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MENSAGEM DOMINICAL

Arquivo - ANO C - 2009/2010

Monsenhor Vítor Feytor Pinto

NOV. - DEZ.  DE 2009  

29 DE NOVEMBRO

Vamos preparar o Natal

6 DE DEZEMBRO

A Senhora do Advento

13 DE DEZEMBRO

O melhor presente de Natal

20 DE DEZEMBRO

O que temos de fazer
25 DE DEZEMBRO A Festa do Natal

 

 

A Festa do Natal

1.     O Dia de Natal é o dia em que, na tradição cristã, se celebra o nascimento de Jesus. Foi em 325 da era cristã que se começou a fazer esta celebração. Com ela, substituía-se a festa pagã dos romanos que atribuíam a essa data, o dia do Sol Invicto. Se Cristo vem a este mundo”, se Jesus brilha no meio das trevas, com razão os antigos quiseram consagrar este dia ao nascimento do menino Jesus. Em todas as culturas, desde o século IV, passou a celebrar-se o Natal. É certo que em muitos lugares se foram criando símbolos pagãos: o Pai Natal, uma forma simbólica de S. Nicolau que se preocupava com todos os pobres, neste tempo de inverno; a árvore de Natal coberta de flocos de neve com inúmeros presentes para as crianças; o sapatinho na lareira, à espera do Menino Jesus, portador de imensas recordações. O natal comercial até mesmo estes símbolos estragou, reduzindo tudo à compra de presentes que obrigatoriamente devem ser dados a todos os amigos e conhecidos, em família e fora dela.

 2.     É tempo de redescobrir o Natal de Jesus, natal das crianças, natal das famílias, natal dos pobres, natal do amor, natal dos crentes, natal da Santa Igreja.

·       O natal das crianças: porque os mais pequeninos facilmente são sensíveis aos carinhos do Menino Deus a quem aprendem a amar, com quem gostam de rezar, a quem vão descobrir no “pobrezinho” que se decidem a ajudar.

·       O natal das famílias: porque todos, vindo de longe, se reúnem à volta da lareira, para cantar louvores; todos se sentam à mesa para participar na consoada; todos se consideram amigos para sempre.

·       O natal dos pobres: porque se vai à procura dos sem abrigo, dos mendigos, dos velhinhos para com eles celebrar uma grande ceia de natal, com a partilha de agasalhos e, sobretudo, a afirmação da ternura, num maravilhoso jogo de afectos.

·       O natal do amor: porque é tempo propício para a reconciliação, para o encontro de amigos, para a visita dos que estão mais sós, na doença, na idade ou, simplesmente, na perda das normais relações de vida.

·       O natal dos crentes: porque todos se reúnem noite dentro, para celebrarem a missa do galo e, depois, se aquecerem à volta da fogueira, à porta da igreja, cantando as loas mais belas ao Menino que acaba de nascer.

·       O natal da Igreja: porque em cada paróquia, os cristãos se reúnem para, celebrando o nascimento de Jesus, rezarem acções de graças, repartirem bens, viverem a comunhão no amor que Jesus veio fazer brotar em toda a humanidade. 

  1. Na nossa paróquia, celebramos o Natal do Senhor. Preparamo-nos com tempos fortes de oração e de reconciliação sacramental, mas também com movimentos intensos de partilha, como a venda de natal, a recolha de cobertores, a visita a doentes, o apoio a famílias mais pobres. Agora vamos deixar entrar o Natal no coração e, com a certeza de que o Menino Deus está no meio de nós, faremos uma festa que ecoa pelo ano fora. Levemos a toda a gente, todos os dias e em todos os lugares, o amor que Jesus trouxe ao mundo quando nasceu.

Bom Natal!

25 de Dezembro de 2009

O que temos de fazer?

