ASSUMPÇÃO DA VIRGEM MARIA – 15 de Agosto de 2010

  «O TODO-PODEROSO FEZ EM MIM MARAVILHAS … EXALTOU OS HUMILDES»  

(Lc 1, 49,52)  

  

Assunção de Maria - Ticiano

  I LEITURA – Ap 11, 19a; 12, 1-6a.10ab  

  «Uma mulher revestida de sol e com a lua debaixo dos pés.  

SALMO 44 (45), 10-12.16    

Refrão:  À vossa direita, Senhor, a Rainha do Céu, ornada do ouro mais  fino  

         ou :       À vossa direita, Senhor, está a Rainha.  

II LEITURA – 1 Cor 15, 20-27 – 5, 2   

«Primeiro, Cristo, como primícias: depois os que pertencem a Cristo».  

EVANGELHO – Lc 1, 39-56  

Maria sabe, que a glória de ser Mãe de Deus se deve apenas à escolha de Deus. Por isso, no seu hino de louvor exulta o poder de Deus.  

Para leitura dos textos  clique aqui  

ASSUMPÇÃO DE NOSSA SENHORA  

            Cristãos católicos e cristãos ortodoxos têm uma grande ternura por Maria, “de quem nasceu Jesus” (Mat 1,16). Os cristãos protestantes “ignoram” Maria, com o argumento de que só Cristo é Senhor. Entendamo-nos. Católicos e ortodoxos dizemos, no Glória: «Só Tu és o Santo, só Tu o Senhor, só Tu o Altíssimo, Jesus Cristo». Mas não temos medo de acreditar que, sob a graça de Deus, o homem se vai tornando santo. Em particular, Aquela que o Anjo Gabriel saudou como “cheia da graça”, a quem disse : “O Senhor está contigo.”  

            Veneramos esta rapariga que se entregou radicalmente a Deus, sem cálculos nem condições. Esta mulher que viveu como mais ninguém a proximidade de Deus e nunca tirou daí qualquer vaidade. Esta mulher que cumpriu a sua missão no silêncio, longe das luzes do mundo. Esta mulher a quem, à hora da morte, Jesus nos confiou (Jo 19, 26-27).  

            Os primeiros textos do Novo Testamento são as epístolas de S. Paulo, escritas a partir do ano 50 [1]. S. Paulo anuncia Jesus Cristo como o Filho de Deus, que o Pai enviou à Terra. Para S. Paulo, é tão importante acentuar a transcendência de Jesus, a sua origem divina, como sublinhar que, para nos trazer a salvação, Ele assumiu a nossa condição.  

            “Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido duma mulher, nascido sob o domínio da Lei, … a fim de recebermos a adopção de filhos.” (Gal 4,4-6). (S. Paulo, anos 55-57).  

            “…seu Filho, nascido da descendência de David segundo a carne, manifestado Filho de Deus em todo o poder, segundo o Espírito Santo, na sua ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo, Senhor nosso, …” (Rom 1, 3-4). (S. Paulo, anos 55-57).  

            “Ele (Cristo), que é de condição divina, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tendo-se tornado semelhante aos homens e sendo identificado como homem, rebaixou-se ainda mais, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz.” (Filip 2,6-8). (S.Paulo, 57 ou 63).      

            “É Ele (Cristo) a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura; nele todas as coisas foram criadas, nos céus e na terra (…). Todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele. Ele é anterior a todas as coisas e todas elas subsistem nele.” (Col 1,15-17). (Epístola escrita provavelmente por alguém do grupo de S.Paulo, anos 60).  

            “Bendito seja o Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo (…) Ele nos  escolheu em Cristo antes da fundação do mundo (…) para sermos adoptados como seus filhos por meio de Jesus Cristo. (…) Manifestou-nos o mistério da sua vontade (…): submeter todas as coisas a Cristo, reunindo nele o que há no céu e na terra.” (Efes 1,3-10). (Escrita provavelmente por alguém do grupo de S. Paulo, anos 60).  

            Conta-se que, logo após a morte de S. Pedro, em 66 ou 67, os cristãos de Roma pediram a Marcos, de há muito seu companheiro, que escrevesse tudo aquilo que ele costumava ensinar. Assim apareceu, por volta de 70, o primeiro Evangelho. Na década de 80, Mateus e Lucas, consultando os que tinham contactado com Jesus, procuraram completar a informação.  

