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MENSAGEM DOMINICAL

Arquivo - ANO C - 2009/2010

Monsenhor Vítor Feytor Pinto

JANEIRO DE 2010  

31 DE JANEIRO

No díálogo entre a fé e a ciência

24 DE JANEIRO

Ser cristão hoje

17 DE JANEIRO

Vós sois testemunhas do Ressuscitado

10 DE JANEIRO

Mais um ano

3 DE JANEIRO

Se quiseres cultivar a paz, preserva a natureza
 

No diálogo entre a fé e a ciência

1.     Acabo de ter conhecimento de que o tema para reflexão, no dia da Universidade Católica (7 de Fevereiro), é este: “No diálogo entre a Fé e a Ciência”. É um tema do maior interesse, uma vez que muitos considerem incompatíveis Ciência e Fé. Antecipo a reflexão que nos é proposta pela Universidade Católica, com dois documentos notáveis, um do Frei Bento Domingues, no Público de 24 de Janeiro e outro de uma informação recebida por e-mail e que é da autoria de Gabriel García Márquez, prémio Nobel da Literatura, uma carta enviada aos seus amigos.

2.      O texto de Bento Domingues, quero que seja uma grande homenagem ao nosso querido Padre João Resina. Diz o autor:

“Entre nós, o Padre João Resina, que foi professor do Instituto Superior Técnico de Lisboa e investigador do Centro de Física da Matéria Condensada, soube marcar sempre, com muita clareza, a distinção entre o campo da ciência e o da religião. Para este grande espiritual e pouco amante de liturgias farfalhudas, os conflitos entre a ciência e a Igreja católica não se colocaram entre duas verdades em conflito – como às vezes se diz -, mas entre duas maluqueiras. Apetece-me sugerir a edição, em livro, dos seus textos referidos em nota, para leitura dos estudantes de teologia, dos pregadores e dos catequistas. Sem ter em conta que o clima cultural se modificou a partir da prática das ciências, corre-se o risco de criar dificuldades escusadas, no campo religioso, às crianças e aos adultos, que podem ver conflitos onde não existem. Quando dirigia a catequese na paróquia do Campo Grande (Lisboa), o Padre Resina manifestou a sua preocupação antecipadora: que se fale dessas coisas às crianças antes de se falar no liceu; e que se diga que uma coisa é tudo o que vem de Deus, que é a criação, e outra a maneira como o Universo evoluiu e que não tem nada a ver com religião.

Referindo-se às acusações que lhe faziam em nome da Bíblia, o próprio Galileu observava com ironia: ‘A intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se deve ir para o céu e não como vai o céu.’ Sabia que estava a usar a palavra ‘céu’ em sentidos completamente diferentes.”

3.     O texto de García Márquez em carta aos seus amigos, aparece agora na Internet: “Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapos e me presenteasse com mais algum tempo de vida, eu aproveitaria esse tempo o mais que pudesse.

Dormiria pouco, sonharia mais, porque entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.

Aos homens eu provaria quão equivocados estão ao pensar que deixam de se enamorar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se enamorar.

A um menino dar-lhe-ia asas e apenas lhe pediria que aprendesse a voar.

Aos velhos eu diria que a morte não chega com o fim da vida, mas sim com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi convosco homens … aprendi que todo o mundo quer viver em cima da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa.

Aprendi que quando um recém-nascido aperta com a sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo de seu pai, agarrou-o para sempre.

Aprendi que um homem só tem direito a olhar o outro de cima para baixo, quando está a ajudá-lo a levantar-se.

São tantas coisas as que pude aprender convosco, mas Deus tem-me ensinado o suficiente para continuar até quando Ele desejar.

Sempre existe um amanhã em que a vida nos dá outra oportunidade para fazermos as coisas bem, mas pensando que hoje é tudo o que nos resta, gostaria de dizer-te quanto te quero, que nunca te esquecerei.