  1. Nesta proximidade do Natal, com o desejo de haver um mundo mais humano e mais fraterno, certamente muita gente se pergunta: “ o que tenho de fazer?” Se há violências nas ruas, também as há dentro de casa, com os conflitos domésticos; se há crises sociais onde muitos passam fome, há também pessoas que, afectadas pela crise, quase não comem, para que as crianças tenham o suficiente; se há famílias marcadas pela falta de trabalho dos seus mais novos, há outras que viram todos os seus membros perder o emprego, pela falência de algumas empresas. Há muito sofrimento, por aí, neste Natal: doenças inesperadas, cortes de relação, solidão na velhice, saudade de tempos passados, inúmeros conflitos, tudo dificuldades em reencontrar a esperança. Os cristãos podem perguntar-se: perante tudo isto, o que fazer?

·  Mas celebra-se mais um aniversário da proclamação universal dos direitos humanos, quando tantos desses direitos são atropelados.

·  Mas foi atribuído mais um Prémio Nobel da Paz, na mesma data em que foi enviado mais um contingente militar para o Afeganistão, sob o pretexto de combater o terrorismo.

·  Mas inicia-se um diálogo ecuménico e inter-religioso, no âmbito dos hospitais públicos, enquanto multidões se afastam da relação com Deus que seria constante desafio para o amor.

·  Mas foi ajudada Aminetu Haidar, para salvar a sua vida durante a greve da fome, tendo os problemas políticos em África continuado iguais, sem resposta aos direitos dos povos autóctones.

·  Mas é anunciada a vinda do Papa a Portugal, com a alegria de quase todos, enquanto alguns querem denegrir a figura de Bento XVI só porque defende os grandes valores para uma sociedade nova de gente feliz.

·  Mas são reclamadas novas formas de apoio às famílias com mais dificuldade, querendo ao mesmo tempo constituir como família grupos humanos a que falta a suficiente diversidade e complementaridade para gerar comunhão.

É neste mundo muito concreto, cheio de contradições, que se tem o direito de perguntar o que é que os cristãos poderão fazer, que opções, que atitudes, que princípios chave, que análise crítica, que comportamentos…

  1. No tempo de Jesus, apareceu um homem chamado João, vindo do deserto onde comia gafanhotos e mel silvestre, vestindo-se com pele de camelo e vivendo a austeridade mais radical. Desceu até às margens do Jordão e, ali, começou a dizer que o Reino de Deus estava próximo. Todos os que o procuravam, acabavam por perguntar: “o que temos de fazer”.

·  Ao povo, João respondeu: quem tiver duas camisas, dê uma a quem não tem nenhuma e o mesmo deve fazer com os alimentos, para ajudar os que têm fome.

·  Aos publicanos, os donos do dinheiro, João disse: “não cobreis nada, além da taxa estabelecida” pratiquem a justiça dando a cada um aquilo a que tem direito.

·  Aos soldados, garantes da autoridade, João pediu: “não maltrateis ninguém, não façais acusações falsas e contentai-vos com o vosso salário”.

·  A muitos outros João podia interpelar, se as pessoas que o procuravam vivessem da corrupção, da exploração dos mais fracos, da incompetência no trabalho, da injustiça na relação de trabalho.

Esta pergunta “o que tenho que fazer” merece uma resposta na prática da vida e não apenas nas doutrinas mais ou menos teóricas e muitas vezes superficiais, uma resposta no concreto das atitudes a tomar e não apenas no apelo a inúmeras orações sem compromissos.

  1. Os primeiros cristãos, depois do Pentecostes, ao ouvir falar de Cristo ressuscitado, fizeram esta mesma pergunta: se é assim, se Cristo ressuscitou, o que temos de fazer? Com uma clarividência fabulosa, Pedro respondeu:

·  Reconhecei a senhoria absoluta de Cristo: não há outro Senhor, nem o dinheiro, nem o poder, nem o prazer são senhor. Só Cristo é Senhor.

·  Arrependei-vos daquilo que considerem ser um erro: é preciso ter consciência do que é bem e do que é mal, o mal para evitar, o bem para praticar até á exaustão.

·  Aceitai o testemunho daqueles que vos precederam na fé: a maneira de ser dos “santos” é desafio para atingir a perfeição necessária no seguimento de Cristo, até à plenitude da perfeição.

