XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – 1 de Agosto de 2010

«AMIGO, QUEM ME FEZ JUIZ OU ARBITRO DAS VOSSAS PARTILHAS»  

(Lc 12, 14)

I LEITURA – Co (Ecle) 1, 2; 2, 21-23

Critica um tanto amarga, das concepções tradicionais a respeito do bem e do mal.

SALMO – 89 (90), 3-6. 12-14. 17 (R. 1)

Refrão: Senhor, tendes sido o nosso refúgio
através de gerações

II LEITURA – Col 3, 1-5. 9-11

«Afeiçoai-vos às coisas do alto.»

EVANGELHO – Lc 12, 13-21

Jesus condena o procedimento do homem rico e avarento para quem o único motor da vida é o dinheiro.

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XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

            As religiões antigas incluíam textos que falavam da criação do mundo e da origem do mal. Hoje, pensamos que esses textos nem eram resultado de uma revelação, nem de uma indagação cientifica, nem mesmo de um labor filosófico. Eram “mitos”, através dos quais a imaginação e o inconsciente colectivo propunham certas maneiras de interpretar o mundo e a condição humana. (O mito não tem actualmente qualquer conotação negativa. Pensa-se mesmo que a reflexão filosófica surge como tentativa de clarificar e dar rigor a essas construções primitivas). Os primeiros capítulos do Livro do Génesis movem-se no ambiente de mitos. Infelizmente, houve uma época em que a Igreja tomou esses textos como narrativas históricas e abriu sucessivas guerras contra a visão cientifica do mundo. Por exemplo, teimando que a Terra ocupava o centro do Universo, ou afirmando que não tinha havido evolução da vida, pois todas as espécies animais e vegetais tinham sido criadas directamente por Deus.

            É muito significativo que Jesus não tenha enveredado por este caminho. disse que o Pai é o Senhor do Céu e da Terra, mas nunca perdeu tempo a descrever a criação. Mandou que os eus discípulos lutassem contra o mal, mas nunca perdeu tempo a explicar a origem do mal. Que se saiba, nunca falou de Adão nem de Eva.

            Sem deixar de ser Deus, Jesus veio à Terra como homem. E aceitou lealmente a condição humana. Aceitou que a sua inteligência de homem não sabia tudo e que a sua força muscular não levantava um penedo; precisava de comer e de dormir; sabia que tinha de trabalhar para ganhar a vida. Mais importante do que isto: Jesus sabia que é próprio da condição humana lutar por um futuro melhor, e que é preciso contar com as diferentes contribuições: há os que trabalham a terra, os que escavam as minas, os que pescam no mar; há os que têm tarefas de governo e de administração; há os que procuram caminhos novos; … Jesus cumpriu a sua missão de mensageiro do Pai para nos anunciar a Boa Nova e para nos dar o exemplo do que é “amar até ao fim” (Jo 13, 1).

            Mas é também significativo que Jesus não tenha dado nenhum conselho a respeito dos aspectos mais práticos da aventura humana. Não disse como é que se podiam melhorar os barcos e as redes, nem como se podia aumentar o rendimento dos trabalhos agrícolas, não deu sugestões a respeito da economia, da politica, do direito. Se bem entendo, não o fez porque isso seria intervir na História dos homens de maneira paternalista.

            Isto ajuda-nos a entender o Evangelho desta missa (Lc 12, 13-21). Do meio da multidão, um homem pede a Jesus que resolva uma questão de partilhas. (Talvez o homem fosse sincero e acreditasse que ninguém melhor do que Jesus podia dizer o que é justo e o que é injusto). Mas Jesus rejeitou o pedido. Suponho que por duas razões. Primeira, porque, coerentemente com aquilo que acabo de expor, não quis substituir-se à justiça dos homens. Fossem aos tribunais! Segunda, porque achava incrível que dois irmãos se zangassem por uma questão de partilhas. Não tinha paciência para os aturar.

           Infelizmente, nem sempre a Igreja reagiu assim. Quis dar certezas definitivas a respeito de todas as coisas importantes; e, muitas vezes, não se deu conta de que saía do domínio da sua competência. (Recorde-se o processo de Galileu). E o Senhor castigou-a, permitindo que se enganasse.

            A primeira Leitura é tirada do Livro de Cohélet (Cohélet – Eclesiastes 1, 2 – 2, 23). Este livro. é uma reacção contra as pregações palavrosas e as soluções superficiais. Passando ao extremo oposto, Cohélet diz que não há nada seguro na Terra. Entendamos estas palavras como um convite à profundidade e ao rigor.

Pe. João Resina (in a Palavra no Tempo II)

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