TEXTOS PARA REFLEXÃO

Padre João Resina Rodrigues
Fé e oração

Cidadania contra a pobreza

O quarto Rei Mago

Liberdade e fidelidade

Fidelidade e criatividade

A paz em más companhias

Sobre a guerra e a paz

O mistério do amor de Deus

O Sr. António

Sobre o apelo dos nossos Bispos a favor de Angola
Duas questões actuais

O oitavário da unidade
A esmola
Quem é Jesus Cristo (1, 2 e 3)
Reflectindo sobre o Tribunal Penal I
nternacional
Sobre o livro de Job
A propósito da pregação e dos catecismos (1 e 2)Anunciar o Reino de Deus (1 e 2)
A Graça de Deus e a liberdade do homem

Sobre questões dos nossos dias

Do Livro des évêques…
Notas soltas sobre a vida cristã (I, II,  III  IV, V e VI)

Padre João Tolentino Mendonça
Aprendendo a rezar com os pés

_________________________________________________________________________________________

Aprendo a rezar com os pés

Caminham em filas ao lado das estradas nacionais, por trilhos de terra batida, atravessando pequenos povoados que antes desconheciam, cruzando horas e horas a paisagem de giestas e silêncio.
Têm em português um nome que deriva de uma forma latina: Per ager, que significa “através dos campos”; ou Per eger, “para lá das fronteiras”. Definem-se, assim, por uma extraterritorialidade simbólica que os faz, momentaneamente, viver sem cidade e sem morada. Experimentam uma espécie de nomadismo: não se demoram em parte alguma, comem ao sabor da própria jornada, dormem aqui e ali. Num tempo ferozmente cioso da produção e do consumo, eles são um elogio da frugalidade e do dom. Relativizam a prisão de comodismos, necessidades, fatalismos e desculpas. E o seu coração abre-se à revelação de um sentido maior.

A verdade é que é difícil ter uma vida interior de qualidade, se nem vida se tem, no atropelo de um quotidiano que devora tudo. Na saturação das imagens que nos são impostas, vamos perdendo a capacidade de ver. No excesso de informação e de palavra, esquecemos a arte de ouvir e comunicar vida. Damos por nós, e há, à nossa volta, um deserto sem resposta que cresce. E quando nos voltamos para Deus, parece que não sabemos rezar.

Estes peregrinos que tornam a encher as estradas de Fátima (mas também de Santiago, de Chartres, do Loreto…) assinalam-nos o dever de buscar a estrada luminosa da própria vida. Já não separam a existência por gavetas estanques, mas o seu corpo e a sua alma respiram em uníssono. A oração torna-se natural como uma conversa, e as conversas enchem-se de profundidade, de atenção, de sorrisos. A parte mais importante dos quilómetros que percorrem não está em nenhum mapa: eles caminham para um centro invisível onde pode acontecer o encontro e o renascimento.

Queria dedicar este texto a um amigo que, neste mês de Maio, fez a sua primeira peregrinação. A meio do caminho enviou-me uma mensagem a dizer: «Aprendo a rezar com os pés».

Maio de 2008

_________________________________________________________________________________________

Fé e Oração

A oração é um prolongamento do acto de fé. Aquele que acredita em Deus, tenta dizer-Lhe alguma coisa. Diz-Lhe que O reconhece como Senhor. Diz-Lhe que quer servi-lO. Diz-Lhe que se reconhece como frágil e pecador, mas espera na Sua ajuda.

Estamos habituados a falar com amigos e até com desconhecidos e indiferentes. A conversa não morre porque o outro responde, com estima ou sem ela; ao menos, sentimos a alteração do seu rosto. Mas, aqui, não ouvimos resposta. Podemos prosseguir, pensando que, ao menos, oferecemos a Deus um pouco do nosso tempo. Em todas as religiões se pede aos fiéis que participem, com a frequência que entendam, em acções comunitárias de adoração e louvor. Em certas línguas estas acções são chamadas  “serviços de oração”, e o nome não me parece incorrecto.

Mas o crente, e nomeadamente o cristão, que aprendeu com Jesus e tenta segui-lO, desejaria mais: uma intimidade com Deus mais a sós.

Há quem tente, e acabe por desistir: em vez de intimidade, sente a solidão e tem medo de perder a pouca fé que tem.

Ora importa não ignorar que, em toda a Terra, nas diferentes religiões, há milhões de homens, mulheres e crianças que aprenderam a rezar e prosseguem. É um facto, talvez mais visível nas grandes religiões: o hinduísmo e o budismo, o judaísmo, o islamismo e o cristianismo, embora não só. Em todas estas escolas se ensina que a oração é muito importante e é possível. Com a condição de que, aquele que começa, insista e seja humilde. O começo pode ser difícil, a aprendizagem pode demorar anos. Mas chega a altura em que o crente aprendeu a rezar. Continua a não “ver” Deus, nem tenta “senti-lO”. Mas perdeu o medo. Acredita que, nesse silêncio, está diante de Deus e é aceite por Ele. Pode agora estar muito tempo, minutos ou horas, a abrir-Lhe o coração. Sem ouvir nada, compreende que aprende. Como disse S. Agostinho, aprende algo de Deus e aprende algo de si mesmo.

Em rigor, há duas explicações possíveis. Uma delas, é pensar que este estado de paz e confiança é um dom de Deus. Por dom de Deus, deixei de me sentir diante dum muro cinzento, acredito que estou diante dEle. A outra explicação possível é pensar que isto é simplesmente o resultado da pacificação do meu ser, e das possibilidades do meu inconsciente. Significativamente, o crente não precisa de se embrulhar nesta discussão. Pensa que as possibilidades boas da condição humana são também fruto da criação de Deus. Não tem a pretensão de ter merecido um dom carinho especial do seu Senhor. Basta-lhe pensar que seguir o caminho indicado pelos outros crentes faz progredir a sua relação com Deus.

II

Para obter este dom, é preciso que o crente se atreva a começar; e, depois, a não desistir. Em primeiro lugar, tem de arranjar tempo. Hoje, não há tempo para nada, a não ser para ver televisão. Há que arrancar um quarto de hora a este poço. De manhã cedo, a meio do dia, à noite, tanto faz. Há, também, que encontrar um lugar. O meu quarto, uma igreja, uma janela aberta para o campo, para o mar, para as estrelas, tanto faz; mas, se possível, com pouco barulho. Confesso que embirro com as “técnicas” de preparação para a oração. Mas reconheço que se deve procurar um despojamento: sem considerar que as muitas preocupações da vida, projectos, desejos, são necessariamente maus, é bom pedir a Deus que me ajude por estes minutos a esquecê-los; ou que trate Ele dessas coisas, enquanto fico aqui.

É sensato não tentar julgar aquilo que se conseguiu ou não de cada vez que se tentou orar. Tentei de boa vontade, tive distracções e divagações. Não importa. Deus não precisa de discípulos perfeitos, eu não preciso dum diploma de perfeição. Ele me dê a graça de voltar amanhã, de não desistir nunca. Mesmo que, entretanto, me sinta muito pecador . “Eu não vim chamar os justos, vim chamar os pecadores” (Mat 9,13; Marc 2, 17; Luc 5,32).

III

Há uma coisa fundamental: Orar não é procurar “ver” coisas extraordinárias, muito menos “sentir” experiências extraordinárias. Isso é a má “mística”, isso é a perversão da oração. Orar é procurar servir Deus de maneira humilde, aprender com Ele alguma coisa, se Ele quiser ensinar-me. Mas uma coisa me ensinou a experiência dos grandes orantes, em geral Deus não parece interessado em arrancar os homens à normalidade da condição humana. O que quer, é que vivam mais a sério a sua vida na Terra. Sem dúvida, o crente pode ansiar por ver a Deus no céu; mas tem de ter a paciência de esperar pela vida eterna. O Pai enviou à Terra o seu Filho para estabelecer com os homens a Nova Aliança; mas Jesus, o Filho de Deus, deixou no armário do céu o seu poder e a sua glória e veio conversar connosco à maneira humana. É verdade que se conta na Igreja que certos santos receberam de Deus revelações extraordinárias; mas um mais célebres destes santos, S.João da Cruz, insiste muito em que ninguém deve desejar estes dons.

Permito-me insistir: se estiver a rezar e sentir muito entusiasmo, se sentir o coração muito quentinho, vá-se embora e regresse quando estiver totalmente sereno. Deus só se deixa encontrar na pobreza radical.

IV

Há muitas maneiras de rezar, e é um erro sonhar com estilos elevados de oração. A oração boa é aquela que nos coloca, simples e desarmados, diante de Deus. Quem, estando a rezar bem num estilo que lhe parece inferior, tenta passar a um estilo que imagina como superior, perde os dois.

V

Pode crescer-se muito na oração e na santidade rezando simplesmente o Pai Nosso e a Ave Maria. Só é preciso que se não queira rezar bem demais. Tentar sopesar cada palavra para aderir a ela do mais fundo da inteligência e do coração é um exercício cansativo e vão. Os adolescentes têm em geral uma grande repugnância por esta “oração vocal”, precisamente porque ela só lhes pareceria válida se se sentissem a coincidir com o que dizem. Além disso, parece-lhes estúpida a repetição. Ora, quando se reza um Pai Nosso, há que dizê-lo com simplicidade, desejando, sem dúvida, aderir ao que se diz, mas sem preocupação demasiada. E quem reze assim todos os dias – devagar e sem pressa de chegar ao fim – chegará um momento em que nele coincidem, sem esforço nem tensão, o que diz e o que deseja pensar. Tanto mais cedo quanto menos inquietação tiver.

A repetição é bem aceite por certas pessoas, sobretudo se for apoiada pelos cânticos; será sempre uma cruz para outras pessoas.

VI

Mas ninguém é obrigado a orar de maneira que o tortura. Os jovens, e mais geralmente todos aqueles que se habituaram a ler e a pensar, oram com mais gosto se forem convidados a “falar”. Mas não se tenha a ilusão de que é simples. A menos que se tenha crescido muito no encontro com Deus, a conversa acaba cedo. Na Igreja, ouvem-se então muitos conselhos. Um destes conselhos é que se procure pensar, imaginar, o Senhor.

VII

Numa civilização como a nossa – que desenvolveu hábitos de pensar, imaginar e reflectir – rezar é, muito naturalmente, ou quase naturalmente, falar, com a inteligência e o coração: tento dizer a Deus que acredito nEle, dizer que acredito em Jesus Cristo, o Filho de Deus que veio ao mundo, dizer a Jesus que quero tornar-me seu discípulo. Digo-lhe que gostaria de O amar e de amar os homens, meus irmãos, “como Ele amou” (Jo 14,24). Digo-lhe que me reconheço pecador. Peço-Lhe perdão, peço-Lhe ajuda. Recordo as necessidades dos homens – aqueles que me são mais próximos, aqueles que sofrem mais. Não sei se é vontade de Deus intervir directamente, se é Sua vontade que sejamos nós a actuar; peço, pelo menos, que me ajude a mim e aos outros homens a viver para a verdade, para justiça, para o amor não esmorecendo nunca na ajuda aos pobres, aos doentes, aos abandonados, ao imenso mundo dos “humilhados e ofendidos”.

VIII

As tradições religiosas, e nomeadamente as tradições cristãs, católica, ortodoxa, protestantes, desenvolveram esta “fala”, chamando-lhe às vezes “meditação”. Tento recordar-me das coisas boas que encontrei e são porventura sinal de Deus. Tento recordar-me da vida de Jesus, das coisas que Ele disse e das coisas que fez. Deixo-me interpelar por elas, tento descortinar a boa maneira de as entender e de lhes ser fiel. Para o cristão é muito importante ler e meditar a Escritura. É hoje claro que a boa compreensão da Escritura deve ser alimentada pelo estudo e pela leitura dos bons comentários. Como quer que seja, a relação com a Escritura tem duas componentes complementares mas diferentes: o estudo, que torna o texto mais acessível e nos vacina contra alguns erros, e a leitura singela, para além do “estudo”, que nos põe em contacto com um dos “sinais” de Deus.

IX

Era opinião corrente que certos caminhos estavam reservados àqueles que tinham sido fiéis a estes primeiros passos. Permito-me lançar a confusão. Julgo que tenho conhecido homens e mulheres que, sem uma experiência muito funda na “oração vocal” e na “oração mental”, foram conduzidos a rezar de uma maneira mais simples e mais radical. E isso é, talvez, mais um dos frutos da nossa cultura. Esses homens e essas mulheres acreditaram. E isso lhes deu a possibilidade de passarem tempos relativamente longos, em suas casas, numa igreja, num local deserto, “diante de Deus”, “olhando para Ele na fé”, sem necessidade de articular palavras nem desfiar pensamentos. Por um lado, isso parece muito avesso ao nosso tempo, feito e barulho e de sexualidades concretas. Por outro lado, é talvez um resultado sim-e-não paradoxal. O barulho pode gerar a sede duma presença no silêncio, a boa-e-a-má relação entre o homem e a  mulher podem gerar a confiança num amor absoluto, capaz de transcender até a fala e o gesto. Esta oração tem condições necessárias: a humildade e a pobreza. Ai daquele ou daquela que, rezando assim, se sente superior ou com valores em caixa. De resto, a mística cristã é o contrário da oração exaltada. Aquele e aquela a quem foi dado rezar desta maneira não ambiciona “ver” mistérios, deseja só ser um pouco mais fiel. Só porque é pobre e cada vez mais desprendido/a das vaidades deste mundo se vai transformando em Jesus Cristo, vai sendo “imagem” dele.

X

As filosofias e as psicologias do séc. XX reflectiram muito sobre o “olhar”. À medida que cresce e faz ele – próprio, o ser humano vai olhando para as coisas e para as pessoas de maneira progressivamente sua. É capaz de olhar para uma paisagem ou para um ser humano – para um homem ou para uma mulher – com alheamento ou com interesse, com deslumbramento ou com fastio, com desejo cego ou com respeito. Um olhar de amor profundo é algo de extremamente “novo”. Num olhar de amor de algum modo se abre a porta do eu.

A Bíblia fala uma ou outra vez do olhar de Deus e do olhar dos homens (“Cantam, porque vêem, olhos nos olhos, o regresso de Deus a Jerusalém!” (Is 52, 8); mas o tema foi pouco comentado, e às vezes, apresentado de maneira profundamente negativa, um olhar que vasculha e fiscaliza. Ora, precisamente, um olhar de amor é o oposto de um olhar inquisitorial. “Amigo é aquele que não julga”. (Saint-Exupéry, Citadelle).

Nesta maneira de rezar, o ser humano olha para Deus com confiança total. Sabe que é pecador, e não pensa ocultar ou negar esse facto. Mas também sabe que o olhar de Deus é de perdão e libertação. “Aquele que crê, está para além do julgamento”(Cf.Jo 5,24). Olhando para Deus com confiança, o ser humano que reza abre o olhar ao encontro desse olhar que é de amor e de aceitação – sem – fim. Acredita que Ele, Jesus, nos amou até ao extremo, até ao fim. (Jo 13,1).

XI

O cristão acredita que Deus é transcendente, está para além de tudo o que pode ser visto, ouvido, compreendido. E, por outro lado, não ignora que Deus se fez homem em Jesus Cristo. Que Jesus Cristo é o caminho, o único caminho, para o mistério de Deus. Ele, “o caminho, a verdade e a vida.” (Jo 14,6). Portanto a oração do cristão, por muito “alta” que seja, é seguimento, imitação, presença, a Jesus Cristo.

