SER CRISTÃO HOJE – 24 de Janeiro de 2010

1. Num tempo caracterizado pela perda de valores espirituais, pode dizer-se que não é nada fácil ser cristão e assumir-se como cristão no meio da cidade. Muitos dizem-se agnósticos, constantemente à procura do transcendente que lhes escapa. Alguns afirmam-se mesmo ateus, recusando sistematicamente qualquer ideia de Deus. Há mesmo uns tantos que, a partir de um laicismo radical, consideram seu dever lutar contra qualquer ideia de religioso, vendo em Deus mais do que uma ilusão, um adversário a combater. Num mundo assim, é mesmo difícil ser cristão.

• A sociedade está condicionada pelo materialismo e o racionalismo que dominam todas as opções de vida. Só se acredita naquilo que é possível provar pela razão.

• Os comportamentos estão dominados, pela permissividade hedonista, pelo culto do mais fácil e do prazer. Chega mesmo a dizer-se que “é proibido proibir”, elegendo a liberdade sem fronteiras como o ideal.

• O homem contemporâneo centra-se no egoísmo individualista, pensando sempre em si, no que melhor lhe agrada e mais lhe convém, no seu interesse pessoal.

• As vantagens económicas ou sociais são o padrão de conduta, a referência nas opções de vida que é urgente fazer, na família, no emprego, no grupo social.

Havendo indiscutíveis valores positivos, no mundo de hoje, como a defesa da dignidade humana e a procura da paz, o progresso científico e técnico e a sensibilidade ética, apesar disso, com as tradições e a memória do passado, o homem contemporâneo tem muita dificuldade em se dizer cristão e em viver como cristão.

2. Ser cristão constitui um enorme desafio para quantos receberam dos pais uma herança de fé e se recusam a aceitar o vazio de uma vida sem valores. Ser cristão não consiste em frequentar muito a Igreja, ir à missa e celebrar os sacramentos. Ser cristão não está em repetir muitas orações, participar em muitas iniciativas de caridade e fazer visitas (peregrinações) aos santuários mais conhecidos. Ser cristão não pode limitar-se a algumas atitudes que são bem vistas no grupo de pessoas religiosas, próximas dos sacerdotes ou mesmo de Bispos mais conhecidos. Ser cristão é muito mais do que tudo isto.

• O cristão conhece-se pelo amor: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei…por isso vos conhecerão como meus discípulos” (Jo 13, 34) é a palavra de Jesus aos primeiros cristãos, os seus companheiros nos caminhos da Galileia e da Judeia.

• O cristão afirma-se pela sua fé e a “fé consiste na adesão plena e perfeita em Cristo” (L.G. 50). Mais do que confiança, a fé exige conhecimento de Cristo. Depois, porém, uma pessoa que tem fé, deverá tornar-se comprometida em Cristo Senhor, sempre e em todo o lugar.

• O cristão irradia valores que marcam toda a sua vida. Pela justiça, procura dar a cada um aquilo a que ele tenha direito. Pela verdade, é coerente em todas as atitudes que venha a assumir. Pela liberdade, afirma-se capaz de deixar tudo, para seguir Jesus, incondicionalmente, nos critérios do Evangelho.

• O cristão é apóstolo, pelo testemunho e pela palavra oportuna, faz discípulos em toda a parte, contagiando-os no amor, até ao baptismo e à pertença responsável da Igreja.

3. As primitivas comunidades cristãs desenvolviam processos de iniciação à fé que hoje deveriam retomar-se. Nelas, “todos estavam unidos na doutrina dos apóstolos, na fracção do pão e nas orações, e tudo o que tinham punham-no em comum e, assim, aumentava cada vez mais o número dos que aderiam à fé.” (Act 2, 42-47). Porque no dizer de João Paulo II os cristãos adultos, hoje, são pouco mais que catecúmenos (cf.CT. 43 e 44), é necessário retomar a dinâmica catecumenal, com os seus seis passos.

• Reconhecer a senhoria absoluta de Cristo: não há outro senhor, só a Ele se deve servir.

• Aceitar reconciliar-se com Deus e com os irmãos através de uma verdadeira penitência, aceitando o perdão que só de Deus pode vir.

• Deixando-se conduzir pelo Espírito em todas as circunstâncias, porque só o discernimento do Espírito provoca opções correctas e cristãs.

• Celebrar os sinais, em cada sacramento, para exprimir a fé e nela se fortalecer.

• Deixar-se guiar pelo testemunho de quantos nos precederam na fé, alguns deles essenciais no caminho cristão já percorrido.

• Viver em comunidade, porque todo o ser cristão implica uma comunidade de pertença, de alegria, de felicidade.

É a partir deste “ser cristão” que cada homem ou mulher encontra o sentido da vida e se dispõe a imprimir um ritmo novo na vida familiar, profissional, social, política, económica e cultural.

4. É à luz do ser cristão de verdade que se renova a nossa comunidade do Campo Grande. Pode haver muitas vocações, funções e carismas, mas a comunidade cristã é sempre animada pelo mesmo espírito, vive sempre um só baptismo e uma só fé e partilha sempre do mesmo amor.
“Num só coração e numa só alma”, ajudemo-nos mutuamente a ser cristãos de verdade.

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