UM HINO À VIDA – 14 de Novembro de 2010

1. O mês de Novembro permite reflectir sobre a vida. Se o cair da folha em tempo de Outono para muitos é evocativo da morte, para os cristãos é um desafio à vida, uma vez que em Jesus Cristo todos são convidados a ressuscitar para novas primaveras. Há muita coisa em cada um que é preciso deixar morrer, mas o mais importante é abrir novas portas para uma vida marcada pelo amor a Deus e pelo amor aos irmãos. É esta perspectiva de conversão que permite aos cristãos não terem medo da morte, mas fazerem da sua experiência um autêntico hino à vida. Foi já em 1995 que o Papa João Paulo II ofereceu aos cristãos a Exortação Pastoral a que deu o nome de “Evangelho da Vida”. Percorrendo as páginas do Antigo Testamento, o Papa convidava a uma reflexão sobre a cultura da morte fazendo apelo a que em todas as situações lutassem pela vida. Três palavras apareciam no texto da exortação: defender, promover e servir.

• Defender a vida perante os atentados contra ela. Não era difícil enumera-los. Desde a interrupção da vida ao nascer (o aborto), à suspensão da vida no morrer (eutanásia), até às guerras, as violências, e tantas outras situações que desprezam radicalmente a vida humana, a sua dignidade e liberdade.

• Promover a vida, garantindo-lhe uma qualidade integral. Para além de assegurar a justiça e a liberdade para cada um, importa provocar mais qualidade na vida que as pessoas desfrutam. Mas a qualidade não é só o bem-estar económico, profissional e social, a verdadeira qualidade exige relações interpessoais, espirituais e religiosas, nem sempre asseguradas na relação entre os humanos.

• Servir a vida é um desafio de amor. Quando a vida está debilitada, por qualquer razão, a partilha fraterna permite ultrapassar as carências, vencer a solidão, e oferecer mais alegria de viver.

As mensagens de João Paulo II a favor da vida, infelizmente, estão muito por cumprir. Os cristãos devem tornar-se, como diz o Papa, ministros da vida, envolvendo-se nos movimentos que a defendem e a promovem.

2. Têm se multiplicado os acontecimentos que por si são cânticos de louvor à vida. Não são coisas banais e frequentes como a distribuição de bens alimentares pelos mais pobres em tempo de crise. Não são grandes investigações científicas que conseguem enfrentar doenças com todos os limites que provocam. É outro tipo de acontecimentos que impressionaram profundamente a humanidade.

• Trinta e três mineiros do Chile, depois de dois meses debaixo da terra à profundidade de 700 metros, foram salvos porque a ciência e a técnica se cruzaram com o humanismo e a solidariedade mais profunda. Depois, todo um povo celebrou a vida conquistada.

• Bento XVI inaugurou a Basílica da Sagrada Família em Barcelona. Recordando a figura do arquitecto Gaudi, um verdadeiro santo, o Papa exaltou a vida humana, afirmou a dignidade do amor, convidou à reconstrução da família, testemunhou muitos valores que hoje se perdem, mas que estão gravados na pedra nas inúmeras figuras que os escultores souberam criar. Um verdadeiro hino à capacidade humana, quando, pela arte, sabe proclamar a vida.

• Os inúmeros gestos de solidariedade em tempo de crise. O mundo atravessa tempos difíceis, aumenta o desemprego, multiplicam-se fenómenos de pobreza que geram migrações, marginalizações, subdesenvolvimento, a própria fome, angústias impensáveis há pouco tempo. Perante tudo isto ser solidário tornou-se uma exigência para quem ainda tem. Assim, há organizações profundamente eficazes, mas há gestos escondidos que constituem de per si um autêntico hino à vida.

• O próprio avanço da ciência e da técnica é também uma resposta à qualidade de vida. De facto, nunca como hoje a ciência foi capaz de responder aos problemas que são normais no ser humano. A investigação tem permitido verdadeiros milagres para dar mais vida à vida.

Com tantos acontecimentos que manifestam o amor à vida é surpreendente como ainda hoje pode haver ideologias ou sistemas que põem a vida em segundo lugar. Os cristãos consagram todos os seus dias, não apenas ao elogio da vida, mas ao serviço da vida de todos os outros, qualquer que seja a sua idade, a sua cultura, a sua posição. A este serviço à vida chama-se amor.

3. A Comunidade Paroquial do Campo Grande vai ter a oportunidade de celebrar a vida, de cantar um hino à vida, com um sabor muito especial. Uma das paroquianas mais assíduas e que muito tem acompanhado o crescer da Paróquia completa, no dia 24 de Novembro, 100 anos. Não é uma data qualquer. É um marco para a família, mas é também um marco para a Comunidade Paroquial a quem tem, à sua maneira, continuado a servir. A Cilinha Carrelhas que muitos na comunidade chamam “a avó” tem uma vida muito bonita ao serviço dos outros.

• Quando na década de sessenta, a Alta de Lisboa tinha apenas bairros muito pobres, com os Padres Jesuítas ajudou à construção do Bairro da Musgueira com um Centro Social liderado pelas Irmãs Doroteias.

• Mais tarde, porque a filha começou a trabalhar na nossa Paróquia, associou-se ao Padre Armindo para apoiar a comunidade do Campo Grande. Prestou inúmeras ajudas discretíssimas em situações mais difíceis de alguns jovens ou de algumas famílias.

• Colaborou intensamente com as irmãs da Verbum Dei nas diversas actividades realizadas em Vale de Lobos. Era uma espécie de pronto-socorro de última instância.

• Em todos os seus gestos a mão esquerda não sabia o que fazia a mão direita. Foi neste anonimato que preencheu os seus dias até ao centenário que se celebrará em 24 de Novembro.

Muitas outras vidas de pessoas de idade se poderiam referir. Mas, neste hino à vida, privilegiámos a Cilinha simplesmente porque atinge os 100 anos.

4. A Comunidade Paroquial do Campo Grande quer responder ao apelo de Bento XVI que convidou todos os cristãos a fazerem no dia 27 de Novembro uma vigília como grande hino à vida. Na prática pastoral, tentaremos: lutar pela mais vida física, psicológica e social através do Centro Paroquial com o seu acolhimento e com os seus serviços; promover a vida espiritual e religiosa através da catequese, da Eucaristia e dos outros Sacramentos; acompanhar a vida cultural e de relação através da dinâmica comunitária que permite aproximar as pessoas e fazê-las mais felizes.
Neste hino à vida, a Comunidade Paroquial não esquece também aqueles que partem porque sabemos que foram chamados à plenitude da vida onde celebram o banquete definitivo da maior alegria pascal.

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