O amanhã não está assegurado a ninguém, jovens ou velhos. Hoje, pode ser a última vez que vejas aqueles que amas. Por isso, não esperes mais, fá-lo hoje, porque o amanhã pode não chegar. Senão lamentarás o dia em que não tiveste tempo para um sorriso, um abraço, um beijo e o teres estado muito ocupado para atenderes esse último desejo.

Mantém junto de ti o ouvido o muito que precisas deles, o quanto lhes queres e trata-os bem, aproveita para lhes dizer, ‘perdoa-me’, ‘por favor,’ ‘obrigado’ e todas as palavras de amor que conheces.”

Um comentário: Não sei qual a dimensão religiosa de García Márquez, mas sei que é cristão.

4.      No diálogo entre a Ciência e a Fé, temos sempre motivos acrescidos para acreditar em Deus e levarmos a toda a humanidade os valores que, por Cristo em Cristo, Deus nos testemunha. Meu Deus, eu creio!

31 de Janeiro de 2010

Ser cristão  hoje       

1.     Num tempo caracterizado pela perda de valores espirituais, pode dizer-se que não é nada fácil ser cristão e assumir-se como cristão no meio da cidade. Muitos dizem-se agnósticos, constantemente à procura do transcendente que lhes escapa. Alguns afirmam-se mesmo ateus, recusando sistematicamente qualquer ideia de Deus. Há mesmo uns tantos que, a partir de um laicismo radical, consideram seu dever lutar contra qualquer ideia de religioso, vendo em Deus mais do que uma ilusão, um adversário a combater. Num mundo assim, é mesmo difícil ser cristão.

·       A sociedade está condicionada pelo materialismo e o racionalismo que dominam todas as opções de vida. Só se acredita naquilo que é possível provar pela razão.

·       Os comportamentos estão dominados, pela permissividade hedonista, pelo culto do mais fácil e do prazer. Chega mesmo a dizer-se que “é proibido proibir”, elegendo a liberdade sem fronteiras como o ideal.

·       O homem contemporâneo centra-se no egoísmo individualista, pensando sempre em si, no que melhor lhe agrada e mais lhe convém, no seu interesse pessoal.

·       As vantagens económicas ou sociais são o padrão de conduta, a referência nas opções de vida que é urgente fazer, na família, no emprego, no grupo social.

Havendo indiscutíveis valores positivos, no mundo de hoje, como a defesa da dignidade humana e a procura da paz, o progresso científico e técnico e a sensibilidade ética, apesar disso, com as tradições e a memória do passado, o homem contemporâneo tem muita dificuldade em se dizer cristão e em viver como cristão.

2.      Ser cristão constitui um enorme desafio para quantos receberam dos pais uma herança de fé e se recusam a aceitar o vazio de uma vida sem valores. Ser cristão não consiste em frequentar muito a Igreja, ir à missa e celebrar os sacramentos. Ser cristão não está em repetir muitas orações, participar em muitas iniciativas de caridade e fazer visitas (peregrinações) aos santuários mais conhecidos. Ser cristão não pode limitar-se a algumas atitudes que são bem vistas no grupo de pessoas religiosas, próximas dos sacerdotes ou mesmo de Bispos mais conhecidos. Ser cristão é muito mais do que tudo isto.

·       O cristão conhece-se pelo amor: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei…por isso vos conhecerão como meus discípulos” (Jo 13, 34) é a palavra de Jesus aos primeiros cristãos, os seus companheiros nos caminhos da Galileia e da Judeia.

·       O cristão afirma-se pela sua fé e a “fé consiste na adesão plena e perfeita em Cristo” (L.G. 50). Mais do que confiança, a fé exige conhecimento de Cristo. Depois, porém, uma pessoa que tem fé, deverá tornar-se comprometida em Cristo Senhor, sempre e em todo o lugar.

