de infância, de jovens, de adultos, a par de grupos
de reflexão cristã, de grupos de acólitos e de grupos de preparação para
o Crisma;
·
A nível litúrgico, tendo em conta tanto a
diversidade de culturas, com as oito Eucaristias dominicais, bem como as
celebrações dos baptismos, dos casamentos e mesmo dos ritos a ter nos
funerais.
·
A missão de acolhimento considerando essencial a
recepção das pessoas que nos procuram e os espaços de encontro como o
bar, a livraria, o clube de Jovens, a atenção aos enfermos e aos mais
velhos que não podem nunca ficar isolados.
·
Os serviços de ajuda fraterna, entre as quais estão
os roupeiros, os voluntários, as Conferências de S. Vicente de Paulo,
para o apoio humano e também o Apostolado da Oração, os grupos revisão
de vida, a Legião de Maria e outros.
·
A descobrir as outras comunidades, com a preparação
do trabalho missionário em Moçambique, no Brasil e noutros lugares.
Tudo isto só é possível com a realização do duplo
amor de que fala S. João na sua 1ª Carta: Amando-nos uns aos outros, na
certeza de que todo o amor vem de Deus.
3. É claro que este trabalho pastoral em
autêntica comunhão supõe uma certa vida comum, como Igreja que somos
todos “unidos à cabeça que é Cristo, procurando sempre a defesa e
promoção da dignidade humana na liberdade, vivendo e o mandamento do
amor em todas as situações, para criar uma comunidade de vida” (cf. L.G.
9).
·
Foi esta comunidade que se sentiu feliz ao ver o
Padre Lázaro concluir o seu doutoramento em Teologia na Universidade
Católica e ao acolher o Padre Arcanjo como colaborador permanente.
·
Foi esta comunidade que sofreu e continua a sofrer
com o acidente que vitimou o Padre João, inconsciente, na cama de um
hospital e sem perspectiva de cura próxima.
·
Foi esta comunidade que se alegrou com os muitos
sucessos na evangelização, ao atrair tantas crianças, tantos jovens, e
tantas famílias.
·
É ainda esta comunidade que sente o amor na
diversidade, quando tem o benefício de vários carismas (Verbum Dei,
Filhas da Caridade, Teresianas, Claretianos, Vicentinos e outros),
carismas estes que a enriquecem constantemente.
·
É esta a comunidade que vive em permanente comunhão
com o seu Bispo, o Cardeal Patriarca, com os padres da vigararia, com os
membros de todo o clero neste ano sacerdotal.
4. No início de um novo ano, peço a todos os
nossos colaboradores e amigos para construirmos uma comunidade viva, uma
comunidade de amor.
“Que todos sejamos um só, como Cristo e o Pai são
um só” (cf. Jo. 17,20).
10 de Janeiro de 2010

Se quiseres cultivar a paz, preserva a natureza
1.
Desde 1968 que se celebra, em todo o mundo, o Dia Mundial da Paz. A
paz constituiu sempre uma preocupação para a Igreja. Desde tempos
imemoráveis que os Papas foram intermediários, nos diversos conflitos
entre os povos, para conseguirem acordos de paz, autêntica salvação para
populações em grande sofrimento.
Com a segunda guerra
mundial, multiplicaram-se as vítimas. Mais de 49 milhões de mortos na
Europa, na Ásia e mesmo em África, uma vez que a guerra foi universal.
Para além disso, a brutalidade das cidades destruídas, a violência sobre
as pessoas que ficaram deficientes, o desespero dos refugiados, todo um
mundo profundamente marcado pelo sofrimento.
Perante estes cenários,
os países sentiram a necessidade de criar um código de comportamentos a
aceitar por todos. Assim, foi proclamada, a 10 de Dezembro de 1948, a
Carta dos Direitos Humanos. Exigia o direito à vida, à verdade, à
justiça, às liberdades, ao trabalho e à participação. Só nesta base
seria possível construir uma sociedade mais justa e mais fraterna.
2. A
Igreja associou-se a este esforço de paz, quis ser solidária com
todos os homens de Boa Vontade, quis cooperar com a reconstrução do
mundo.
