CRISTÃOS, NO CORAÇÃO DO MUNDO – 23 de NOVEMBRO de 2014

1. Quando João XXIII convocou o Concílio Ecuménico Vaticano II, disse que o fazia para aproximar a Igreja do mundo contemporâneo. As grandes transformações do mundo exigiam que a Igreja tentasse entender essas transformações e se aproximasse da humanidade com a linguagem que permitisse transmitir os valores fundamentais do Evangelho. Estava-se na década de sessenta do século passado, tempo em que os cientistas conquistavam a Lua, em que os povos colonizados procuravam a autodeterminação e independência, em que os jovens se movimentavam para participar também na vida política, em que a própria música adquiria com os Beatles novos ritmos, novas sensações. O Concílio teve como objectivo a renovação da Igreja, para melhor responder aos grandes problemas do mundo. Passaram mais de cinquenta anos e tem-se a consciência de que o mundo evoluiu, enriquecendo-se, sem dúvida, com novos dinamismos, mas empobrecendo-se com a perda de muitos valores. Consciente de tudo isto, o Papa Francisco ao chegar ao Pontificado sente a urgência de uma pastoral de proximidade. Ele próprio se faz próximo das pessoas e, incentivando a Nova Evangelização, olha para o mundo decidindo-se a provocar uma Igreja em saída. A Evangelii Gaudium é reveladora desta preocupação do Papa, a de conseguir uma Igreja presente no coração do mundo. Aliás, foi esta a preocupação de Jesus ao entrar na história humana.

“Deus enviou o seu próprio Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo” (Jo 3, 17). De facto, a Encarnação outra coisa não é do que a entrada de Deus no mundo, para transformar esse mesmo mundo, tornando-o capaz de salvação. “Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu próprio Filho” (Jo 3, 16).

Jesus quer que os seus discípulos fiquem no mundo. “Não te peço ó pai que os tires do mundo, mas que os livres da maldade; como Tu me enviaste ao mundo, também eu os envio ao mundo; santifica-os na verdade” (Jo 17, 18).

Jesus entrega aos Apóstolos a missão de irem pelo mundo inteiro, dizendo-lhes: “ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura” (Mt 28, 19-20). Os Apóstolos correm pelo mundo conhecido para colocar nele comunidades cristãs, comunidades de testemunho: Pedro em Jerusalém e Antioquia, Paulo na Grécia e em Roma, João na Ásia Menor.

Paulo proclama aos cristãos de Corinto o que pode considerar-se o essencial da evangelização: “Todo o mundo é vosso, vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1 Cor 3, 22-23).

A Igreja de hoje tem consciência da sua missão evangelizadora. O Papa Francisco, porém, acautela que a dimensão missionária, isto é, o anúncio de Jesus Cristo no mundo, não é tarefa exclusiva do Papa, dos bispos e dos sacerdotes. São todos os cristãos, enquanto tal, que têm que sair por todo o mundo para anunciar a alegria do Evangelho. Com razão o Sínodo Diocesano afirma que “o sonho missionário é para todos”.

2. Mantém-se hoje o perigo de uma Igreja voltada de costas para o mundo, centrada num espiritualismo desencarnado, sem atenção aos grandes problemas e situações que é preciso eliminar, sem a participação dos cristãos na vida da cidade. Confundiu-se a atenção ao mundo com a mundanização. É claro que o cristão não pode ser mundano, deixando pautar os seus comportamentos pelos falsos absolutos do ter, do poder e do prazer. Importa no entanto, reconhecer que a presença dos cristãos no mundo é fonte de redenção e salvação. Ainda se mantêm, porém, muitas cargas negativas.

Na Igreja ainda se educa muita gente para o medo de estar no mundo, porque se considera o mundo sempre fonte de pecado. Ser cristão torna-se, então, numa fonte de isolamento, em que as pessoas se sentem bem só no seu pequenino grupo, permanecendo longe de todos os que não são cristãos ou que são considerados pecadores.

Ao nível das instituições a Igreja muitas vezes tem dificuldade num diálogo aberto com as estruturas da cidade. Sente-se permanentemente ameaçada e acaba por jogar sistematicamente à defesa. Acentua-se assim, a dicotomia entre a cidade de Deus e a cidade dos homens. Diz-se: são incompatíveis.

A “consagração” continua a ser considerada como uma fuga do mundo. Ser padre, ser religiosa, ser contemplativo, é muitas vezes visto como um abandono dos problemas e conflitos normais em sociedade.

Muitos movimentos cristãos cultivando a oração, transformam-na por vezes em refúgio onde não tem lugar o compromisso cristão na temporalidade.

Estas e outras análises são reveladoras de quanto a Igreja se mantém ainda longe do mundo, não intervindo com os seus valores na condução da política, da economia, da vida social e da vida cultural. Os cristãos têm ainda muita dificuldade em compreender a sua responsabilidade na ordem temporal.

3. O Concílio Vaticano II e os últimos Papas têm sido de uma clareza extraordinária ao definir a responsabilidade dos cristãos na transformação do mundo. A acção que a Igreja realiza na ordem temporal consiste em dar continuidade ao mistério da Encarnação. O Filho de Deus encarnou no mundo do seu tempo, com as suas características, as suas regras, os seus propósitos. Jesus na sua vida pública desafiou à mudança de atitudes para com os pobres, para com a mulher, para com os enfermos, para com as crianças. Jesus pagou o preço da sua inserção no mundo. Foi por isso julgado num tribunal religioso (Caifás), num tribunal político (Pilatos) e num tribunal popular (o povo). Com a sua ressurreição, porém, apontou caminhos novos. Os cristãos de hoje, mesmo que sofrendo eventuais “julgamentos”, têm o dever de intervir com novos critérios, novos valores, novas atitudes. Perante as mortes do mundo, os cristãos intervindo na comunidade humana são agentes da ressurreição.

A Igreja tem responsabilidades na vida do mundo, di-lo expressamente a Gaudium et Spes, constituição do Concílio para as relações da Igreja com o mundo.

A vocação dos leigos é na ordem temporal desenvolvendo acções concretas que promovam a liberdade, a justiça e a paz. Assim orientam a humanidade segundo os ditames de Deus Criador, de Cristo Redentor.

O mesmo Concílio define claramente os valores fundamentais a defender e promover: a dignidade humana, as relações na comunidade, e um trabalho produtivo, elementos essenciais à transformação do mundo.

Definem-se também os campos específicos onde o cristão deve actuar: a família, a cultura, a vida económico-social, a política e a construção da paz.

Na intervenção, a Igreja quer enfrentar os mais graves problemas da sociedade actual: a pobreza, o desemprego, a fome, a falta de habitação, o apoio à educação e à saúde.

Neste contexto, o Papa Francisco na Evangelii Gaudium insiste no papel da Igreja na acção social, marcada pela caridade, mas procurando o desenvolvimento integral da pessoa humana.

Que grande programa tem a Igreja nas suas relações com o mundo! Que responsabilidade a do cristão no coração do mundo!

4. A comunidade paroquial do Campo Grande deve investir na formação dos cristãos para a sua intervenção no mundo. Como comunidade, ela própria tem de responder aos problemas da sociedade que a envolve. Magníficos desafios neste fim de ano pastoral.

Pe. Vitor Feytor Pinto - Prior

                                                                                                        

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