·  Deixai-vos conduzir pelo Espírito: “só os que se deixam conduzir pelo Espírito são de verdade, filhos de Deus” (Rom 8, 14) e ser orientado pelo Espírito Santo é viver no amor, na alegria, na paz, no domínio de si próprio, na caridade total (cf. Gal 5, 24).

·   Celebrai, com sinais externos, a vossa fé. Os sinais são os sacramentos que exprimem a fé e a fortalecem (cf. CDC 840); o Baptismo é o sinal da adesão a Cristo, a Confirmação é o sinal da entrega sem limites, a Reconciliação é o sinal do perdão completo de Deus, a Eucaristia é o sinal da unidade no amor.

·  Entrai para a comunidade dos crentes e vivei em comunhão total: unidos na doutrina dos Apóstolos, na fracção do pão, nas orações e na Eucaristia, pondo em comum todos os bens (cf. Act 2, 42-47); por uma vida assim muitos outros se irão unir à comunidade cristã.

Os primeiros cristãos tinham a preocupação de saber o que fazer e como o fazer, para significarem, sem medo, que acreditavam em Jesus Cristo Ressuscitado e, por Ele, eram capazes de dar a vida.

  1. Esta pergunta apareceu muitas vezes nos textos do Novo Testamento. Basta recordar o grito de Paulo depois da queda na Estrada de Damasco: “Senhor que queres que eu faça” (Act 22, 10). Quem dera que todos nós, os cristãos deste terceiro milénio, tivéssemos a coragem de nos perguntar “o que fazer”

·  Na vida de família, pela comunhão de Amor

·  Na vida de trabalho, pela competência e colaboração eficaz

·  Na vida social, pelo perdão gerador de alegria

·  Na vida espiritual, pela fidelidade às exigências do Evangelho

·  Na vida eclesial, pela acção apostólica que é dado fazer a cada um, em colaboração com a acção de outros em todas as áreas da nossa vida.

Então, pela nossa intervenção cristã, Cristo vai nascer de verdade, neste Natal.

Bom Natal!

20 de Dezembro de 2009

O melhor presente de Natal

1.     Há na Sagrada Escritura páginas de rara beleza. Podem recordar-se duas: o segundo livro das Crónicas em que Deus diz a Salomão, no início da sua missão, que pode pedir o que quiser, ao que o rei responde “dá-me inteligência e sabedoria para eu conduzir o meu povo” (2ª Cr 1, 10); e a profecia de Ezequiel em que o Senhor faz uma promessa a Israel “dar-vos-ei um coração novo e infundirei em vós um espírito novo, arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne, um coração capaz de amar” (Ez 36, 26). Estes dois textos introduzem bem a nossa preparação próxima para o Natal. Poderia perguntar-se o que poderia cada um oferecer a Jesus, ao celebrar o seu aniversário, e o que poderiam as pessoas oferecer-se umas às outras, para construir uma cidade nova neste tempo de Natal. O que de melhor tem cada um para dar é, sem dúvida, o seu coração. Dar o coração a Jesus Menino é, também, dar o coração aos irmãos:

·       Um coração que acolhe, sem olhar a quem, sempre com a mesma alegria, o mesmo sorriso, a mesma ternura;

·       Um coração que perdoa, sem medidas, sem esperar recompensas, apenas porque a misericórdia e o perdão são a maior prova no amor;

·       Um coração que constrói a paz, vencendo as barreiras, criando os dinamismos de reconciliação, porque só assim acontece a unidade desejada;

·       Um coração livre, coração de pobre que não busca os próprios interesses, mas que se dá com toda a generosidade de que é capaz, para o bem de todos, em qualquer situação;

·       Um coração sincero que busca a verdade, que diz a verdade, que serve a verdade, sem nunca comprometer o amor;

·       Um coração sempre justo que dá a cada um aquilo a que ele tem direito, mas que o faz sem procurar ser visto pelos outros porque não quer recompensas;

·       Um coração orante, em diálogo com Deus, levando ao Senhor as preocupações e problemas dos outros, na esperança de que em Deus se encontre a resposta para as dificuldades.

