TODO O CRISTÃO É PROFETA – Os cristãos, qualquer que seja a sua vocação, sacerdotes, religiosos ou  leigos, todos participam a seu modo na função profética, sacerdotal e real de Cristo. Todos proclamam a Palavra de Deus, que têm o dever de aprofundar continuamente. Todos se relacionam com Deus na oração pessoal ou na oração comunitária vivida na liturgia, isto «no exercício da função sacerdotal de Cristo» (SC, nº 7). Todos vivem a caridade fraterna, preocupando-se sobretudo com os mais pobres e com os que mais sofrem. A primeira responsabilidade é a profética, de onde provêm depois as outras duas. O cristão anuncia em toda a parte a sua fé em Jesus Cristo, fé alicerçada no conhecimento da Palavra de Deus que, depois, se leva à prática na vida quotidiana. A liturgia deste domingo recorda aos cristãos a sua função profética: a vocação do profeta, em Jeremias, a missão do profeta que no centro de tudo a caridade fraterna e, finalmente, o preço a pagar pelo profeta, sempre incompreendido e muitas vezes perseguido.

  1. Jeremias transcreve a palavra que recebeu do Senhor: «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi, antes de saíres do seio da tua mãe, eu te consagrei». A vocação do profeta é um dom gratuito de Deus, não é fruto das qualidades que ele tenha, é o resultado de uma escolha pessoal. E quem é o profeta? É aquele que fala em nome de Deus, que vê o mundo com os olhos de Deus, que é enviado por Deus a proclamar a sua vontade. Fiel à vocação, o profeta sofre a exigência de Deus, mas também a infidelidade daqueles que não aceitam o que Deus pede. Jeremias, um profeta do Antigo Testamento, não consegue evitar o cativeiro da Babilónia, mas continuou a interpelar o Povo de Israel para não perder a confiança no Senhor.
  2. «Aspirai com ardor aos dons espirituais.» Esta palavra de Paulo aos cristãos de Corinto abre a porta a uma nova profecia, o hino da caridade, com todas as exigências que o amor contém. No Antigo Testamento, os profetas denunciavam, condenavam, exigiam, embora tendo em atenção a magnanimidade de Deus. No Novo Testamento o que se anuncia  é o Amor como solução para os caminhos da salvação procurada. O profeta ama a Deus e aos irmãos no exercício nobre da caridade. Mas também ensina a amar. O amor que propõe «não é inconveniente, não procura o próprio interesse, não se irrita, não guarda ressentimentos. Este amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Não acaba nunca». O amor é a profecia por excelência.
  3. Completando a mensagem de Lucas sobre a Boa Nova a anunciar, o Evangelho vem dizer que Jesus não foi bem recebido na sua terra, expulsaram-nO  e quiseram mesmo apedrejá-lO. De facto, quando não se aceita a mensagem do profeta, a solução que se encontra é matar o profeta, impedir que ele proclame noticias diferentes. Foi assim no Antigo Testamento: «Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas.» Foi assim com Jesus, que acabou crucificado. Será sempre assim com os profetas dos tempos modernos. Muitos fazem tudo para calá-los, mesmo perseguindo-os e expulsando-os do meio do povo. Não é fácil ser profeta, mas é vocação eminentemente cristã.
Monsenhor Vitor Feytor Pinto
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LITURGIA DA PALAVRA:  

I LEITURA – Jer 1, 4-5.1

A vocação de Jeremias. É um erro entender este texto como se significasse que o homem é uma simples peça num jogo de xadrez que Deus joga. Deus, que é livre, cria pessoas livres. Convida algumas, como convidou Jeremias, para uma colaboração muito próxima. Jeremias terá de agir. E «Eu te escolhi».

Leitura do Livro de Jeremias
No tempo de Josias, rei de Judá, a palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações. Cinge os teus rins e levanta-te, para ires dizer tudo o que Eu te ordenar. Não temas diante deles, senão serei Eu que te farei temer a sua presença. Hoje mesmo faço de ti uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e uma muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e dos seus chefes, diante dos sacerdotes e do povo da terra. Eles combaterão contra ti, mas não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL –  Salmo 70 (71), 1-2.3-4a.5-6ab.15ab.17 (R. cf. 15ab)

Refrão: A minha boca proclamará a vossa salvação. Repete-se

Em Vós, Senhor, me refugio,
jamais serei confundido.
Pela vossa justiça, defendei-me e salvai-me,
prestai ouvidos e libertai-me. Refrão

Sede para mim um refúgio seguro,
a fortaleza da minha salvação.
Vós sois a minha defesa e o meu refúgio:
meu Deus, salvai-me do pecador. Refrão

Sois Vós, Senhor, a minha esperança,
a minha confiança desde a juventude.
Desde o nascimento Vós me sustentais,
desde o seio materno sois o meu protector. Refrão

A minha boca proclamará a vossa justiça,
dia após dia a vossa infinita salvação.
Desde a juventude Vós me ensinais
e até hoje anunciei sempre os vossos prodígios. Refrão

II LEITURA – Forma longa 1 Cor 12, 31 – 13, 13

Um dos textos célebres de S. Paulo sobre a caridade.

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: Aspirai com ardor aos dons espirituais mais elevados. Vou mostrar-vos um caminho de perfeição que ultrapassa tudo: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como bronze que ressoa ou como címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu possua a plenitude da fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. Ainda que distribua todos os meus bens aos famintos e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita. A caridade é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa; não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O dom da profecia acabará, o dom das línguas há-de cessar, a ciência desaparecerá; mas a caridade não acaba nunca. De maneira imperfeita conhecemos, de maneira imperfeita profetizamos. Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Mas quando me fiz homem, deixei o que era infantil. Agora vemos como num espelho e de maneira confusa, depois, veremos face a face. Agora, conheço de maneira imperfeita, depois, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade.
Palavra do Senhor.

II LEITURA  – Forma breve 1 Cor 13, 4-13

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: A caridade é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa; não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O dom da profecia acabará, o dom das línguas há-de cessar, a ciência desaparecerá; mas a caridade não acaba nunca. De maneira imperfeita conhecemos, de maneira imperfeita profetizamos. Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Mas quando me fiz homem, deixei o que era infantil. No presente, nós vemos como num espelho e de maneira confusa; então, veremos face a face. No presente, conheço de maneira imperfeita; então, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade.
Palavra do Senhor

ALELUIA – Lc 4, 18

Refrão: Aleluia. Repete-se

O Senhor enviou-me a anunciar
a boa nova aos pobres,
a proclamar aos cativos a redenção. Refrão

EVANGELHO – Lc 4, 21-30

Encontros e desencontros ente Jesus e os homens.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?». Jesus disse-lhes: «Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum». E acrescentou: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.
Palavra da salvação.