ANÚNCIO DA MORTE E RESSURREIÇÃO DE CRISTO – Ao longo do ano, por várias vezes, os cristãos são confrontados com o mistério da Morte e Ressurreição de Jesus. Aliás, acreditar na Ressurreição é o essencial da fé cristã. Mas não há Ressurreição sem a Paixão e Morte. Jesus viveu o Mistério Pascal ao longo de toda a sua vida. Como diz a Carta aos Filipenses, “humilhou-se a si mesmo tomando a forma de servo, obedecendo até à morte e a morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e lhe deu o nome que está acima de todos os nomes” (Fil 2, 8-9). O mistério de Jesus tem a sua síntese na sua Morte e Ressurreição. Esta realidade essencial à Redenção foi anunciada por Isaías na alegoria do Servo de Javé (I Leitura). Quinhentos anos depois, Jesus, ao encarnar, vive o mistério da incompreensão e da morte como fora anunciado pelo Servo de Javé. Com toda a clareza Cristo o revela aos seus discípulos, embora estes o não entendam (Evangelho). A Liturgia deste domingo conclui-se com a Carta de S. Tiago que afirma com toda a clareza que a fé sem obras é morta. As obras são a expressão da Ressurreição que em todas as circunstâncias os cristãos provocam (II Leitura).

1. A alegoria do Servo de Javé
Muitas vezes e de muitos modos, ao longo de todo o Antigo Testamento, se foi anunciando a chegada do Messias. Durante o cativeiro da Babilónia, o Povo de Deus sentia mais a necessidade de vir o Salvador. Chegou mesmo a pensar que o Messias era o imperador Ciro, rei da Pérsia, uma vez que foi este que permitiu aos israelitas voltarem a Jerusalém. A verdade do Messias é, porém, contada pelo profeta Isaías na lindíssima alegoria do Servo de Javé. Ao ler-se este texto tem-se uma visão da missão redentora do Messias. Tudo o que o profeta diz do Servo de Javé será vivido por Jesus no seu sofrimento, na incompreensão dos seus concidadãos, e na condenação à morte que irá sofrer. O novo Servo de Javé, Jesus Cristo, porém, ressuscitará e, com Ele, tudo e todos vão ressuscitar.

2. “Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8, 27)
O caminho de Jesus com os discípulos até Cesareia de Filipe coloca um problema fundamental. É o próprio Jesus que quer saber o que pensam d’Ele os seus concidadãos. A resposta não se fez esperar: “uns dizem que és João Baptista, outros Elias e outros ainda um profeta.” Nestas três hipóteses aparecem imagens imperfeitas de Jesus. Jesus é mais do que um essénio, um moralizador, como João Baptista; é mais do que um homem cheio de poder, como Elias, arrastado ao céu num carro de fogo; é mais do que um doutrinador falando ou não em nome de Deus como a grande maioria dos profetas. Interrogado por Cristo, Pedro soube dizer, Tu és o Messias. Teve então, Jesus a oportunidade de dizer que era um Messias diferente e ia sofrer a morte, ressuscitando ao terceiro dia. Pedro não compreendeu, mas Jesus pediu-lhe e aos discípulos que não falassem por agora, destas coisas a ninguém. Só na intimidade do coração se compreende o mistério da Redenção operada por Cristo com a sua Morte e a sua Ressurreição.

3. A fé sem obras é morta
Compreende-se a inserção deste texto numa liturgia que fala claramente sobre a identidade de Jesus. Muitos cristãos julgam-se seguidores de Cristo apenas porque O reconhecem pela fé, Filho de Deus. É preciso compreender, porém, que a fé sem obras é morta, e que a verdadeira ressurreição no tempo só acontece quando se fazem obras de boa vontade, de partilha, e de solidariedade com os que mais precisam.

Monsenhor Vítor Feytor Pinto
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LITURGIA DA PALAVRA

«SE ALGUÉM QUISER SEGUIR-ME,

 RENUNCIE A SI MESMO, TOME A SUA CRUZ E SIGA-ME.»

(Mc 8, 34)

I LEITURA – Is 50, 5-9a

Os sofrimentos do «Servo do Senhor».

Leitura do Livro de Isaías
O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra e sei que não ficarei desiludido. O meu advogado está perto de mim. Pretende alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me?
Palavra do Senhor.

SALMO – 114 (116), 1-2.3-4.5-6.8-9 (R. 9)

Refrão: Andarei na presença do Senhor sobre a terra dos vivos. Repete-se

Ou: Caminharei na terra dos vivos na presença do Senhor. Repete-se

Ou: Aleluia. Repete-se

Amo o Senhor,
porque ouviu a voz da minha súplica.
Ele me atendeu,
no dia em que O invoquei. Refrão

Apertaram-me os laços da morte,
caíram sobre mim as angústias do além,
vi-me na aflição e na dor.
Então invoquei o Senhor:
«Senhor, salvai a minha alma». Refrão

Justo e compassivo é o Senhor,
o nosso Deus é misericordioso.
O Senhor guarda os simples:
estava sem forças e o Senhor salvou-me. Refrão

Livrou da morte a minha alma,
das lágrimas os meus olhos, da queda os meus pés.
Andarei na presença do Senhor,
sobre a terra dos vivos. Refrão

II LEITURA – Tg 2, 14-18

A Fé e as obras.

Leitura da Epístola de São Tiago
Irmãos: De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação? Se um irmão ou uma irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, e um de vós lhes disser: «Ide em paz. Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras? Assim também a fé sem obras está completamente morta. Mas dirá alguém: «Tu tens a fé e eu tenho as obras». Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé.
Palavra do Senhor.

ALELUIA – cf. Gal 6, 14

Refrão: Aleluia. Repete-se

Toda a minha glória está na cruz do Senhor,
por quem o mundo está crucificado para mim
e eu para o mundo. Refrão

EVANGELHO – Mc 8, 27-35

As condições para seguir Jesus.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo, Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?». Eles responderam: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas». Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias». Ordenou-lhes então severamente que não falassem d’Ele a ninguém. Depois, começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas. Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O. Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens». E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».
Palavra da salvação.