·       O cristão irradia valores que marcam toda a sua vida. Pela justiça, procura dar a cada um aquilo a que ele tenha direito. Pela verdade, é coerente em todas as atitudes que venha a assumir. Pela liberdade, afirma-se capaz de deixar tudo, para seguir Jesus, incondicionalmente, nos critérios do Evangelho.

·       O cristão é apóstolo, pelo testemunho e pela palavra oportuna, faz discípulos em toda a parte, contagiando-os no amor, até ao baptismo e à pertença responsável da Igreja.

3.      As primitivas comunidades cristãs desenvolviam processos de iniciação à fé que hoje deveriam retomar-se. Nelas, “todos estavam unidos na doutrina dos apóstolos, na fracção do pão e nas orações, e tudo o que tinham punham-no em comum e, assim, aumentava cada vez mais o número dos que aderiam à fé.” (Act 2, 42-47). Porque no dizer de João Paulo II os cristãos adultos, hoje, são pouco mais que catecúmenos (cf.CT. 43 e 44), é necessário retomar a dinâmica catecumenal, com os seus seis passos.

·       Reconhecer a senhoria absoluta de Cristo: não há outro senhor, só a Ele se deve servir.

·       Aceitar reconciliar-se com Deus e com os irmãos através de uma verdadeira penitência, aceitando o perdão que só de Deus pode vir.

·       Deixando-se conduzir pelo Espírito em todas as circunstâncias, porque só o discernimento do Espírito provoca opções correctas e cristãs.

·        Celebrar os sinais, em cada sacramento, para exprimir a fé e nela se fortalecer.

·        Deixar-se guiar pelo testemunho de quantos nos precederam na fé, alguns deles essenciais no caminho cristão já percorrido.

·        Viver em comunidade, porque todo o ser cristão implica uma comunidade de pertença, de alegria, de felicidade.

É a partir deste “ser cristão” que cada homem ou mulher encontra o sentido da vida e se dispõe a imprimir um ritmo novo na vida familiar, profissional, social, política, económica e cultural.

4.      É à luz do ser cristão de verdade que se renova a nossa comunidade do Campo Grande. Pode haver muitas vocações, funções e carismas, mas a comunidade cristã é sempre animada pelo mesmo espírito, vive sempre um só baptismo e uma só fé e partilha sempre do mesmo amor.

       “Num só coração e numa só alma”, ajudemo-nos mutuamente a ser cristãos de verdade.

24 de Janeiro de 2010

Vós sois testemunhas do Ressuscitado

1.    Todos os anos, entre 18 e 25 de Janeiro, as muitas Igrejas cristãs, celebram a Semana da oração pela Unidade dos Cristãos. Quem conhece os caminhos da história sabe que entre o século IX e o século XI se foi agudizando o grande Cisma do Oriente de que resultou a separação de muitas comunidades cristãs da Igreja, nascendo então a Religião Ortodoxa com inúmeras comunidades autónomas. Mais tarde, no século XVI aconteceram outras separações: Lutero, Calvino e Henrique VIII acabaram por fundar as comunidades vulgarmente chamadas protestantes que, por si, têm depois um número grande de confissões com a sua própria autonomia. As Igrejas cristãs passaram a viver separadas umas das outras. Os cristãos, porém, sentiram a necessidade de rezar pela unidade.

·       A Igreja Episcopal (Anglicana) dos E.U.A., em 1908 por iniciativa do reverendo Padre Paul Wattson, lançou a ideia de uma semana mundial de oração, pela unidade dos cristãos.

·       Os delegados à Conferência de Edimburgo, membros das sociedades missionárias protestantes encontraram-se durante o Verão de 1910, na capital da Escócia, para ajudar os missionários a criar um espírito comum.

·       O Concílio do Vaticano II, promulgando o Decreto sobre o Ecumenismo, em 1964, considerou a oração como a alma do movimento ecuménico e animou a celebração mundial da Semana para a Unidade dos Cristãos.