XII

Já ficou dito que a boa mística é o oposto da oração exaltada. A contemplação mais profunda é uma presença pobre, humilde, às vezes como que vazia. Os santos insistiram nisto. Deus pode dar a quem quiser momentos de alegria e de paz. Mas isso não contradiz que ele peça a quem acreditou e começou a rezar que tenha coragem de enfrentar a “noite escura”. Deus é tão infinito, que se revela não só na presença como na aparente ausência, na luz como nas aparentes trevas. E feliz daquele ou daquela que só quer a realidade d´Ele, não escolhe nem as trevas nem a luz. Os Evangelhos, em especial o Evangelho segundo S.Marcos, atrevem-se a dizer que o próprio Jesus aceitou ter esta experiência no Jardim das Oliveiras e na cruz. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”(Marc 15, 34). Feliz daquele ou daquela que, na vida ou na hora da morte, acredite e se entregue no amor, mesmo sem ter a experiência física de Deus.

Junho de 2007 – P.e João Resina Rodrigues

_________________________________________________________________________________________

Cidadania contra a Pobreza

Na última semana antes da morte de Jesus, um doutor da Lei faz-lhe uma pergunta:

Mt 22,35-40. Os fariseus reuniram-se em grupo. E um deles, que era doutor da Lei, perguntou-lhe, para o embaraçar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» Jesus disse-lhe: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.»

A novidade foi dizer que o segundo mandamento é semelhante ao primeiro. Para os judeus, isto deve ter parecido absurdo. Deus é Deus e a criatura é criatura. Entender Jesus é entender que esta semelhança é mesmo real.

Lc 10,29-37. Mas ele (…) disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abando-naram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo passou de largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.

Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ´Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.´ Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»

Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.»

Jesus retorquiu:« Vai e faz tu também o mesmo.»

Jesus afirmou que seremos julgados, no fim. E deu o “ponto” desse exame:

Mat 25,31-46. Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-se sentar-se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos.

O Rei dirá então aos da sua direita: `Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo.

Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, não tinha casa e acolhestes-me, estava nu e destes-me de vestir, estive doente e visitastes- me, estive preso e fostes ver-me´.

Então os justos hão-de perguntar-lhe: `Senhor, quando foi que te vimos com sede e te demos de comer ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos sem casa e te acolhemos ou nu e te vestimos? Quando te vimos doente ou na prisão e te fomos ver?´

E o Rei lhes dirá, em resposta: ´Em verdade vos digo: Sempre que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes´.

E dirá depois aos da sua esquerda: ´Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos!

Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, estava na rua e não me acolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não me fostes ver.´

Por sua vez, eles perguntarão: `Senhor, quando é que te vimos com fome, com sede, sem casa, nu, doente ou na prisão e não te socorremos?´

E Ele responderá: `Em verdade vos digo,sempre que deixastes de o fazer a um destes pequeninos, foi a mim que o não fizestes.´

Estes irão para o castigo eterno e os justos para a vida eterna.

Temos o comentário de S.João à doutrina de Jesus:

I Jo 3, 11,14,17-22. Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros. (…) Nós sabemos que passámos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte. (…) Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão em necessidade, lhe fechar o coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele? Meus filhinhos, não amemos com palavras e com a boca, mas com obras e com verdade.

Por isto conheceremos que somos da verdade e, na sua presença, sentir-se-á tranquilo o nosso coração.

“Passar da morte para a vida” é aquilo que, na linguagem a que nos habituámos na Igreja, se designa por “entrar na graça de Deus”.

Se perguntarmos a uma destas pessoas que vêm à missa que é preciso para estar na graça de Deus, ouvimos provavelmente: não ter cometido nenhum pecado mortal depois do baptismo ou da última confissão”. Será que S.João nos está a dizer que aquele que não ama os irmãos caiu em pecado mortal?

De resto, S.João tinha feito já outra afirmação enorme:

I Jo 2,9-10). Quem diz que está na luz, mas tem ódio ao seu irmão, ainda está nas trevas. Quem ama o seu irmão permanece a luz e não corre perigo de tropeçar.

I Jo 4, 7,11,12. Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, porque Deus é amor. (…) Não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.

Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros.

A Deus nunca ninguém o viu. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição entre nós.

I Jo 4, 19-20. Se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso. Pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.

Tiago 2, 1-6. Meus irmãos, não tenteis conciliar a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo com a acepção de pessoas.Suponhamos que entra na vossa assembleia um homem com aneis de ouro e bem trajado, e entra também um pobre muito mal vestido. E, dirigindo- -vos ao que está magnificamente vestido, lhe dizeis: «Senta-te tu aqui, num bom lugar» e dizeis ao pobre: «Senta-te no chão, abaixo do meu estrado.» Não é verdade que, então, fazeis distinções entre vós mesmos e julgais com critérios perversos? (…) Vós desonrais o pobre.

Tiago 2, 14-17. De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver as obras da fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhe disser: «Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome», mas não lhe der o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará?

Ora se há coisa clara é que esta doutrina não é vivida nem ensinada na Igreja.

Não é vivida. Um cristão devoto vai confessar-se se faltou à missa ou se foi infiel ao casamento, não lhe passa pela cabeça confessar-se de que, ao longo deste ano, nunca se lembrou de que há pobres. No fundo, somos fiéis adeptos da doutrina pagã segundo a qual o direito de propriedade é a base da sociedade e de que eu sou senhor absoluto dos meus bens.

Não é ensinada. Achamos que isto de ser caridoso entra no domínio da perfeição e que a primeira coisa a conseguir é que todos venham à missa, sejam fiéis ao casamento, não roubem à mão armada. Ignoramos que aves de galinheiro têm dificul-dade em levantar voo, ignoramos que Jesus não teve medo de pregar a “loucura”. E também ignoramos o Concílio II do Vaticano: ” Deus destinou a terra e quanto nela se contém para uso de todos os homens e povos. Por conseguinte, os bens criados devem chegar a todos de forma equitativa sob a égide da justiça e da caridade. Sejam quais forem as formas da propriedade(…), jamais deve perder-se de vista este destino universal dos bens. Portanto, o homem, ao usá-los, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui como exclusivamente suas, mas também como comuns, no sentido de que não lhe aproveitem apenas a ele, mas também aos outros homens. (…) Os Padres e os Doutores da Igreja ensinaram que os homens estão obrigados a ajudar os pobres, e não apenas com o supérfluo.” (Gaudium et Spes, 69).

Não podemos ignorar que houve sempre na Igreja exemplos lídimos da caridade evangélica, de que S.Vicente de Paulo ou a Madre Teresa de Calcutá são expoente. Infelizmente, se foram sempre admirados, nem sempre foram seguidos.

Até há pouco, estávamos muito mal informados a respeito do que se passava longe de nós. E, se soubéssemos que tinha havido um tremor de terra e um tsunami no Japão ou uma epidemia de peste na China, pouco podíamos fazer, senão rezar.

Mas hoje a situação é qualitativamente diferente. Através dos meios de comunicação social, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” que a situação da terra é extremamente mais grave do que podiam pensar os nossos avós. Do mesmo passo, sentimos despertar a nossa co-responsabilidade.

O nosso planeta tem 6000 milhões de habitantes, e

  • 3000 milhões, isto é metade, tem rendimento igual ou inferior a 2 euros por dia.
  • 1000 milhões, isto é, 1/6, tem rendimento igual ou inferior a 1 euro por dia.
  • 500 milhões, 8 %, vivem à larga e podem estragar o que quiserem.
  • 1000 milhões bebem água imprópria, que transmite doenças.
  • 1000 milhões não têm cuidados básicos de saúde.
  • 1000 milhões não têm habitação minimamente adequada.
  • 800 milhões vivem permanentemente subalimentados.
  • morrem à fome 30 milhões por ano, isto é 80.000 por dia, em média, mas a produção mundial de alimentos excede em 10% as necessidades globais (os excedentes ficam nos celeiros dos países ricos ou são queimados, para não aviltar os preços.
  • já morreram de sida 40 milhões de pessoas e há outros 40 milhões infectados.
  • Todos os anos morrem 7 milhões de pessoas de malária, diarreia, tuberculose.
  • Cada ano nos países em via de desenvolvimento morrem de parto 500 000 mulheres, taxas 10 a 20 vezes maiores que nos países desenvolvidos.
  • A esperança de vida nos países desenvolvidos anda por 75 anos. Mas é de 40 anos para 1/5 da população dos países em via de desenvolvimento.
  • Os 3 homens mais ricos do mundo têm rendimentos mais elevados que o PIB cumulativo dos 48 países menos desenvolvidos e seus 600 milhões de habitantes.

Por que é acontece esta miséria e esta desigualdade? As causa são muitas.

Alguns destes povos nunca fizeram senão agricultura, mas a terra que cultivam é pouco fértil ou o clima desfavorável (aconteceu, em certos casos, que as dunas do deserto investiram e soterraram a terra arável; noutros casos, que o regime das chuvas mudou e as nascentes acabaram por secar). Outros, viviam da pesca e o peixe afastou-se.

Aconteceu que certos povos foram capazes de, perante dificuldades, inventarem novos projectos (a aventura atlântica, a invenção da máquina e da indústria moderna), outros ficaram iguais a si mesmos (a maioria dos povos do Islão). Umas vezes por uma fidelidade àquilo que cuidavam ser a sua identidade, outras vezes por inércia).

É sabido que um longo convívio com a miséria faz que muitos percam a iniciativa, a alegria e a esperança, entrem num passivismo fatalista.

Mas a causa maior da miséria no mundo é a maldade dos ricos. Ao contrário do que proclama o dogma liberalista, o mercado livre não favorece todos por igual. Os ricos podem comprar o que quiserem, podem provocar a alta dos preços, podem destruir as economias mais débeis. Ainda mais quando os ricos se juntam para fundar grandes empresas. As grandes empresas ignoram a ética. Conhecem a estratégia que lhes proporciona a vitória sobre os fracos. Compram a peso de ouro as consciências dos seus técnicos, que vão aperfeiçoar e aplicar estas estratégias.

Lendo e ouvindo as notícias do mundo, somos um pouco como aqueles três homens que desciam de Jerusalém para Jericó. Havia um ferido, meio morto de pancadas, caído numa das bermas da estrada. Dois dos homens pensaram que era pena, mas não tinham nada com o caso e nada podiam fazer; passaram pela outra berma e seguiram o seu caminho. O terceiro parou e cuidou do ferido. Correu o risco de ser igualmente assaltado, gastou tempo, esforço e dinheiro. Nem esperou por gratidão.

Mas que podemos fazer? É claro que, se não formos um daqueles homens mais ricos do mundo, temos de trabalhar em colaboração.

Existem vários organismos, uns das Nações Unidas, outros independentes, que se debruçam sobre estes problemas. As actividades de alguns deles têm merecido críticas severas. Acusa-se a ONU de desperdiçar verbas pagando vencimentos principescos e de ter realizado acções cujo resultado foi negativo, por ignorância ou por falta de profundidade dos estudos prévios. Acusa-se o FMI, o famigerado Fundo Monetário Internacional, de ter agravado conscientemente a situação de certos países pobres, mantendo os seus princípios económicos que favorecem os grandes países e as grandes empresas multinacionais.

Como quer que seja, há que confiar em alguém.

Em Março de 2002, reuniu-se em Monterey, no México, a Conferência Interna-cional para o Financiamento dos Povos Subdesenvolvidos. Os participantes resolveram desenvolver acções, a cumprir até ao ano 2015, com o seguinte programa:

1.Erradicar a miséria e a fome.

2.Universalizar o ensino primário.

3.Promover a igualdade dos sexos, nomeadamente em todos os graus do ensino.

4. Reduzir de 2/3 a mortalidade infantil.

5.Melhorar os cuidados com a maternidade, reduzindo a mortalidade de ¾.

6.Combater a sida, a malária e outras doenças.

7.Assegurar o equilíbrio do ambiente.

8.Desenvolver alianças para o desenvolvimento.

Precisemos: o objectivo nº.1 é, até 2015, reduzir de 1000 milhões para 500 milhões o número dos que têm rendimento igual ou inferior a 1 euro por dia, reduzir igualmente a metade os que sofrem de sub-alimentação.

Para cumprir este programa, é preciso inteligência, trabalho, dinheiro, honesti-dade, colaboração.

A Conferência acreditou que poderia realizá-lo, se os Estados desenvolvidos contribuissem anualmente com 0,8% do seu PIB. Infelizmente, só a Dinamarca, a Holanda, o Luxemburgo e a Suécia têm cumprido. Os outros Estados, mesmo os mais ricos, têm prestado contribuições significativamente inferiores. Portugal, apesar do estado caótico da nossa economia, tem contribuído com 0,21%.

Parece-me essencial que os homens lúcidos, e sobretudo os cristãos, apoiem os governos em iniciativas deste tipo. Os governos são egoístas como os homens. Se não forem pressionados, se não tiverem medo de perder votos, vão esmorecer. No caso de países em que a opinião pública esteja pouco interessada, ou dividida, esta acção é ainda mais necessária. Simultaneamente, é preciso que a opinião pública esteja suficiente-mente informada para condenar os abusos e os erros.

Sem dúvida que um país em crise tem de enfrentar com prioridade os seus problemas. Poderá ter de restringir a sua ajuda. Mas não esqueça aqueles que estão a morrer à fome. S.Paulo pedia às comunidades cristãs, que eram pobres, que, mesmo assim, contribuíssem com dinheiro para a comunidade de Jerusalém, afundada na miséria.

Julgo que a Santa Sé – ou as Dioceses – podiam pedir aos cristãos ricos que contribuíssem significativamente para os países pobres. E talvez se justifique a criação de um organismo da Igreja que tente fazer com honestidade e competência tarefas de desenvolvimento.

Vejo com muita simpatia organismos como a OIKOS que se lançaram na angariação de meios e no financiamento de projectos limitados, bem estudados e controlados. Organizações como os Médicos Sem Fronteiras merecem os mesmos aplausos.

Que haja centenas de jovens de todas as nações desenvolvidas a gastar as férias ou os primeiros anos da sua carreira profissional colaborando em países em via de desenvolvimento é outro sinal promissor.

Na Igreja têm surgido Ordens e Congregações religiosas vocacionadas para o embate com novos problemas, No final do séc.XII surgiu uma Ordem para a redenção dos cativos (aprisionados nas guerras com os mouros); mais tarde, Ordens e Congregações voltadas para a formação da juventude e para o ensino. Era tempo de criar uma congregação com este horizonte. Que englobaria cristãos e cristãs especializados em medicina, engenharia, agronomia, economia, direito, … Que tentaria, em diálogo com as autoridades desses países, fazer escolas, universidades e hospitais e enchê-los de profissionais competentes; abrir vias de comunicação e captar água em boas condições; lutar contra a desertificação e escolher culturas agrícolas adequadas; lançar indústrias com inserção realista; contribuir, com o seu saber, para que seja desfeita a prepotência do mercado mundial;………

Acontece que os produtos de certos países não encontram comprador porque outros países lhes acrescentam taxas alfandegárias ou subsidiam os produtores nacionais. Certos países produzem muito barato ou porque têm matérias primas baratas, ou mão de obra barata, ou muito boa tecnologia, ou muito boa organização. Por exemplo, a China pode inundar o nosso país de texteis tão baratos, ou a Espanha de peixe tão barato que mate a indústria textil nacional ou a pesca nacional. Por outro lado, a existência de protecção exagerada impede os países pobres de se libertarem da pobreza.

Março de 2005

_________________________________________________________________________________________

O quarto Rei Mago

Como toda a gente sabe, os três reis magos ofereceram presentes ao Menino Jesus: ouro, incenso e mirra. Nossa Senhora e S. José agradeceram. Mas o Menino piscou os olhos com o brilho do ouro, começou a tossir com o cheiro do incenso; e não achou graça nenhuma à mirra. Os três reis, que se tinham ajoelhado, levantaram-se e foram-se embora pouco satisfeitos, porque o Menino os não tinha tratado com a consideração a que achavam que tinham direito.

