A FIDELIDADE AO QUERER DE DEUS – A Liturgia deste Domingo põe o cristão perante a Lei de Deus. De facto, Deus, no seu amor, dá uma série de normas que têm como objectivo fazer o homem feliz. O Livro do Deuteronómio, chamado assim por ser a segunda lei, contém em si uma série de regras que por demasiadas, constituem fonte de uma certa angústia para o crente. As mais de 600 normas do Livro do Deuteronómio criam a perplexidade de cada um se interrogar sobre se está ou não a cumprir a Lei. Talvez por isso Deus tenha querido simplificar a sua Lei reduzindo-a aos Dez Mandamentos confiados a Moisés no Monte Sinai. Se as mais de 600 normas eram pesadas, os Dez Mandamentos confiados a Moisés são mais simples. A grande síntese da Lei de Deus, porém, foi Jesus que a ofereceu com o chamado Mandamento Novo “que vos ameis uns aos outros como Eu próprio vos amei”. Na Liturgia de hoje, as normas do Deuteronómio tornam grande o Povo de Israel perante os outros povos, Israel é assim uma grande nação (I Leitura). É preciso no entanto, superar os critérios farisaicos uma vez que “não é o homem feito para o sábado, mas é o sábado que é feito para o homem”. O farisaísmo não era libertador, não revelava o Deus do amor (Evangelho). Por isso S. Tiago ao escrever a sua Carta às comunidades cristãs privilegia as atitudes concretas de caridade sobretudo para os mais pobres e para os que mais sofrem, os órfãos e as viúvas (II Leitura).

1. Observar a Lei de Deus
Cumprir a Lei é uma forma de amar. Esta porém, não pode ser tão complicada que se torne difícil compreendê-la, aceitá-la e vivê-la. Era este o problema da segunda lei, o Deuteronómio. Demasiado complexa, com pormenores às vezes quase ridículos. No entanto, a fé num Deus que oferecia regras de comportamento era, para os israelitas, motivo de prestígio perante todos os outros povos. Dizia-se de Israel, é uma grande nação com um grande Deus e preceitos de justiça.

2. Vencer o farisaísmo
Os judeus fizeram duma prática higiénica, lavar as mãos, um rito religioso. Isto era muito frequente nos povos primitivos em que tudo era dependente do querer de Deus. Jesus veio instaurar a liberdade. Para Ele lavar as mãos é apenas uma atitude higiénica. É claro que os fariseus condenavam o facto dos discípulos de Jesus comerem sem lavar as mãos. As práticas farisaicas deviam ser vencidas, por isso Jesus, ao falar de outra prática higiénica, o que se deve ou não comer, pôde dizer que o que faz mal não é o que entra pela boca, mas aquilo que, pela boca, sai do coração. “O que sai do homem é que faz o homem impuro”. Nesta conversa simples entre Jesus e os fariseus, redifine-se o que é essencial no cumprimento da lei. A fidelidade à lei é um sinal do amor que está no coração.

3. A lei em Jesus Cristo é o Amor
Vale a pena ler integralmente a Carta de S. Tiago. Ela está dominada pelo verdadeiro sentido da fé. Quem acredita em Jesus Cristo não tem alternativa, tem de expressar a sua fé em atitudes concretas de caridade. Com razão Tiago diz que “a fé sem obras é morta”. Esta fé vivida na caridade supõe o maior respeito para com Deus, a aceitação incondicional da Palavra, o serviço ao próximo sem condições, inclusivamente não julgar, não condenar, não desprezar. A fé supõe o amor como lei fundamental.

Monsenhor Vítor Feytor Pinto
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LITURGIA DA PALAVRA:

«DEIXAIS DE LADO O MANDAMENTO DE DEUS,

PARA VOS PRENDERDES À TRADIÇÃO DOS HOMENS.»

(Mc 7, 8)

I LEITURA – Deut 4, 1-2.6-8

Moisés ordena ao Povo que não acrescente nem retire nada à Lei.

Leitura do Livro do Deuteronómio
Moisés falou ao povo, dizendo: «Agora escuta, Israel, as leis e os preceitos que vos dou a conhecer e ponde-os em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus de vossos pais. Não acrescentareis nada ao que vos ordeno, nem suprimireis coisa alguma, mas guardareis os mandamentos do Senhor vosso Deus, tal como eu vo-los prescrevo. Observai-os e ponde-os em prática: eles serão a vossa sabedoria e a vossa prudência aos olhos dos povos, que, ao ouvirem falar de todas estas leis, dirão: ‘Que povo tão sábio e tão prudente é esta grande nação!’. Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que O invocamos? E qual é a grande nação que tem mandamentos e decretos tão justos como esta lei que hoje vos apresento?».
Palavra do Senhor.

SALMO – 14 (15), 2-3a. 3cd-4ab. 4c-5

Refrão: Quem habitará, Senhor, no vosso santuário? Repete-se

Ou: Ensinai-nos, Senhor: quem habitará em vossa casa? Repete-se

O que vive sem mancha e pratica a justiça
e diz a verdade que tem no seu coração
e guarda a sua língua da calúnia. Refrão

O que não faz mal ao seu próximo,
nem ultraja o seu semelhante;
o que tem por desprezível o ímpio,
mas estima os que temem o Senhor. Refrão

O que não falta ao juramento,
mesmo em seu prejuízo,
e não empresta dinheiro com usura,
nem aceita presentes para condenar o inocente.
Quem assim proceder jamais será abalado. Refrão

II LEITURA – Tg 1, 17-18.21b-22.27

Ser fiel à Escritura, viver a caridade, resistir ao pecado.

Leitura da Epístola de São Tiago
Caríssimos irmãos: Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descem do Pai das luzes, no qual não há variação nem sombra de mudança. Foi Ele que nos gerou pela palavra da verdade, para sermos como primícias das suas criaturas. Acolhei docilmente a palavra em vós plantada, que pode salvar as vossas almas. Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, pois seria enganar-vos a vós mesmos. A religião pura e sem mancha, aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo.
Palavra do Senhor.

ALELUIA – Tg 1, 18

Refrão: Aleluia. Repete-se

Deus Pai nos gerou pela palavra da verdade,
para sermos como primícias das suas criaturas. Refrão

EVANGELHO – Mc 7, 1-8.14-15.21-23

Jesus conhecedor dos costumes judaicos, adverte os letrados do Templo acerca da falsa hierarquia de valores por ele estabelecida. A tradição é útil e necessária conquanto se distinga o que nela há de humano e de divino.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Marcos
Naquele tempo, reuniu-se à volta de Jesus um grupo de fariseus e alguns escribas que tinham vindo de Jerusalém. Viram que alguns dos discípulos de Jesus comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar. – Na verdade, os fariseus e os judeus em geral não comem sem ter lavado cuidadosamente as mãos, conforme a tradição dos antigos. Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado. E seguem muitos outros costumes a que se prenderam por tradição, como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre –. Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus: «Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?». Jesus respondeu-lhes: «Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens». Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão e começou a dizer-lhe: «Escutai-Me e procurai compreender. Não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro. O que sai do homem é que o torna impuro; porque do interior do homem é que saem as más intenções: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem do interior do homem e são eles que o tornam impuro».
Palavra da salvação.