“ARREPENDEI-VOS E ACREDITAI NO EVANGELHO” (Mc 1, 15) – 26 Fevereiro de 2012

1. A Quaresma é tempo de preparação para a Páscoa. Nas primeiras comunidades cristãs sentia-se a necessidade de preparar a festa da Páscoa, comemoração da Morte e Ressurreição de Jesus. Logo no primeiro século reservaram dois ou três dias para um tempo de jejum e de penitência, uma espécie de luto pela morte do Senhor e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de purificação para celebrar Jesus Ressuscitado. Foi esta celebração que acabou por chamar-se o Tríduo Pascal. Nos séc. II e III os cristãos sentiram que precisavam de uma preparação mais exigente para celebrarem a Páscoa do Senhor. Começaram por reservar uma semana e mais tarde duas a três semanas de oração e de jejum como forma de preparar o coração para a Ressurreição do Senhor. É já no séc. IV que se começa a celebrar a Quadragésima, isto é, uma série de 40 dias de oração para preparar a Festa Pascal. São 40 dias tendo em atenção três grandes acontecimentos: os 40 anos da travessia do deserto, feita pelo Povo Hebreu que, liberto da escravidão do Egipto, vai ao encontro da Terra Prometida; os 40 dias que Elias levou para, alimentado por Deus, chegar ao monte Horeb e ali adorar o Senhor; e sobretudo os 40 dias que Jesus passou no deserto da Judeia em jejum e penitência para se preparar para o anúncio do Reino. A Igreja escolheu então que a preparação para a Páscoa devia conter 40 dias também. Foi o Concílio de Niceia, por volta do ano 325, que consagrou definitivamente a Quaresma como tempo de preparação para a celebração da Morte e Ressurreição de Jesus. A Quaresma começa com um desafio: “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15).

• Arrependei-vos – é um convite à mudança de vida com o reconhecimento sincero de tudo o que não tem estado bem e que é necessário superar.

• Acreditai no Evangelho – é a afirmação de uma referência para a mudança de vida. Só o Evangelho tem os valores essenciais para descobrir os caminhos novos que o cristão tem sempre o dever de percorrer, os caminhos da verdade, da justiça, do bem e do amor.

• A coerência de vida – é uma exigência para vencer toda a forma de hipocrisia nas três propostas que aparecem nas primeiras horas da Quaresma. A esmola, a oração e o jejum, práticas quaresmais, não podem ser feitas para serem vistas pelos homens; são purificadoras da inteligência e da vontade e tornam possível a conversão necessária.

A Quaresma é, para o cristão, em cada ano, um tempo privilegiado de renovação interior, um “grande retiro”, em que se avalia o ser cristão e se pede a ressurreição pessoal necessária. Como Cristo morreu e ressuscitou, também cada cristão deve morrer para imensas coisas e ressuscitar para a vida nova que lhe é proposta pelo Evangelho.

2. Bento XVI, como todos os Papas, enviou às comunidades cristãs uma mensagem para a Quaresma. Escolheu como tema um texto da Carta aos Hebreus: “Prestemos atenção uns aos outros para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Heb 10, 24). A Quaresma, diz o Papa, oferece-nos a oportunidade de reflectirmos uma vez mais sobre o cerne da vida cristã: o amor. Para ajudar os cristãos neste caminho quaresmal, o Papa sintetiza tudo em três palavras: a atenção aos outros, a reciprocidade do amor, e a santidade de vida. De maneira extremamente simples, os cristãos são convidados a não se limitarem à conversão do coração, mas transformarem em mudança de vida a atitude que venham a ter com todos os seus irmãos.

• A atenção aos outros – o que se pretende é dar a cada cristão a oportunidade de não viver distraído. Não basta ver os outros ao cruzar por eles, é necessário prestar-lhes atenção, de tal forma que cada um se aperceba das necessidades do outro. Não por uma razão de curiosidade, mas pelo desejo de lhe prestar um serviço. A observação do outro desafia a amá-lo sem limites.

• A correcção fraterna – esta referência é, na mensagem do Papa, profundamente original, corresponde a uma atitude de ajuda, que possibilita ao outro ultrapassar as suas próprias debilidades. É uma forma de amor, na medida em que cada um se apercebe que no melhor caminho dos outros também pode encontrar a própria perfeição.

• A reciprocidade – ao amor que os outros nos dedicam descobrimos o dever de os amar ainda mais. É isto o ser recíproco no dom. Desta forma o amor fraterno vai crescendo cada vez mais até à medida da perfeição de Cristo. Se há mais alegria em dar do que em receber, saber receber transforma-se numa dádiva nova.

• O testemunho de vida – depreende-se de toda a mensagem de Bento XVI a importância de testemunhar aos outros a fé e o amor que molda a vida de cada cristão. Assim, dar testemunho é acolher e compreender todos e ser solidário com os mais pobres.

• O caminho da santidade – é pelo amor partilhado, amor a Deus e amor aos irmãos, que se consegue a santidade verdadeira. O Concílio afirmou que a santidade consiste na comunhão plena e perfeita com Cristo. Esta comunhão, porém, não se alcança senão através do amor aos irmãos, porque o que se faz a um dos irmãos mais pequeninos é a Jesus que se faz (cf. Mt 25, 40).

A mensagem de Bento XVI pode ter inúmeras leituras. O Senhor Patriarca insiste no dinamismo da fé, da esperança e do amor. É sempre, porém, o mesmo itinerário que nos é proposto com a dinâmica do perdão, com o arrependimento e o desafio da vida nova com as propostas do Evangelho.

3. A Quaresma na nossa comunidade constitui um tempo de renovação pessoal e comunitária, no aprofundamento espiritual, na linha da fé e numa intervenção mais eficaz na vida de caridade. Seremos capazes de aproveitar este tempo santo como oportunidade de um compromisso cristão mais assumido?

• A renovação da fé – há muitas propostas de renovação espiritual: orientação para a oração pessoal, oportunidade de debates no campo dos valores do Evangelho, aprofundamento da fé em catequeses organizadas, valorização dos tempos fortes de reflexão e silêncio que nos sejam propostos, tudo isto a par de inúmeras celebrações comunitárias.

• A afirmação da caridade – a atenção aos outros sobretudo os mais pobres, ou os mais isolados, a partilha de bens, especialmente perante a pobreza envergonhada. A ajuda a quem precisa de apoios para superar as dificuldades e muitos outros gestos de caridade com o repartir do tempo, das opiniões, dos afectos e até da própria fé. Tudo são gestos de amor para quem precisa de se sentir amado.

• O testemunho de esperança – no mundo de hoje, cruzam-se nas nossas vidas inúmeras inquietações. São as dificuldades económicas, os problemas de emprego, as perdas de crédito, como são também as doenças inesperadas, a morte de um familiar, a incerteza perante o futuro. O cristão tem o dever de testemunhar a esperança, ficando sereno na adversidade. Por muito difíceis que sejam os tempos, Deus está sempre presente para além do tempo. É preciso confiar.

É neste contexto das virtudes teologais que é possível celebrar na comunidade o caminho quaresmal. Se o conseguirmos, a Páscoa será mesmo de Ressurreição

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