Já eles iam longe, quando apareceu o quarto rei. Este rei vinha do Golfo Pérsico. No dia em que tinha visto a estrela que anunciava o nascimento do Messias, dispôs-se logo a partir. Foi à câmara subterrânea onde guardava os seus tesouros, abriu um cofre e retirou aquilo que tinha de mais valioso, três pérolas muito grandes e muito brancas. Mandou ajaezar o seu camelo mais forte e partiu na direcção da estrela.

Alguns dias depois, viu o presépio, mesmo por debaixo da estrela. O pior é que chegava atrasado, os reis seus colegas até já se tinham ido embora. E, pior ainda, já não tinha presentes…

Mesmo assim, abriu devagarinho a porta da cabana. Lá estavam, o Menino, sua Mãe e S.José. Começava a ficar escuro. S. José ajeitava a palha para se deitarem. O Menino Jesus estava ao colo de Maria, que o embalava, cantando em surdina uma canção.

O rei do Golfo Pérsico entrou a medo, e ajoelhou aos pés do Menino e de sua Mãe. Com ar envergonhado, começou a falar:

«Senhor, cheguei atrasado. Vejo que os meus colegas já Te prestaram as suas homenagens, já Te ofereceram os seus presentes, e já partiram.

Eu também Te trazia uma prenda: eram três pérolas muito grandes e muito bonitas, três pérolas verdadeiras, do mar do Golfo Pérsico.

Peço muita desculpa. Sabia que os outros reis vinham à minha frente, e tinha a certeza de que os ia apanhar. Mas entrei numa estalagem para jantar. Bebi um bocadinho de mais e apeteceu-me ficar lá nessa noite. Mas ao sair da sala de jantar, vi um velho estendido no chão ao pé da lareira e a tremer de febre. Ninguém sabia quem ele era, não tinha dinheiro e iam pô-lo na rua.

Senhor, era um velho muito velho, magro e macilento, com uma barba branca mal tratada. Fez-me lembrar o meu pai. Senhor, desculpa-me: peguei numa das três pérolas que eram para ti e dei-a ao dono da estalagem para que chamasse um médico, desse comida e alojamento ao velho, e o enterrasse de maneira digna se ele não resistisse à doença e morresse.

No dia seguinte, retomei o caminho. Batia no meu camelo para ver se ele andava mais depressa e alcançava os meus amigos. Mas ao passar num desfiladeiro ouvi gritos. Eram salteadores que queriam fazer mal a uma rapariga. Eram muitos e eu não tinha possibilidade de os atacar e vencer. Gritei-lhes que lhes dava uma pérola muito grande se soltassem a rapariga. Quando viram a pérola, disseram logo que sim. Deixaram a rapariga , que fugiu a correr para os montes. E eu dei-lhes a pérola, que era para ti. Desculpa-me!

Já só tinha uma pérola, mas essa não a queria perder. Já passava do meio-dia, e eu obrigava o meu camelo a andar cada vez mais depressa. Passei então por uma aldeia. Estava cheia de soldados de Herodes, que procuravam os meninos de menos de dois anos e os matavam à espada. Já só restava um e iam deitá-lo a uma fogueira. A mãe da criança gritava e chorava, como se a estivessem a matar a ela. Senhor, desculpa-me, peguei na última pérola e dei-a aos soldados para que entregassem o miúdo à mãe. Eles aceitaram. A mulher nem me agradeceu. Pegou no filho, vivo, e fugiu a correr muito.

Senhor, já não tenho pérola nenhuma. Desculpa-me!»

O rei calou-se. Não se ouvia zumbir uma mosca. Prostrado no chão, ousou finalmente levantar a cabeça. S. José tinha acabado de ajeitar a palha e aproximava-se. Maria olhava fixamente para Jesus, ao seu colo. E o Menino, será que estava a dormir?

Não. O Menino Jesus não estava a dormir. Voltou a cabeça para o rei do Golfo Pérsico. Tinha um ar muito contente. Estendeu as mãozinhas para as mãos vazias do rei. E sorriu-lhe.

JOANNES JOERGENSEN, in Contes de Noël, Éd.du Seuil,1961. (Adaptação).

_________________________________________________________________________________________

Liberdade e fidelidade

Deus criou o homem “à sua imagem e semelhança”. Orientado para a verdade e para o amor, livre.

Ser livre significa poder escolher entre caminhos já feitos; significa, mais ainda, poder abrir caminhos novos. É óbvio que a liberdade humana tem limites: não posso bater as asas e voar; não posso, sozinho, resolver os problemas que continuam a afligir a humanidade. Mas esta consciência de que tenho limites não é desculpa para a inacção. Sou suficientemente livre para me juntar aos outros homens na procura. “Tu sozinho não és nada, juntos temos o mundo na mão”.

A minha liberdade confronta-se com as liberdades dos outros homens e com a liberdade de Deus.

Maio de 2003

_________________________________________________________________________________________

Fidelidade e criatividade

A todos os cristãos e, por maioria de razão, aos religiosos e aos sacerdotes se pede uma fidelidade incondicional a Cristo e à Igreja. Sem esquecer que a verdadeira fidelidade não é conformismo passivo, é procura persistente e apaixonada do rosto misterioso de Deus.

O cristianismo repousa sobre a Palavra, mas a própria Palavra da Escritura precisa de ser interpretada (é claro, por exemplo, que a narrativa da criação no Livro do Génesis não deve ser tomada em sentido literal). Analogamente, quem lesse o dogma da transubstanciação, definido pelo Concílio de Trento no séc. XVI, supondo que a palavra “substância” tem o significado que lhe deu a Química Moderna a partir do séc. XVIII, entenderia o contrário do que o Concílio quis definir. Como nota um teólogo contemporâneo (C.GEFFRÉ, Croire et interpréter, éd. du Cerf, 2001), “a compreensão actual da mensagem cristã assenta sobre uma correlação crítica entre a experiência da comunidade cristã primitiva e a nossa experiência hoje” (p.8). Na base do cristianismo está a experiência fundamental da salvação oferecida por Deus em Jesus Cristo. Esta experiência fundamental foi expressa com recurso à linguagem e à cultura daquele tempo. “Para interpretar a mensagem cristã é preciso fazer uma dissociação entre a mensagem cristã como algo que foi significado para sempre e as palavras e esquemas culturais através dos quais a mensagem foi entregue. Este trabalho arriscado da interpretação apela à compreensão da nossa situação histórica e da nossa actual experiência da existência humana.” (p.17).”É preciso fazer uma distinção entre os significantes que estão irremediavelmente ligados ao próprio conteúdo da mensagem e os significantes que estão simplesmente ligados à cultura histórica contingente dos primeiros escritores que passaram à escrita os testemunhos da pregação evangélica.”(p.18). A atitude fundamentalista, segundo a qual a Bíblia (e os textos da Igreja) devem ser sempre tomados à letra, é uma estratégia de defesa, ditada pelo medo, e conduz a becos sem saída.

Este trabalho de interpretação deve ser feito em Igreja (já o Novo Testamento resultou da compreensão do mistério de Cristo por parte das primeiras comunidades de discípulos, unidas em Igreja). Isso significa que cada um de nós deve aceitar sujeitar-se ao Espírito Santo e àqueles que foram postos à frente da Igreja. Mas significa, também, que a Igreja, devendo velar pela conservação e pela pureza da fé, não deve abafar a criatividade dos seus filhos. Deus é Infinito, e nenhum catecismo nem nenhuma teologia podem ser completos nem perfeitos. Por outro lado, a compreensão dia a dia aprofundada do mistério de Deus e do mistério de Cristo é essencial para que a nossa fé não estiole, e é essencial para que os homens de cada tempo se possam sentir interpelados pela palavra da Igreja.

A compreensão do Universo inanimado e da aventura dos seres vivos, a compreensão da cultura humana, a contemplação de Cristo e do mistério de Deus é um “mar sem fim”. Para o desenvolvimento desta aventura são bem-vindas as contribuições da inteligência e da sensibilidade artística, a meditação da Escritura e dos grandes textos, a experiência da oração e da contemplação.

Nem todas estas contribuições virão dos homens e mulheres mais ligados à estrutura da Igreja. Já S. Boaventura sabia que uma velhota iletrada podia ter uma experiência de Deus mais profunda que a dele, que era frade, padre, teólogo, doutor e professor. Não podemos desprezar a contribuição dos homens e mulheres que, não acreditando em Cristo, têm uma experiência de Deus. Nem sequer a contribuição daqueles que, sem acreditar em Deus, vivem a fidelidade à condição humana. Finalmente, é importante que a Igreja confie nos seus filhos que se atrevem a pensar e procurar. Peça-lhes, sim, que vivam na humildade e no amor.

Maio de 2003

_________________________________________________________________________________________

A PAZ EM MÁS COMPANHIAS

Transcrevo, da Folha Informativa da Paróquia de Oeiras, palavras do Padre Rego, a que dou todo o meu apoio:

«… Por muito triunfante que saia um exército, a humanidade sai sempre derrotada de qualquer guerra. Por isso continuam a ter razão os milhões de protestos e gritos contra esta aberração do terceiro milénio, que, além do mais, não soube explicar o que pretende nem o que conseguirá. Os argumentos bélicos tornam-se mais frágeis de dia para dia e já se percebe que a opinião pública mundial não levanta mais alto o seu protesto apenas por respeito comovido aos seus jovens que andam pelo deserto “a morrer pela pátria e a viver sem razões”. Calaram-se, também dentro da Igreja, muitas vozes, para não se confundirem com partidos ou correntes ideológicas duvidosos que se apoderaram dos cartazes e slogans anti-guerra. É preferível, todavia, proclamar ideais de paz em más companhias, que defender a morte e a violência em harmonia com os poderosos. Nesse aspecto João Paulo II andou desta vez “mal acompanhado” na sua inconformidade perante a guerra. Mas a sua voz foi eco de muitos milhões de pessoas que trazem no coração o desejo transparente da paz e da justiça.»

Abril de 2003

_________________________________________________________________________________________

SOBRE A GUERRA E A PAZ

Um dos jornais diários de Lisboa determinou que, no domingo passado, os padres iriam falar da paz e da guerra. Calei-me, em sinal que não estou sujeito a essa jurisdição. Mas o tema é importante. Em mais de metade dos casos, as nações são governadas por homens maus. Que se apossaram do poder pela violência, pela mentira, pela fraude; ou porque foram conduzidos ao poder – eventualmente eleitos – por intervenção de grupos com todos esses defeitos. Grupos que, a seguir, lhes determinam ou, pelo menos, lhes condicionam a acção.

Não tenho dúvidas de que Osama bin-Laden e o conjunto dos terroristas são homens maus, que constituem perigo para o mundo. Não tenho dúvidas de que Saddam Hussein é um homem mau, que escraviza o seu povo e ameaça a paz. Não tenho dúvidas de que Eduardo dos Santos é um homem mau, que faz de Angola a sua quinta privada e deixa a população morrer à fome. A lista seria quase interminável. Não tenho dúvidas de que G.W. Bush é um homem mau, que quer o poder e a riqueza para os EUA, mesmo que à custa do resto das nações.

Põe-se a questão de saber se é ou não conveniente que os EUA ataquem o Iraque, na suposição de que o Iraque apoia o terrorismo internacional e dispõe de armas de destruição maciça. Recorda-se que foi um erro que as nações civilizadas não tenham impedido a tempo a caminhada de Hitler, de Estaline e de vários outros ditadores.

Sou capaz de concordar que era importante impedir a progressão de Saddam Hussein. A minha dúvida é outra. Não reconheço o estofo moral de G.W.Bush. Não reconheço a bondade dos EUA. Aceitarei que, havendo provas seguras, as Nações Unidas (não os EUA, nem um clube a seu serviço) façam uma “guerra preventiva” contra o Iraque. Mesmo assim, seria a minha segunda opção. A primeira opção consistiria num novo pacto entre as Nações Unidas e as Grandes Religiões para combater a miséria.

O terrorismo e a vontade de guerrear o Ocidente dependem muito da miséria do Terceiro Mundo. O dinheiro que se vai gastar com a guerra poderia servir para criar muitas estruturas que combatessem a fome, a doença e a miséria dos povos pobres, que contribuíssem para a sua boa inserção na comunidade mundial. Uma acção em favor destes valores terá a médio e a longo prazo um efeito muito mais forte do que a destruição do Iraque e seus eventuais aliados.

Apelo ao Papa e aos Bispos Católicos, aos Bispos Ortodoxos, Luteranos e Anglicanos, aos chefes de todas as comunidades cristãs, aos responsáveis Judeus e Muçulmanos, a todos os homens que acreditam em Deus, a todos os homens de boa vontade – acreditem ou não acreditem em Deus – que se juntem com urgência para desencadear este processo. Que só é utópico para quem não acredita, nem em Deus, nem nos homens.

Fevereiro de 2003

_________________________________________________________________________________________

O mistério do amor de Deus

Os judeus acreditaram em Deus, e acreditaram que Deus é poderoso e bom. Nos tempos mais antigos, pensavam que os outros povos também tinham deuses, mas menos poderosos que o seu Deus. Um dia compreenderam que há um só Deus, e todos os povos O devem servir.

Mais adiante, descobriram que Deus não é apenas o Senhor do povo judeu e dos outros povos, é o Criador de todas as coisas. As coisas só existem porque foi essa a Sua vontade.

Como estavam pouco habituados a abstracções e especulações, começaram por imaginar que Deus tinha fabricado as coisas, uma a uma, com as suas mãos. Depois compreenderam que basta que Deus decida, que Deus “diga”, para que a sua vontade se realize. Deus cria tudo pela sua palavra. Fica a outra questão: será que é preciso que Deus crie as coisas uma a uma, ou basta que crie um Universo capaz de se desenvolver? O nascimento duma criança depende também da vontade dos pais… Sabemos hoje que o Universo se organizou ao longo de 15 mil milhões de anos, e que a vida evoluiu na Terra desde há 3 mil milhões de anos.

Cada um de nós tem a tentação de dominar, mas não gosta de ser dominado. E Deus, como é, como faz? Os judeus começaram por pensar que é Deus quem decide tudo e, portanto, maneja também os corações dos homens. Depois, compreenderam que Deus é tão generoso que, tendo embora todo o poder, trata os homens como pessoas, dialoga connosco na base da liberdade.

Num dos textos mais célebres da Bíblia – Gen 18,16-33 – conta-se que Abraão discutiu com Deus, negociando com Ele a salvação duma cidade pecadora. Os sábios sorriram: então Abraão não sabia que Deus é o Absoluto, conhece tudo e resolveu tudo desde sempre? Ora é por estas e por outras que a Bíblia é tão importante. O Autor deste texto tinha percebido que Deus não ignora a criatura. É verdade que Deus é eterno, não há nele sujeição ao tempo. Mas as decisões de Deus, sendo eternas, têm em conta o que se vai passar no tempo. Não desprezam, nem as leis que comunicou à Natureza, nem a contribuição da liberdade dos homens.

Sobretudo a partir do séc.XVII, certos pensadores cristãos voltaram ao tema, dizendo que Deus é Tudo. Sem dúvida, Deus é totalmente bom, totalmente sábio, totalmente santo. Mas é preciso não cair na tentação de imaginar que a Totalidade de Deus é tal que não fica espaço para as criaturas. Deus é tão grande e tão livre que não tem medo de criar criaturas livres. Criou homens que, em modalidade diferente da sua, são capazes de alcançar saber, criar beleza, viver na santidade. São capazes de fugir do mal e de promover o bem, são capazes de, na sua finitude, imitarem a generosidade de Deus. Deus, que criou os homens, não precisa de os desvalorizar, muito menos de os abafar.

O Novo Testamento diz-nos mais. Para salvar os homens dos seus pecados e elevar as criaturas a nova dignidade, Deus não achou absurdo que Seu Filho assumisse a condição humana. A epístola aos Hebreus tem a ousadia que proclamar que Jesus, “sendo embora Filho de Deus, aprendeu no sofrimento” e “tornado perfeito”, se tornou fonte de salvação. (Heb 5, 8-9).

