Celebração da Paixão do Senhor – Sexta-Feira Santa

 

Grande homem, este Jesus!

Vejam como um homem, que sabe que é enviado para dar testemunho da verdade, com as suas opções e o caminho que vai trilhando, com aquilo que faz ver através da vida que escolhe, leva até ao fim esse seu compromisso pela verdade.

Vemos Pilatos quase até a desdenhar de Jesus – “O que é a verdade?”. Mas Jesus sabia muito bem que vinha para dar testemunho da verdade que Ele é com o Pai. Dessa verdade maior da misericórdia de Deus. Do desejo grande que Deus tinha, e continua a ter, de se reconciliar com cada um dos homens, de os chamar de novo a si e ao seu coração misericordioso.

Vejam até onde um homem profundamente comprometido com a verdade pode ir. Jesus teve muitas oportunidades para escolher um caminho diferente, para recuar. Jesus tinha até o poder para, em determinados momentos desta história, escolher outro caminho, escolher fazer diferente. Mas vejam como o seu compromisso com a verdade e com aquilo que Ele tinha de fazer, que era dar testemunho até ao fim, o levou até à cruz. E, na cruz, o levou até à morte. Deu a vida pela verdade que era chamado a testemunhar; deu a vida pela verdade que Ele próprio era.

 

Grande homem, este Jesus!

Habituámo-nos também a ver Jesus a caminhar para o Calvário no meio de muitas dificuldades. Não só pelas agressões que lhe foram feitas antes e durante essa dura caminhada, não só por causa do escárnio de que foi alvo, procurando quebrá-lo ao longo do caminho, mas também porque o vemos cair. Tradicionalmente, quando celebramos a Via Sacra, vemos Jesus cair três vezes.  

 

Grande homem, este Jesus!

Mesmo no meio das quedas, próprias da sua humanidade, mesmo no meio da fragilidade, da falta das forças perante o peso enorme daquela cruz, que era muito mas do que o madeiro que Ele carregava, já de si pesado. Mesmo sabendo o que ia enfrentar daí a pouco, Ele não recuou nem um passo, Ele permaneceu mudo, Ele levantou-se as três vezes para levar até ao fim, na obediência, o projecto do Pai.

 

Grande homem, este Jesus!

Grande exemplo de humanidade, de alguém que quer até ao fim – e não quer outra coisa senão isso – fazer cumprir a vontade do Pai. Viver na obediência.

O nosso antigo Cardeal Patriarca, D. José Policarpo, tinha um lema de armas que dizia “Pela obediência à liberdade”. E é isto que Jesus nos mostra – obedece para ser livre; obedece para nos libertar totalmente de qualquer jugo, para podermos carregar nos nossos ombros, como Ele também diz, “o jugo suave” da misericórdia de Deus e do Seu amor.

 

Grande homem, este Jesus!

Que pode Ele ensinar-nos? Na nossa vida quotidiana, de cada dia? Na nossa vida familiar? Na nossa vida de cidadãos que somos? Como homens e mulheres que estão no mundo do trabalho, da cultura, das artes, da ciência, da academia? Consagrados e consagradas, que estamos aqui hoje para o adorar na cruz?

Um homem comprometido com a verdade, que até ao fim escolhe obedecer ao projecto de Deus. Que, por causa disso, vence todas as dificuldades, vence todos os medos, vence todos os fracassos. Nada é capaz de o dissuadir.

Já pensámos nisto? Quantos momentos podiam ter dissuadido Jesus ao longo deste processo que nós acabámos de escutar… Até onde iria cada um de nós? Na nossa humanidade? Até onde vai cada um de nós neste compromisso que Deus nos chama a fazer com a verdade que Ele é; neste compromisso de obedecermos, em todos os momentos, à Sua vontade; a carregarmos, sobre as nossas costas, não o jugo  pesado das frustrações e das dificuldades, mas o jugo leve da Sua misericórdia, que constantemente nos resgata, que constantemente nos sustenta.