O melhor presente de Natal está certamente em dar o coração. “Só se vê bem com o coração” (Saint Exupéry). Então se cada um oferecer o seu coração a Deus e aos outros, tudo se transforma e a cidade será uma cidade de irmãos, todos de mãos dadas a construir a felicidade. 

2.     Perguntará cada um a quem vai dar o seu coração, neste tempo santo de Natal. A resposta é pessoal. Cada pessoa, com a sua sensibilidade, com a sua história, com os ambientes em que se move, certamente irá descobrir a quem oferecer este melhor presente. É claro que o coração dos cristãos está em Deus e é o Senhor que faz desafios concretos em situações muito específicas. “Vendo com o coração”, cada um dar-se-á conta do próximo mais próximo que precisa de receber sinais de esperança, através deste presente de Natal. Sem dúvida que são próximo os familiares e amigos, os colegas de trabalho, os diversos membros de grupos a que se pertence. Os cristãos, porém, têm de descobrir quem são os próximos mais próximos, aqueles que neste Natal de si mais precisem. É preciso dar o coração:

·       Aos muito pobres que se cruzam na vida de cada um: crianças meio abandonadas, idosos e doentes marcados pela solidão, gente sem eira nem beira que quase todos desprezam; todos estes se encontram no nosso prédio, no nosso bairro, na nossa paróquia.

·       A tantos que perderam a fé, porque, aparentemente, Deus não respondeu à sua súplica e se sentem vítimas numa sociedade e numa igreja que parece tê-los esquecido.

·       A alguns que se afastaram e cortaram relações, apenas porque não compreenderam palavras, gestos e atitudes que pareciam justas; são gente que se sente ofendida e com quem é urgente estabelecer laços de reconciliação.

·       É bom dar o coração a pessoas de outras raças, outras culturas, outros países, migrantes que se sentem completamente desenraizados, neste tempo de Natal; também eles, de religiões diferentes, são irmãos, companheiros de caminho;

·       Dar o coração também aos sem abrigo, aos toxicodependentes, aos alcoólicos, a tantos que nestas festas de Natal sentem mais violenta a pressão da sociedade, sempre a acusá-los e sem os ajudar.

É o coração bom, o coração capaz de amar que inventa a forma de dar testemunho vivo de que Jesus, nascido há mais de 2000 anos, continua a desafiar homens e mulheres a uma nova fraternidade, razão de esperança para todos. 

3.     Se se mudar o coração de cada homem é fácil inundar a vida toda e a vida de todos com a luz do presépio. “Senhor dá-nos um coração novo e um espírito novo”. Este grito do profeta Ezequiel continua a ecoar na vida de todos os cristãos. Pode haver programas de Advento, podem construir-se festas de família, podem organizar-se projectos paroquiais para este tempo santo mas, se não se mudar o coração, tudo é “fogo-fátuo”.

Se neste tempo, cada cristão oferecer o seu coração renovado, como presente de Natal, tudo será diferente e melhor.

·       Perdoar é muito difícil quando se tem o coração magoado, mas é muito belo utilizar o perdão como presente de Natal.

·       Partilhar mesmo para além do supérfluo é exigente, mas há mais alegria em dar que em receber, e o Natal abre-se em sorrisos.

·       Consagrar tempo à oração para o diálogo com Deus é um desafio muitas vezes incompreendido, mas com a oração adquire-se uma força nova para transformar tudo e todos, com a energia que vem de Deus.

·       Dar tempo aos outros, com um coração transformado, mas os outros sentem a ternura e o amor que permite ultrapassar montanhas e abrir caminhos de solidariedade.

Cada um, com o coração novo, pode inventar as formas de transformar este presente de Natal em alegria de viver para todos. 

4.     Com este melhor presente de Natal, possivelmente as festas que se aproximam vão ter outro sabor. Tudo o resto é secundário, só um coração que ama, que perdoa, que se reconcilia, que se dá, que reparte, que é solidário, só um coração assim é capaz de construir o Natal de Cristo, o Natal da esperança que todos desejam. Continue cada um de nós a preparar o seu Natal.

