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MENSAGEM DOMINICAL

Arquivo - ANO C - 2009/2010

Monsenhor Vítor Feytor Pinto

FEVEREIRO DE 2010  

07 DE FEVEREIRO

Ser cristão em tempo de crise

14 de FEVEREIRO

As férias de Carnaval

21 de FEVEREIRO

Quaresma 2010

28 DE FEVEREIRO

A Penitência em tempo de Quaresma

 

 

A PENITÊNCIA, EM TEMPO DE QUARESMA 

  1. Sempre, na tradição da Igreja, se considerou a Quaresma, como tempo de penitência. Era tanto assim que os comportamentos sociais correspondiam à austeridade pedida aos cristãos, como forma de preparação para a Páscoa. Não havia festas, entre quarta-feira de cinzas e a noite pascal. Admitia-se, a meio deste tempo, alguma expressão de alegria. Era a “mi-carême”, normalmente a coincidir, com a liturgia do domingo “letare”, o domingo da alegria. Ninguém comia carne às sextas-feiras e nos mercados vendia-se peixe e nos restaurantes privilegiavam-se refeições de “abstinência”. Nas igrejas, as populações acorriam a especiais pregações e, depois, participavam em via-sacras, em desobrigas e comunhões pascais. Todos estes ritos faziam parte da celebração quaresmal a que se associavam as pessoas mais gradas da terra, com os mais simples e mais pobres, sem distinção de classe.

Era a Quaresma.

A nível pessoal, cada um tentava também viver a seu modo a penitência quaresmal.

·   A renúncia era vivida no deixar de fumar, no não comer chocolates e outras doçarias, no privar-se de ir ao cinema ou a outro espectáculo.

·    A oração era privilegiada, com a frequência diária da Eucaristia, a reza do Rosário, um tempo significativo de silêncio e contemplação e outros actos de culto.

·   A caridade era exercida com a visita frequente a alguns doentes marcados pela solidão, com a ida às cadeias para levar lembranças aos prisioneiros, com pequenos gestos de ternura em esmolas dadas aos pobres.

Era assim que se viva a penitência quaresmal, com uma austeridade que se sentia na vida de família, nas relações sociais e até na organização dos acontecimentos públicos onde não faltavam a Procissão dos Passos, o Enterro do Senhor, e a explosão de alegria no domingo de Páscoa, com o compasso, levando o Senhor a beijar em todas as casas da aldeia, da freguesia ou da cidade.

  1. A sociedade perdeu as suas características de sabor cristão. É uma sociedade materialista, hedonista, permissiva que não tem o sentido de Deus e proclama a secularidade e o laicismo como suas marcas fundamentais. Não querendo nada com Deus, a cidade não sente a importância de uma penitência a viver. Aos cristãos compete descobrir as novas formas de penitência que podem transformar o viver comum dos cidadãos. É bom ter consciência de que, sendo o jejum a expressão máxima da penitência, aos cristãos compete descobrir as autênticas formas de jejum. Curioso é, porém, que o verdadeiro jejum está definido desde há muito e não consiste na privação de alimentos.

·   O profeta Isaías, 500 anos antes de Cristo, dizia que o jejum que agrada a Deus é: “libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, repartir o pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o irmão” (Is 58, 4-7).

·   O profeta Zacarias, em nome de Deus, para o jejum exigia ainda mais: “Praticai uma verdadeira justiça e excedei-vos em bondade e compaixão, não oprimais o órfão, a viúva, o estrangeiro e o pobre e não formeis nos vossos corações maus desígnios uns para com os outros” (Zc 7, 9-10).

·   O Papa S. Leão Magno, no séc. V, recomenda aos cristãos de Roma: “Nós prescrevemo-vos o jejum, recordando-vos não só a necessidade da abstinência, mas também as obras de misericórdia. Assim, aquilo que tiverdes poupado nas despesas ordinárias torna-se alimento para os pobres” (Hom. em Roma). 

·   O Pastor de Ermas, num livro cristão do séc. II, diz: “Durante o dia de jejum comerás apenas pão e água; depois calcularás quanto terias gasto com o teu alimento e oferecerás o dinheiro a um pobre. O teu sacrifício sirva a alguém para matar a fome”.