·       O Movimento Ecuménico é hoje um dado adquirido para os cristãos em geral. Basta lembrar o espírito de Assis nascido da reunião interreligiosa de João Paulo II, com 23 líderes de outras tantas religiões.

Esta semana de oração pela unidade dos cristãos é, então, uma oportunidade única para educar as comunidades cristãs, da igreja Católica e de outras Igrejas, no caminho da reconciliação e planear acções ecuménicas, permanentes, na vida de cada uma delas.

2.      “Vós sois testemunhas disso…” (Lc. 24) é o tema para este ano 2010, quando se celebra o centenário da Conferência de Edimburgo. No capítulo 24 de S. Lucas, com o episódio dos discípulos de Emaús, que, vendo Cristo Ressuscitado, de imediato quiseram vir ao encontro da comunidade de Jerusalém, de que se haviam separado, faz-se um apelo a que todas as confissões cristãs se reúnam à volta do mesmo Senhor em que acreditam, Jesus Ressuscitado. É que o Senhor é a fonte de comunhão eclesial, de envio para a missão, unidade e, portanto, da contínua necessidade de renovar o compromisso com a unidade cristã. Poderá perguntar-se: testemunhar o quê?

·       Testemunhar com a celebração da vida, uma vez que a vida cristã tem valores e expressões que se não encontram em mais parte alguma.

·       Testemunhar com a partilha das nossas experiências, pois ser cristão permite experimentar a fé e provocar a ressurreição nas mais diversas situações do quotidiano.

·       Testemunhar com a nossa atenção aos outros, quando sabemos que o outro, seja quem for, é sempre uma presença viva de Jesus a quem servimos, a quem amamos.

·       Testemunhar com a celebração da fé, sabendo que muitos outros nos precederam na fé e nos desafiam a chegarmos sempre mais longe, no acolhimento, no serviço, na entrega às causas mais nobres da humanidade.

·       Testemunhar no sofrimento, porque este constitui um apelo à plena e perfeita comunhão com Cristo na sua paixão, na esperança da ressurreição.

·       Testemunhar pela fidelidade às escrituras, porque só a Palavra de Deus é vida, só na Palavra se encontra a mensagem essencial à construção de um mundo novo, mundo de verdade, de justiça, de amor e de paz.

·       Testemunhar pela alegria de viver, uma vez que acreditar na ressurreição de Cristo é, também acreditar que é possível vencer as dificuldades e construir, na vida, a Páscoa da Ressurreição.

·       Testemunhar pela hospitalidade radical, oferecendo-a e aceitando-a, por saber que as portas abertas é que convertem as solidões em tempo de solidariedade e consolação.

Poderiam ser estes os temas de cada um dos dias da semana da oração pela unidade dos cristãos. A partir deles, cada um pode inventar a melhor maneira de celebrar Cristo ressuscitado de quem importa dar testemunho neste mundo difícil em que vivemos.

3.      Se já somos testemunhas, poderemos tornar-nos testemunhas ainda maiores. Encontrei um texto que nos pode dizer como.

·       Louvando Aquele que nos dá o dom da vida e a ressurreição (dia 1)

·       Sabendo partilhar com outros a história da nossa fé (dia 2)

·       Reconhecendo que Deus age em nossas vidas (dia3)

·        Dando graças pela fé que temos recebido (dia 4)

·        Confessando a vitória de Cristo sobre todo o sofrimento (dia 5)

·        Buscando sempre ser mais fieis à Palavra de Deus (dia 6)

·       Crescendo na fé, na esperança e na caridade (dia 7)

·        Oferecendo hospitalidade e sabendo recebê-la quando nos é oferecida (dia 8)

É um caminho com uma precisão maravilhosa. Em vez de lamentar a divisão dos cristãos, somos convidados a dar testemunho da ressurreição e a chamar todos a ressuscitar de vez com Cristo.

