Vigília Pascalna Ressurreição do Senhor – Celebração transmitida em directo

 

Chegamos finalmente àquele momento que vínhamos preparando desde a quarta-feira de cinzas, quando começámos o nosso percurso da Quaresma. Uma Quaresma que este ano ficou marcada por esta pandemia que está a afectar o mundo inteiro e que nos colocou a todos de quarentena e nos privou de muitas coisas: da liberdade de irmos para onde queremos, de estarmos com as pessoas que amamos, de desenvolvermos normalmente as nossas actividades. Mas este tempo trouxe também coisas que pudemos com certeza aproveitar para este caminho quaresmal, para a preparação da nossa Páscoa. Trouxe-nos recolhimento, trouxe-nos obrigatoriamente a reserva de algumas coisas, impediu-nos de ter acesso a alguns bens e, portanto, implicou renúncias inicialmente forçadas mas que certamente fomos capazes de, ao longo deste tempo, ir integrando isso na nossa caminhada espiritual e fazer dessas renúncias um acto de amor, para protecção daqueles que amamos e das pessoas do nosso país.

 

E eis que, também ainda neste contexto, chegamos a esta noite da Páscoa. Isto fez-me pensar quando rezava os textos de hoje, na maneira como aquelas duas mulheres – Maria Madalena e a outra Maria – caminhavam naquele romper da aurora para o sepulcro. Elas tinham estado ao lado de Jesus juntamente com Maria, mãe de Jesus, e com o discípulo João durante todo aquele tempo em que o Senhor foi preso, julgado, crucificado. E, com certeza, terão também acompanhado o processo do Seu funeral que teve de ser apressado, já o sabemos, porque se aproximava o dia de Sábado. E por isso vão, nesta madrugada, a caminho do sepulcro, para concluírem os ritos fúnebres e poderem ungir o Senhor e dar-Lhe o tratamento habitual e digno naquelas circunstâncias.

 

Agora podemos pensar o que iria no coração e no pensamento destas mulheres. Haveria ali uma certa desilusão pois tudo aquilo que o Senhor tinha feito, que elas tinham presenciado, até o que o Senhor tinha feito nas suas próprias vidas, parecia ali ter chegado ao fim. De facto, o Senhor tinha dito em algum momento – e bem se lembravam elas dessas palavras – que haveria de ressuscitar ao terceiro dia. Mas a nossa fé é tão fraca e com certeza a fé daquelas mulheres iria tocada por essa grande interrogação: será possível que isso venha a acontecer? Será possível que o amor não tenha ficado morto naquela cruz, mas possa ainda vir a manifestar-se na ressurreição deste Senhor a quem nós amamos? E, por isso, eu acredito que iria nos seus corações um misto de sentimento de perda mas também de uma certa esperança de que alguma coisa o Senhor ainda haveria de manifestar.

 

Elas tinham estado toda a noite, naquele tempo de escuridão e trevas, à espera dos primeiros raios de luz, do romper a manhã. E naquela noite, naquele caminhar, naquela escuridão, naquela manhã, estão também as nossas noites, as nossas esperas, os nossos medos, o nosso caminhar que às vezes nos parece longo demais, que às vezes nos parece demasiado difícil de fazer simplesmente com as nossas forças. Na desilusão e nas expectativas delas estão também as nossas desilusões e as nossas expectativas, mas na esperança destas duas mulheres simples pode residir também a nossa esperança. Será que a noite, a escuridão, a treva pode dar lugar a um amanhecer novo?

 

Na verdade, não é por acaso que elas caminham no romper da manhã, porque aquela vai ser uma manhã muito especial. Aquela manhã dará lugar à manhã de um dia novo! O dia estava a romper e com esse romper a novidade que haveria de vir às suas vidas, e que nunca deixaria de o ser para sempre.

 

“Não tenhais medo” – foi esta a palavra suave que o anjo lhes dirigiu naquela manhã. Extraordinário o que aconteceu: um tremor de terra primeiro. Imaginem o susto que terá vindo ao coração daquelas mulheres, e ao mesmo tempo o medo e a expectativa. Porquê isto? Aquele anjo a surgir diante delas, a desbloquear o túmulo, removendo aquela pedra pesadíssima que tinha para ali sido rolada, e depois estas palavras que serenam tudo: “Não tenhais medo”. Palavras que não eram alheias aos ouvidos destas mulheres; sabemos que Jesus as disse inúmeras vezes àqueles que estiveram próximos dele. Disse estas palavras inúmeras vezes aos discípulos nos momentos das suas dúvidas; disse estas palavras inúmeras vezes às pessoas com quem se cruzou, em que tocou, para transformar as suas vidas, para lhes dar um futuro novo. E, mais uma vez, o anjo vem com estas palavras ao encontro destas mulheres. As mesmas de Jesus, capazes de apaziguar os medos dos seus corações, de abrir espaço e disponibilidade a um futuro novo, que só o pode ser com Ele.

