O IDEAL DA COMUNIDADE CRISTÃ – Desde os primeiros tempos do cristianismo compreendeu-se que a vida cristã supõe a pertença a uma comunidade. Aliás, se a Igreja é a grande comunidade dos crentes, a que o Concílio Vaticano II ousou chamar Povo de Deus, e a que todos os cristãos pertencem, cada um tem no entanto de ter a sua pequena comunidade onde se realiza plenamente como cristão. Era assim a comunidade de Jerusalém onde todos estavam unidos «na doutrina dos Apóstolos, na fracção do pão, nas orações e até mesmo na partilha dos bens» (cf. Act 2, 42-47). A liturgia deste V Domingo da Páscoa sugere-nos esta pertença à comunidade. É Paulo que sente a necessidade de sair de Damasco e se unir à comunidade de Jerusalém onde, pela sua história, não era fácil viver. É João que na sua primeira carta marca a atitude fundamental na comunidade cristã, acreditar em Jesus Cristo Ressuscitado e amar os irmãos como Ele nos amou” (cf. 1ª Jo 3, 2) Finalmente para ter um modelo de comunidade foi o próprio Jesus que nos deu a alegoria da videira: todos os cristãos unidos a Ele, a cepa, e todos unidos uns aos outros na caridade.

1. A experiência comunitária de Paulo
A vida de Paulo em Damasco não foi fácil. Era receado pelos convertidos a Jesus Cristo e era condenado pelos judeus que viviam na cidade. Acabou por ter de fugir, passando dentro de um cesto as muralhas do velho burgo. A sua referência foi a comunidade de Jerusalém. Apresentado por Barnabé, foi acolhido por todos os crentes. No entanto alguns temeram que ele fosse apenas um judeu introduzido para controlar a vida da comunidade. Por outro lado, os judeus, fiéis ao Sinédrio, consideravam-no um traidor. Na aparência era duplamente mal amado. Os líderes da comunidade acompanharam-no, então, até Cesareia de Filipe e depois a Tarso, sua terra natal. Em cada um destes lugares havia já pequenas comunidades cristãs que o trataram como irmão. Talvez tenha sido por esta sua experiência que ele, apóstolo dos gentios, se tornou fundador de comunidades cristãs. De Antioquia a Roma foram muitas as comunidades fundadas por Paulo. Os seus longos caminhos através do mundo conhecido outra coisa não foram do que a consagração de um líder que, ao anunciar Jesus Cristo, revelava que não era possível ser cristão, sem estar numa comunidade viva e evangelizadora.

2. A lei fundamental de uma comunidade cristã
Jesus Cristo anunciara um mandamento novo “que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 13, 34). É preciso levar à prática esta lei do amor. Não há lugar melhor para fazê-lo do que uma comunidade cristã. É com a mesma dinâmica do amor que se ama a Deus e aos irmãos. A relação com Deus estabelece linhas de confiança que são profundamente pacificantes. É certo que a prática dos mandamentos é sinal de uma profunda relação com Deus. Porém, o primeiro dos mandamentos é o amor aos irmãos. Por isso, João na sua carta, aconselha os membros das comunidades a acreditarem em Jesus Cristo e a amarem-se uns aos outros.

3. A alegoria da videira
Esta é uma das páginas mais belas do Evangelho. Jesus, num misto de exigência e de poesia quis dizer “eu sou a videira vós os ramos” (Jo 15, 5). Numa descrição simples, Jesus estabelece a relação de pertença ao dizer que é preciso estar unido à videira, permanecer n’Ele, viver d’Ele, estar em comunhão com Ele. Por outro lado, os discípulos estão em comunhão uns com os outros numa caridade verdadeira. Esta dupla relação com Cristo e com os irmãos é condição para dar fruto para que esse fruto permaneça. A comunidade cristã não se fecha sobre si própria, alimenta-se de Cristo, celebra o amor fraterno e dá fruto em abundância para que todos tenham vida.

Monsenhor Vítor Feytor Pinto
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LITURGIA DA PALAVRA:

«SE ALGUÉM PERMANECE EM MIM E EU NELE,

ESSE DÁ MUITO FRUTO»

  (Jo 15, 5)

I LEITURA – Actos 9, 26-31

Em Jerusalém, Barnabé é o homem leal que acredita na lealdade de Saulo. Anos depois, em Antioqia, Barnabé é o homem lúcido que pede a colaboração de Paulo. Renuncia assim a um primeiro lugar e à fama, mas torna possível a obra imensa de S. Paulo. 

Leitura dos Actos dos Apóstolos
Naqueles dias, Saulo chegou a Jerusalém e procurava juntar-se aos discípulos. Mas todos o temiam, por não acreditarem que fosse discípulo. Então, Barnabé tomou-o consigo, levou-o aos Apóstolos e contou-lhes como Saulo, no caminho, tinha visto o Senhor, que lhe tinha falado, e como em Damasco tinha pregado com firmeza em nome de Jesus. A partir desse dia, Saulo ficou com eles em Jerusalém e falava com firmeza no nome do Senhor. Conversava e discutia também com os helenistas, mas estes procuravam dar-lhe a morte. Ao saberem disto, os irmãos levaram-no para Cesareia e fizeram-no seguir para Tarso. Entretanto, a Igreja gozava de paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria, edificando-se e vivendo no temor do Senhor e ia crescendo com a assistência do Espírito Santo.
Palavra do Senhor.

SALMO – 21 (22), 26b-27.28.30.31-32 (R. 26a)

Refrão: Eu Vos louvo, Senhor, na assembleia dos justos. Repete-se

Ou: Eu Vos louvo, Senhor, no meio da multidão. Repete-se

Cumprirei a minha promessa
na presença dos vossos fiéis.
Os pobres hão-de comer e serão saciados,
louvarão o Senhor os que O procuram:
vivam para sempre os seus corações. Refrão

Hão-de lembrar-se do Senhor e converter-se a Ele
todos os confins da terra;
e diante d’Ele virão prostrar-se
todas as famílias das nações. Refrão

Só a Ele hão-de adorar
todos os grandes do mundo,
diante d’Ele se hão-de prostrar
todos os que descem ao pó da terra. Refrão

Para Ele viverá a minha alma,
há-de servi-l’O a minha descendência.
Falar-se-á do Senhor às gerações vindouras
e a sua justiça será revelada ao povo que há-de vir:
«Eis o que fez o Senhor». Refrão

II LEITURA – I Jo 3, 18-24

Não amar por palavras, mas por obras e em verdade. Descobrir que é esse o único sinal de que se pertence a Deus, e deixar serenar o coração. Descobrir que, em qualquer caso, «Deus é maior que o nosso coração».

Leitura da Primeira Epístola de São João
Meus filhos, não amemos com palavras e com a língua, mas com obras e em verdade. Deste modo saberemos que somos da verdade e tranquilizaremos o nosso coração diante de Deus; porque, se o nosso coração nos acusar, Deus é maior que o nosso coração e conhece todas as coisas. Caríssimos, se o coração não nos acusa, tenhamos confiança diante de Deus e receberemos d’Ele tudo o que Lhe pedirmos, porque cumprimos os seus mandamentos e fazemos o que Lhe é agradável. É este o seu mandamento: acreditar no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e amar-nos uns aos outros, como Ele nos mandou. Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele. E sabemos que permanece em nós pelo Espírito que nos concedeu.
Palavra do Senhor.

EVANGELHO – Jo 15, 1-8

A alegoria da cepa.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto. Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei. Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem. Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos».
Palavra da salvação.