Muitos outros exemplos poderiam dar-se, para exprimir o que é o verdadeiro jejum e a penitência. Era Nossa Senhora que, aparecendo a Lúcia em 1925 quando estava em Tuy, lhe disse: “A verdadeira penitência que peço e exijo é o cumprimento da lei de Deus e a observância dos deveres de cada um, na sua vida quotidiana” (Memórias).

  1. As comunidades cristãs do 3º milénio também devem descobrir o verdadeiro jejum, com a exigência do amor aos irmãos, numa verdadeira comunhão na unidade. As atitudes fundamentais são fáceis de encontrar, o difícil, depois, é pô-las em prática. Que atitudes são essas?

·   A reconciliação, isto é, o reencontro com Deus e com os irmãos, que é muito mais do que o sacramento ritual. Uma atitude de perdão para quem nos tenha ofendido e, ao mesmo tempo, o arrependimento pelo que de mal se fez, na relação com Deus e com os outros.

·   A partilha, isto é, o pôr em comum, com os outros, todos os dons recebidos de Deus. Oferecer aos outros o tempo, a presença, a palavra oportuna, o sorriso, a compreensão, a par da oferta de bens materiais, para que seja menor o sofrimento de alguns.

·   A aceitação das dificuldades, isto é, a descoberta de que pode ter sentido o levar da cruz de cada dia. Manter a alegria em casa, no trabalho, no grupo social, transmitindo aos outros a tranquilidade que mora no nosso coração, apesar dos normais sofrimentos com que se cruzam as nossas vidas.

·   A diligência na acção, isto é, a capacidade de ser eficaz no trabalho ou mesmo na missão evangelizadora. Seria impensável um cristão acomodar-se e não ter o engenho de chegar mais longe, na capacidade de serviço que lhe é pedido. 

Muitas outras atitudes poderiam ser descobertas, como expressão de penitência, no caminho para a Páscoa que nos espera.

  1. Na Paróquia do Campo Grande, há um programa quaresmal, um caminho de exigência e esperança. Inserir-se nele com alegria exigente é uma forma pascal de penitência. A noite da misericórdia e da paz, as celebrações da reconciliação, as missas dominicais, o fundo de solidariedade, as catequeses do Sr. Patriarca, a celebração do Tríduo Pascal são elementos muito fortes para viver a Quaresma com sentido penitencial e de esperança.

Assim Deus nos ajude.

28 de Fevereiro de 2010

QUARESMA 2010

1.   Desde 4ª feira de cinzas que os cristãos entraram na Quaresma e vivem, se quiserem ser exigentes, a preparação para a Páscoa. É certo que, na cultura do homem contemporâneo, estes quarenta dias em nada são diferentes dos restantes dias do ano. É a mesma vida profissional, com as normais tensões e as sempre iguais dificuldades; é o mesmo ambiente familiar que não esconde rixas, brigas ou contendas; é a mesma atitude económica, sem se notar a preocupação pelos novos pobres ou pela muita pobreza envergonhada; são as mesmas tensões políticas, alimentadas nos noticiários e difíceis de ultrapassar sem a responsabilidade dos dirigentes. Em qualquer destes mundos, não se nota que os cristãos estejam a viver a Quaresma. Parece que a Quaresma faz parte do passado, já não influencia a vida familiar, profissional, económica ou social dos cidadãos.

Para os cristãos não deveria ser assim. A história da Quaresma revela exigência posta pela Igreja na preparação para a Páscoa da Ressurreição.

 

·   As primeiras comunidades cristãs preparavam a Páscoa com uma vigília, a noite inteira de oração, antes de celebrarem a Ressurreição do Senhor, no 1º de todos os Domingos.

 

·   Nos finais do séc. I, princípios do séc. II, passou a consagrar-se a preparação para a Páscoa com dois dias que, acrescidos à vigília, constituíram o tríduo Pascal: a última Ceia, a adoração da Cruz, a aurora da Ressurreição.