 

E aquele túmulo, que aprisionava na escuridão, nas trevas, na morte, o corpo de Jesus, foi finalmente aberto. Estas pedras, ao serem destruídas, são também simbolicamente, a destruição de todas as pedras que nos esmagam, que esmagam o desejo que nós temo, tantas vezes, de construir a nossa vida com Jesus. Estas trevas, que deixam finalmente entrar a luz, podem ser também simbolicamente as trevas da nossa vida a deixarem que a luz do Ressuscitado nos ilumine e ilumine o nosso desejo de vida e vida em abundância que, sabemos bem, só o Senhor é capaz de nos fazer experimentar.

 

É por isso que, nesta noite, somos chamados a sair como aquelas mulheres a anunciar! É tão bonito porque elas, que vinham tratar de um morto, de repente veem-se na presença de um vivo, de um ressuscitado. E quando o Senhor as encontra no caminho, cheias de emoção, de agradecimento, de fé, elas lançam-se-lhe aos pés, prostram-se diante dele, porque sabem bem que ali está o Senhor! O Senhor, que em determinada etapa do seu caminho, as tinha encontrado, lhes tinha retemperado as forças, lhes tinha dado um novo horizonte para o seu caminhar, e que agora volta a estar ali junto delas e lhes dá uma missão, que será naquele dia e nunca deixará de o ser para sempre – para elas e para todos os que, através delas, ouviram este anúncio. Somos nós, também, chamados a ser anunciadores do mesmo que elas: Cristo está vivo! E nós temos a vida n’Ele! É um dom e ao mesmo tempo um convite – o Senhor espera que nós acolhamos a glória da ressurreição, o Senhor espera que nós caminhemos para esta vida, o Senhor espera que nós nos deixemos encontrar por Ele no caminho. O Senhor sussurra continuamente aos nossos ouvidos, no meio das nossas dificuldades, dos nossos medos: “Não tenhas medo”.

 

Deixemos que essa palavra seja verdade para nós, deixemos que tenha a força que ela carrega de eliminar tudo aquilo que tantas vezes nos faz sentir o peso da vida, para nos dar a leveza daqueles que carregam sobre si o jugo leve e suave de Jesus. É um caminho, uma estrada aberta à nossa frente, é uma luz que se acende na escuridão.

 

Um dos meus momentos favoritos desta celebração da Vigília Pascal é precisamente o do lucernário, em que a igreja está toda às escuras, simbolizando o mundo e as suas trevas, e nós entramos com aquela luz do Círio Pascal, do Ressuscitado que, a princípio é tão fraca, mas logo é capaz de romper com as trevas e de nos fazer distinguir primeiro algumas sombras e, depois, à medida que os nossos olhos se vão habituando e essa luz se vai espalhando, somos capazes de ver a glória da ressurreição.

É isso que o Senhor quer que nós sejamos – pequenas luzes a brilhar no meio da escuridão deste mundo como a Sua própria luz brilha em nós, na nossa vida, no nosso coração. Se deixarmos que isto aconteça para nós, isto transforma-nos a vida, transforma-nos a missão, como aconteceu com as mulheres naquele dia e como vai acontecer logo depois com os discípulos de Emaús que já se iam embora, entristecidos, a voltar para as suas casas, pensado que tudo tinha acabado. E como também vai acontecer com os outros discípulos que estão fechados em casa com medo dos judeus, e onde o Senhor também vai aparecer. E vai acontecer também para Tomé, aquele que precisava de ver para crer, e até isso Jesus lhe concede.

 

O Senhor quer que nós O vejamos, que que o Ressuscitado seja uma evidência para nós, seja uma companhia para a nossa vida. As vidas de todos daqueles que se encontraram com o Ressuscitado ao longo dos séculos, passaram a ter um sentido novo, como a nossa vida também tem um sentido novo – anunciar que Jesus vive, em todos aqueles que abrirem o seu coração e O deixarem fazer aí a Sua morada. Como eles somos chamados a deixar nascer este dia novo nos nossos corações. Que esta Vigília Pascal, iluminada por esta luz que é Cristo, veja amanhecer uma manhã nova na vida de cada um de nós. Como eles, somos chamados a reencontrar nesta alvorada um sentido novo para a nossa existência, para o nosso agir, um sentido novo que há-de desdobrar-se nas múltiplas maneiras de amar que havemos de encontrar.

 

Nesta manhã de Páscoa podemos escutar a palavra segura: “Não tenham medo. Ressuscitou.”.

 

11 abril 2020