4.      Talvez na nossa comunidade possamos fazer uma Semana de Oração diferente. Não com rituais, conferências ou debates, mas com o testemunho das nossas próprias vidas. É um desafio maior.

17 de Janeiro de 2010

Mais um ano

1. Com o primeiro de Janeiro, começou o ano de 2010, ano que tem de ser tempo de esperança. No ano passado, a nível internacional e também na gestão da casa comum, em Portugal viveram-se muitos momentos de aflição. Todos falaram da crise e esta foi uma realidade bem visível no nosso viver colectivo. Com a falência de bancos, com a corrupção a invadir os sectores económicos, com a dificuldade em encontrar soluções rápidas, o desemprego atingiu números impensáveis, a situação dos mais pobres agravou-se exponencialmente, muitas empresas faliram e pobres envergonhados começaram a bater às nossas portas. É certo que se criaram “fundos de solidariedade”, mas sempre insuficientes para responder aos problemas mais graves que vão “apanhando” as pessoas. O ano que agora terminou, trouxe à nossa comunidade muitas alegrias, mas também alguns sofrimentos.

·    A alegria das famílias que nos trouxeram os filhos pequeninos para receberem o “Baptismo” e que aceitaram aprofundar a própria fé;

·    A alegria de tantas crianças a viver a catequese com a preparação para a 1º comunhão e, sobretudo, para o melhor conhecimento de Jesus;

·    A alegria dos jovens que se prepararam para receber a “Confirmação” num autêntico catecumenato, ou que se reuniram em grupos para reflectir sobre os fundamentos da fé e os compromissos cristãos, na vida quotidiana;

·    A alegria de tantos casais novos que concretizaram o seu sonho de amor, com o sacramento do matrimónio, e aceitaram continuar a encontrar-se para enriquecer de sentido cristão a sua casa;

·    A alegria de tantas famílias em crise que foram ajudadas materialmente e, também, receberam ajudas espirituais, para serem capazes de superar todas as dificuldades;

·    O sofrimento de tantos ao ver partir pessoas que muito amaram, pais ou filhos, avós ou crianças pequeninas, sofrimento este com o lenitivo da oração e do acompanhamento que ajudou a converter a saudade em razão de esperança;

·    O sofrimento de muitos ao sentir a angústia de quantos adoeceram e têm medo de ficar marcados por toda a vida.

É impossível enumerar todas as alegrias e todos os sofrimentos de que a vida de uma comunidade é feita. O que se pretende é que, em 2010, o sofrimento seja menor e a alegria cristã seja a razão de viver.

2. A um ano novo deve corresponder, senão um programa novo, pelo menos um caminho renovado. É isso que se sente na nossa caminhada paroquial: renovar toda a nossa acção pastoral, marcando o ritmo do nosso trabalho com sentimentos de comunhão, no amor, até à unidade. A nossa paróquia tem inúmeros projectos que exigem uma nova organização. O nosso esforço é grande, para respondermos a todos os desafios que a acção pastoral, presente no nosso mundo, nos reclama. Vamos ensaiar um trabalho mais estruturado. São estas as experiências que vamos ensaiar:

·        Uma coordenação geral da responsabilidade do pároco, de toda a equipa sacerdotal, da secretaria paroquial e do grupo que se chama secretariado;

·        A missão profética, sobretudo ao nível da formação, com as catequistas de infância, de jovens, de adultos, a par de grupos de reflexão cristã, de grupos de acólitos e de grupos de preparação para o Crisma;

·        A nível litúrgico, tendo em conta tanto a diversidade de culturas, com as oito Eucaristias dominicais, bem como as celebrações dos baptismos, dos casamentos e mesmo dos ritos a ter nos funerais.

·        A missão de acolhimento considerando essencial a recepção das pessoas que nos procuram e os espaços de encontro como o bar, a livraria, o clube de Jovens, a atenção aos enfermos e aos mais velhos que não podem nunca ficar isolados.

