ENTRE O PECADO E A GRAÇA – Neste domingo, a liturgia regressa ao Tempo Comum. Por maravilhosa coincidência é-nos proposto assumir a fragilidade humana, como aconteceu com o primeiro par no jardim da Criação e, ao mesmo tempo, aceitar a extraordinária generosidade de Deus que perdoa no tempo e oferece depois uma eternidade feliz. Estes três aspetos estão presentes nas leituras. O pecado de  Adão provocou uma rutura entre Deus e o homem, não porque Deus o abandonasse, mas porque aquele se escondera no jardim (primeira leitura). Mas o Senhor não se cansa de procurar o homem e envia mesmo o seu próprio Filho para restabelecer a relação entre Deus e a Humanidade. No diálogo que Jesus estabelece com os Seus e com os que O procuram, Jesus outra coisa não diz senão que é essencial aceitar a vontade de Deus. Esta verdade é tão exigente que Jesus, referindo-se a Maria, chega a dizer que a sua  mãe e os seus irmãos são aqueles que fazem a vontade de Deus (Evangelho). A liturgia completa-se com um texto lidíssimo da segunda Carta de S. Paulo aos Coríntios em que os cristãos são convidados a ressuscitar com Cristo, com a garantia de que ressuscitarão também para uma morada eterna (segunda leitura).

1. A PERDA DA COMUNHÃO – A criação é descrita no Livro do Génesis como um extraordinário mistério da comunhão. No princípio, Deus disse ao par humano: crescei, multiplicai-vos, dominai a terra (Gn 1, 28). A harmonia da criação, porém, foi contrariada pelo homem. Deus pedira um sinal de comunhão, não comer da árvore da vida. O homem não respeitou este sinal e quebrou a comunhão com Deus, com os outros e com todos os seres. Na linguagem simbólica, Adão foge de Deus, Adão acusa a mulher, a mulher acusa a serpente, a serpente não tem como se defender. A rutura foi completa. Não há mais comunhão. Os sinais desta rutura estão na interpelação de Deus à serpente: «Vais rastejar e comer do pó da terra; estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela, e ela esmagará tua cabeça» (Gn 3, 14). Nesta descrição compreende-se que ao pecado de Adão sucede da parte de Deus a promessa de um Redentor.

2. O ESSENCIAL DA MENSAGEM, A VONTADE DE DEUS – Jesus percorreu os caminhos da Galileia e da Judeia anunciando o Reino. Para lhe pertencer há uma condição: aceitar a vontade de Deus. Quando Cristo proclama a Boa Nova, as multidões dividem-se: se há muitos que seguem Jesus sem condições, há alguns que O criticam ferozmente, porque O consideram alguém que subleva o povo. Jesus proclama o perdão de Deus dizendo, porém, que ninguém pode pecar contra o Espírito, isto é, que ninguém pode contrariar o amor que Deus tem pela Humanidade. Muitos vão compreender e vão segui-l´O. A certeza que o essencial é a vontade de Deus está num pequeno pormenor deste Evangelho: Maria e os seus familiares queriam falar a Jesus. A sua resposta, porém, é desconcertante: «A minha mãe e os meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática» (Mc 3, 35). Esta expressão não deixa de ser elogio para Maria, porque Ela escutou a vontade de Deus e viveu-a até ao fim.

3. O HOMEM PARA A ETERNIDADE – A liturgia deste domingo, completa-se com o texto de São Paulo aos Coríntios. Nele sublinham-se duas atitudes do cristão: acreditar e proclamar..Se o desafio da fé é acreditar na ressurreição de Cristo, a responsabilidade do cristão é proclamar essa Ressurreição em todas as situações da vida. Paulo fala do homem interior e do homem exterior, aquele que crê e se santifica, e aquele que proclama e se torna Apóstolo. A vida humana, porém, continuará sempre limitada, porque o essencial é a vida verdadeira que está prometida. É com esta certeza que termina a segunda leitura de hoje: «A vida não acaba, apenas se transforma, e desfeita a tenda do exílio terrestre adquirimos no céu uma habitação eterna.»    (2 Cor 5, 1).

Mons. Vitor Feytor Pinto

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LITURGIA DA PALAVRA:

 «Quem fizer a vontade de Deus

esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».

(Mc 3, 35)

I LEITURA – Gen 3, 9-15

Uma das mais antigas meditações da Bíblia sobre o mistério do mal.

Leitura do Livro do Génesis
Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?». E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta há-de atingir-te na cabeça e tu a atingirás no calcanhar».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 129 (130), 1-2.3-4ab.4c-6.7-8 (R. 7)

Refrão: No Senhor está a misericórdia e abundante redenção. Repete-se
Ou: No Senhor está a misericórdia, no Senhor está a plenitude da redenção. Repete-se

Do profundo abismo chamo por Vós, Senhor,
Senhor, escutai a minha voz.
Estejam os vossos ouvidos atentos
à voz da minha súplica. Refrão

Se tiverdes em conta os nossos pecados,
Senhor, quem poderá salvar-se?
Mas em Vós está o perdão
para Vos servirmos com reverência. Refrão

Eu confio no Senhor,
a minha alma confia na sua palavra.
A minha alma espera pelo Senhor
mais do que as sentinelas pela aurora. Refrão

Porque no Senhor está a misericórdia
e com Ele abundante redenção.
Ele há-de libertar Israel
de todas as suas faltas. Refrão

II LEITURA – 2 Cor 4, 13 – 5, 1

«Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele».

Leitura da Segunda Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: Diz a Escritura: «Acreditei; por isso falei». Com este mesmo espírito de fé, também nós acreditamos, e por isso falamos, sabendo que Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele. Tudo isto é por vossa causa, para que uma graça mais abundante multiplique as acções de graças de um maior número de cristãos para glória de Deus. Por isso, não desanimamos. Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens.
Palavra do Senhor.

ALELUIA – Jo 12, 31b-32

Refrão: Aleluia. Repete-se

Chegou a hora em que vai ser expulso
o príncipe deste mundo, diz o Senhor;
e quando Eu for levantado da terra,
atrairei todos a Mim. Refrão

EVANGELHO Mc 3, 20-35

«Satanás está perdido»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo, Jesus chegou a casa com os seus discípulos. E de novo acorreu tanta gente, que eles nem sequer podiam comer. Ao saberem disto, os parentes de Jesus puseram-se a caminho para O deter, pois diziam: «Está fora de Si». Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam: «Está possesso de Belzebu», e ainda: «É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios». Mas Jesus chamou-os e começou a falar-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode durar. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado para sempre». Referia-Se aos que diziam: «Está possesso dum espírito impuro». Entretanto, chegaram sua Mãe e seus irmãos, que, ficando fora, O mandaram chamar. A multidão estava sentada em volta d’Ele, quando Lhe disseram: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura». Mas Jesus respondeu-lhes: «Quem é minha Mãe e meus irmãos?». E, olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».
Palavra da salvação.