A INICIAÇÃO CRISTÃ DOS ADULTOS-25 de Maio de 2014

1. Quem acompanha de perto a vida dos cristãos, facilmente se dá conta da pouca formação que têm no que à vida cristã diz respeito. Foi o Papa João Paulo II que, numa exortação pastoral sobre a catequese, Catechesi Tradendae, diz a páginas tantas que “os cristãos adultos, na sua maioria, não são mais do que catecúmenos” (CT43 e 44). Na realidade, a maior parte daqueles que se consideram católicos, não tiveram outra formação para além da catequese que os preparou para a 1ª Comunhão. Depois de quatro anos de catequese, muitas vezes mera aprendizagem de fórmulas, nada mais fizeram para se iniciar na vida cristã. Daqui resultou o que dizia o Concílio Vaticano II ao afirmar que “o maior escândalo do mundo actual é o divórcio entre a fé e a vida, na vida de muitos cristãos”. A reiniciação cristã dos adultos é extraordinário desafio feito à Igreja. Recordo-me de um grande amigo, Jesus Lopez, perito em Espanha na catequese de adultos, me ter dito um dia haver seis coordenadas no ser cristão. Sem elas, é muito difícil que um cristão viva, em tudo, como cristão comprometido. São estas as coordenadas de que é urgente falar:

• A centralidade da vida em Cristo. É Ele o Senhor, não há outro Senhor. Reconhecer a senhoria absoluta de Cristo e pautar, por Ele, todas as atitudes, é o primeiro passo para se ser cristão.

• Ter capacidade de discernimento para saber o que é bem e o que é mal. O cristão deve ser capaz de reconhecer os erros e de os vencer, em atitude de conversão. De facto, o arrependimento de quanto se faz de errado, e a procura de uma vida nova são essenciais na vida cristã.

• Recorrer aos sinais que exprimem a adesão à pessoa de Jesus. Os sacramentos são sinais que exprimem a fé e a fortalecem. São assim os sacramentos da iniciação cristã, o Baptismo, a Confirmação e a Eucaristia. São assim também todos os outros sacramentos, sinais de comunhão total com Cristo.

• Deixar-se conduzir pelo Espírito Santo. É através da oração que se ouve a voz do Espírito. Ele sopra onde quer e, na consciência de cada um, vai segredando propostas de vida cristã na família, no trabalho, na vida económica e social.

• Aceitar o testemunho daqueles que nos precederam na fé. Quantas pessoas nos deram sinais de ser cristão? Quantas contribuíram para a descoberta de Jesus, pelo seu testemunho de vida? Evocar a sua influência nas opções cristãs é elemento essencial do crescimento na fé e na pertença à comunidade cristã.

• Participar na vida da comunidade. Os cristãos, na comunidade de Jerusalém, estavam todos unidos na doutrina dos Apóstolos, na fracção do pão e nas orações. E tudo o que tinham punham-no em comum. Ter intervenção na vida da comunidade cristã é uma das formas, talvez a mais importante, do aprofundamento da fé. Cada cristão tem de assumir a responsabilidade de levar ao mundo, a partir da comunidade, os valores do Evangelho.

A iniciação e reiniciação cristã de adultos exige o aprofundamento destas seis coordenadas. Este dinamismo é algo de permanente. Para ser cristão adulto não basta ser praticante na vida ritual e litúrgica; é necessário “intervir na ordem temporal orientando-a segundo Deus para que progrida e assim glorifique o Criador e Redentor” (LG 31).

2. Na vida humana ninguém cresce sozinho. Ao longo da vida nunca se está satisfeito com o grau de conhecimento e com as responsabilidades que se vão assumindo. Quer-se sempre mais. Deve ser assim também na vida cristã. Em comunidade, num processo de crescimento, conseguir ser cada vez mais e melhor cristão. É um processo catecumenal que tem vários passos.

• É um processo por etapas, com um crescimento progressivo. Reflecte-se sobre a escolha que foi feita pelo Senhor; acompanha-se cada sacramento que se redescobre; aceita-se a missão de ser cristão em toda a parte.

• É um processo marcado por ritos. Recorrer ao simbólico, uma das características do homem, é enriquecedor na relação com Deus e com os irmãos. Os tempos de oração, a própria liturgia, e até os gestos de caridade, tudo tem de ser recriado para se sentir alegria no que se faz. A criatividade simbólica dá um sentido novo a tudo. O ser cristão passa a ser uma festa na simbologia que traz consigo.

• É um processo comunitário e na comunidade. Ninguém vive sozinho a sua fé cristã. Assim sendo, a relação fraterna, a entreajuda, a solidariedade activa, a partilha de bens, tudo é expressão de unidade na pertença à Igreja.

• É um processo catequético continuado. Isto exige o conteúdo cristológico, para melhor conhecer o Senhor Jesus, mas sempre também, uma conversão total a uma fé comunitária que se revela no amor aos irmãos.

• É um processo vivencial, fundamentado na experiência de quantos, antes de nós, viveram a sua fé. Ter vida de proximidade, partilhar os sentimentos e as experiências, estar disponível para todos, tudo é sinal da comunidade onde se celebra a fé. Assim se conseguem estímulos para o caminho a percorrer por muitos outros.

• É um processo compromitente que leva a anunciar-se cristão em todas as opções de vida. O cristão não pode ser um espectador, ou um consumidor, tem o dever de ser construtor, envolvendo-se na transformação da sociedade a partir dos valores do Evangelho.

Este processo catecumenal não pode ser vivido no silêncio de um individualismo estéril, supõe uma interacção que só é possível numa comunidade organizada.

3. Esta formação cristã dos adultos já está em marcha em muitos lugares. Há inúmeros grupos de cristãos que se reúnem, com um ritmo organizado, para aprofundar a fé. Não é um regresso à escola para aprender teologia, não é também uma simples tertúlia para debater temas da actualidade, nem é ainda um grupo de oração. Não é isto e é tudo isto.

• Olham-se os problemas concretos vividos pelos cristãos e procura-se interpretá-los como realidade a enfrentar.

• Tenta-se iluminar cada situação com a perspectiva do Evangelho, com os valores que se conhecem da experiência de Jesus Cristo na sua passagem pelo mundo.

• Finalmente, em oração, ensaiam-se alternativas de vida, em conversão verdadeira.

É com este dinamismo que os adultos conseguem crescer na fé, afirmar-se cristãos no meio da sociedade e anunciar sem medo Jesus Cristo como Salvador, capaz de mudar o rosto de todas as coisas. Com a luz de Cristo tudo é diferente, tudo pode ser melhor.

4. Na Comunidade Paroquial do Campo Grande temos vários grupos de adultos a iniciarem-se na fé ou a aprofundá-la. Sendo cristãos, são sensíveis ao facto de que nunca se conhece suficientemente “a loucura do Evangelho”.

Pe. Vitor Feytor Pinto
Prior

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