Mas como pode Jesus aprender, se é Deus? Que sentido pode ter a afirmação de que Ele se tornou perfeito? Se tomarmos o Evangelho a sério, reconheceremos que Deus achou conveniente experimentar amar nesta condição finita. Nesta condição humana, Jesus “cresceu em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens” (Luc 2,52). E “tendo amado os seus que estavam neste mundo, amou-os até ao fim.” (Jo 13,1).

Janeiro de 2003

_________________________________________________________________________________________

O senhor António

Era uma família honesta e pouco abastada: pai, mãe e três filhos. O pai morreu cedo. Um dos filhos, o António, foi atacado aos 14 anos por uma doença do foro neurológico, que rapidamente o cegou e a pouco e pouco o deixou paralítico. Morreu há dias, mais de 40 anos passados.

António aprendeu a ler Braille e a escrever à máquina. Ouvia as gravações que a Biblioteca Nacional disponibiliza, com obras fundamentais da literatura. Seguia com grande atenção as notícias e outros programas da rádio.Tinha amigos, que mantinham o contacto. Durante anos, saía à rua com o seu cão. Escrevia artigos, que enviava para semanários regionais.

Quando o conheci, há dois anos, tinha já grande dificuldade em andar e mesmo em conservar-se sentado. Não saía à rua, estava permanente acamado. Não escrevia à máquina por não ter posição, os seus dedos já não sentiam o Braille. Os amigos sugeriram um teclado eléctrico, mas não conseguiu habituar-se. Não desistiu foi de continuar a ouvir – e cada vez mais – o seu pequeno aparelho de rádio.

Este homem sem cultura oficial e aparentemente fechado na escuridão tinha um conhecimento vasto do que se passava no país e no mundo. Um Professor da Universidade Católica, da área da Economia, que passou também a visitá-lo, espantava-se com a justeza das suas opiniões sobre os homens e sobre a política.

Mantinha correspondência com amigos distantes, alguns deles no Brasil; para isso, ditava as cartas a algum dos jovens que o visitavam. Quando um rapaz e uma rapariga deste grupo resolveram casar, levaram-no com cuidado à Igreja, para que fosse seu padrinho.

A mãe, que lhe tinha dado uma presença constante, era há muito falecida. Os dois irmãos faleceram também. Tinha de seu uma cave com um pátio (onde permanecia o cão). Partilhava esta residência com uma sobrinha casada e sua família, que lhe retribuíam em apoio. Quando alguém sugeriu que vendesse a casa e se instalasse num lar razoável, respondeu que não podia fazer isso à sobrinha.

Este homem sofria a sua cruz com grande dignidade. Acreditava em Deus, rezava, ouvia missa na TSF, agradecia que lhe trouxessem com frequência a Eucaristia. Não se perdia em perguntas inúteis, só lhe ouvi serenos desabafos quando alguma vizinha mais devota lhe enchia os ouvidos com meditações sobre os desígnios de Deus. Nos seus momentos mais serenos, interrogava-me sobre a criação e o big bang, sobre as civilizações antigas, sobre a caminhada de Jesus, sobre passos da Escritura que lhe punham dificuldades.

Neste verão deu outra queda que lhe partiu uma perna e apressou o seu fim. Continuou sempre a conversar com lucidez e equilíbrio. De repente, piorou. Fui vê-lo ao Hospital. A sua voz era um pouco mais difícil, mas falámos algum tempo. Como sempre, quis receber a Eucaristia. Morreu nessa madrugada.

Foi um dos Mestres – e já são alguns – que encontrei nesta vida.

Novembro de 2002

_________________________________________________________________________________________

Sobre o apelo dos nossos Bispos a favor de Angola

Vivemos num mundo de progresso, cheio de riqueza e de saber. Mas, neste mundo, todos os anos morrem à fome 30 milhões de pessoas. 80 mil por dia.

Todos dizemos que temos pena, todos achamos que não temos culpa, poucos são os fazem alguma coisa.

Curiosamente, o mundo produz alimentos que podiam alimentar todos os famintos. A produção excede até em 10% o que seria necessário. Mas os ricos preferem armazenar. Ou mesmo queimar uma parte, para que os preços não baixem. Claro que é muito caro organizar a distribuição, e não é fácil prever as consequências de ajudas mal pensadas.

Reconheçamos que a culpa é em grande parte dos governos dos países pobres, que impedem uma acção eficaz, que retêm para proveitos pessoais grande parte do que é oferecido.

Mas há a falta de interesse dos países ricos e poderosos. Têm outras prioridades. Gastam em armamento e em planeamento de guerras quantias muito maiores do que aquelas que seriam necessárias para a ajuda. Podem fazer ultimatos quando os seus interesses estão em risco, não lhes passa pela cabeça fazer um ultimato a favor dos pobres.

“Ninguém tem culpa”, “ninguém sabe” como intervir num processo tão vasto. Os nossos bispos pedem que comecemos a intervir em Angola.

São palavras ponderadas e firmes: “Sabemos que Angola é um país rico, que há muita gente com muito dinheiro, que é urgente reorganizar a sociedade em ordem à solução desses problemas. Mas agora não há tempo de ficarmos a analisar essas questões. É preciso agir urgentemente para que menos pessoas morram de fome.”

Os nossos bispos pedem que reunamos dinheiro durante este mês de Outubro e comprometem-se a fazê-lo chegar sem desvios à Caritas de Angola, que distribuirá produtos aos necessitados.

Faço-me eco deste apelo. Não tenhamos medo de dar muito, mesmo que com isso prejudiquemos a nossa festa do Natal ou a viagem de férias do ano que vem. Será que teremos direito de gastar com coisas dispensáveis, se com esse dinheiro pudermos salvar da morte alguns irmãos?

Outubro de 2002

_________________________________________________________________________________________

Duas questões actuais

I. Sobre a justiça na Terra

“Todos os homens…, criados à imagem de Deus, têm a mesma natureza e a mesma origem. Deve, pois, reconhecer-se cada vez mais a igualdade fundamental entre todos os homens. É evidente que nem todos os homens são iguais… Mas toda a forma de discriminação social ou cultural nos direitos fundamentais da pessoa, fundada no sexo, na raça, na cor, na condição social, na língua ou na religião, deve ser superada e eliminada(…). É doloroso que estes direitos fundamentais da pessoa não estejam garantidos devidamente por toda a parte. (…). Além disso, embora existam legítimas diferenças entre os homens, a igual dignidade das pessoas postula que se chegue a condições de vida justas e mais humanas. De facto, as desigualdades económicas e sociais excessivas entre os membros ou entre os povos de uma só família humana causam escândalo e obstam à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana, bem como à paz social e internacional. As instituições privadas ou públicas procurem colocar-se ao serviço da dignidade e do destino do homem; lutem simultaneamente com energia contra toda a forma de servidão, social ou política; e garantam sob qualquer regime político os direitos fundamentais dos homens. Ninguém se contente com uma ética puramente individualista. O dever da justiça e da caridade cumpre-se cada vez mais quando cada um, contribuindo para o bem comum segundo as suas próprias capacidades e considerando as necessidades alheias, se preocupa também com a promoção das instituições públicas ou privadas que servem para melhorar as condições de vida humanas. (…) A aceitação das solidariedades sociais e o seu respeito devem ser consideradas por todos como um dos principais deveres do homem contemporâneo. (Conc. II do Vaticano, Const. Gaudium et Spes, 29,30).

II. Sobre a paz e a guerra

A Voz da Verdade de 22 Set 2002 noticia que, numa entrevista dada no passado dia 10 de Setembro, o Cardeal Tauran, Secretário da Santa Sé para as relações com os Estados, afirmou, a propósito dum possível ataque ao Iraque, que “deve sempre privilegiar-se o diálogo”, que importa perguntar “se o tipo de operação em que se está a pensar será o meio mais adequado para fazer a paz” e que uma intervenção dessa natureza apenas seria admissível se “inspirado no Direito Internacional e em resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, depois de terem sido estudadas as consequências para a população civil iraquiana, bem como as repercussões para os países da região e para a estabilidade mundial”. De outra forma, “apenas se imporia a lei do mais forte”.

Segundo a mesma fonte, numa entrevista dada à TSF em 14 de Setembro a respeito da proposta de alteração da legislação laboral, o Senhor Cardeal Patriarca, interrogado sobre a questão do Iraque, teve ocasião de afirmar que importa fazer “tudo o possível para evitar que a guerra seja solução”.

A Voz Portucalense de 11 Set 2002 refere mais duas tomadas de posição análogas: um longo artigo publicado no Times pelo Cardeal O’Connor, arcebispo de Cantuária, e uma entrevista dada pelo Cardeal Kasper, Presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos.

É evidente que a Igreja não tem nestas matérias uma autoridade dogmática. Estas declarações valem em primeiro lugar por si mesmas: são palavras serenas dirigidas por homens sérios a todos os homens sérios da terra. Além disso, exprimem aquilo que parece ser uma tendência entre os que governam a Igreja.

Setembro de 2002

_________________________________________________________________________________________

O Oitavário da Unidade (I)

“Pai, manifestei o Teu nome aos homens que, do mundo, Tu me deste. Dei-lhes as palavras que Tu me deste e eles receberam-nas e creram que me enviaste. Rogo por eles. Vou para Ti, mas eles ficam no mundo. Pai santo, guarda no Teu nome aqueles que me deste, para serem um só, assim como Nós.(…). Não rogo só por estes, mas também por aqueles que, por meio da sua palavra, hão-de crer em mim, para que todos sejam um só. Como Tu, Pai, estás em mim e Eu em Ti, também eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste.” (Jo 17, 6-23).

Não cumprimos este desejo do Senhor. Já não somos um, começámos a ser muitos, pelas doutrinas e pelas práticas. O ecumenismo é o trabalho em direcção à unidade. Unidade, em primeiro lugar, dos cristãos; mas também unidade de todos os crentes e, finalmente, unidade de todos os homens de boa vontade.

É óbvio que o ecumenismo é difícil. Navega entre dois escolhos, o relativismo (todos têm razão) e o fundamentalismo (só nós temos razão, e temos toda a razão).

Comecemos por recordar que a fé é uma adesão à verdade, mas uma adesão parecida e diferente da adesão a outras verdades mais simples. Sei que o governo caiu – porque isso foi suficientemente anunciado na TV e nos jornais. Sei que a água é feita de hidrogénio e oxigénio – porque posso fabricar 18 gramas de água com 2 g de hidrogénio e 16 g de oxigénio; mais profundamente, porque isso é solidário de todo o edifício da Química. Sei que houve evolução dos seres vivos – porque os indícios são esmagadores e porque é a hipótese mais razoável. Sei que devo respeitar a vida e a dignidade do próximo – porque isso me parece eminentemente sensato, porque o contrário geraria o caos, porque a generalidade dos homens está de acordo. Sei que Jesus Cristo é o Filho de Deus enviado ao mundo, morto pelos homens e ressuscitado pelo Pai – porque a graça de Deus me ajuda a entender que a doutrina de Jesus é do alto e me ajuda a reconhecer os sinais que Ele deixou, testemunhados pelos Apóstolos e pela Tradição cristã.

Vem agora uma primeira dificuldade. Só os ignorantes podem negar que a água é feita de hidrogénio e oxigénio, só gente muito obcecada nega a evolução da vida, só os maus negam que se deva respeitar o próximo. Mas há gente que não pertence à minha Igreja, há gente que não acredita em Jesus Cristo, há gente que não acredita em Deus. Uma das tentações do crente é supor que “os outros” são todos ignorantes, obcecados, maus,…. Mas basta conviver com eles para descobrir que há protestantes, judeus, maometanos, …, ateus, que são inteligentes, cultos, humildes, sinceros. Quando não tínhamos este convívio, parecia-nos aceitável fazer cruzadas e Inquisição contra essa “gente malvada”. Depois desse convívio, temos de concordar com o Concílio: “A pessoa humana tem direito à liberdade religiosa(…). Os homens têm o dever de buscar a verdade, (…) mas a verdade não se impõe senão pela sua própria força” (Dignitatis Humanae,1-2). Portanto: há que fazer apostolado, mas sem guerra nem coacção.

Uma segunda dificuldade resulta da ideia do “tudo ou nada”. O crente tende a supor que a religião verdadeira sabe tudo a respeito de todas as coisas. Isso leva a duas consequências: achar que tudo o que se ensina correntemente na minha Igreja é verdadeiro, e que um erro noutra religião basta para a invalidar. Ora hoje a Igreja tem a consciência de que o Senhor Jesus não lhe deu autoridade sobre todas as coisas (por exemplo sobre a ciência ou a política), nem revelou todos os mistérios (por exemplo não explicou se há ou não purgatório). Mais do que isto, a Igreja tem consciência de que há nas outras religiões coisas muito válidas. “A Igreja Católica vê-se unida, por muitos títulos, com os cristãos que não professam integralmente a fé ou não guardam a unidade com o sucessor de Pedro. Há muitos que prezam a Sagrada Escritura, manifestam sincero zelo religioso, crêem de coração em Deus Pai e em Cristo,… são marcados pelo baptismo e recebem outros sacramentos nas suas igrejas. Muitos Têm um episcopado, celebram a sagrada Eucaristia e cultivam a devoção para com a Virgem Mãe de Deus.(…) O Espírito Santo actua neles com os dons e graças do seu poder, chegando a fortalecer alguns deles até ao martírio.” (Lumen Gentium, 15)

20 de Janeiro de 2002

_________________________________________________________________________________________

O Oitavário da Unidade (II)

“A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, honram a sua mãe virginal, a qual por vezes invocam devotadamente. Esperam pelo dia do juízo (…). Têm por isso em apreço a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum. E se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este Sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e a liberdade para todos os homens.”(Nostra Aetate,3).

“A Igreja Católica nada rejeita do que nas religiões não cristãs existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia reflectem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens.” (NA,2).

Houve um tempo em que cada uma das confissões cristãs entendia que o ecumenismo era converter as outras Igrejas à sua, porque na sua residia toda a verdade.

Hoje pensamos que a primeira coisa a fazer é que cada um de nós se converta mais profundamente ao Evangelho. Mesmo que nós, católicos, tenhamos conservado uma parte maior da mensagem do Senhor, só por loucura podemos imaginar que somos perfeitos. Na nossa Igreja há ainda um autoritarismo exagerado; a nossa linguagem – na liturgia, na pregação, e até nas reuniões e na oração pessoal – está demasiado distante da linguagem do homem comum; as nossas celebrações só por tradição se chamam “festas” (pelo menos, os jovens não vêem aí festa alguma); os nossos centros sociais tratam bem dos pobres, das crianças e dos idosos, mas cuidamos pouco de promover a justiça no mundo e até no nosso país; estamos demasiado identificados com a sociedade de fruição e de consumo, temos pouca exigência moral e pouca oração.

A segunda coisa a fazer era intensificar o diálogo e ter a humildade de reconhecer que, neste ou naquele ponto, podemos aprender com as outras comunidades. As comunidades protestantes (ao menos as mais antigas) têm um sentido profundo da Escritura, as comunidades ortodoxas mantêm viva a Tradição, conservam um sentido religioso da vida. E nós? Os muçulmanos rezam cinco vezes ao dia e fazem um mês de jejum. E nós? Os judeus acham que a palavra de Deus é para ser cumprida. E nós? Os budistas aprenderam a relativizar ou mesmo a desprezar aquilo que é efémero, têm uma oração contemplativa. E nós?

