IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA – 8 de Dezembro de 2010

«AVE, CHEIA DE GRAÇA, O SENHOR É CONTIGO» 

A Virgem da Conceição-Murillo

                                                                                                                (Lc 1, 28)

  I LEITURA  –  Gen 3, 9-15.20

O «pecado original». Este texto – que não é para ser interpretado literalmente – recorda que o pecado envenena a vida. Simetricamente, a conversão é o caminho para verdade e para a paz.

Leitura do Livro do Génesis
Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». O homem deu à mulher o nome de ‘Eva’, porque ela foi a mãe de todos os viventes.
Palavra do Senhor.

SALMO  – 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R. 1a)

Refrão: Cantai ao Senhor um cântico novo:
                o Senhor fez maravilhas.

Cantai ao Senhor um cântico novo,
pelas maravilhas que Ele operou.
A sua mão e o seu santo braço
Lhe deram a vitória. Refrão

O Senhor deu a conhecer a salvação,
revelou aos olhos das nações a sua justiça.
Recordou-Se da sua bondade e fidelidade
em favor da casa de Israel. Refrão

Os confins da terra puderam ver
a salvação do nosso Deus.
Aclamai o Senhor, terra inteira,
exultai de alegria e cantai. Refrão

II LEITURA – Ef 1, 3-6.11-12

O projecto de Deus a nosso respeito. Deus pensou em nós ao criar o mundo. Criou-nos para sermos felizes como Ele é feliz. Na liberdade, no amor.

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios
Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou  com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo.
Palavra do Senhor.

EVANGELHO – Lc 1, 26-38

«Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».
Palavra da salvação.

IMACULADA CONCEIÇÃO – Comentários do P.e João Resina (in a Palavra no Tempo I)

            Durante muito tempo, as Igrejas protestantes minimizaram ou ignoraram a figura de Maria. A ideia era concentrar toda a atenção em Cristo, e também contrariar alguns exageros da devoção católica. Hoje, temos todos uma teologia mais serena. Nunca ignorámos que só Jesus Cristo é Salvador. “E não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens para nos salvar.”(Act 4,12). Mas não ignoramos também que o projecto de Deus é que os homens constituam “um só corpo” em Cristo (Efes 1,10-22), nEle “estejam reconciliadas todas as coisas”(Col 1,15-20). Em Cristo, os seres humanos são assim associados ao mistério da salvação. Que dizer então daquela que o Pai convidou para Mãe de seu Filho proclamando-a “cheia da graça”(Luc 1,28); aquela que, na cruz, Jesus deu por Mãe a todos nós (Jo19,26)? Com base em alguns textos obscuros da Escritura, e sob a batuta de S.Agostinho, a teologia católica e as teologias protestantes desenvolveram a ideia do “pecado original”: por causa de Adão e Eva, todo o ser humano, desde o início do seu ser, está afastado de Deus até que receba dEle o dom da graça. Confesso a minha ignorância e a minha dificuldade em navegar nestas águas. Mas registo que a maioria dos teólogos católicos cedo afirmou que Maria, em atenção à sua missão, foi isenta do “pecado original”, quer dizer, viveu sob a graça de Deus desde o primeiro instante do seu ser. É este o tema oficial desta celebração. Mas podemos, porventura, alargá-lo: celebrar o dom de Deus a Maria e a fidelidade de Maria a Deus. E reflectir nas dificuldades que nós, tacanhos e pecadores, vamos encontrando.
             Em cada ser humano, e também em Maria, a santidade é uma espécie de diálogo entre o dom de Deus, que é primeiro, e dom da criatura, fruto bom da sua liberdade. A Imaculada Conceição é, antes de mais, celebração do dom de Deus. A liturgia não o ignora, mas acha normal ler o Evangelho de S.Lucas, que nos coloca perante a resposta de Maria: simples, humilde, e total.
             Dando outro passo, a festa da Imaculada Conceição pode convidar-nos a repensar a questão do bem e do mal, do pecado e da virtude. A este respeito, na Igreja e no mundo, temos tido muitas modas. Vivemos séculos duma moral objectiva, em que a definição do bem e do mal nos eram apresentadas, até ao ínfimo pormenor, como decretos de Deus (mesmo naqueles casos em que pareciam, obviamente, avatares das culturas). Tivemos, depois, o outro extremo, o sonho duma liberdade de total autonomia, em que o bem e o mal não admitem qualquer referência fora do sujeito. Julgo que uma das missões dos cristãos, neste começo do séc.XXI, é mostrar que o bem e o mal arrancam da criatividade do sujeito, mas não dispensam uma estrutura dialogal: é preciso que o meu agir não abafe a liberdade do outro, seja de outro ser humano, seja de Deus. Se é errado imaginar Deus simplesmente como o Senhor das regras, também é curto fazer dEle um simples espectador do homem.

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