A liturgia deste domingo conta a mais bela parábola que Jesus teve a oportunidade de construir no seu diálogo com um doutor da lei. A preocupação deste era apenas, no início, alcançar a salvação. Porém, querendo justificar-se perguntou “e quem é o meu próximo?”. Com a parábola do samaritano Jesus altera completamente os conceitos. Se todos julgavam que o próximo era o homem caído na estrada socorrido pelo samaritano, a estória revela que o samaritano é que se fez o próximo do homem assaltado pelos ladrões. A partir desta parábola, os cristãos, se o querem ser, têm de assumir-se próximos de todos os outros. Esta parábola que Jesus contou tem características absolutamente extraordinárias.

Perante o homem caído na estrada há muitos que passam de lado, sem se darem conta daquele que está em sofrimento. Curiosamente até um sacerdote (da antiga lei) e um levita (chamado também a servir no templo), seguem a sua viagem de nada se dando conta. Esta estória repete-se no mundo contemporâneo. Multiplicam-se os pobres, são muitos os sem abrigo, há idosos abandonados em suas casas, há gente em muito sofrimento, mas a maioria das pessoas passa de lado. Pode ser por medo ou porque a lei não permite, mas esta atitude é sempre reveladora da indiferença perante os outros que se vive no mundo actual.

Um desafio está em seguir a opção do samaritano. Ele deu-se conta do homem caído na estrada, parou, apoiou-se da montada, socorreu-o cuidando das feridas, levou-o à estalagem, pagou as despesas, e prometeu voltar. Esta é a dinâmica do amor que é proposto aos cristãos. É uma mudança radical de atitude.

Os cristãos devem estar atentos aos que sofrem e fazer-se próximos deles. Podem alterar até o seu projecto, porque o sofrimento do outro os interpela. Fazê-lo é parar, aproximar-se, cuidar. Não havendo dois casos iguais, o fazer-se próximo exige a criatividade do amor que descobre a melhor forma de ajudar e de salvar o homem que se encontrou caído na estrada.

O mais difícil, porém, está depois em dar continuidade à assistência que se prestou. Descobrir as melhores formas de ultrapassagem das barreiras que impediam a proximidade, o cristão torna-se, de facto, próximo do outro, transmitindo-lhe a alegria que lhe restituirá a vida.

Fazer-se próximo é um imperativo cristão perante a Pessoa de Jesus que também se fez próximo da Humanidade ao encarnar. Tudo tinha sifdo feito por Ele e para Ele, era o Primogénito, em tudo tinha o primeiro lugar. Apesar disso, quis fazer-se o último e o servo de todos, encarnando e dando a vida por amor no suplício da cruz. Jesus dá assim, a lição máxima da proximidade (cf II leitura).

Mais importante do que saber quem é o meu próximo, está para o cristão, o fazer-se próximo de todos os outros.

Monsenhoe Vitor Feytor Pinto

***********************************************************
LITURGIA DA PALAVRA

«QUEM É O MEU PRÓXIMO?»

(Lc 10, 29)

I LEITURA – Deut 30, 10-14

«Esta palavra está perto de ti, (…), para que a possas pôr em prática»

Leitura do Livro do Deuteronómio
Moisés falou ao povo, dizendo: «Escutarás a voz do Senhor teu Deus, cumprindo os seus preceitos e mandamentos que estão escritos no Livro da Lei, e converter-te-ás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma. Este mandamento que hoje te imponho não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance. Não está no céu, para que precises de dizer: ‘Quem irá por nós subir ao céu, para no-lo buscar e fazer ouvir, a fim de o pormos em prática?’. Não está para além dos mares, para que precises de dizer: ‘Quem irá por nós transpor os mares, para no-lo buscar e fazer ouvir, a fim de o pormos em prática?’. Esta palavra está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a possas pôr em prática».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 68 (69), 14.17.30-31.33-34.36ab.37 (R. cf. 33)

Refrão: Procurai, pobres, o Senhor
e encontrareis a vida. Repete-se

A Vós, Senhor, elevo a minha súplica,
pela vossa imensa bondade respondei-me.
Ouvi-me, Senhor, pela bondade da vossa graça,
voltai-Vos para mim pela vossa grande misericórdia. Refrão

Eu sou pobre e miserável:
defendei-me com a vossa protecção.
Louvarei com cânticos o nome de Deus
e em acção de graças O glorificarei. Refrão

Vós, humildes, olhai e alegrai-vos,
buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará.
O Senhor ouve os pobres
e não despreza os cativos. Refrão

Deus protegerá Sião,
reconstruirá as cidades de Judá.
Os seus servos a receberão em herança
e nela hão-de morar os que amam o seu nome. Refrão

Ou: Salmo 18 B, 8-11 (R. 9a)

Refrão: Os preceitos do Senhor alegram o coração. Repete-se

A lei do Senhor é perfeita,
ela reconforta a alma.
As ordens do Senhor são firmes
e dão sabedoria aos simples. Refrão

Os preceitos do Senhor são rectos
e alegram o coração.
Os mandamentos do Senhor são claros
e iluminam os olhos. Refrão

O temor do Senhor é puro
e permanece eternamente.
Os juízos do Senhor são verdadeiros,
todos eles são rectos. Refrão

São mais preciosos que o ouro,
o ouro mais fino;
são mais doces que o mel,
o puro mel dos favos. Refrão

II LEITURA – Col 1, 15-20

«Por Ele e para Ele tudo foi criado»

Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Colossenses
Cristo Jesus é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda a criatura; porque n’Ele foram criadas todas as coisas no céu e na terra, visíveis e invisíveis, Tronos e Dominações, Principados e Potestades: por Ele e para Ele tudo foi criado. Ele é anterior a todas as coisas e n’Ele tudo subsiste. Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo. Ele é o Princípio, o Primogénito de entre os mortos; em tudo Ele tem o primeiro lugar. Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus.
Palavra do Senhor.

ALELUIA – cf. Jo 6, 63c.68c

Refrão: Aleluia. Repete-se

As vossas palavras, Senhor,
são espírito e vida:
Vós tendes palavras de vida eterna. Refrão

EVANGELHO – Lc 10, 25-37

O «bom samaritano». O caminho para a vida eterna é socorrer um desconhecido e tratar dele com eficiência.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, levantou-se um doutor da lei e perguntou a Jesus para O experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?». Jesus disse-lhe: «Que está escrito na Lei? Como lês tu?». Ele respondeu: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento; e ao próximo como a ti mesmo». Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem. Faz isso e viverás». Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: «E quem é o meu próximo?». Jesus, tomando a palavra, disse: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores. Roubaram-lhe tudo o que levava, espancaram-no e foram-se embora, deixando-o meio- morto. Por coincidência, descia pelo mesmo caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Do mesmo modo, um levita que vinha por aquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas, deu-as ao estalajadeiro e disse: ‘Trata bem dele; e o que gastares a mais eu to pagarei quando voltar’. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?». O doutor da lei respondeu: «O que teve compaixão dele». Disse-lhe Jesus: Então vai e faz o mesmo».
Palavra da salvação.