XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – 3 de Outubro de 2010

“NAQUELE TEMPO, OS APÓSTOLOS DISSERAM AO SENHOR: «AUMENTA A NOSSA FÉ».”
                                                                     (Lc 17, 5)

I LEITURA – Hab 1, 2-3; 2, 2-4

“Até quando Senhor clamarei contra a violência e não me enviais a salvação?”

Leitura da Profecia de Habacuc
«Até quando, Senhor, chamarei por Vós e não me ouvis? Até quando clamarei contra a violência e não me enviais a salvação? Porque me deixais ver a iniquidade e contemplar a injustiça? Diante de mim está a opressão e a violência, levantam-se contendas e reina a discórdia?» O Senhor respondeu-me: «Põe por escrito esta visão e grava-a em tábuas com toda a clareza, de modo que a possam ler facilmente. Embora esta visão só se realize na devida altura, ela há-de cumprir-se com certeza e não falhará. Se parece demorar, deves esperá-la, porque ela há-de vir e não tardará. Vede como sucumbe aquele que não tem alma recta; mas o justo viverá pela sua fidelidade».

SALMO – 94 (95), 1-2.6-7.8-9 (R.8)

Refrão: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.

Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus, nosso Salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor. Refrão

Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou.
O Senhor é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho. Refrão

Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meriba, como no dia de Massa no deserto,
9onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras». Refrão

II LEITURA – 2 Tim 1, 6-8. 13-14

“Exorto-te a que reanimes o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. (…). Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem te envergonhes de mim, seu prisioneiro.”

Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo a Timóteo
Caríssimo: Exorto-te a que reanimes o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e moderação. Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem te envergonhes de mim, seu prisioneiro. Mas sofre comigo pelo Evangelho, confiando no poder de Deus. Toma como norma as sãs palavras que me ouviste, segundo a fé e a caridade que temos em Jesus Cristo. Guarda a boa doutrina que nos foi confiada, com o auxílio do Espírito Santo, que habita em nós.

EVANGELHO – Lc 17, 5-10

A fé como dom gratuito de Deus.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, os Apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé». O Senhor respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia. Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu’?. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’.

XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM (Comentários do Pe. João Resina in “A Palavra no Tempo II)

          A existência do mal pesa sobre cada homem e questionou todas as culturas. O mal é, por um lado, aquilo que contraria o meu projecto de ser feliz: a doença e a morte, a pobreza e a escravidão, a inimizade e a guerra, a solidão e o abandono, as calamidades da natureza, o desabar dos meus sonhos. Mas há um mal maior, aquilo que em mim contraria a felicidade do outro: o egoísmo, a injustiça, a sede de domínio, a mentira, a traição. As religiões, e sobretudo a tradição judaico – cristã, acrescentaram: o mal é contrariar o mandamento de Deus, que nos manda amar. As culturas primitivas compreenderam que o mal é tão terrível que importa falar a seu respeito (nisto anteciparam uma das descobertas da psicanálise). Desde muito cedo, compuseram narrativas, como o mito de Adão e Eva, ou o mito de Golga – mesh. Essas narrativas não pretendiam ser a historia do que aconteceu nas origens, nem se davam como explicações filosóficas do mal. Eram o convite a que nos víssemos retratados nessas figuras, percebêssemos que somos envolvidos pelo mal mas devemos lutar contra ele e que, nessa luta estamos do lado de Deus.
          Entre o séc. X e o séc. V a.C., os Salmos da Bíblia oscilaram entre duas tendências: a tentação de explicar (tudo o que acontece é decidido por Deus; e os sofrimentos ou são castigo que Ele envia ou são instrumento de purificação) e a aceitação do mistério (há males que caem sobre o justo, não sabemos porquê; acreditamos – mesmo sem ver – que Deus tem a chave deste enigma).
          O Livro de Habacuc (donde é tirada a primeira leitura desta missa), o Livro de Cohelet e o Livro de Job têm a coragem de assumir e desenvolver esta segunda posição. É absurdo supor que todo o sofrimento é castigo do pecado. Há justos que sofrem muito, e há grandes pecadores a quem tudo corre bem. Por que é que Deus permite estas coisas? Não sabemos, porque Ele nunca o revelou, e é temerário querer adivinhar os seus desígnios. Uma coisa é certa: o homem verdadeiramente grande é aquele que mantém a rectidão tanto no triunfo como na derrota, na felicidade como na infelicidade, na plenitude como no sofrimento. Esse homem não pergunta por que é que lhe acontece o bem ou o mal, sabe que dá glória a Deus se seguir, sempre a direito, o seu caminho. Por isso é santo, e é amado por Deus. A tragédia grega reflecte uma sageza até certo ponto parecida: o herói trágico aceita lutar por aquilo que lhe parece certo, mesmo quando sabe que vai ser quebrado pelo destino. A diferença está em que o herói trágico desconfia dos deuses, admite que eles tenham ciúmes e se queiram vingar, enquanto o santo da Bíblia acredita que Deus é bom e o ama.
          A atitude de Jesus completa esta perspectiva. Antes de mais, recorde-se que Jesus nunca ensinou senão aquilo que se relaciona com a salvação. Por exemplo, não discutiu se a Terra é uma área no centro do mundo ou é uma bola que roda à volta do Sol. Anunciou, sim, que Deus é real e vivo, que Deus é bom, que Deus ama os homens como filhos. Coisa significativa, Jesus nunca considerou o mal como uma simples sombra no quadro; mas também nunca explicou qual foi a origem do mal.
          Para Jesus, a realidade do mal é um facto que ninguém pode considerar marginal. “E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal” (Mt 6, 13). “Não te peço que os retires do mundo, mas que os livres do mal.” (Jo 17, 15). Qual a origem do mal, Jesus não achou importante explicar. O que é importante é que os seus discípulos lutem contra o mal, sem descanso nem tréguas.
          Mas que saibam que o mal não pode ser vencido pelo ódio nem pela força, só pode ser vencido pelo amor

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