Deste convívio e desta partilha do que é autêntico deve resultar um maior desejo de unidade. Mas é claro que entre nós não há apenas diferenças de estilo: há também diferenças de doutrina. Penso que algumas destas diferenças não têm de impedir a comunhão: eu acredito que existe Purgatório, tu não acreditas, veremos um dia quem tem razão. Mas há diferenças mais significativas: se eu acredito que a Eucaristia é o Senhor e tu acreditas que é apenas um convívio de cristãos, tem pouco sentido dizer que celebramos a mesma eucaristia. Como quer que seja, o convívio e o diálogo ajudar-nos-ão a compreender melhor as dificuldades. A este respeito, há que reconhecer que os teólogos do séc. XX – católicos, ortodoxos, protestantes – clarificaram muito os problemas, resolveram alguns, abriram pistas para novas soluções. Hoje, há neles uma grande convergência.

Sobretudo, temos de rezar. “O Concílio declara estar consciente de que o propósito de reconciliar todos os cristãos na unidade de uma só e única Igreja de Cristo excede as forças e a capacidade humana. Por isso colocamos inteiramente a nossa esperança na oração de Cristo, no amor do Pai e na virtude do Espírito Santo.” (Unitatis Redintegratio, 24).

27 de Janeiro de 2002

_________________________________________________________________________________________

A ESMOLA

O Antigo Testamento ensinava que a conversão e o perdão dos pecados se merecem através da oração, do jejum e da esmola.

Houve tempo em que as pessoas pensavam que a esmola consistia em dar algumas moedas aos pobres. Digamos antes que a esmola consiste em dar algo de significativo a um irmão que está carente. Podemos dar dinheiro, tempo, carinho, paciência, … Podemos dar por hábito, por ostentação ou porque temos sincera vontade de ajudar. Desejaríamos fazê-lo com um amor semelhante ao que Jesus tinha por todos. Por outro lado, há os pobres que não têm dinheiro que chegue para uma vida normal; há os que por isso passam fome e frio, não podem comprar os medicamentos de que precisam; há os doentes que não conseguem tratar-se; há os idosos; há os que se encontram sós; há os que se meteram em situações difíceis e estão à beira do desespero…

Claro que não podemos ajudar todos os que precisam. Mas isso não pode servir de pretexto para não ajudarmos ninguém. Importa igualmente não pensar que a responsabilidade pertence apenas ao Estado. Nunca o Estado conseguiu ajudar todos os pobres; e, ainda que alguma vez consiga resolver as dificuldades materiais, os pobres precisam de calor humano, que nem sempre os serviços conseguem dar.

Se em cada ano nos sobeja dinheiro, era bom que gastássemos dinheiro com os pobres. É talvez exagero dizer – como disseram alguns escritores dos primeiros tempos do cristianismo – que aquilo que nos sobeja não é nosso, é dos pobres. Mas é um exagero muito mais grave pensar que aquilo que é meu, é meu, posso usá-lo e estragá-lo como quiser. Além disso, quer nos sobeje, quer não nos sobeje dinheiro, pode ser que tenhamos tempo e paciência para dar.

É um erro pensar apenas nos nossos, é outro erro ajudar os de fora e não pensar naqueles que pertencem à nossa vida. Às vezes, são esses mais próximos que morrem à míngua da “esmola” do nosso carinho, da nossa atenção, do nosso amor. Os pais, os sogros, os avós, os tios… e às vezes, o marido ou a mulher e os filhos. Na Igreja houve sempre almas benfazejas que se esqueceram das obrigações com a sua casa e os seus.

Hoje, a questão da partilha adquiriu uma nova dimensão. Antigamente só sabíamos dos pobres à nossa volta e só esses poderíamos ajudar. Hoje, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” que a Terra tem 6000 milhões de habitantes; que 40%, isto é, 2500 milhões, vivem com 2 euros por dia; 20%, isto é, 1200 milhões, com 1 euro por dia; como consequência, todos os anos morrem à fome 30 milhões de pessoas. Por outro lado, há no mundo riqueza e alimentos suficientes para vencer esta miséria, seria possível fazer infinitamente mais do que se faz. Mas os povos da riqueza (menos de 10% da humanidade) preferem gastar somas enormes em armamento, em divertimentos e num consumo supérfluo. Pior, a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres acentua-se de ano para ano. As grandes multinacionais possuem legiões de funcionários bem pagos cuja função é descobrir e realizar processos para enriquecer mais e mais a empresa, à custa naturalmente do indefeso mundo dos pobres. Cada um de nós pensa que tem pena, mas não tem culpa. Será que não temos? Era preciso que alguém – porventura o Papa, os Bispos, as Nações Unidas – gizassem processos para atalhar esta injustiça, mesmo que à custa de grandes sacrifícios , por exemplo um grande imposto sobre os ricos e sobre os remediados. Estaríamos dispostos a aceitar? E será que costumamos erguer a voz a favor da justiça nos cargos que ocupamos, nas empresas, nos partidos, na própria Igreja?

Março de 2002

_________________________________________________________________________________________

Quem é Jesus Cristo? (1)

Pelo ano 27 da nossa era, um homem chamado Jesus, começou a pregar a Galileia. Não era sacerdote, não tinha feito estudos, não pertencia a nenhum dos grupos que então marcavam a vida religiosa e política. Até aí, tinha sido artífice, parece que carpinteiro. Gostava de falar ao ar livre, embora às vezes pregasse nas sinagogas.

Rapidamente despertou a atenção do povo. Ao contrário dos sacerdotes da Lei judaica, que mantinham as distâncias, Jesus convivia com os pobres e ignorantes, interessava-se pelos doentes, tratava as mulheres com consideração, estimava as crianças, não desprezava os marginais, até se sentava à mesa com eles. Começou a ser seguido por um grande número de discípulos. Destes, Jesus escolheu doze, para o acompanharem mais de perto, e chamou-lhes apóstolos (quer dizer, enviados).

Jesus falava a respeito de Deus e da vida de maneira nova. “Nunca ninguém falou como este homem.” (Jo 8,46). Os sacerdotes da Lei apresentavam Deus como um Senhor terrível, sempre pronto a castigar, cioso da letra dos mandamentos. Imaginavam que Deus se comprazia com cerimónias solenes e complicadas, que o esplendor do Templo de Jerusalém era uma homenagem à sua glória.

Jesus afirmava que Deus é bom e gosta de nós como um pai gosta de seus filhos. Ele próprio tratava Deus por “Abbá”, palavra do vocabulário infantil que podemos traduzir por “papá” ou “paizinho”, e convidava todos a rezar assim: “Pai nosso,…” (Mat 6,9). Jesus nunca fez cerimónia em nos chamar pecadores. Mas a este respeito tinha duas novidades: primeira, Deus julga o fundo dos corações e não as aparências; há pessoas com vidas irregulares que Deus estima mais que certas pessoas certinhas; não porque tabele tudo por igual, mas porque conhece o egoísmo de muitos “bons” e a generosidade de muitos “maus”. “Em verdade vos digo: os publicanos e as mulheres da rua vão chegar primeiro que vós ao Reino de Deus.” (Mat 21,31). A segunda novidade é que Deus odeia o pecado, mas não odeia os pecadores. Tem pena de nós, ajuda-nos a sair do mal, perdoa os nossos pecados e restitui-nos a plena confiança. “E eu vos digo: há mais alegria no céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove “bons” que acham que não precisam de melhorar.”(Luc 15,7).

Jesus insistiu muito na importância da oração. Os discípulos encontravam-no frequentemente a rezar de madrugada, perceberam que muitas vezes passava a noite inteira em oração. Acentuou muito que a oração tem de começar por uma atitude pessoal e de intimidade: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto mais secreto, fecha a porta e fala em segredo a teu Pai.” (Mat 6,6). Isto não significa que desprezasse a oração em comum. Tudo leva a crer que Ele assistia com os discípulos às cerimónias nas sinagogas e no Templo. Deixou-nos a Eucaristia, que é por essência uma celebração comunitária. Em todo o caso, fica-se com a impressão de que o triunfalismo das celebrações no Templo de Jerusalém o deixavam indiferente. “Mulher, acredita no que te digo: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. (…). Deus é espírito. Por isso, os que O adoram, devem adorá-lo em espírito e em verdade.” (Jo 4,21-24).

(continua)

Julho de 2002

_________________________________________________________________________________________

Quem é Jesus Cristo? (2)

Os judeus orgulhavam-se de pautar a vida pela Lei de Deus (completada, é certo, por preceitos vindos da mão dos sucessivos legisladores).

Jesus sublinhou sempre que os muitos mandamentos são consequência de dois mandamentos fundamentais: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo. Quanto ao primeiro, manteve a letra do Antigo Testamento: “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e, com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento.” (Mat 22,37-38). Disse que o segundo mandamento é “semelhante ao primeiro” e que estes dois mandamentos “resumem todo o ensino da Bíblia”. (Mat 22, 39-40; Marc 12, 28-34; Luc 10, 25-28; Jo 13, 33-35).

Com isto, Jesus não se limita a proclamar um princípio. Quer que os homens compreendam que o cumprimento material dos artigos da Lei não pode distrair daquelas duas obrigações fundamentais. “Se fores apresentar uma oferta ao altar e aí te lembrares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, pousa a tua oferta e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; vem então apresentar a tua oferta.” (Mat 5, 23-24). Traduzido para hoje: “Se estás para ir à missa ao domingo, e de repente te lembrares de que ofendeste ou foste injusto com alguém, deixa a missa e vai primeiro resolver essa ofensa ou injustiça; se ainda houver outra missa, vai então”. Os judeus ensinavam que ao sábado não era lícito fazer trabalho algum, Jesus fez numerosos milagres ao sábado (até porque era o dia em que as aldeias se reuniam na sinagoga). Os fariseus concluíram que Ele não podia ser de Deus, “porque não guardava o sábado”; Jesus tentava explicar-lhes que todos os dias são bons para fazer o bem, e que o mandamento do sábado não podia restringir o amor e o serviço dos irmãos.

Diz-se que os governantes desejam que os súbditos cumpram sempre e pensem o menos possível. A atitude de Jesus é oposta, como acabamos de ver. Por outro lado, seria um erro supor que Jesus está a favorecer a permissividade. Quer que os homens pensem – não para se dispensarem de obrigações eventualmente aborrecidas, mas para encontrarem a maneira mais verdadeira de amar, a Deus e ao próximo (tudo somado, é mais aborrecido ir pedir desculpa do que assistir à missa). “Sede pois perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito.” (Mat 5, 48).

Para Jesus, não basta que os homens se limitem a evitar más acções. Têm de viver a justiça e a rectidão no fundo do coração. “Ouvistes que foi dito aos antigos: não matarás; quem matar será réu nos tribunais. Mas eu vos digo que aquele que ofender ou injuriar merece ser julgado. (…) Ouvistes que foi dito: não cometerás adultério. Mas eu vos digo que aquele que olha para uma mulher com desejo está a cometer adultério no seu coração” (Mat 5, 21-28).

O Evangelho conta uma história significativa: “Rodeado pelo povo, Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar. Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher … e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. E Tu que dizes?»… Mas Jesus, inclinando-se, pôs-se a escrever na terra com o dedo. Como insistissem, levantou-se e disse: « Quem de entre vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» E inclinando-se de novo, continuou a escrever. Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos. Ficou só Jesus e a mulher. Então Jesus ergueu-se e perguntou: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» Ela respondeu: «Ninguém Senhor.» Disse-lhe Jesus: « Também Eu te não condeno. Mas daqui por diante não voltes a pecar.» (Jo 8, 1-11).

(continua)

Agosto de 2002

_________________________________________________________________________________________

Quem é Jesus Cristo? (3)

Os pobres receberam Jesus com alegria, os responsáveis da religião olharam-no com suspeita. Quem lhe tinha dado autoridade para falar? E que sabia ele destas coisas?

Há muito que o povo judeu esperava o Messias. Deve confessar-se que os textos da Bíblia relativos ao Messias eram bastante obscuros. Tinha sido a piedade popular que fabricara a imagem dum rei glorioso, enviado por Deus para libertar Israel do jugo dos inimigos e inaugurar na Terra o reino definitivo, na justiça e na paz. O próprio João Baptista tinha uma concepção deste tipo: “Vendo que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu baptismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para vir? Produzi frutos de conversão… e não vos iludais a vós mesmos, dizendo: temos por pai a Abraão!… O machado já está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo… Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu… Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. Tem na mão a pá de joeirar; limpará a sua eira e recolherá o trigo no celeiro; quanto à palha, queimá-la-á num fogo inextinguível».” (Mat 3,7-12).

Mas Jesus manteve-se sempre à margem da política; afastou-se quando as multidões quiseram aclamá-lo rei e, por isso, nunca disse que era o Messias, a não ser ao grupo dos discípulos mais fiéis (Mat 16,13-20); não procurou alianças; não hosti-lizou o poder religioso, mas não se explicou perante ele. Não era padre.

Partilhou a vida da gente simples, fez-se “em tudo igual a nós, excepto no pecado” (cf. Heb 4,15). Mas, por outro lado, manteve entre Ele e nós um abismo doutro tipo. Nunca diz “o nosso Pai”, “o nosso Deus”; diz, consoante os casos, “o meu Pai”, “o meu Deus”, “o vosso Pai”, “o vosso Deus”. Considera-nos a todos como pecadores, mas lança o desafio: “quem de vós pode acusar-me de pecado?” (Jo 8,46) Promete coisas e tem exigências que seriam sinal de loucura noutro homem qualquer: “Todo aquele que se declarar por mim diante dos homens, também Eu me declararei por ele diante de meu Pai, todo aquele que me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante de meu Pai” (Mat 10, 32-39). “Quem ama o pai ou a mãe, o filho ou a filha, mais do que a mim, não é digno de mim” (Luc 14, 26-27). Afirma que Ele próprio há-de julgar todos os homens, e atribuir prémio ou castigo (Mat 25, 31-46).

À sua mensagem chama a Boa Nova, anuncia que vem instaurar o Reino de Deus (Mat 4,23, Luc 16,16). O Reino de Deus não correspondia minimamente às expectativas dos judeus, e continua a não ter paralelo com aquilo que no mundo significa “reinar”. Ignora o poder político, o poder das armas, o poder do dinheiro, o poder da sedução e da propaganda. Por outro lado, Jesus nunca o colocou apenas no além. “O Reino de Deus já está no meio de vós” (Luc 17,20-21). O Reino de Deus começa (já começou) onde quer que os homens amem sinceramente, a Deus e ao próximo. É uma aventura sem fim, que culminará, de facto, na vida eterna.

Jesus aponta aos homens a vontade de Deus, a vontade do Pai, mas não receia falar em seu próprio nome: “Ouvistes que foi dito aos antigos…Eu, porém, digo-vos…” (Mat 5, 21-48). Relativiza, diante da sua, a posição de Moisés (Mat 19, 7-9). O Evangelho de S.João explica que isto é normal, dada a relação entre o Pai e o Filho (cf. Jo 5, 17-47; 6,43-62; 7,37-39; 8,2-20;51-59; 10,25-38; 13-17).

Jesus declara que não vem destruir a Lei, mas vem completá-la. E com isso entra em colisão com os sacerdotes do Templo, os doutores da Lei e os fariseus. Assim a respeito do sábado (Marc 2,23-28; 3,1-6), das tradições judaicas (Marc 7,1-23), da ideia da perfeição (o fariseu e o publicano, Luc 18,9-14), dos negócios no átrio do Templo (Mar 11,59), do conteúdo e interpretação dos mandamentos (Mat 5,28), da própria ideia do Templo (Jo 4, 20-24).

Agosto de 2002

_________________________________________________________________________________________

REFLECTINDO SOBRE O TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL

Protesto veementemente contra as Nações Unidas e contra os EUA, a quem o Conselho de Segurança se prostitui.

Com inteligência ou sem ela, resolveram criar um TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL para julgar crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Depois, aceitam que, para já pelo prazo de um ano, as tropas dos EUA e de certos países da Europa envolvidas em “missões de paz” estejam isentas deste Tribunal.