 

·   No séc. III sentiu-se a necessidade de consagrar três semanas à preparação da Páscoa, já então com a ideia forte de penitência para reparar erros, e oração para implorar bênçãos.

 

·   Mas é no séc. IV, no Concílio de Niceia, em 325, que se consagra definitivamente a Quaresma como tempo específico de cada comunidade cristã e cada cristão se prepararem para a Festa da Páscoa.

Os 40 dias evocam a caminhada de Elias até ao monte Carmelo, preparação para a revelação de Deus, o tempo do deserto em que Moisés levou o Povo de Israel, do cativeiro Egípcio até à Terra Prometida, sobretudo, os 40 dias de silêncio e oração vividos por Cristo no deserto da Judeia, antes de iniciar a sua missão na Galileia.

2.      As três atitudes a que os cristãos são convidados, neste tempo de Quaresma, fazem parte de qualquer preparação com marca de espiritualidade. Em todos os tempos, a esmola foi recomendada para ajudar os pobres, em todas as religiões a oração faz parte da relação com o Deus em que se acredita, em todas as civilizações, o jejum, em certas etapas do ano e por diversos motivos, foi recomendado como medida higiénica. Então, onde estará a originalidade cristã nestas práticas? É o Evangelho de Mateus que responde: tudo isto é feito muitas vezes “para ser visto pelos homens” (Mt 6, 16) a recomendação de Jesus é de que se faça tudo tendo em consideração o outro e não o próprio engrandecimento: que não saiba a mão esquerda o que faz a direita, que não se multipliquem as palavras, que não se carregue de tristeza o próprio olhar (cf. Mt 6, 3-4). É então redescobrir a esmola, a oração e o jejum.

·   A esmola, hoje, está na capacidade generosa da partilha. Os bens materiais são de propriedade universal. O homem é apenas o seu administrador. Então, reparte o que lhe sobra e é generoso nas situações mais difíceis vividas por muitos.

·   A oração, hoje, está na capacidade de criar intimidade com Deus, o Outro por excelência. Orar não está em repetir fórmulas, está antes em viver a experiência de Deus, comunicar com Ele, escutar as Suas respostas, no segredo da oração e agir, depois, como Ele pede.

·   O jejum, hoje, está no exercício pleno da justiça, no dar a cada um aquilo que lhe é devido. Já Zacarias profeta, séculos antes de Cristo, falava do jejum que agrada a Deus: “praticar uma verdadeira justiça, exceder-se em bondade e compaixão, para com o seu irmão; não oprimir o órfão, a viúva, o estrangeiro e o pobre e não ter maus desígnios para com os outros.” (Zc 7, 9-10).

Repensar para os nossos tempos estas obras de penitência é abrir portas para uma sociedade verdadeiramente fraterna. Dar esmola é partilhar, orar é fazer experiência vital de Deus, jejuar é praticar a justiça em todas as circunstâncias.

3.   É por este caminho que vão as mensagens para a Quaresma do Papa Bento XVI e do senhor Patriarca.

 

·   Bento XVI, citando o Apóstolo Paulo, diz que “a justiça de Deus se manifestou, mediante a fé em Jesus Cristo” (Rom 3, 21-22). Define depois a justiça, lembra o porquê das injustiças, refere o caminho da justiça em Israel, para terminar com a afirmação clara de que só Jesus Cristo é justiça de Deus. Texto lindíssimo que nos “atira” para Cristo Redentor e Salvador.

 

·   O senhor Patriarca centra a mensagem na preparação para a visita do Papa à cidade de Lisboa: “acolher o Papa é aceitar o desafio da Redenção”. Retomando a ideia da justiça como apelo urgente para a nossa cidade, faz-se um convite exigente para a “santidade e missão”, a partir de uma fé profunda e sincera, uma caridade generosa, um testemunho claro, uma intervenção eficaz para transformar a sociedade na linha do Reino de Deus. “Só homens justos podem ajudar a transformar a sociedade na justiça”.

Estes dois textos, distribuídos hoje na comunidade paroquial, podem dar capacidade para um tempo diferente, uma Quaresma de conversão.