O primeiro grito de
alerta veio do Papa João XXIII. Num texto maravilhoso, a Encíclica Pacem
in Terris publicada a 11 de Abril de 1963, o Papa faz uma longa reflexão
sobre os Direitos Humanos, comparando-os com os mandamentos da lei de
Deus, reescritos para os homens do século XX. João XXIII abre diálogo
com todos os povos, mesmo os que ideologicamente parece estarem mais
longe e convida a inserir a liberdade individual no quadro do serviço ao
bem comum.
É com grande coragem
que João XXIII sublinha os três aspectos que caracterizam a idade
moderna: a melhoria das condições sociais e económicas dos
trabalhadores, a maior participação das mulheres na sociedade e a
criação de novos Estados independentes. Para a construção da paz,
exige-se uma visão nova sobre o mundo e sobre cada pessoa.
3.
Paulo VI vai aprofundar ainda mais esta preocupação da Igreja pela paz.
Nesse sentido, convida todos os responsáveis dos povos a considerarem o
dia primeiro de Janeiro de cada ano o Dia Mundial da Paz. Estava-se em
1968, pouco tempo depois da grande crise dos estudantes de Paris. Assim
a Igreja respondia àqueles que confundiam a paz apenas com o silêncio
das armas. Era necessário educar a humanidade para a paz verdadeira, a
paz integral. É esta a tarefa das mensagens da paz que, em cada ano, os
Papas enviam a toda a humanidade. São notáveis, alguns dos temas
escolhidos:
·
A promoção dos Direitos dos Homens, caminho para a paz –
1969
·
Educar para a paz, através da reconciliação – 1970
·
Cada homem é meu irmão – 1971
·
Se queres a paz, trabalha pela justiça – 1972
·
A paz é possível – 1973
·
A verdade, a força da paz – 1980
·
Para servir a paz, respeita a liberdade – 1981
·
Diálogo para a paz, um desafio para o nosso tempo – 1983
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Oferece o perdão, recebe a paz – 1997
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A pessoa humana, coração de paz – 2007
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A família humana, caminho de paz – 2008
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Combater a pobreza, construir a paz – 2009
É um conjunto de temas
que desafiam a uma educação sistemática a ter por todos os homens,
sobretudo os mais responsáveis pelo destino das nações.
4.
Neste ano, Bento XVI quer estar perto das grandes preocupações da
humanidade. Associa-se por isso aos problemas do ambiente, da
ecologia, do respeito pela natureza. O tema do ano é este: “Se quiseres
cultivar a paz, preserva a natureza”.
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O respeito pela criação reveste-se de grande
importância “porque a criação é o princípio e o fundamento de todas as
obras de Deus. A sua salvaguarda torna-se essencial para a convivência
pacífica de toda a humanidade.
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O desenvolvimento está intimamente ligado com os
deveres que nascem da relação do homem com o ambiente natural que é uma
dádiva de Deus para todos.
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A Igreja, não pode ficar indiferente perante as
alterações climáticas, a desertificação, a perda de produtividade de
inúmeras áreas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da
biodiversidade, o aumento das calamidades naturais e tantas outras
coisas.
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Os cristãos têm de acolher os chamados “prófugos
ambientais” vítimas da degradação do ambiente onde vivem, e têm também
de, quando lhes for possível, ajudar a dar resposta no seu direito à
vida, à alimentação, à saúde e ao desenvolvimento.
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Todos os homens e mulheres devem proteger o ambiente
e tutelar os recursos e o clima, agindo no respeito por normas bem
definidas e tendo em conta a solidariedade devida a quantos vivem na
pobreza e a todos os que serão as futuras gerações.
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Uma nova solidariedade é a preocupação do Papa,
neste 41º Dia Mundial da Paz.
Nesta mensagem de Bento
XVI, há inúmeras referências à responsabilidade dos governantes dos
povos. Os cristãos, sem responsabilidades políticas, têm no entanto o
dever de poupar energia, de utilizar a água com moderação, ser
solidários com os mais pobres e cuidar da limpeza das suas casas, dos
seus ambientes, das suas cidades.
5. É
diferente, este ano, a proposta para o dia mundial da paz, em que
cada um deve recriar a forma de contribuir para a preservação da
natureza. Que o fracasso da Cimeira de Copenhaga, não se repercuta na
inconsciência das nossas vidas, sem nos preocuparmos com os outros,
sobretudo os mais pobres e as novas gerações.
3 de Janeiro de 2010

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