 

Grande homem, este Jesus!

Um homem que não tem medo de se deixar ajudar por um cireneu, um desconhecido, que nada tinha a ver com o assunto e que aparece, naquele momento, à beira da estrada. E, sabe Deus porquê, é requisitado para ajudar Jesus a carregar a Sua cruz. Só um homem com uma grande humanidade, como Jesus, se deixaria assim ajudar, de forma tão bonita, a levar o seu projecto até ao fim.

Quantas vezes nós temos uma tarefa grande, hercúlea, que parece maior do que as nossas forças, e não sei se por orgulho ou incapacidade, achamos que temos que a levar sós; que é só para nós, que não temos de aceitar nenhum cireneu a ajudar-nos. Penso que isso não é um sinal de força; é, muitas vezes, sinal da nossa fraqueza – o querer ir só, o dispensar a comunhão, esse braço que pode sustentar-nos e que pode, juntamente connosco, levar até ao fim a missão que inicialmente pensámos ser só nossa.

 

Grande Deus, este Jesus!

Não há nenhum exemplo, na história da humanidade, de um Deus como Jesus. De um Deus que se revela assim, fraco, sem poder (aparentemente). De um Deus que desce à condição da criatura – o criador que partilha com a criatura o que de mais imperfeito ela pode ter; o criador que se deixa julgar pela criatura; o criador que se deixa crucificar; o criador que morre de amor pelo criado. Não há outro exemplo de um Deus assim.

 

Grande Deus, este Jesus!

Ontem víamos Jesus ajoelhar-se aos pés dos discípulos para os amar como quem se põe ao serviço, porque o amor é sempre servir o outro, é sempre o dom total de nós mesmos, é sempre uma entrega desmedida, completamente gratuita, porque senão não é amor; não é este amor que Jesus nos quer ensinar hoje.

 

Grande Deus, este Jesus!

Que não ignora a situação em que vive a Humanidade e vem resgatá-la, vem ao seu encontro, “mete-se” nisso. E faz o caminho mais cru – deixa que toda a nossa violência possa recair sobre Ele, sobre a sua vida, para nos ensinar que não é pela violência que a nossa Humanidade se cumpre. Que não é pela violência que chegamos áquilo que de maior podemos alcançar. Pelo contrário, Jesus ensinou-nos, pelo seu próprio sofrimento, que a violência não nos serve de nada. E que também não nos destrói, se for vivida, atravessa, com os pés na rocha firme que Ele é, com os olhos postos n’Ele, na sua palavra, na eucaristia, nos sacramentos, na vida que afinal brota constantemente d’Ele.

 

Nós podíamos olhar para a Paixão de Jesus e realçar dela aqueles aspectos mais pietistas, podíamos estar a contemplar o Senhor com uma atitude (e por favor não se ofendam) “piegas”. Mas não foi para isso que Jesus morreu na cruz. Não foi para fazer aflorar em nós esses sentimentos de pena, nem para que nos quedemos a chorar por Ele como fizeram as mulheres de Jerusalém a quem Ele até diz: “Não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos”. Jesus morreu na cruz para que nós não tenhamos que morrer em nenhuma cruz; para que não tenhamos que ficar presos a nada daquilo que, nesta vida, nos oprime, nos faz sofrer, nos escandaliza, nos paralisa no caminho para Ele, para a felicidade que Ele nos promete, para o amor verdadeiro que dure, seja eterno, incondicional.

Como é que cada um de nós está aqui hoje? Como é que cada um de nós olha hoje para a cruz?

Eu desafio que cada um olhe para a cruz como um caminho de salvação que o Senhor abriu para nós e que nunca mais se fechará, como uma ponte por onde cada homem e cada mulher, redimidos, possam passar (e esse é o verdadeiro sentido da Páscoa) e alcançar o abraço misericordioso e terno do Pai.

19 abril 2019