13 de Dezembro de 2009

A Senhora do Advento

1.      Ao longo do ano multiplicam-se as festas dedicadas à Virgem Maria. É a festa de “Santa Maria, Mãe de Deus” logo no primeiro dia do ano; é a “Senhora das Candeias” a 2 de Fevereiro; é a “Anunciação a Nossa Senhora” a 25 de Março, a “Senhora da Piedade” em Abril, na proximidade da Páscoa, a “Senhora de Fátima” no já chamado Mês de Maria; é ainda o “Imaculado Coração da Virgem Santa Maria” a 12 de Junho, “Nossa Senhora do Carmo” em Julho, “a Assunção de Maria” em Agosto, a “natividade da Virgem Santa Maria” em Setembro. A “Senhora do Rosário” em Outubro, a “Apresentação de Maria” em Novembro e em Dezembro “A Imaculada Conceição”. Nossa Senhora acompanha a vida toda da Igreja ao longo do ano litúrgico. A Festa da Imaculada é a festa em que se celebra a Virgem do Advento. Com as suas atitudes, Maria ensina os cristãos a esperarem Jesus e a Ele consagrarem as suas vidas. No diálogo com o Anjo Gabriel, Maria revela a verdade da sua entrega ao Senhor, com a indispensável exigência para quem havia sido escolhida para Mãe do Salvador. São atitudes de Maria:

·        A atenção aos acontecimentos: Maria conhecia a história de Israel e sabia que o Povo de Deus esperava o Messias. Nunca pensou, porém, ser a escolhida para cumprir a profecia de Isaías.

·        A surpresa perante a presença do Anjo Gabriel: ser interpelada por um mensageiro de Deus deixou-a perplexa e, por isso, o Anjo acabou por dizer-lhe “não tenhas medo Maria, encontraste graça junto de Deus” (Lc 1, 30).

·        O discernimento de Maria surpreende: não teve pejo em dizer “isso é impossível, porque eu não posso ser mãe, não conheço homem algum” (Lc 1, 34). Compreenderá porém que “para Deus não há impossíveis” (Lc 1, 37.

·        O risco era grande para uma rapariguita, apenas oferecida em noivado: Maria poderia ser considerada uma mulher sem princípios; o próprio José pensou em abandoná-la, ele que já a desposara, ainda que sem terem vivido em comum (cf. Mt 1, 19).

·        A aceitação da vontade de Deus: esta a maior lição de Maria que soube dizer “servirei o Senhor como Ele quiser, seja como tu dizes” (Lc 1, 38). O Anjo afastou-se e Maria aceitou ser Mãe do Salvador.

Em tempo de Advento, contemplar este diálogo de Maria com o Anjo Gabriel constitui um desafio lindíssimo. Que cada um saiba estabelecer uma relação pessoal com o Senhor e, a partir deste diálogo, se abandone incondicionalmente à vontade de Deus.

2.      Na esteira de Maria os cristãos têm o dever de assumir a sua missão na salvação do mundo. Se é urgente “tratar da ordem temporal, e orientá-la segundo Deus para que progrida e, assim, glorifique o Criador e redentor” (LG 31) então, cada cristão deve estabelecer com Cristo uma relação que o torna colaborador na redenção da humanidade. Esta relação com Cristo faz-se na prática:

·        Na atenção consciente aos grandes problemas do mundo que exigem uma resposta cristã, carregada de amor, de solidariedade e de partilha;

·        Na surpresa exigente que pode ser vencida pelo empenhamento continuado nas coisas concretas onde a presença cristã tem a sua originalidade, uma certeza de redenção;

·        No discernimento necessário, uma vez que só na reflexão, no estudo dos problemas, na descoberta das respostas concretas, se consegue encontrar soluções que a todos satisfaçam e que tenham os valores indispensáveis à transformação da sociedade;

·        No risco inevitável, pois as atitudes cristãs contrariam sempre os interesses de alguns e é preciso ter coragem para abrir os caminhos novos, nem sempre fáceis e agradáveis;

·        Na entrega total á vontade de Deus que se vai descobrindo quando os valores do Evangelho, a verdade, a justiça, a liberdade, o amor passam para a vida comum dos cidadãos e transformam radicalmente a cidade dos homens.