A Quaresma 2010, na Paróquia do Campo Grande: três ideias chaves podem marcar o nosso caminho da Páscoa4.            

·  Reconhecer aquilo em que cada um precisa de mudar, na vida pessoal, dentro da vida familiar, profissional e social, e no trabalho que presta à comunidade cristã.

 

·  Descobrir as atitudes novas que podem fazer felizes os outros, em autêntica afirmação de ressurreição. É a conversão em acto.

 

·  Actuar em tudo com um espírito novo, a alegria que é dom do Espírito e que permite um amor sempre mais generoso e universal.

 

·  Provocar a unidade, “para que todos sejamos um como Cristo e o Pai são um só” (cf. Jo 17, 20).

 

   A  todos os nossos Paroquianos desejamos muito uma Quaresma carregada de

   generosidade

21 de Fevereiro de 2010

AS FÉRIAS DE CARNAVAL

1.     O carnaval é um tempo de memórias. Desde os tempos mais antigos se chamavam, a estes dias, as férias de carnaval. As escolas fechavam, as crianças ficavam livres, os pais acompanhavam-nas nas mais diversas iniciativas, sempre para divertir os mais pequeninos e para os mais velhos estarem um pouco mais tempo com as crianças. Recordo as minhas fantasias, pelos meus quatro ou cinco anos. Ainda encontro velhas fotografias em que me vejo vestido de rato Mickey, com minha irmã a fazer de Minnie. Lembro um pouco mais tarde as fantasias da Columbina e do Arlequim que meus irmãos mais novos vestiam a preceito. Na alegria geral, respirava-se a ternura que perpassava nas mais pequenas coisas. Julgo que continua a ser assim “para mais tarde recordar”.

 

·   Os avós contam aos netos as suas histórias de carnavais distantes, onde não faltava “um pico de maldade” absolutamente inocente.

 

·   Os pais organizam festas que são, sobretudo, simples entretém, para os filhos pequeninos se sentirem diferentes nas fantasias trazidas dos programas de televisão. Uns são o Noddy, outros o Zorro, a Pauly, o Ruca, os Simpson ou outros ainda.

 

·   As crianças divertem-se com as muitas personagens que tentam imitar e com as “partidas” que pregam aos mais velhos, sempre surpreendidos com as brincadeiras que anualmente se repetem.

 

·   Todos dão azo à alegria geral, uma alegria que anda no ar, que se respira, que se transmite em sorrisos para todos e que contagia mesmo os desconhecidos.

São muitas as iniciativas, mas a festa, a verdadeira festa de carnaval, é das crianças e é com elas que os pais, os avós, os tios e os amigos se sentem mais felizes.

2.   O carnaval, para os adultos, é também um tempo livre que os torna disponíveis para fazer muitas coisas que, noutra altura, são difíceis de fazer, por falta de tempo. Aproveitar estes dias para visitar um museu que tem novas colecções, para ir ao cinema ver filmes que receberam prémios, para ler uns livros que nem sequer o índice ainda foi possível ver, para visitar um amigo com quem se não está há muito, para inúmeras coisas que estão pendentes e nos dão alegria. O carnaval cria disponibilidade. Pode aproveitar-se

·   Para um ou dois dias de retiro, num convento, num lugar distante, fazendo silêncio no encontro com Deus.

·   Para um passeio a lugares desconhecidos que se apreciam pela beleza das montanhas cobertas de neve, pela força da natureza, revelada nas florestas ou na vastidão do mar, pela simplicidade do povo que acolhe e que sorri.

 

·   Para um repouso merecido, oportunidade para estar em casa, ouvir música, ver filmes, conversar com amigos ou, simplesmente, “descansar”.

 

·   Para fazer coisas que se deixaram atrasar, como seja catalogar os livros na estante, arrumar as gavetas, experimentar novas receitas, programar as férias de verão, um número de coisas para que nunca se tem tempo.