            S. Mateus retoma a palavra de S. Paulo, segundo a qual Jesus é o Filho de Deus, que Deus enviou à Terra a nascer de uma  mulher: “Maria, sua mãe, estava noiva de José. Antes de viverem em comum, concebeu pelo poder do Espírito Santo. (…). O anjo do Senhor apareceu a José e disse-lhe: «José, filho de David, não temas receber Maria por tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.» Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco.” (Mat 1,18-23).  

           S. Lucas dá-nos um desenvolvimento maior: “Deus enviou o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem noiva de um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Ave, ó cheia de graça, o Senhor está contigo. (…). Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo.(…)». Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?». O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, Aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus.(…).» Maria disse então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.»” (Luc 1, 26-38).  

            Escrito entre 90 e 100, o Evangelho de S. João é mais uma teologia do que um relato: procura estabelecer relações entre os dados, sublinha os temas maiores, propõe significados. “Desde sempre (no princípio) era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Desde sempre o Verbo estava em Deus. Pelo Verbo tudo começou a existir e sem Ele nada veio à  existência. Nele estava a Vida, e a Vida era a Luz dos homens. A Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam. (…) O Verbo era a luz verdadeira, que veio ao mundo iluminar todo o homem. (…). Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. (…). O Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. (Jo 1, 1-14).  

            Estes textos ensinam que Deus amou tanto os homens que lhes entregou o seu Filho Único (Jo 3, 16). Há aqui uma diferença fundamental entre a perspectiva cristã e as perspectivas judaica e islâmica. Judeus e maometanos acreditam num Deus único, transcendente, misericordioso, capaz de perdoar todos os pecados dos homens. Para eles, no entanto, a doutrina da encarnação do Verbo parece um absurdo: acham que Deus deixaria de ser Deus se entrasse na condição humana. Nós, cristãos, acreditamos nesse quase-absurdo: que o Verbo de Deus tomou a condição humana e veio morrer numa cruz.  

            Mas estes textos levam-nos muito mais longe. Deus não é só aquele Infinito absurdo que ama os homens até ao ponto de permitir que o seu Verbo morra por eles numa cruz. É o Infinito absurdo que elege uma criatura, uma mulher, e faz dela sua Mãe.  

             Sempre os crentes perguntaram como é que se ama a Deus. Os cristãos encontram aqui uma pista. Amar a Deus é entrar na disposição de dar tudo por Ele: querer que a minha vida seja sinal d’Ele para os outros homens, abrir-Lhe o coração e o olhar para Ele numa confiança sem fim. Como, acreditamos, fez Maria.  

            Desde o séc. II, a tradição católica e a tradição ortodoxa afirmam que, em honra deste mistério da Encarnação do Verbo, Maria e José continuaram a viver o casamento na virgindade. Nos evangelhos fala-se nos “irmãos” de Jesus; questão pouco significativa, por isso que, na língua da Bíblia, todo o parente próximo pode ser designado por irmão. No século XVI, o protestantismo decidiu que a Bíblia deve ser tomada à letra e, portanto, José e Maria tiveram, depois do nascimento de Jesus, outros filhos.  

            Maria viveu a infância, a juventude, a maturidade e a velhice nesta terra dos homens. Uma tradição, acolhida pelos católicos e pelos ortodoxos, afirma que, terminado o seu tempo de vida na terra, Maria foi “assumida” ao Céu. Gratidão de Deus àquela que Lhe tinha dito “sim”.  

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[1] Jesus deve ter nascido 6 ou 7 anos antes da data que a tradição fixou como início da era cristã. Foi crucificado e ressuscitou no ano 30, portanto com 36 ou 37 anos.Paulo era uns anos mais novo. O próprio Jesus o converte na estrada de Damasco, talvez em 37. Após longos meses de retiro, começou a trabalhar com Barnabé na evangelização de Antioquia, por volta de 43. Em três longas viagens, Paulo funda numerosas comunidades, na Ásia Menor e na Grécia. Com elas, e com a comunidade de Roma, troca epístolas.  

P.e João Resina Rodrigues (in A Palavra no Tempo II)

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