Estas atitudes são eminentemente cristãs e tornam-se necessárias para o mundo novo que é preciso construir. Não bastam as boas intenções, são precisas decisões, gestos, acções que mudem o rosto das coisas. O Advento desafia para a intervenção no mundo e as atitudes de Maria há dois mil anos podem e devem repetir-se no mundo actual.

3.      A Virgem Santa Maria, chamada por Deus para uma missão muito exigente, aceitou o que de Deus lhe vinha, como pedido cheio de amor.

·        Aceitou os desígnios de Deus: não foi um caminho de facilidades, chegou mesmo a ter uma espada de dor a trespassar-lhe o seu coração de Mãe. Mas aceitou até ao fim.

·        Descobriu quem mais precisava dela: foi a Ain Karen visitar a sua prima Isabel, pois estava no 6º mês aquela a quem chamavam estéril. Uma gravidez de risco exigia um serviço de presença e amor mais generoso.

·        Integrou-se no mundo do seu tempo: foi a Belém recensear-se, segundo as tradições do seu povo e as ordens dos que ali tinham poder. Os muitos caminhos para vencer a distância eram apenas circunstâncias a assumir.

·        Ficou serena na perseguição sofrida: depois do nascimento de Jesus teve de fugir com Ele para o cativeiro, no Egipto. Em tudo e sempre foi uma mulher de paz.

A transferência das atitudes de Maria para a vida dos cristãos de hoje é fácil de fazer. De facto, o cristão tem de ter os pés no chão, como Maria, para poder, seguindo os seus passos, colaborar na transformação do mundo.

4.      Na nossa comunidade paroquial, podemos pedir à Senhora do Advento que nos ajude a preparar a chegada de Jesus. Como Ela disse Sim sem condições à vontade de Deus, assim cada um de nós saiba dizer sim, não apenas com palavras, mas com obras de amor e de verdade.

6 de Dezembro de 2009

Vamos preparar o Natal

1.      O mês de Dezembro está a chegar e, com ele, todos começam a preparar as festas do Natal. Foi desde 354 d.C., após a era de Constantino, que os cristãos se dispuseram a celebrar o nascimento de Jesus. Escolheram o dia 25 de Dezembro por ser, no Império Romano, o dia do Sol Invicto, e Cristo é, por excelência, o “Sol vindo do alto”, para iluminar os que se encontram na escuridão e na sombra da morte” (Lc 1, 79), é “ a luz verdadeira que ilumina cada homem que vem a este mundo” (Jo 1, 9), é “a estrela brilhante da manhã” (Ap 22, 16). Curiosamente, o primeiro mosaico cristão em Roma, o mausoléu dos Júlios, no Vaticano, representa Cristo num carro de sol. Os cristãos quiseram converter a festa do nascimento do Sol, em festa do nascimento de Cristo, o verdadeiro sol de toda a humanidade. Na proximidade do Natal, há sinais de uma preparação, segundo as tradições mais diversas.

·    As ruas das cidades enchem-se de luzes e, por toda a parte, se ouvem os cânticos alusivos a este tempo de festa.

·    Nas grandes praças, aparecem as majestosas árvores de Natal, com as mais diversas referências ou gigantescos presépios onde os artistas colocaram toda a sua arte para dar beleza a estes simbólicos monumentos de espiritualidade.

·    Os centros comerciais, com as inúmeras lojas e os pequenos armazéns de bairro, com os produtos mais indispensáveis à vida dos moradores, todos enfeitam as suas montras com símbolos de Natal. Lado a lado o Pai Natal com o Menino Jesus, as inúmeras estrelinhas com as guloseimas deste tempo, os agasalhos de inverno com os brinquedos de crianças, possíveis presentes a oferecer.

·    Nas casas de todas as famílias também se organizam programas, marcando os lugares de encontro, as iguarias da consoada, as coisas que crianças e adultos poderão converter em “presentes de Natal”. A noite Santa não permite improvisos e a festa de família tem de ser preparada a preceito.

