VIVER COM DIGNIDADE – OPÇÃO PELOS MAIS FRACOS – 17 de Maio de 2015

1. Está a viver-se na Igreja, em Portugal, entre os dias 10 e 17 de Maio, a Semana da Vida. A vida é sempre um valor que é preciso defender e promover: defender para que nada nem ninguém a destrua e promover para que todos possam ter a qualidade suficiente na sua realização humana.
A Semana da Vida, em 2015, tem um tema que a todos compromete: “Viver com dignidade, opção pelos mais fracos”. A dignidade e a liberdade são direitos fundamentais da pessoa humana, como refere a Carta Universal dos Direitos Humanos: “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos” (DH artº 1). Assim sendo, os cristãos são também responsáveis pela defesa e promoção destes valores humanos. Aliás, no Concílio Vaticano II, ao definir-se a Igreja como Povo de Deus, diz-se expressamente que é sua condição defender e promover a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus. Fá-lo através da radicalidade do mandamento do amor (cf LG 9). Ser filho de Deus supõe ser respeitado na sua dignidade de ser humano e de viver a sua capacidade de decisão sem limites. É sobre estes valores que depois se constrói o ser espiritual, a relação de cada um com o Deus em que acredita.

2. A Semana da Vida, neste 2015, quer olhar então para os mais frágeis, isto é, aqueles que pela sua condição humana são muitas vezes esquecidos, ficam à margem do caminho, ou até são condenados a um sofrimento acrescido. É propósito da Igreja, a partir destes dias, incentivar acções que defendam e promovam a vida.
Acolher a vida nascente – sabe-se como a vida antes do nascimento corre hoje inúmeros riscos. Há crianças que não vingam, por diversas enfermidades que a medicina não consegue resolver; há crianças que não nascem, pelos muitos problemas vividos pelas mães em sofrimento; há crianças que ficam em segundo plano perante os problemas económicos, sociais ou morais dos casais que as deveriam receber. Os cristãos defendem sempre a vida e, por isso, recusam interromper, por qualquer preço, o primeiro ciclo vital.

. O dom das crianças – em 1970 Portugal era o país mais jovem da Europa. Em 2015 é o segundo mais velho. Faltam crianças na cidade, é a hora de trazer crianças para a vida, de as oferecer à sociedade, de as educar para valores, de as colocar sobre a protecção de Deus. É responsabilidade das famílias cristãs.

. Cuidar dos doentes – têm-se multiplicado muito as doenças no mundo de hoje, algumas delas de extraordinária gravidade. Os doentes deverão ser sempre acompanhados. A arte de cuidar convida as famílias a estarem com os seus enfermos, congrega voluntários para irem ao encontro de quem está mais só e cria organizações que se dedicam exclusivamente ao apoio dos doentes terminais. Esta é das expressões mais belas do amor fraterno.

. Partilhar com os pobres – há três maneiras de dar: o que já não serve, o que nos sobra, ou aquilo cuja dádiva representa algum sacrifício. A verdadeira partilha supõe dar do que se tem, ainda que seja necessário renunciar a muitas outras coisas, mesmo que se julguem essenciais. Assim faziam os primeiros cristãos em Jerusalém, pondo tudo em comum (cf Act 2, 42-47).

. Celebrar e valorizar a família – a família é um espaço social onde a vida nasce, cresce e se desenvolve até à felicidade de todos os seus membros (cf CfL 40). A estabilidade da família favorece a vida dando-lhe a qualidade necessária a que todos se sintam bem. Valorizar a família consiste em enriquecê-la com os valores cristãos que dão sentido a todos os momentos. Na relação conjugal, na educação dos filhos, no apoio aos que têm mais dificuldades, Jesus Cristo está sempre presente, como o dom maior para a felicidade de todos.
. Acompanhar os idosos – o drama das pessoas mais velhas é indiscutivelmente a solidão. Podem ser chamados seniores, mas acabam por ficar sempre para trás. Acompanhar as pessoas no tempo do envelhecimento, pedindo-lhes apoio ou prestando-lhes serviços, é uma mais valia não apenas para a vida dos idosos, mas, sobretudo, para a realização daqueles que, com os mais velhos, aprendem a construir uma sociedade justa e fraterna.

A Semana da Vida tem propostas muito claras e que se podem levar à prática no viver comum de qualquer cristão. De facto, respeita-se a vida desde a concepção até à morte natural, promove-se a vida em qualquer etapa do seu desenvolvimento, celebra-se a alegria da vida, mesmo nas situações mais difíceis. Tem razão Jesus quando aos seus discípulos diz “que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10).

3. Os cristãos devem estar empenhados nesta acção de promoção da vida e da vida com qualidade. Curiosamente, quando no mundo se fala de qualidade de vida, pensa-se nos bens económicos ou na aparência social. O que revela qualidade é a marca do automóvel, o bairro onde se tem a casa, as viagens que se fazem, o lugar onde se passam as férias, a marca da roupa e dos sapatos, e os restaurantes que se frequentam. Tudo isto, porém, é muito pouco. O Papa João Paulo II, na Encíclica O Evangelho da Vida, vem dizer claramente que “a chamada qualidade de vida é interpretada prevalente ou exclusivamente como eficiência económica, consumismo desenfreado, beleza e prazer da vida física, esquecendo as dimensões mais importantes da existência, como são as interpessoais, espirituais e religiosas” (EV 23). Seguindo o pensamento do Papa, como cristãos, temos de rever o tipo de qualidade de vida que procuramos.

. Nas relações interpessoais os cristãos dão prioridade à justiça, ao amor, ao perdão, à reconciliação, à unidade e à paz.

. Nas relações espirituais os cristãos privilegiam os valores da cultura e da transcendência, através dos quais se enriquecem nos conhecimentos humanos e, sobretudo, no encontro frequente com o Deus em que se acredita e que dá sentido à sua vida.

. Nas relações religiosas os cristãos dão tempo à oração que os pacifica e à liturgia que os envolve em assembleia, para afirmar o sacerdócio de Jesus Cristo.

A qualidade que os cristãos querem dar à vida ultrapassa a simples imagem social que se pode ter. A qualidade, marcada pelo dom de Deus, envolve os cristãos no serviço aos outros, serviço este que os leva ao encontro dos mais pobres, dos que mais sofrem. Todos estes que são frágeis, pela intervenção dos cristãos podem adquirir uma vida nova que os faça realmente felizes. É um desafio pastoral de extraordinária importância.

4. Na Paróquia do Campo Grande, a organização da caridade tem esta dimensão de oferecer a todos a vida com dignidade. Fá-lo através do Centro Social, das Conferências de S. Vicente Paulo, do Fundo de Solidariedade e de outras iniciativas dispersas. Apoia inúmeras crianças, inúmeros jovens em risco, e também idosos, muitos deles isolados nas suas casas. A Semana da Vida de 2015 ajuda a Paróquia a implementar, mais e mais, a sua actividade social.
Pe. Vítor Feytor Pinto
Prior

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