“NÃO É UM DEUS DE MORTOS, MAS DE VIVOS»
(Lc 20, 38)
I LEITURA – 2 Mac 7, 1-2.9-14
O martírio dos sete irmãos e da mãe.
Leitura do Segundo Livro dos Macabeus
Naqueles dias, foram presos sete irmãos, juntamente com a mãe, e o rei da Síria quis obrigá-los, à força de golpes de azorrague e de nervos de boi, a comer carne de porco proibida pela Lei judaica. Um deles tomou a palavra em nome de todos e falou assim ao rei: «Que pretendes perguntar e saber de nós? Estamos prontos para morrer, antes que violar a lei de nossos pais». Prestes a soltar o último suspiro, o segundo irmão disse: «Tu, malvado, pretendes arrancar-nos a vida presente, mas o Rei do universo ressuscitar-nos-á para a vida eterna, se morrermos fiéis às suas leis». Depois deste começaram a torturar o terceiro. Intimado a pôr fora a língua, apresentou-a sem demora e estendeu as mãos resolutamente, dizendo com nobre coragem: «Do Céu recebi estes membros e é por causa das suas leis que os desprezo, pois do Céu espero recebê-los de novo». O próprio rei e quantos o acompanhavam estavam admirados com a força de ânimo do jovem, que não fazia nenhum caso das torturas. Depois de executado este último, sujeitaram o quarto ao mesmo suplício. Quando estava para morrer, falou assim: «Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará; mas tu, ó rei, não ressuscitarás para a vida».
Palavra do Senhor.
SALMO – 16 (17), 1.5-6.8b.15 (R. cf. 15b)
Refrão: Senhor, ficarei saciado,
quando surgir a vossa glória.
Ouvi, Senhor, uma causa justa,
atendei a minha súplica.
Escutai a minha oração,
feita com sinceridade. Refrão
Firmai os meus passos nas vossas veredas,
para que não vacilem os meus pés.
Eu Vos invoco, ó Deus, respondei-me,
ouvi e escutai as minhas palavras. Refrão
Protegei-me à sombra das vossas asas,
longe dos ímpios que me fazem violência.
Senhor, mereça eu contemplar a vossa face
e ao despertar saciar-me com a vossa imagem. Refrão
II LEITURA – 2 Tes 2, 16 – 3, 5
Convite à fidelidade e à oração.
Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses
Irmãos: Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu, pela sua graça, eterna consolação e feliz esperança, confortem os vossos corações e os tornem firmes em toda a espécie de boas obras e palavras. Entretanto, irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague rapidamente e seja glorificada, como acontece no meio de vós. Orai também, para que sejamos livres dos homens perversos e maus, pois nem todos têm fé. Mas o Senhor é fiel: Ele vos dará firmeza e vos guardará do Maligno. Quanto a vós, confiamos inteiramente no Senhor que cumpris e cumprireis o que vos mandamos. O Senhor dirija os vossos corações, para que amem a Deus e aguardem a Cristo com perseverança.
Palavra do Senhor.
EVANGELHO – Forma longa Lc 20, 27-38
Discussão com os saduceus a respeito da vida eterna.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus alguns saduceus – que negam a ressurreição – e fizeram-lhe a seguinte pergunta: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?». Disse-lhes Jesus: Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».
Palavra da salvação.
EVANGELHO – Forma breve Lc 20, 27.34-38
Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus alguns saduceus – que negam a ressurreição – e começaram a interrogá-l’O. Disse-lhes Jesus: Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».
Palavra da salvação.
XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Comentários do Pe. João Resina (in a Palavra no Tempo II)
Existem sinais de que, desde a mais remota antiguidade, muitos homens pressentiram que a morte não é o fim total, é a passagem para outra vida. Mas essa vida era em geral imaginada como uma existência apagada, um mundo de sombras. Ao longo do Antigo Testamento vai crescendo a ideia de que, para além da morte, o homem se encontra com o julgamento de Deus e, sendo aprovado, alcança a felicidade. Essa esperança torna-se mais forte na altura duma perseguição terrível, ordenada no séc.II a.C. por Antíoco Epifânio, um dos sucessores de Alexandre Magno, que conseguiu reinar sobre a Ásia Menor, a Palestina e o Egipto. Quis ele unificar o seu império destruindo as religiões e costumes dos vários povos e fundando uma nova civilização, inspirada na cultura grega (helenística). No caso da Judeia, mandou construir novos altares no Templo de Jerusalém e nas várias cidades, onde todos eram obrigados a sacrificar, abjurando do judaísmo. Os que se recusavam, aqueles que continuavam a circuncidar os filhos, aqueles que tinham em casa Livros da Lei, sofriam a pena de morte e muitas vezes a tortura. Houve judeus que aderiram, uns pela atracção da novidade, outros por medo. A maioria manteve-se firme, arriscando a vida. No ano 167 a.C., um dos notáveis, Matatias, iniciou com seus filhos uma guerrilha que durante vinte anos pôs em xeque as tropas de Antíoco. Foi a célebre guerra dos Macabeus. Este período foi um tempo de grande provação, mas foi também um tempo em que se purificou a fé e se clarificou a esperança na vida eterna.
A primeira leitura, do Segundo Livro dos Macabeus, narra o martírio duma família, sete irmãos e a mãe, que se recusaram perante o rei a comer carne de porco e assim infringir a Lei. “Tu arrancas-nos a vida, mas o Rei do Universo ressuscitar-nos-á para a vida eterna, se formos fiéis às suas leis”- diz um deles; “Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará” – diz outro (II Mac 7,1-14). Há quem pergunte se não é absurdo morrer por causa de carne de porco. A isto respondo que acho realmente absurdo que exista um mandamento religioso em torno da carne de porco, mas não acho absurdo que os judeus dessem a vida por ele. Era nesse momento uma bandeira: ser-lhe fiel ou traí-la. Fizeram bem.
O Livro da Sabedoria, escrito pouco depois em Alexandria, afirma que a vida eterna é um elemento essencial do projecto de Deus a respeito do homem. Será uma vida em comunhão com Deus e com os irmãos, na plenitude da alegria. Os mártires da Judeia estavam já na posse dessa esperança.
O Evangelho (Luc 20, 27-38) conta como um grupo de saduceus se dirigiu a Jesus esgrimindo argumentos contra a vida eterna. Suponhamos – diziam – uma mulher que fica viúva e volta a casar. Se houver ressurreição, qual será o seu marido? Jesus insiste na vida eterna, mas explica que ela não é a simples continuação desta vida: homens e mulheres estarão numa nova transcendência, será nova a sua relação com Deus e com os irmãos. Acrescenta que a expressão judaica “o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob” envolve a afirmação de que Abraão, Isaac e Jacob continuam vivos diante de Deus.
É importante que os cristãos nem desprezem esta vida por causa da vida eterna, nem minimizem a vida eterna com o pretexto de que o destino se joga aqui. Esta vida terrena é um dom de Deus, é aqui que havemos de merecer a vida eterna; por outro lado, “os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, o coração do homem não pressentiu aquilo que Deus preparou para os que O amam” (I Cor 2,9). É verdade que, em certas épocas, a Igreja como que desprezou o tempo em face da eternidade. Mas hoje importa não desprezar a eternidade em nome de uma boa compreensão do tempo.