Este tempo disponível até pode ser, simplesmente, para a “contemplação”, para ver as pessoas e as coisas de outra forma, para as ver com os olhos de Deus. Fazer silêncio, repensar a vida, reencontrar as pessoas com um coração novo, são formas de contemplação essenciais para o equilíbrio da nossa vida 

3.   O carnaval é, para os cristãos, um tempo de alegria contida, uma certa maneira de preparar a Páscoa que está a chegar. De facto, os três dias de carnaval antecedem a quaresma. Se esta é tempo de rigor, de penitência, de preparação para as festas pascais, o carnaval predispõe para aceitar o caminho, nem sempre fácil, do jejum, da oração, da esmola que a quaresma supõe. Daí a expressão “carnaval” que quer dizer “adeus à carne” (do latim carne vale), isto é, começo da austeridade, da frugalidade na refeição e da atitude generosa na aceitação das dificuldades da vida. Se o tempo da quaresma é um tempo de penitência, no rigor da exigência cristã, o carnaval é uma oportunidade de criar as condições necessárias para viver o caminho para a Páscoa com redobrada exigência. Assim sendo:

 

·   A alegria é contida, quer dizer, não é barulhenta, não se multiplica em gargalhadas, não magoa os outros, mas é antes dom do Espírito e fonte de amor e de paz.

 

·   O humor é inteligente, isto é, tira partido das situações, ridiculariza os acontecimentos mais vulgares, encontra graça nas palavras e nas atitudes, mas respeita as pessoas, nunca as magoa.

 

·   A anedota pode ser mordaz, mas é sempre pedagógica, provocando o riso ao mesmo tempo que pede a mudança necessária constante, enche a sala da alegria contagiante.

De tudo isto se faz o carnaval ao sabor cristão, convidando a descontrair ao mesmo tempo que oferece um bem-estar e uma harmonia acrescidos.

Seria a Igreja capaz de organizar carnavais? É a pergunta que se faz muitas        vezes, sabendo que as festas de carnaval se multiplicam, com tradições    interessantes, em muitos lugares do mundo. Não são só os carnavais do Rio. Em algumas das nossas cidades também há carnavais.

Com uma intuição extraordinária, o Cardeal Lercaro, ao tempo Arcebispo de Bolonha, em plena década de 60, organizava o carnaval com os alunos da universidade pontifícia. Numa cidade que se afastou da Igreja, a iniciativa do cardeal criara uma festa maravilhosa ao redor da Igreja Mãe da Diocese, a Catedral de Bolonha.

inúmeros apelos, na nova evangelização. Talvez um dia, entre nós, a Igreja também possa transformar o carnaval em tempo feliz de evangelização.

14 de Fevereiro de 2010

SER CRISTÃO EM TEMPO DE CRISE

  1. Foi ao longo do ano 2009 que, a nível mundial, se sentiram os efeitos da crise. A banca, com todo o seu poder económico, criou a instabilidade generalizada; grandes empresas de renome internacional ruíram como baralhos de cartas e a crise instalou-se na maioria dos países, porque a sua referência se perdeu. É certo que as crises desafiam a um crescimento maior, mas é certo também que a crise que o mundo está a viver se repercute em todas as estruturas da sociedade e todas as pessoas, desde as mais importantes até às mais simples, perguntam-se “para onde caminhamos”.

Por altura do Natal, os voluntários para o Quarto Mundo escreviam uma carta em que citavam uma pessoa em angústia. Dizia ela:

·   Como é bom poder voltar a trabalhar a tempo inteiro e receber um salário de verdade…

·   Como é bom fugir à pobreza, mesmo provisoriamente, e exercer uma profissão que nos agrada…

·   Como é bom poder dar, ou antes: partilhar um pouco do que ganhamos com os outros…

Por detrás destas simples frases, é fácil adivinhar como são difíceis os anos deste início de milénio, como se tornaram muito duros estes tempos marcados pela crise.

  1. Simplesmente esta crise é global, apanha todos os aspectos da vida pessoal e social. É cada um que tem de descobrir a forma de controlar este tempo em que as faltas são maiores e o projecto-esperança é mais difícil.

·   É uma crise económica que leva muitos a não ter sequer dinheiro para uma refeição diária. A pobreza envergonhada assentou arraiais no viver comum de tantos, e são amigos e conhecidos que vivem amarrados às dificuldades.