Entretanto, as Nações Unidas toleram que os EUA tratem os prisioneiros talibans como cães, os sujeitem a “julgamentos” nos EUA e eventualmente os condenem à morte.

Voltámos duzentos anos atrás. Até ao séc.XVIII os nobres só podiam ser julgados por tribunais dos nobres, onde tinham garantias que não existiam nos tribunais onde era julgado o povo. A Revolução Francesa acabou com esta diferença: os homens são todos iguais perante a Lei.

Voltamos assim a ter uma “plebe má”, suposta capaz de todos os crimes, que pode e deve ser julgada por esse tribunal; e uma legião de “cavaleiros andantes” a quem parece mal atribuir desmandos; e se, por absurdo, algum deles cometer uma má acção, será julgado em sua casa, onde a justiça é perfeita.

Julho de 2002

_________________________________________________________________________________________

Sobre o livro de Job

O povo judeu acreditava firmemente em Deus. Às vezes, com uma certa ingenuidade. Por exemplo, os mais antigos julgavam que, quando chovia, era Deus que entornava água lá de cima. Muitos pensavam que quer a saúde, quer a doença, vinham directamente da mão de Deus. Alguns doutores ensinavam que (nesta vida) os maus acabam sempre por ser castigados e os bons acabam sempre por receber o prémio.

O Livro de Job quer explicar que não é bem assim.

Começa por imaginar um homem que representasse as ideias antigas (o Livro não conta uma história real, é uma espécie de parábola). Esse homem, chamado Job, vivia numa terra distante. Tinha mulher e sete filhos já crescidos, era rico, respeitado e feliz. Extremamente honesto e justo, era generoso com os seus trabalhadores, socorria todos os pobres e necessitados, atendia com sabedoria e paciência quem lhe pedisse conselho. Acreditava em Deus, fazia penitência e rezava. Toda a gente o considerava como um modelo, toda a gente pensava que ele vivia sob a justa protecção de Deus.

Um dia, Deus permite que caiam sobre Job muitas desgraças.

Porquê? – Uma das teses do Livro é que o homem deve aceitar com fidelidade e amor todos os momentos da vida, os bons e os maus, sem perguntar estes “porquês”. Por exemplo, pode ter sido por causa de uma intriga de Satan (mas suponho que é apenas um “por exemplo”; um avião pode cair por causa duma avaria no motor ou por causa duma distracção do controlador aéreo. Julgo que seria um erro interpretar o livro de Job como se ele se propusesse explicar o mal através da actividade de Satan).

Em poucas horas, Job perde todos os seus haveres e morrem-lhe os filhos num desastre. Job aceita, com profunda dor, mas sem revolta. Numa segunda investida de Satan, Job é atacado por uma espécie de lepra. A própria mulher o incita a que se revolte. Job permanece em silêncio.

Depois, vêm as “almas benfazejas”: os amigos, que se sentem na obrigação de comparecer e de dar conselhos. E é aí que Job estoira. (Lição importante para nós: quando vamos visitar um doente, não o enfureçamos com as nossas beatices!!).

Job sente-se profundamente infeliz. Sobretudo, não percebe por que lhe estão a acontecer estas coisas. Sempre lhe tinham ensinado que é Deus quem resolve tudo e que os bons só recebem prémios. Então, por que lhe dá Deus este destino? Ainda se ao menos Deus o matasse… Job não pensa suicidar-se, mas deseja ardentemente morrer. Tem uma doença sem esperança, já ninguém quer saber dele…

Os amigos lançam sal nas suas feridas. Se lhe estão a acontecer estas desgraças, isso é prova de que cometeu grandes crimes. Arrependa-se, e confie no perdão de Deus. Job responde que não será perfeito, mas também não tem grandes pecados. Foi poderoso, mas nunca escravizou ninguém, foi rico, mas repartiu sempre com quem precisava, foi fiel em toda a sua vida…

Os amigos redobram. Ele ou está mentir ou é cego. É claro que está a ser castigado.

E Job entra então na revolta. Diz que Deus é injusto. Gostava que Deus lhe aparecesse, e lhe explicasse porquê.

Deus aparece. Em primeiro lugar, diz aos amigos de Job que eles não percebem nada do que é a vida e vieram fazer mal ao seu amigo. Só os não castiga porque Job vai rezar por eles. Em segundo lugar, faz o elogio de Job. É mesmo verdade que ele foi sempre um homem justo e fiel. Surpreendentemente, Deus não se mostra ofendido com as malcriadices de Job. Também o Pai se não vai zangar quando um dia Jesus lhe disser: “por que me abandonaste?”. Deus bem sabe como o sofrimento é às vezes terrível, Deus acha que não deve tomar à letra os desabafos de quem sofre. Mas Deus diz uma terceira coisa: é verdade que Job é santo, mas errou ao exigir que Deus respondesse aos seus porquês. Não o vai castigar por isso, mas é uma coisa que tem de aprender.

Job aprende. reconhece que falou inconsideradamente, fica feliz porque Deus o tomou a sério.

Julho de 2002

_________________________________________________________________________________________

A PROPÓSITO DA PREGAÇÃO E DOS CATECISMOS (1)

O Senhor Jesus falou numa linguagem que toda a gente entendeu, nomeadamente as crianças e os pobres. Nós brincamos com as palavras nas homilias, explicamos o Evangelho com a teologia que aprendemos.

Eu reconheço que faz parte da natureza humana o desejo de compreender e de explicar. Reconheço que já S. Paulo, e S. João e o autor da Epístola aos Hebreus sentiram a necessidade de explicar as palavras e os comportamentos do Senhor. Fizeram “teologia”. E, depois deles, e até hoje, os “padres apostólicos”, os “padres da Igreja” e uma legião de cristãos inteligentes e cultos prosseguiram neste caminho. Há, certamente, uma distinção a fazer. As “teologias” de S. Paulo e de S. João e do autor da Epístola aos Hebreus têm a garantia da inspiração da Escritura (mesmo que seja difícil explicar em que consiste exactamente a inspiração). As outras teologias valem como obras humanas, que devemos ponderar.

Como quer que seja, julgo que, tratando-se da catequese e da pregação em meios não muito cultos, há toda a vantagem em voltar à simplicidade dos Evangelhos. Por exemplo, acho fundamental que recordemos o papel fundamental da graça – sem Mim nada podeis fazer (Jo 15) – e que o sublinhemos com muita força a respeito dos “sacramentos”. Mas parece-me dispensável entrar em grandes discussões de pormenor. Outro exemplo: o Senhor disse constantemente que o mundo está sujeito ao mal e ao pecado, e que nos convoca para uma luta: lutar contra o pecado sem violência, mas com a única arma do amor. Nos Evangelhos não consta que tenha alguma vez explicado a origem do mal e do pecado, e é difícil admitir que esta omissão resulte duma simples distracção dos evangelistas. A Epístola aos Romanos, pelo contrário, trata o tema de maneira profunda e extensiva. Eu não contesto S. Paulo. O que pergunto é se é inteligente começar a pregação a respeito do mal com a questão da sua origem. Na catequese das crianças, julgo que há toda a vantagem em falar com a força e a simplicidade de Jesus: há muita maldade no mundo e no coração de cada um de nós, temos de pedir todos os dias a Deus que nos ajude a não sermos maus; quando alguém nos trata mal ou nos ofende, apetece-nos fazer o mesmo; mas Jesus, que nos perdoou os nossos pecados, pede que sejamos capazes de perdoar todas as ofensas e não ceder à tentação da vingança e do ódio. A viragem para os aprofundamentos teológicos parece-me aceitável na catequese de jovens e sobretudo de adultos.

(Continua)

Junho de 2002

_________________________________________________________________________________________

A PROPÓSITO DA PREGAÇÃO E DOS CATECISMOS (2)

Ao longo destes 20 séculos, os cristãos têm reflectido sobre a mensagem de Jesus e têm compreendido um pouco melhor muitos pontos dessa mensagem. Por exemplo, os discípulos – e os próprios apóstolos – começaram por aceitar Jesus como um homem extraordinário, que falava de Deus como nunca ninguém tinha falado, que vivia profundamente a oração e os ensinava a rezar, que tratava com amor e carinho toda a gente, que fazia milagres,… Começaram a pensar que Ele era como os antigos profetas, que Ele era “o Santo de Deus” (Jo 6,69). Um dia, Pedro vai mais longe: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mat 16,16). Mas esta ideia traz mais problemas: tinham aprendido em pequenos que o Messias seria um rei forte e glorioso, e Jesus não está nada interessado no poder. Ficam profundamente desorientados quando Ele é preso e condenado à morte. Fogem, e nem sequer assistem à sua morte na cruz. Depois, não querem acreditar na notícia da Ressurreição. Mesmo no dia da Ascensão, “os onze discípulos quando o viram, adoraram-no. Mas alguns ainda duvidavam.” (Mat 28,17).

Começam a reflectir mais. Reconhecem que Jesus é Filho de Deus num sentido muito próprio, Ele é Senhor acima de toda a criatura. Mas demora mais algum tempo até que compreendam que Deus é um só, Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, e Jesus é o Filho, enviado à Terra pelo Pai.

Então, a pouco e pouco, a Igreja empreendeu uma “obra de caridade”: quis poupar-nos todo este esforço. Era muito mais simples ensinar que Deus existe e é único; que o Deus único é o Pai, o Filho, o Espírito Santo; que o Pai enviou à Terra o Filho; que, portanto, Jesus é Deus verdadeiro e homem verdadeiro. Claro que esta “obra de caridade” teve as suas consequências. A pouco e pouco, fomos empobrecendo a densidade humana da vida de Jesus. Foi muito bom? – Claro, como é que não havia de ser bom se era Deus? Por que é que morreu na cruz? – Ele e o Pai tinham achado que era esse o preço digno para a redenção dos homens. E assim por diante.

Mas valia a pena ter perguntado: e por que é que Jesus não pregou assim? Seria menos inteligente, ou sabia menos pedagogia do que nós?

Por isso, desde há anos que os catecismos franceses, alemães, espanhóis, e até os de Cabo Verde, voltaram atrás. A primeira coisa é contar às crianças a história de Jesus, a maneira como ele contactava com os pobres, com os doentes, com as mulheres, com as crianças, com os pecadores. A maneira como enfrentou a injustiça e a sua própria morte. É só a partir daqui que compreenderemos que Ele é Deus.

Os homens gostaram sempre do maravilhoso. Jesus, não. Quando Lhe pediam milagres como condição para acreditarem, respondia que só lhes daria “o sinal de Jonas”(Mat 12,38-39, 16,4), isto é, a sua morte e ressurreição. Nós voltámos ao maravilhoso. Quando não encontrámos outro melhor, ficámos com o Pai Natal. Hoje as crianças são bombardeadas pela TV com magias de muitos estilos. É muito importante que lhes apresentemos uma imagem de Jesus sóbria, e uma doutrina sem ressaibos de maravilhoso.

O mal é o grande desafio posto à consciência humana. Outra das grandes tentações do crente é “explicar” o mal. Os secretos desígnios de Deus, o aperfeiçoamento dos bons, o castigo dos maus, a história de Adão e Eva… Jesus nunca “explicou” o mal. Também não procurou ocultá-lo. Ajudou-nos a entender que o mundo está dominado pelo mal (I Jo 5,19). Mandou que lutássemos, como Ele, contra todo o mal. Tendo como única arma o amor.

Julho de 2002

_________________________________________________________________________________________

Anunciar o Reino de Deus (1)

Cada um de nós está chamado a trabalhar nesta seara imensa. Que havemos de fazer? Passou o tempo em que nos pareceu, como aos Sumos Sacerdotes judeus, que uma das coisas importantes era conseguir que a Igreja consolidasse o seu poder no mundo. O Senhor Jesus não incluiu nos seus caminhos a estratégia do poder.

Sem dúvida, ia mais gente à missa e havia menos divórcios nos tempos em que uma parte substancial da população se identificava com o pensamento da Igreja. Não penso que tenha sido um progresso a substituição da missa por uma ida ao supermercado ou o entendimento de que o casamento é um contrato revogável. O que penso é que uma evangelização feita na base da pressão sociológica é sempre frágil. Há anos que certos cristãos avisavam que o cristianismo tradicional das nossas boas gentes ia ruir como um castelo de cartas se não se fizesse uma evangelização mais profunda e honesta, a começar pela catequese às crianças. Os jovens que fizeram a profissão e fé e o crisma na sua vila ou aldeia, e depois vão para a cidade morar numa residência universitária para fazer um curso superior, abandonam a fé como quem muda de fato.

Por que sucede assim? Muitos deles tinham recebido uma catequese ensinada por pessoas generosas mas ignorantes, apoiada em catecismos que continuam a veicular uma concepção de Deus e das relações de Deus com o mundo difícil de aceitar por uma pessoa culta do nosso tempo. (Tive alunos universitários que continuavam convencidos de que ser cristão era ter de aceitar à letra que o mundo tinha sido criado em seis dias e Eva tirada duma costela de Adão. Claro que encolhiam os ombros perante uma religião que “os obrigava a acreditar” nestas cosas). Muitas vezes, a catequese ensinou o Pai Nosso, a Ave Maria e até várias outras orações, mas não ensinou a criança e o adolescente a estar diante de Deus e a orar. De toda a panóplia dos catecismos, só um deles, o 7º, aborda de maneira inteligente os problemas da adolescência. Que espanto se, com uma tão escassa formação, os rapazes e as raparigas afastados do seu meio entram rapidamente no “estilo novo” de viver? O Evangelho ensina que a preocupação com o bem dos homens é essencial ao cristão. Quais são as paróquias que comunicam aos jovens esta paixão? Quem lhes disse que há 6 000 milhões de pessoas no mundo e 4000 milhões têm menos de 2 euros por dia para viver? Quem os ensinou a ler a Bíblia? Tem qualquer sentido gastar um ano de catequese a falar das mulheres que aparecem na Bíblia? Quando é que perdemos esse tom melado dos últimos séculos ao falar de Deus? Quem lhes apresenta Jesus não apenas com Deus verdadeiro, mas também como um homem saudável, corajoso e livre? (Já agora: por que insistimos em manter a palavra “catequese”, sabendo que “andar na catequese” é em geral motivo para troça? Não era mais simples falar de “formação cristã”?)

Temos depois a formação cristã dos adultos. Ainda não descobrimos que os temas do Novo Testamento não são exactamente os temas da Teologia. A Teologia teve de racionalizar, muitas em vezes enfrentando a temática do seu tempo. Ora alguma das temáticas da Teologia tradicional estão pura e simplesmente ultrapassadas. Claro que é muito importante reflectir sobre a Eucaristia, o Baptismo, a Confirmação, o Perdão dos Pecados, a Unção dos Doentes, o Casamento, a Ordem. Gostava que alguém me explicasse o que é que adianta dizer que em todo o sacramento há uma matéria e uma forma.

(Continua)

_________________________________________________________________________________________

Anunciar o Reino de Deus (2)

As comunidades cristãs têm de anunciar Jesus Cristo e o Evangelho. Todas as Paróquias dão Catequese às crianças e adolescentes e gostariam de melhorar os catecismos e os métodos.

Uma das primeiras opções é a respeito do tempo de preparação para a primeira comunhão. Um ano é muito pouco, três anos é a meu ver um muito grande exagero. Reconheço que hoje as crianças chegam a nós na total ignorância das coisas de Deus e com uma instabilidade emocional muito forte. Mas acho um castigo muito pesado tê-las três anos a assistir às celebrações sem poderem comungar.

Sobretudo, acho que uma boa catequese lhes comunica perfeitamente em dois anos o essencial para poderem comungar.

Precisam de acreditar em Jesus, que é o Filho de Deus Pai, que Deus Pai mandou à Terra.

