É NATAL – 26 de Dezembro de 2010

1. O Evangelho de Mateus, no capítulo 1, depois de descrever a genealogia dos descendentes de David, escreve: “Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim” (Mt 1, 18). Para fazer a história do Natal, poderia começar-se da mesma maneira, escrevendo: a celebração do nascimento de Jesus foi assim… No séc. IV, no Concílio de Niceia, em 354, a Igreja sentiu que não bastava celebrar a morte e a ressurreição de Cristo no Tríduo Pascal. Era preciso evocar o Seu nascimento. Converteu-se então a festa romana do sol invencível, na festa do nascimento de Jesus. Foi atribuído o dia 25 de Dezembro como a data a comemorar. No solstício de Inverno os dias começam a crescer, e é o Menino que nasce nesta data que irá crescer até iluminar o mundo inteiro. Ele é a Luz nova que vem a este mundo, Ele é o sol que ninguém pode vencer. Se se celebrava o mistério da Redenção no tempo da Páscoa, a Igreja queria celebrar o mistério da Encarnação no tempo do Natal. A virgem concebera e dera à luz um filho ao qual fora posto o nome de Jesus, que quer dizer “Ele vem para salvar”. Ao longo dos séculos o Natal foi-se enriquecendo na tradição cristã.

• A festa romana do sol invencível converteu-se para os cristãos na festa do Natal, do nascimento de Jesus, o verdadeiro Sol que veio a este mundo.

• Por volta do ano 600 os cristãos sentiram que deveriam preparar o Natal, e assim surgiu o Advento, tempo de reflexão, de silêncio, de conversão.

• Com S. Francisco de Assis surgiu o culto do presépio em pleno séc. XIII, 1223, o Poverello recriou a pobreza da gruta de Belém e com figuras vivas convidou os crentes a adorarem o Menino Jesus.

• Já no séc. XVIII as tradições nórdicas consagraram o pinheiro de Natal coberto de neve e privilegiaram S. Nicolau a que mais tarde deram o nome profano de Pai Natal.

• A grande síntese é feita em finais do séc. XX pelo Papa João Paulo II. Na praça de S. Pedro mandou construir uma gigantesca árvore de Natal que tinha aos pés um presépio de rara beleza. Era nesse ambiente de poesia e de tradição que celebrava as grandes liturgias do Natal.

Cada cristão e, mesmo, cada homem de boa vontade devia redescobrir o verdadeiro sentido do Natal, centrado no nascimento do Menino Jesus. O Natal neste tempo de crise não pode ser meramente comercial, apenas festivaleiro ou seguindo tradições antigas. O Natal tem de ser tempo de novos valores, para significar alguém que nasce para a todos fazer felizes, Jesus o Filho de Deus.

2. É urgente redescobrir o verdadeiro sentido do Natal com as virtudes que o caracterizam. Se a sociedade está envolvida em tensões constantes, o verdadeiro Natal reclama a paz e a boa vontade com todos os homens. Se o homem contemporâneo se deixa tentar tantas vezes pelos egoísmos acumulados, o verdadeiro Natal constitui apelo à fraternidade, ao perdão, à partilha generosa. Se as Igrejas se enchem para repetir cânticos e cumprir ritos antigos, é preciso que elas se esvaziem depois do culto, levando cada crente ao encontro dos mais pobres e dos que mais sofrem. O verdadeiro Natal tem marcas que é preciso assumir.

• A simplicidade do Natal contrasta com as festas que se organizam nas empresas, nas escolas, nos clubes, onde Jesus, que faz anos, nem sequer é convidado.

• A pobreza do Natal contrasta com as despesas que se fazem para comprar presentes caros, que mais servem para afirmar o orgulho de quem dá, do que a alegria de quem recebe.

• A reconciliação e o amor do Natal contrasta com a exclusão de uns tantos que não são convidados porque estão velhos ou doentes, ou quase desconhecidos apesar de fazerem parte dos laços comuns de vida.

• O espírito de família no Natal contrasta com as férias que cada um faz, longe dos seus, apenas para satisfazer caprichos ou correr aventuras que fazem esquecer os mais próximos.

• A ternura para com as crianças no Natal contrasta com o esquecimento das mais pobres que vivem em bairros periféricos, que fazem parte de uma comunidade imigrante, que são deficientes, tristes, irrequietos, ou com marcas difíceis de aceitar.

• A oração e o silêncio no Natal contrastam com a agitação das pessoas, o barulho das ruas, o movimento das cidades. Ninguém chega a ter tempo de fazer silêncio e de se encontrar com o Deus que vai nascer.

É um esforço árduo que é pedido aos cristãos para recriarem a festa do Natal, celebrando nela o mistério da Encarnação. O Natal, como é vivido na sociedade neste terceiro milénio, não tem espaço para Jesus. O desafio feito aos crentes é precisamente este, abrir brechas na comunidade humana que se tornem presépios vivos onde Jesus possa acolher, sorrir, amar e iniciar os caminhos da Redenção.

3. Gostaria de deixar neste Natal a linguagem dos poetas, aqueles que nos permitem ver tudo de outra maneira.

• Para os mais pequeninos recordo um poema de Adolfo Simões Müller: “O Menino Jesus, já cansadinho/ de tanto andar por cima dos telhados/ descalçou os sapatos apertados, / eram novos, e pô-los no caminho.//Nisto, sentiu ruído ali pertinho, / trepou à chaminé com mil cuidados/ e que viu? Dois tamancos esburacados, / e ao pé deles, rezando um petizinho//O Menino Jesus que faz então? /Sem ter nenhum brinquedo ali à mão, / destes que tanto agradam aos garotos, //troca os sapatos pelos do petiz/ e, depois, vai ao Céu mostrar, feliz, / à Virgem Mãe os tamanquinhos rotos…/

• Para os que mais sofrem um poema de José Régio “Frei Vagabundo, humano pó da estrada/ quantas vezes o insultam numa esmola/ a côdea que lhe deitam na sacola, / é uma pedra ao seu rosto arremessada. / Então, no pergaminho do seu rosto, / logo a história da vida se resume, / cada ruga é uma frase de queixume, / cada olhar um lampejo de sol-posto, / …. Frei Vagabundo saiu do claustro do silêncio/ e fez da mão estendida uma bandeja vazia. / Que fria a noite de Natal, / há neve pelo chão, / mas há mais neve na alma /e a dor ainda é mais fria. /

• Para todos um Natal de saudade num poema de Miguel Trigueiros: “Vêm as sombras hoje ter comigo, / vêm as sombras num cortejo lento, / vêm as sombras a pedir-me abrigo, / ou sou eu que as procuro em pensamento? / Primeiro a sombra do meu pai…meu velho…”

Nestes três poemas deixo três mensagens para todos os que participam na vida da Comunidade do Campo Grande. A primeira mensagem é um pedido, ensinemos as crianças a partilhar. A segunda mensagem tem como objectivo os mais pobres, convidemo-los para a nossa mesa, para que não estejam sozinhos na Noite de Natal. A terceira mensagem é uma chamada a que também estejam connosco aqueles que na casa de Deus participam no banquete que para todos está preparado.
Desejo a todos um Natal que mude as nossas vidas, um Santo e Feliz Natal.

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