·        Os serviços de ajuda fraterna, entre as quais estão os roupeiros, os voluntários, as Conferências de S. Vicente de Paulo, para o apoio humano e também o Apostolado da Oração, os grupos revisão de vida, a Legião de Maria e outros.

·        A descobrir as outras comunidades, com a preparação do trabalho missionário em Moçambique, no Brasil e noutros lugares.

Tudo isto só é possível com a realização do duplo amor de que fala S. João na sua 1ª Carta: Amando-nos uns aos outros, na certeza de que todo o amor vem de Deus.

3. É claro que este trabalho pastoral em autêntica comunhão supõe uma certa vida comum, como Igreja que somos todos “unidos à cabeça que é Cristo, procurando sempre a defesa e promoção da dignidade humana na liberdade, vivendo e o mandamento do amor em todas as situações, para criar uma comunidade de vida” (cf. L.G. 9).

·         Foi esta comunidade que se sentiu feliz ao ver o Padre Lázaro concluir o seu doutoramento em Teologia na Universidade Católica e ao acolher o Padre Arcanjo como colaborador permanente.

·         Foi esta comunidade que sofreu e continua a sofrer com o acidente que vitimou o Padre João, inconsciente, na cama de um hospital e sem perspectiva de cura próxima.

·         Foi esta comunidade que se alegrou com os muitos sucessos na evangelização, ao atrair tantas crianças, tantos jovens, e tantas famílias.

·         É ainda esta comunidade que sente o amor na diversidade, quando tem o benefício de vários carismas (Verbum Dei, Filhas da Caridade, Teresianas, Claretianos, Vicentinos e outros), carismas estes que a enriquecem constantemente.

·         É esta a comunidade que vive em permanente comunhão com o seu Bispo, o Cardeal Patriarca, com os padres da vigararia, com os membros de todo o clero neste ano sacerdotal.

4. No início de um novo ano, peço a todos os nossos colaboradores e amigos para construirmos uma comunidade viva, uma comunidade de amor.

“Que todos sejamos um só, como Cristo e o Pai são um só” (cf. Jo. 17,20).

10 de Janeiro de 2010

Se quiseres cultivar a paz, preserva a natureza

1.      Desde 1968 que se celebra, em todo o mundo, o Dia Mundial da Paz. A paz constituiu sempre uma preocupação para a Igreja. Desde tempos imemoráveis que os Papas foram intermediários, nos diversos conflitos entre os povos, para conseguirem acordos de paz, autêntica salvação para populações em grande sofrimento.

Com a segunda guerra mundial, multiplicaram-se as vítimas. Mais de 49 milhões de mortos na Europa, na Ásia e mesmo em África, uma vez que a guerra foi universal. Para além disso, a brutalidade das cidades destruídas, a violência sobre as pessoas que ficaram deficientes, o desespero dos refugiados, todo um mundo profundamente marcado pelo sofrimento.

Perante estes cenários, os países sentiram a necessidade de criar um código de comportamentos a aceitar por todos. Assim, foi proclamada, a 10 de Dezembro de 1948, a Carta dos Direitos Humanos. Exigia o direito à vida, à verdade, à justiça, às liberdades, ao trabalho e à participação. Só nesta base seria possível construir uma sociedade mais justa e mais fraterna.

2.      A Igreja associou-se a este esforço de paz, quis ser solidária com todos os homens de Boa Vontade, quis cooperar com a reconstrução do mundo.

O primeiro grito de alerta veio do Papa João XXIII. Num texto maravilhoso, a Encíclica Pacem in Terris publicada a 11 de Abril de 1963, o Papa faz uma longa reflexão sobre os Direitos Humanos, comparando-os com os mandamentos da lei de Deus, reescritos para os homens do século XX. João XXIII abre diálogo com todos os povos, mesmo os que ideologicamente parece estarem mais longe e convida a inserir a liberdade individual no quadro do serviço ao bem comum.