Contamos-lhes a história de Jesus. Sublinhamos que Jesus gosta de todos, mas teve um carinho especial pelas crianças, pelos pobres, pelos doentes. Em vez de castigar os maus, Jesus disse-lhes que Deus lhes perdoava as maldades, mas queria que passassem a ser bons. De quem Jesus gostava menos era dos vaidosos, dos egoístas, dos mentirosos, dos que querem tudo para eles e não ajudam ninguém. Jesus ensinou-nos a rezar. Disse que Deus fica contente se nós gostarmos d’ Ele e falarmos com Ele. Mas que Deus só aceita o nosso amor se formos bons uns para os outros. Deus quer que acabem as zangas e as guerras, que os homens sejam todos irmãos.

Houve pessoas que não gostaram do que Jesus ensinava. Queriam a religião à antiga, com muitas leis e muitos castigos. Resolveram matá-lo e condenaram-no a morrer na cruz. Antes de morrer, Jesus rezou ao Pai: “Pai, perdoa-lhes, que eles não sabem o que fazem”.

Ao terceiro dia, o Pai ressuscitou Jesus de entre os mortos. Era o sinal de que Jesus tinha falado verdade. E deu uma prenda a Jesus: em honra do amor que Jesus teve sempre por nós, amor até à morte na cruz, perdoou todos os nossos pecados e deu-nos bilhete para entrar no Céu. Era a prenda de que Jesus mais gostava.

Na véspera de morrer, Jesus jantou com os seus amigos. Disse que lhes ia dar pão e vinho que já não eram pão e vinho, eram o seu Corpo e o seu Sangue. Pediu que fizéssemos muitas vezes esta refeição em memória d’ Ele. Quando comungamos, recebemos Jesus em nós. Não O vemos com os nossos olhos, mas sabemos que é verdade porque Ele o disse, e Ele é verdadeiro.

Jesus voltou para o Céu, para junto do seu Pai. Prometeu que, quando um dia nós morrermos, Ele nos vem buscar para ficarmos ao pé d’Ele para sempre.

O Pai e Jesus mandam-nos o Espírito Santo. O Espírito Santo, que é Deus com o Pai e o Filho, dá-nos força para cumprir os mandamentos de Jesus.

É essencial que ensinemos as crianças a rezar, e pode gastar-se nisto metade da hora da catequese. Rezar é estar sem medo ao pé de Deus, sem barulho, e dizer-Lhe, baixinho, que gostamos d’ Ele e queremos ser como Jesus. Neste tempo de barulho é fundamental ensinar-lhes o silêncio. É importante que as crianças se habituem a fazer uma oração do tipo da “oração dos fiéis”, mas espontânea. No primeiro ano entendo que só se deve ensinar uma oração feita, o Pai Nosso. Pedir-lhes que rezem o Pai Nosso de manhã e à noite, e quando lhes apetecer. E no princípio ou no fim da catequese.

Junho de 2002

_________________________________________________________________________________________

A GRAÇA DE DEUS E A LIBERDADE DO HOMEM

O homem é cioso da sua dignidade e da sua autonomia. Tem razão. Mas tem igualmente de entender que esta dignidade e esta autonomia não são a de um deus solitário.

O homem tem uma história pessoal e vive a aventura colectiva da História. Cada homem nasce desprotegido e os mecanismos instintivos não chegam para assegurar a sua sobrevivência e maturação. Tem de ser alimentado; precisa de receber carinho; tem de aprender a caminhar e a vestir-se; tem de ser introduzido na maneira de viver da comunidade a que pertence. Sobretudo, precisa de receber amor, e feliz dele se este amor lhe é dado por seres humanos equilibrados e felizes.

Ainda em criança aprende que é preciso fazer escolhas, embora não possa escolher tudo o que lhe passe pela cabeça. Não pode querer a Lua. Não pode fazer que um dia de inverno deixe de ser frio, embora possa, em geral, vestir mais roupa ou ir para o pé dum radiador. Infelizes das crianças a quem não deixam fazer escolhas, infelizes das crianças a quem deixaram escolher tudo. A liberdade e a finitude têm de começar a ser experienciadas muito cedo.

Depois, ao longo da adolescência, vai aprender que vida do homem não se mede apenas pelo calor ou pelo frio, pela fome, pelo dinheiro, pela satisfação do que apetece. Vai aprender que há comportamentos honestos e comportamentos desonestos, há generosidade e há egoísmo, não é estúpido “perder” dinheiro ou tempo para ajudar alguém. Vai aprender que o outro ser humano não é apenas um concorrente nem uma peça no meu jogo. Vai aprender que é possível e bom encontrar seres humanos generosos, em que é possível confiar. Vai aprender que é possível a amizade e o amor.

Como já acontecia na infância, nunca descobrirá bem estas coisas se não estiver em contacto com seres humanos que, nos limites do razoável, são equilibrados, são generosos, são felizes.

Feliz dele se um dia descobrir que amar não é ter mais um brinquedo, é entrar numa aventura com responsabilidade partilhada. Descobre então que um amor pequeno é um entrave à liberdade ou é uma fixação passageira, um amor grande permite a eclosão da liberdade. Aquele que ama a sério, sabe que dá e que recebe. Não tem a ilusão de que criou sozinho a sua vida.

A relação do homem com Deus deve ser vista à luz desta experiência. Jesus disse que Deus não é nosso dono, é nosso Pai. Os profetas do Antigo Testamento e os grandes santos descobriram que a relação entre Deus e o homem tem qualquer coisa daquela alegria, comunhão, igualdade na responsabilidade, que caracterizam o amor pleno do homem e da mulher.

O Novo Testamento usa muito a palavra “graça”, a significar ao mesmo tempo dom e harmonia. Tudo começa com o dom de Deus, a sua graça. Mas o dom de Deus não é vontade de poder, não é estratégia de sedução e sujeição, é convite a que o homem também se torne dom. O encontro do dom de Deus e do dom do homem é fonte de harmonia, aquela harmonia que é limpidez e é paz.

Por isso a vida dos grandes santos é tão afastada dos defeitos correntes do homem religioso. Em S. Francisco de Assis ou na Madre Teresa de Calcutá não havia beatice, nem habilidade para levar a água ao seu moinho. Havia maturidade, alegria, respeito pela identidade do outro, capacidade de dom sem limites.

Por isso o Senhor Jesus, e com Ele S. Paulo, embirraram tanto com uma religião

feita à base de regulamentos, prémios, proibições, contabilidade. Ver a santidade como

uma conta bancária que deve ter saldo crescente é subverter a lógica do amor.

Junho de 2002

_________________________________________________________________________________________

Sobre questões dos nossos dias

Nunca tive filiação política, nunca me senti “convencido” por nenhum dos partidos que se oferecem. Isto a dizer que não estou encomendado por ninguém.

Posso confessar que achei que a maneira de gerir a coisa pública do último governo tinha muitos aspectos contestáveis. E penso que não é mentira dizer que a situação económica do país ficou em muito mau estado.

Dito isto, vejo com grande preocupação a decisão do actual governo de dispensar entre 10 000 a 50 000 funcionários na função pública. Até pode ser que não haja injustiça no caso. Mas, diziam os romanos, “summum ius, summa iniuria”: a justiça levada a fio de espada gera grande injustiça.

É óbvio que há funcionários a mais na função pública e sei que muitos deles não têm vínculo. É sabido que a ausência de vínculo resultou às vezes da incúria dos serviços, e resultou não raro da tentação de ter as pessoas “na mão”. Por outro lado, mesmo as “mal fundadas esperanças” geram ilusões de que é muito duro acordar. Que vão fazer essas dezenas de milhar de pessoas? E as suas famílias?

Não seria mais humano subir o IVA para muito mais alto no caso dos grandes vencimentos e analisar caso a caso a situação destes que estão a ponto de serem despedidos? Descobrir-se-ia certamente que alguns manifestaram competências que é pena perder, e que outros poderiam ser utilizados noutras tarefas (não excluo a negociação entre o Governo e empresas privadas). No caso extremo, penso que era humano dar um prazo para que procurem outros caminhos.

Maio de 2002

_________________________________________________________________________________________

Do livro Des évêques disent la foi de l’Eglise, ed. du cerf, 1979:

Na nossa cultura faz-se às vezes oposição entre espírito e matéria. Mas na Bíblia a palavra “espírito” significa antes de mais “sopro”. O espírito é o “sopro” de vida que existe nos animais e no homem, o Espírito Santo é o “Sopro” que vivifica o homem por inteiro e reorienta a evolução do mundo. O Espírito Santo não quer tirar o homem do mundo e da história, pelo contrário, é a luz e a esperança que anima a história humana, lutando contra todas as idolatrias que tem suscitado e abrindo caminho para a procura.

O Credo recorda-nos que acreditar no Espírito Santo é acreditar que a história é caminho de salvação; é acreditar na seriedade da história e da vida.

O Credo tem nitidamente uma estrutura trinitária. Mas não nos fala da Trindade de maneira abstracta, fala-nos dela pela sua acção na história da salvação.

Já os primeiros cristãos, meditando no texto de S. Paulo “há um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos” (Efes 4,6)”, viram

  • no Pai, a fonte de toda a realidade;
  • no Filho, o sentido definitivo e a forma futura de tudo;
  • no Espírito Santo, a tensão, o anseio pela plenitude.

E se o Espírito Santo aparece como “Deus em nós”, não é como convite a que nos fechemos sobre nós mesmos, mas como convite a que nos abramos à comunhão com todos os outros. Pois sentimos a incompletude, a deterioração, a “expectativa” da criação para que nos alcancemos a “liberdade dos filhos de Deus” (Rom 8, 18-23).

Assim, do mesmo modo que o princípio do Credo evoca a obra do Pai, e a parte média a obra do Filho, de modo análogo os artigos finais relativos ao Espírito Santo não devem ser separados dos que tratam da Igreja e descrevem a acção do Espírito.

A acção do Espírito não se restringe a ter “falado pelos profetas”. Manifesta-se

  • pelo baptismo na água e no Espírito, “banho de regeneração e renovação no Espírito Santo (Tito 3,5);
  • e pela esperança activa na “ressurreição dos mortos” e no “mundo que há-de vir”; vêm já a nós nos sacramentos da Igreja. A santidade antecipa-os e apressa-os. O esforço criador dos homens é chamado a multiplicar esboços e sinais.

É neste sentido que se pode interpretar a atribuição ao Espírito Santo do título de “Senhor”. Este título foi acrescentado pelo 2º Concílio Ecuménico, na intenção de confessar claramente a divindade do Espírito Santo.

O Espírito Santo, diz o Credo, é aquele que “dá a vida”. O Espírito atesta que a história desemboca num futuro insuspeitado, inesperado, que é propriamente dom de Deus e tem por nome “ressurreição e vida eterna”.

Maio de 2002

_________________________________________________________________________________________

Notas soltas sobre a vida cristã (I)

Os textos destes últimos dias convidam-nos a reflectir. O “lava-pés” encerra um ensino fundamental. Uma moral de mandamentos é perigosa porque nos dá facilmente “boa consciência”: não mato, não roubo, não cometo adultério…Ninguém me pergunta se guio automóvel de modo a não por em risco a vida minha e do próximo, se o dinheiro que recebo ao fim do mês foi ganho por um esforço sério e honesto, se me preocupo com o bem da minha mulher ou do meu marido… O “lava-pés” é diferente: sou capaz de fazer uma coisa aborrecida, uma coisa que me cansa, uma coisa que me humilha, se passar por aí o bem do outro?

A história da primeira comunidade cristã de Jerusalém também nos obriga a pensar. Como é possível que gente boa, vivendo poucos anos após a passagem de Jesus, podendo falar com os Apóstolos, se tenha enfiado num beco? Entendamo-nos: é possível que todos eles fossem muito santos, é possível que tenham recebido grande honra no céu pela generosidade e pela coragem que mostraram na terra. No entanto, julgo que Jesus lhes terá dito: vocês foram muito santos, mas bastante patetas.

Toda a pessoa generosa corre o risco de pensar que a santidade é seguir à letra as palavras do Evangelho. Mas há palavras do Evangelho que não podem ser tomadas à letra, por exemplo aquelas que são expressões tipicamente exageradas, destinadas a sacudir o auditório. Dou um exemplo, entre muitos: “Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e deita-o fora…”. É óbvio que o Senhor nos convida, com esta imagem, não a arrancar os olhos no sentido próprio, mas a cortar cerce com olhares de pecado.

Certos livros de espiritualidade do séc.XIX afirmavam que a perfeição consiste na obediência, e que os mandamentos da Lei de Deus, as prescrições da Igreja, as instruções dos Papas, contêm tudo o que é necessário para encontrarmos o nosso caminho. Era o tempo em que se sugeria que a vida do homem na terra tinha começado por um paraíso terreal, onde os homens viveriam como se fossem crianças num infantário perfeito, sem pecados, sem problemas, sem nada de grave a resolver. Acrescentava-se que Jesus tinha vindo ao mundo expressamente para morrer na cruz, e se tinha limitado a obedecer.

Julgo que esta concepção da vida cristã é totalmente avessa ao Evangelho. Jesus obedeceu aos mandamentos da Lei, mas contestou pela palavra e pelo exemplo tudo aquilo que se tinha tornado absurdo: a observância cega do sábado, o apedrejamento das mulheres adúlteras, o desprezo definitivo pelos maus, a ideia de que a coisa mais importante não é o amor, mas a lei. Ao contrário do que faziam os Sumos Sacerdotes, não quis ter poder político, não resolveu mandar em tudo, não promulgou regulamentos de minúcia, mandou-nos estar atentos aos “sinais dos tempos”, fomentou a criatividade e a iniciativa. Houve tempo em que se ensinou nas Igrejas que os cristãos deviam denunciar à Inquisição os que atraiçoavam a fé. Claro que só havia duas respostas possíveis: contestar (e ser preso pela Inquisição) ou rezar.

Volto ao caso da comunidade de Jerusalém: entendo que pessoas singulares têm o direito de dar tudo o que possuem, assumindo o risco de viverem doravante na miséria. Mas penso que é insensato que isso seja feito por um grupo, pondo em risco o futuro das crianças. Dito de outra maneira, um indivíduo pode assumir a cruz, não deve arrastar para esse destino aqueles que não têm liberdade para escolher.

Abril de 2002

_________________________________________________________________________________________

Notas soltas sobre a vida cristã (II)

À morte do rei Salomão, por volta de 930 a.C., o povo judeu divide-se em dois reinos: ao sul Judá, com capital em Jerusalém, ao norte Israel, que teve várias capitais, a começar por Siquém. Durante o séc.IX a.C., surgem em Israel dois grandes profetas, Elias e Eliseu. A sua acção é referida nos Livros dos Reis, mas nenhum deles deixou qualquer escrito. A propósito, recorde-se que um profeta não é um homem que anuncia o futuro. É um homem que fala por acção de Deus, a chamar os homens à fidelidade à Aliança e a insistir nos problemas que se põem ao seu tempo (neste sentido, a reagir contra uma religião voltada apenas para o passado).

Ao longo do séc.VIII a.C., o reino de Israel tem um grande desenvolvimento económico e político. A agricultura e o comércio com o estrangeiro geram uma nova classe de ricos, que compram cada vez mais terras, constróem palácios imponentes, dão festas sumptuosas e apoiam um culto esplêndido. Paralelamente, os pobres tornam-se cada vez mais pobres: não conseguem competir com os ricos, vão-se endividando e vendendo as terras melhores, acabam frequentemente na escravidão e na prostituição.

Por volta de 750 a.C., Deus revela-se a Amós, um pequeno agricultor do reino de Judá que até aí passara despercebido, e envia-o a pregar nas cidades de Israel.

A julgar pelo “Livro” que se conserva, Amós é um homem corajoso e duro, que se indigna com o mal que vê à sua volta, e afirma que Deus virá em breve castigar este povo, a menos que se converta.