Deve referir-se, porém, que tudo isto revela a preparação do natal Social, do natal da tradição, do natal cultural, do natal económico, do natal dos interesses e só, muito à força, refere o Natal cristão.

2.      Os cristãos preparam o seu Natal ao longo de quatro semanas, tempo cheio de beleza a que chamam Advento. Foi à volta do ano 600 da era cristã que se compreendeu que o nascimento de Jesus deveria ser preparado, no recolhimento, na oração, na partilha fraterna, na esperança do tempo novo a construir. O Advento quer dizer chegada. Se na antiguidade clássica se fazia o advento, para preparar a visita de um soberano, um imperador ou um rei, agora os cristãos fazem o Advento para preparar a vinda de Jesus que chega simbolicamente, no seu aniversário em cada Natal.

·    O Advento é tempo de preparação, sobretudo para renovar o coração, o converter, para o tornar digno de receber o Messias, o Salvador que chega para dar um sentido novo à vida de cada um.

·    O Advento é tempo de esperança, sobretudo para deitar todas as cargas negativas que o mundo actual trouxe ao quotidiano das pessoas, a esperança que permite ultrapassagem e consegue oferecer novas razões de alegria e de paz.

·    O Advento é tempo de oração, momentos fortes de encontro com o Senhor, de diálogo de amor com o nosso Deus, de intimidade total que permite falar com Ele, “como um amigo fala a seu amigo” (Ex 33, 11).

·    O Advento é tempo da chegada de Jesus que veio como irmão mais velho, para ensinar caminhos novos, e virá de novo, no fim dos tempos, para acolher a todos como iguais filhos de Deus, na grande festa eterna.

Através do Advento, as comunidades cristãs preparam-se para celebrar o nascimento de Jesus, mas também dão aos crentes oportunidade de se renovarem, na alegria e no amor.

3.      A liturgia é companheira inseparável, nesta caminhada para o Natal. Ao ritmo de cada domingo, os cristãos vão descobrindo desafios interessantíssimos que convidam a uma renovação constante. São os três textos de cada liturgia dominical que dão o mote para o caminho do Advento, mas é o Evangelho dos quatro domingos que marca o ritmo da caminhada ao encontro de Jesus, neste Natal.

·    A importância da libertação – o 1º Domingo convida a ler os sinais dos tempos, a manifestação da passagem de Deus nos acontecimentos do mundo. Conhecendo a realidade, procura-se a libertação do mal. Por isso, se levanta a cabeça e se permanece vigilante, em todo o tempo.

·    A urgência de intervir no mundo, preparando novos caminhos. O 2º Domingo chama os cristãos, para que deixem a atitude de passividade perante o mundo e abram tempos novos, endireitando os caminhos tortuosos para que “toda a criatura veja a salvação do nosso Deus” (Lc 3, 6).

·    A necessidade de mudar de vida, mesmo partilhando os bens – o 3º Domingo indica atitudes, difíceis de pôr em prática. É a pregação de João Baptista, respondendo à pergunta: “Que devemos fazer?” (Lc 3, 10). Atitudes novas: repartir, viver a justiça, celebrar o perdão, não praticar violência.

·    A capacidade de descobrir o amor – o 4º Domingo, já festa de natal, coloca o cristão perante o sinal que melhor o identifica, os gestos de amor. De facto, a visita de Maria a sua prima Isabel, dá dimensão única ao amor serviço, ao amor generosidade, ao amor sacrifício, ao amor que é a matriz do cristão.

Estes quatro domingos proporcionam extraordinário caminho de Advento: na libertação, na intervenção, na partilha e no amor sem condições. É por aqui que o cristão, à margem de Jesus, pode descobrir o seu caminho, na preparação para o Natal.

4.      A paróquia do Campo Grande tem propostas para a preparação do Natal, mas é cada um que deve ter a coragem de, em exigência pessoal, saber preparar um Natal diferente, um Natal verdadeiramente cristão.

29 de Novembro de 2009