É com grande coragem que João XXIII sublinha os três aspectos que caracterizam a idade moderna: a melhoria das condições sociais e económicas dos trabalhadores, a maior participação das mulheres na sociedade e a criação de novos Estados independentes. Para a construção da paz, exige-se uma visão nova sobre o mundo e sobre cada pessoa.

3.      Paulo VI vai aprofundar ainda mais esta preocupação da Igreja pela paz. Nesse sentido, convida todos os responsáveis dos povos a considerarem o dia primeiro de Janeiro de cada ano o Dia Mundial da Paz. Estava-se em 1968, pouco tempo depois da grande crise dos estudantes de Paris. Assim a Igreja respondia àqueles que confundiam a paz apenas com o silêncio das armas. Era necessário educar a humanidade para a paz verdadeira, a paz integral. É esta a tarefa das mensagens da paz que, em cada ano, os Papas enviam a toda a humanidade. São notáveis, alguns dos temas escolhidos:

·        A promoção dos Direitos dos Homens, caminho para a paz – 1969

·        Educar para a paz, através da reconciliação – 1970

·        Cada homem é meu irmão – 1971

·        Se queres a paz, trabalha pela justiça – 1972

·        A paz é possível – 1973

·        A verdade, a força da paz – 1980

·        Para servir a paz, respeita a liberdade – 1981

·        Diálogo para a paz, um desafio para o nosso tempo – 1983

·        Oferece o perdão, recebe a paz – 1997

·        A pessoa humana, coração de paz – 2007

·        A família humana, caminho de paz – 2008

·        Combater a pobreza, construir a paz – 2009

É um conjunto de temas que desafiam a uma educação sistemática a ter por todos os homens, sobretudo os mais responsáveis pelo destino das nações.

4.      Neste ano, Bento XVI quer estar perto das grandes preocupações da humanidade. Associa-se por isso aos problemas do ambiente, da ecologia, do respeito pela natureza. O tema do ano é este: “Se quiseres cultivar a paz, preserva a natureza”.

·        O respeito pela criação reveste-se de grande importância “porque a criação é o princípio e o fundamento de todas as obras de Deus. A sua salvaguarda torna-se essencial para a convivência pacífica de toda a humanidade.

·        O desenvolvimento está intimamente ligado com os deveres que nascem da relação do homem com o ambiente natural que é uma dádiva de Deus para todos.

·        A Igreja, não pode ficar indiferente perante as alterações climáticas, a desertificação, a perda de produtividade de inúmeras áreas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento das calamidades naturais e tantas outras coisas.

·        Os cristãos têm de acolher os chamados “prófugos ambientais” vítimas da degradação do ambiente onde vivem, e têm também de, quando lhes for possível, ajudar a dar resposta no seu direito à vida, à alimentação, à saúde e ao desenvolvimento.

·        Todos os homens e mulheres devem proteger o ambiente e tutelar os recursos e o clima, agindo no respeito por normas bem definidas e tendo em conta a solidariedade devida a quantos vivem na pobreza e a todos os que serão as futuras gerações.

·        Uma nova solidariedade é a preocupação do Papa, neste 41º Dia Mundial da Paz.

Nesta mensagem de Bento XVI, há inúmeras referências à responsabilidade dos governantes dos povos. Os cristãos, sem responsabilidades políticas, têm no entanto o dever de poupar energia, de utilizar a água com moderação, ser solidários com os mais pobres e cuidar da limpeza das suas casas, dos seus ambientes, das suas cidades.

5.      É diferente, este ano, a proposta para o dia mundial da paz, em que cada um deve recriar a forma de contribuir para a preservação da natureza. Que o fracasso da Cimeira de Copenhaga, não se repercuta na inconsciência das nossas vidas, sem nos preocuparmos com os outros, sobretudo os mais pobres e as novas gerações.

3 de Janeiro de 2010