A primeira parte do Livro censura aquilo que hoje chamaríamos “crimes de guerra”(1,3-2,3). E é mais exigente nesta matéria do que os governos do nosso tempo supostamente civilizado.

A seguir, critica as injustiças que se cometem dia a dia em Israel: “Vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias; esmagam sobre o pó da terra a cabeça do pobre e desviam os pequenos do caminho recto; levam as jovens a prostituir-se; apresentam-se junto ao altar com a roupa que os pobres foram forçados a deixar-lhes em penhor, ficando a sofrer frio… Não sabem agir rectamente, amontoam nos seus palácios o fruto de violências e de roubos” (2, 6-10). As mulheres “oprimem os fracos e maltratam os pobres, incitam os maridos a que tragam mais e façam festas” (4,1). “Ai dos que vivem comodamente e tranquilos, que se julgam chefes do povo mais importante… Deitados em leitos de marfim, estendidos indolentemente nos seus divãs, comem os melhores cordeiros do rebanho; folgam ao som da harpa e inventam, como David, instrumentos de música; bebem vinho por grandes copos, perfumam-se com óleos preciosos. Mas não se compadecem da ruína dos pobres” (6,1-6).

Irrita-se com a maneira como a religião é praticada, e diz, em nome de Deus: “Eu detesto e rejeito as vossas festas, não sinto nenhum gosto nas vossas assembleias. Se me ofereceis holocaustos e oblações, não os aceito. Afastai de mim o vozear dos vossos cânticos, não quero ouvir mais a música das vossas harpas. Quero que a equidade jorre como uma fonte, e a justiça como torrente que não seca”.(5,21-24).

Numa época de aparente prosperidade, esta pregação pareceu loucura. “O sacerdote do templo real mandou dizer ao rei: «Olha que Amós conspira contra ti». E disse a Amós: « Sai daqui, vidente, volta para a tua terra e profetiza lá, se quiseres. Mas aqui é o santuário real, o templo do reino»”. (7, 10-13).

O que é certo é que, 20 ou 30 anos depois, a Assíria destruiu o reino de Israel.

E que estas coisas foram ditas e escritas há 2700 anos.

Abril de 2002

_________________________________________________________________________________________

Notas soltas sobre a vida cristã (III): a temática das vocações

A Igreja escolheu este domingo, dito “do Bom Pastor”, para dia de oração e de reflexão em torno das vocações religiosas e sacerdotais. À letra, vocação significa chamamento. A Bíblia conta que Deus chamou Abraão, Moisés, os Profetas, Maria Santíssima, e lhes confiou uma missão. Tomando a palavra em sentido mais largo, certamente que Deus chama todo o homem à rectidão e à santidade. Penso, porém, que não se justifica convencer cada jovem que Deus tem uma missão reservada para ele, e o que importa é descobrir essa missão. Na opinião de alguns comentadores, o célebre texto que refere a vocação de Moisés (Ex 3,1-17) tenta deslocar os homens da ideia de que Deus é o Senhor do passado, que tudo determinou desde o princípio, para os fazer compreender que Deus é o Senhor do presente e do futuro, Aquele que acompanha os homens para os ajudar a encontrar e a construir os bons caminhos.

Vamos, pois, ignorar a ideia de que Deus marcou o futuro de cada homem e confiar na sua presença de amor e de paz.

Na linguagem corrente, vocação significa aptidão, gosto, jeito, tendência para alguma coisa: “tem vocação para médico”, “para artista”.

Em certos momentos da vida perguntamos a nós mesmos se o que estamos a fazer se justifica, se não seria sensato tomar outro rumo. É claro que a adolescência, o fim do curso e o momento da reforma são, entre outros, momentos significativos para fazer estas perguntas.

Mesmo que queiramos fazer o melhor, nem sempre é claro para nós o que isso significa. Será melhor ir para padre, ou tentar trabalhar, de maneira dedicada e desinteressada, como médico, como enfermeiro, como trabalhador social? Será melhor renunciar ao casamento “por amor e de Cristo e do Evangelho”, ou procurar amar com empenhamento muito grande uma pessoa deste mundo, ter filhos, tentar ensinar-lhes o que de melhor aprendi? E se tenho duas hipóteses de trabalho, uma aqui, outra em África, ou se há duas pessoas que me não são indiferentes?

Atrevo-me a dizer que temos de descobrir sozinhos, e que não acredito que alguém possa ser perito em “discernir vocações”. Corrigindo-me: um bom psicólogo, um padre ou uma religiosa, mais geralmente, uma pessoa com muita experiência da vida, podem ver claramente que as “razões” que alguém tem para entrar num convento ou para sair, para casar com esta pessoa ou para se divorciar, são superficiais. Desfazer “razões” superficiais não resolve nada, apenas ajuda a pessoa a compreender que tem de decidir o apoio de falsas certezas.

É claro que muitos casamentos nunca deviam ter existido, é claro que uma boa percentagem dos padres e das freiras teriam tido muita sorte se alguém os tivesse ajudado a compreender a tempo que as suas motivações eram vãs.

Há pessoas que nunca sentiram dúvidas, e foram felizes no caminho que escolheram. Há as que desejam muito sinceramente encontrar o “melhor” caminho, e se debatem com dúvidas. Atrevo-me a dar outra opinião: não tenha angústia nem pressa; Deus sabe onde você mora; dê-Lhe tempo. E Deus fará que, a pouco e pouco, você tenha paz numa direcção. Pode ter sonhado com o convento, mas a paz que Deus lhe dá quando pensa casar com esta pessoa é bom sinal. Pode ter tido muito gosto por casar, mas a paz – porventura austera – que encontra na ideia de ir para religiosa ou para padre é o sinal que pediu.

Abril de 2002

_________________________________________________________________________________________

Notas soltas sobre a vida cristã (IV): o cristão no mundo

“Não Te peço que os tires do mundo, mas que os livres do Maligno”(Jo 17,15). Esta palavra faz parte da oração que Jesus dirige ao Pai, depois da Ceia, antes de partir para o Jardim das Oliveiras.

Sabemos todos que ser cristão é procurar viver como Jesus viveu, melhor dito, como Jesus viveria se estivesse hoje aqui e tivesse no mundo a situação que “eu” tenho.

De acordo com aquela palavra da Última Ceia, a perfeição não está em que cada um de nós saia do mundo e se retire para o deserto (embora isso possa ser a perfeição para uma determinada pessoa). Por outro lado, é óbvio que no mundo há estilos de vida que merecem todo o respeito, e há estilos de vida que se opõem à rectidão, à justiça, a muitos apelos do Evangelho. Pensando agora no “mundo”como o conjunto daqueles que tudo sujeitam aos seus interesses, Jesus disse de seus discípulos que “eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo”(17,16). No mesmo sentido, S.Paulo aconselhava aos Tessalonicenses: “Examinai tudo, guardai o que é bom” (I Tess 5, 21).

Todo o ser humano nasce com um fundo de egoísmo e de anarquia. É tarefa da educação ajudar a criança e o adolescente a tomar consciência deste facto e a assumir o controlo de si mesmo. Não se trata de suprimir a tendência a ser feliz ou a tendência a enfrentar os obstáculos, trata-se de conseguir que a minha realização não implique a destruição do outro, pelo contrário seja motor da realização de muitos. Como se sabe, este projecto de educação só é conseguido se a criança ou o adolescente conhecerem pessoas livres e generosas que realizam de maneira coerente certos conjuntos de valores. Estas pessoas não são para ser “imitadas”, constituem referências neste oceano da vida.

Hoje, os árabes acusam o Ocidente de esquecer o Deus verdadeiro para venerar três “deuses”: o poder, o dinheiro e o sexo. Para subir na vida e para ter mais dinheiro, cometemos as injustiças que forem precisas. Vivemos na subserviência aos que mandam e no desdém pelos subordinados, a menos que nos façam a corte. Se pudermos, gastamos muito; não nos lembramos de que há pobres, ou achamos que não temos nada com isso. Não toleramos obstáculos quanto à comodidade e ao prazer. Definimos o dogma de que a “realização” pessoal é o bem indiscutível. Não temos escrúpulo – nem o coração nos bole – de mudar de marido ou mulher, de colocar os filhos em situações difíceis, de atraiçoar amizades provadas, de trocar por outra a bandeira política, desde que a nossa “realização” o sugira. Ou deixámos de ir à missa, ou construímos uma religião que concorda com todos os nossos pontos de vista, por mais egoístas e desbragados que sejam. Setenta anos passados sobre a época de 1930, o Ocidente está a virar-se para a “direita”: o que queremos é polícia nas ruas para nos defender dos maus e padres nas igrejas, que façam festas bonitas e proponham a religião que desejamos. Padres como o bispo Óscar Romero, que na América Latina deu a vida pela justiça e pelos pobres, não nos fazem falta nenhuma.

Uma vez, Jesus chegou a perguntar: “Mas quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?” (Luc 18,8). Suponho que não era nem dúvida, nem desencorajamento, era simplesmente o convite a que não nos deixássemos adormecer. Mas é claro que precisamos de rezar, reler muitas vezes o Evangelho, invocar o Espírito Santo, conviver com os pobres, e conversar com os irmãos.

Abril de 2002

_________________________________________________________________________________________

Notas soltas sobre a vida cristã (V) – O cristão e o tempo

O homem vive no tempo, a sua vida limitada insere-se no grande tempo da História. E a História é uma longa caminhada em direcção a uma vida melhor.

Isto é reconhecido pelo Concílio II do Vaticano: “Sempre o homem se esforçou, pelo seu trabalho e pelo seu engenho, por aperfeiçoar a sua vida; hoje em dia, graças à ciência e à técnica, estendeu e continuamente estende o seu domínio sobre quase toda a natureza (…). Acontece então que muitos bens que o homem noutro tempo esperava obter sobretudo de forças superiores, os alcança hoje pelos seus próprios meios. (…). Uma coisa é certa para os crentes: a actividade humana, individual e colectiva, aquele imenso esforço com que os homens, ao longo dos séculos, tentaram melhorar as condições de vida, considerado em si mesmo, corresponde à vontade de Deus. (…). Longe de pensar que as conquistas do engenho e do esforço humano se opõem ao poder de Deus, ou considerar a criatura racional como rival do Criador, os cristãos estão, pelo contrário, bem persuadidos de que as vitórias do género humano são sinal da grandeza divina e fruto dos seus desígnios. (…). Os homens e as mulheres que, ao procurar o sustento para si e suas famílias, exercem a própria actividade de maneira a bem servir a sociedade, têm razão para ver no seu trabalho um prolongamento da obra do Criador, um serviço dos seus irmãos e um contributo pessoal para a realização dos desígnios de Deus na história”. (Gaudium et Spes, 33-34).

Sem dúvida, o cristão sabe que a vida não termina aqui, e que “não aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua pessoa” (Marc 8,36). Mas entende que a questão não é escolher ou a terra ou o céu, é alcançar a vida eterna porque, vivendo no mundo, foi fiel a Deus e aos irmãos.

É claro que esta atitude exige reflexão, oração e partilha. “O Povo de Deus, movido pela fé, pela qual acredita ser conduzido pelo Espírito do Senhor, (…) esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e aspirações, em que participa juntamente com os homens de hoje, quais são os verdadeiros sinais da presença ou da vontade de Deus”. (Gaudium et Spes,11).

O próprio Senhor Jesus tinha dito coisa parecida: “Ao entardecer, vós dizeis: ‘Vamos ter bom tempo, pois o céu está avermelhado’; e, de manhã cedo, dizeis: ‘Hoje temos tempestade, pois o céu está de um vermelho sombrio’. Como se vê, sabeis interpretar o aspecto do céu; mas, quanto aos sinais dos tempos, não sois capazes de os interpretar!” (Mat 16,1-3). A versão de S.Lucas termina de maneira mais incisiva: “Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu; como é que não sabeis reconhecer o tempo presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é justo?” (Luc 12,54-57).

Apesar de vivermos no tempo, e num tempo que se torna diferente com grande rapidez, há em muitos de nós a tentação de querer fixar o presente, ou até a tentação de querer regressar ao passado. “Antigamente, é que era bom…”. Misturam-se aqui o medo de assumir responsabilidades e a ideia de que, tendo acreditado em Jesus, apenas temos de cumprir o que Ele disse. Mas, precisamente, o Senhor mandou-nos estar atentos aos sinais dos tempos e nascer de novo (Jo 3,3) cada dia. Acreditamos que a Palavra tem força para iluminar todos os momentos da História. Acreditamos que o Espírito Santo nos ajuda a entender a Palavra e a aplicá-la como Jesus faria. Mas o Espírito Santo não se substitui a nós, deixa-nos errar se não cumprimos o que nos é pedido. “Enviai, Senhor, o vosso Espírito e tudo será criado. E renovareis a face da terra”.

(continua)

Maio de 2002

_________________________________________________________________________________________

Notas soltas sobre a vida cristã (VI)

O cristão e o tempo (cont.)

Do livro do Cardeal José Saraiva Martins La Chiesa all’Alba del Terzo Millenio, Libreria Editrice Vaticana, 2001, A Igreja nos alvores do terceiro milénio, ed. Paulinas, 2002:

“A Igreja precisa de se renovar continuamente. Tratando-se, com efeito, de um organismo vivo, também para ela a renovação constitui uma verdadeira exigência. Comunidade humana, peregrina no tempo e na história, é natural que a poeira do caminho se lhe possa agarrar aos pés, como aos de qualquer peregrino. Não faltaram, no séc. XX, iniciativas de renovação,(…). Todas estas iniciativas confluíram no Concílio Vaticano II, que as assumiu, desenvolvendo-as de forma sistemática e orgânica e dando, em relação a elas, directivas fundamentais que constituem a base de toda a verdadeira renovação eclesial. Podemos até dizer que, em última análise, a grande assembleia ecuménica mais não foi que um exame de consciência da Igreja, uma reflexão aprofundada sobre si própria. (…) Pela sua própria natureza, a Igreja não pode deixar de se renovar «de dia para dia». (…) O objectivo de tal renovação é tornar a Igreja cada vez mais igual a si própria, rejeitando todas as incrustações históricas que, não fazendo parte da sua natureza, possam de algum modo ensombrar-lhe o rosto e torná-la menos idónea para desempenhar a sua missão.(…)

A necessidade de renovação é sentida, de modo particular, pela Igreja que acabou de atravessar o limiar do novo milénio. Ela está plenamente consciente de ter de adaptar os elementos humanos e portanto mutáveis das suas estruturas às exigências do Evangelho e dos tempos. (…) Estabeleceremos, antes de mais, uma distinção fundamental entre os elementos da Igreja que são de origem divina e portanto imutáveis, e os que, pelo contrário, não sendo de origem divina, estão sujeitos a mudanças através dos tempos”. (pp. 7-11).

“(…) O Espírito Santo, dinamicamente presente na história humana e na história da salvação ainda antes da Encarnação, actua de modo particular em Cristo, enviado pelo Pai, nos Apóstolos, enviados por Cristo, e na Igreja, continuadora por mandato divino da missão de Cristo e dos Apóstolos, para que a salvação messiânica seja levada a todas as nações.

Em primeiro lugar, não há dúvida que o Espírito já actuava antes de Cristo.(…). É, com efeito, o Espírito de Deus que dirige o curso dos tempos e renova a face da terra. Preside à evolução da própria ordem social, para que esta, no seu contínuo e imparável desenvolvimento, fundado sobre a verdade, realizado na justiça, vitalizado pelo amor, possa encontrar um equilíbrio cada vez mais humano na liberdade. O Espírito estimula de forma incessante o coração do homem, para que este não fique indiferente ao problema da religião (…). Urge tomar consciência desta presença activa do Espírito, não só na Igreja, mas também no mundo”. (pp.37-38).

Maio de 2002

Voltar ao Inicio