XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – 5 de Setembro de 2010

«ASSIM QUEM DE ENTRE VÓS NÃO RENUNCIAR A TODOS OS SEUS BENS, NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO».
                                                                                                          (Lc 14, 33)

I LEITURA: Sab 9, 13-19

«Qual o homem que pode conhecer os desígnios de Deus?».

Leitura do Livro da Sabedoria
Qual o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Quem pode sondar as intenções do Senhor? Os pensamentos dos mortais são mesquinhos
e inseguras as nossas reflexões, porque o corpo corruptível deprime a alma
e a morada terrestre oprime o espírito que pensa. Mas podemos compreender o que está sobre a terra e com dificuldade encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem poderá então descobrir o que há nos céus? Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se Vós não lhe dais a sabedoria
e não lhe enviais o vosso espírito santo? Deste modo foi corrigido o procedimento dos que estão em terra, os homens aprenderam as coisas que Vos agradam e pela sabedoria foram salvos.
Palavra do Senhor

Salmo 89 (90): 3-6. 12-14.17

Refrão: Senhor, tendes sido o nosso refúgio através das gerações.

Vós reduzis o homem ao pó da terra
e dizeis: «Voltai, filhos de Adão».
Mil anos a vossos olhos são como o dia de ontem que passou
e como uma vigília da noite. Refrão

Vós os arrebatais como um sonho,
como a erva que de manhã reverdece;
6de manhã floresce e viceja,
à tarde ela murcha e seca. Refrão

Ensinai-nos a contar os nossos dias,
para chegarmos à sabedoria do coração.
Voltai, Senhor! Até quando…
Tende piedade dos vossos servos. Refrão

Saciai-nos desde a manhã com a vossa bondade,
para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias.
Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus.
Confirmai, Senhor, a obra das nossas mãos. Refrão

II LEITURA: Flm 9b-10, 12-17

«Eu, Paulo, prisioneiro por amor de Cristo Jesus, rogo-te por este meu filho, Onésimo».

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo a Filémon
Caríssimo:
Eu, Paulo, prisioneiro por amor de Cristo Jesus, rogo-te por este meu filho, Onésimo, que eu gerei na prisão. Mando-o de volta para ti, como se fosse o meu próprio coração. Quisera conservá-lo junto de mim, para que me servisse, em teu lugar, enquanto estou preso por causa do Evangelho. Mas, sem o teu consentimento, nada quis fazer, para que a tua boa acção não parecesse forçada, mas feita de livre vontade. Talvez ele se tenha afastado de ti durante algum tempo, a fim de o recuperares para sempre, não já como escravo, mas muito melhor do que escravo: como irmão muito querido. É isto que ele é para mim e muito mais para ti, não só pela natureza, mas também aos olhos do Senhor. Se me consideras teu amigo, recebe-o como a mim próprio.
Palavra do Senhor

EVANGELHO: Lc 14, 25-33

O cristão deve renovar constantemente o seu compromisso em Cristo, que não será de verdade se não houver uma renúncia ao amor próprio, ao egoísmo, etc.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-Se e disse-lhes: «Se alguém vem ter comigo, sem Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de entre vós, que, desejando construir uma torre, Não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, se mostre incapaz de a concluir e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo: Esse homem começou a edificar, mas não foi capaz de concluir’. E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro a considerar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem contra com ele com vinte mil? liás, enquanto o outro ainda está longe, manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz. Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».
Palavra da salvação.

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Comentários do P.e João Resina (in a Palavra no Tempo II)

          “Se alguém vier ter comigo, e não me preferir ao pai, à mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos, às irmãs, e até à própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 25). Estas palavras só podiam ter sido pronunciadas por um louco (e Jesus comportou-se sempre como um homem profundamente equilibrado) ou por Aquele que é, realmente, o Senhor.
          Nós acreditamos que Ele é o Senhor. Percebemos que estas palavras não nos propõem um exercício psicológico, averiguar por quem temos um afecto mais intenso, são um apelo à fidelidade. Recordam que, no dia em que em que as coisas do mundo puxarem por nós contra Ele, Ele está primeiro.
          Jesus viu com os seus olhos uma coisa que já conhecia como Deus: há muita gente “profundamente religiosa” que não quer saber dos pobres, rouba nos impostos, tudo vende e tudo compra, é pouco fiel ao casamento. Rejeitou esta “religião” e, por isso, morreu na cruz. Aceitou ter discípulos, mas exigiu que procurassem viver como Ele viveu – e, quem sabe, morrer de maneira parecida.
          Entendamo-nos: ser cristão não é desistir, por sistema, das coisas deste mundo. Mas é julgar as coisas deste mundo pelos critérios do Evangelho e é renunciar a tudo o que seja oposto à palavra e ao exemplo de Jesus. è estar pronto a perder tudo por causa d|Ele, se isso alguma vez for pedido. Os primeiros cristãos procederam assim e impressionaram os próprios descrentes. Na Alemanha de Hitler, na Rússia de Estaline, na China de Mao, e em muitos pontos do mundo de hoje, houve e continua a haver quem faça o mesmo. Nas nossas “terras cristãs”, os cristãos parecem ter uma fidelidade embotada – e ninguém nos leva a sério.
          A primeira Leitura é tirada do Livro da Sabedoria, obra do séc. II a.C., ou mesmo do séc. I a.C.: “Os pensamentos dos mortais são mesquinhos e inseguras as nossas reflexões. (…) Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso espírito santo?” (Sab 9, 14-17). Não se trata de reduzir a zero as nossas possibilidades, mas de sublinhar que, a respeito de Deus e das coisas de Deus, o nosso pensamento tem de proceder com prudência e humildade. O mal é que pomos as nossas convicções à frente da Escritura. Jesus viveu sem riqueza e sem poder, viveu como “leigo”, foi hostilizado pela sinagoga. Por que é que os cristãos conservadores querem uma Igreja e um clero à imagem da sinagoga? Jesus pediu que que renunciássemos a tudo que fosse contra Ele. Por que é que os cristãos progressistas prezam menos a pureza do coração e da vida?
          A segunda Leitura, da Epístola a Filémon, é um texto breve, mas com muito peso. Filémon era um pagão rico e generoso, que se tinha convertido a Cristo por influência de S. Paulo. Como todos os ricos, tinha escravos. Ora um deles, Onésimo de seu nome, roubou-lhe uma quantia avultada e fugiu. Era, para a lei daquele tempo, um crime passível da pena de morte. Refugiado em Roma, Onésimo ouviu falar de Paulo, que conhecera em casa do seu senhor: em prisão domiciliária, passava o dia a falar de Jesus. Foi também, e converteu-se de vez. S. Paulo tinha grande experiência da vida. Entendeu que esta conversão era profunda e segura. Embora Onésimo quisesse ficar com ele para o servir, enviou-o de regresso a Filémon, com uma carta do seu punho. Nesta carta pede-lhe não só que perdoe, mas receba o antigo escravo “como irmão muito querido”. Filémon não se tinha queixado do roubo, e recebeu Onésimo como S. Pulo lhe pedia. A comunidade cristã deve ter reflectido sobre o caso. Depois da morte de S. Paulo e de Filémon, a carta entro no cânone do Novo Testamento.

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