·   É também uma crise social que multiplica os pobres e os desempregados, que não absorve os imigrantes e cria emigração, que atira os mais velhos para lugares de sobrevivência, nada mais.

·   É ainda uma crise espiritual e religiosa, muitas vezes surgida no culpabilizar de Deus pela não resolução de todos os problemas. Avoluma-se então a crise de fé nas novas gerações e os mais velhos acabam por perder a esperança.

·   E é até uma crise eclesial porque as próprias comunidades cristãs não conseguem absorver todos aqueles que as procuram, dando resposta aos problemas emergentes de que cada um é portador.

Curiosamente, os políticos, os economistas, os empresários, a par dos profissionais,

dos gestores, dos líderes, todos querem resolver a crise, mas centram-se apenas

nas questões económicas, eventualmente as menos importantes para vencer as

dificuldades que são globais.

  1. Faltam valores na cidade e só encontrando valores de referência se consegue abrir o caminho novo que a humanidade deve percorrer para reencontrar o sentido da própria vida. João XXIII dizia na Encíclica Pacem in Terris, que os pilares da paz são a verdade, a justiça, a liberdade e o amor. Nos estudos da sociologia política diz-se muitas vezes que não é possível uma organização eficaz se se não têm em conta a tolerância, a convivência, o diálogo, a solidariedade e a harmonia em sociedade.

Ficam aqui alguns valores que é imperioso implantar na sociedade, para um futuro melhor, um amanhã sem crises constantes:

·   A procura da justiça sempre, dando a cada um aquilo a que ele tem direito, desde o salário justo, ao trabalho necessário, aos cuidados de saúde indispensáveis, à educação suficiente, a tantas outras coisas que alimentam a esperança do melhor.

·   A oferta da liberdade a que cada pessoa tem direito, para que possa escolher, decidir, afirmar-se, sabendo que ser livre é o elemento fundamental para a realização integral da pessoa.

·   A garantia da verdade em todas as relações humanas, sobretudo através da informação bastante para percorrer caminhos pessoais de autêntica realização e não caminhos de outros que conduzem à desilusão e à frustração completa.

·   O sentido de Deus que permita ver todas as coisas com os olhos de alguém que é superior e viver com alegria todos os momentos de realização num projecto diferente, marcado de uma mais valia, a da construção do bem comum.

·   A pertença à Igreja, valor eminentemente cristão que assegura que em situação alguma se está só, uma vez que a Igreja é uma comunidade de irmãos em que a grande lei é o amor.

Estes e muitos outros valores iriam permitir vencer todas as crises, uma vez que cada pessoa e cada grupo deixaria de estar no centro de todas as atenções. Bem ao contrário, seria o bem comum a referência para todas as mudanças de atitude, em cada pessoa e em cada grupo de influência.

  1. Para mudar o rosto do mundo, para superar a crise, o cristão poderia alicerçar-se no pensamento de Bento XVI, com as suas três grandes encíclicas:

·   Em “Deus é Amor”, aprendia-se a arte de, com justiça, amar, perdoar e reconciliar-se.

·   Em “Salvos na Esperança”, descobria-se que a partir do trabalho e do sofrimento, também com a oração, tudo pode ser diferente, encontrar um sentido novo.

·   Em “Caridade na Verdade”, compreender-se-ia que a grande transformação económica e social também passa pela conversão do coração, a única que é capaz de vencer os erros dos sistemas.

Os cristãos estão na vanguarda ao procurarem uma nova cultura: alicerçados na Palavra de Deus, confiantes no pensamento da Igreja, privilegiando sempre os mais pobres, é possível transformar radicalmente o mundo, fazê-lo melhor.

  1. O desafio está lançado: por uma atitude cristã é possível ir mudando o nosso pequeno mundo, na família, no trabalho, na vida económica, na interpelação política ou na vida social. Pelo testemunho dos cristãos e pela sua acção responsável à sociedade no seu todo pode ser lugar de esperança, lugar de felicidade.

7 de Fevereiro de 2010