SER CRISTÃO EM TEMPO DE CRISE-7-02-2010

1. Foi ao longo do ano 2009 que, a nível mundial, se sentiram os efeitos da crise. A banca, com todo o seu poder económico, criou a instabilidade generalizada; grandes empresas de renome internacional ruíram como baralhos de cartas e a crise instalou-se na maioria dos países, porque a sua referência se perdeu. É certo que as crises desafiam a um crescimento maior, mas é certo também que a crise que o mundo está a viver se repercute em todas as estruturas da sociedade e todas as pessoas, desde as mais importantes até às mais simples, perguntam-se “para onde caminhamos”.
Por altura do Natal, os voluntários para o Quarto Mundo escreviam uma carta em que citavam uma pessoa em angústia. Dizia ela:

• Como é bom poder voltar a trabalhar a tempo inteiro e receber um salário de verdade…

• Como é bom fugir à pobreza, mesmo provisoriamente, e exercer uma profissão que nos agrada…

• Como é bom poder dar, ou antes: partilhar um pouco do que ganhamos com os outros…

Por detrás destas simples frases, é fácil adivinhar como são difíceis os anos deste início de milénio, como se tornaram muito duros estes tempos marcados pela crise.

2. Simplesmente esta crise é global, apanha todos os aspectos da vida pessoal e social. É cada um que tem de descobrir a forma de controlar este tempo em que as faltas são maiores e o projecto-esperança é mais difícil.

• É uma crise económica que leva muitos a não ter sequer dinheiro para uma refeição diária. A pobreza envergonhada assentou arraiais no viver comum de tantos, e são amigos e conhecidos que vivem amarrados às dificuldades.

• É também uma crise social que multiplica os pobres e os desempregados, que não absorve os imigrantes e cria emigração, que atira os mais velhos para lugares de sobrevivência, nada mais.

• É ainda uma crise espiritual e religiosa, muitas vezes surgida no culpabilizar de Deus pela não resolução de todos os problemas. Avoluma-se então a crise de fé nas novas gerações e os mais velhos acabam por perder a esperança.

• E é até uma crise eclesial porque as próprias comunidades cristãs não conseguem absorver todos aqueles que as procuram, dando resposta aos problemas emergentes de que cada um é portador.

Curiosamente, os políticos, os economistas, os empresários, a par dos profissionais, dos gestores, dos líderes, todos querem resolver a crise, mas centram-se apenas nas questões económicas, eventualmente as menos importantes para vencer as dificuldades que são globais.

3. Faltam valores na cidade e só encontrando valores de referência se consegue abrir o caminho novo que a humanidade deve percorrer para reencontrar o sentido da própria vida. João XXIII dizia na Encíclica Pacem in Terris, que os pilares da paz são a verdade, a justiça, a liberdade e o amor. Nos estudos da sociologia política diz-se muitas vezes que não é possível uma organização eficaz se se não têm em conta a tolerância, a convivência, o diálogo, a solidariedade e a harmonia em sociedade.
Ficam aqui alguns valores que é imperioso implantar na sociedade, para um futuro melhor, um amanhã sem crises constantes:

• A procura da justiça sempre, dando a cada um aquilo a que ele tem direito, desde o salário justo, ao trabalho necessário, aos cuidados de saúde indispensáveis, à educação suficiente, a tantas outras coisas que alimentam a esperança do melhor.

• A oferta da liberdade a que cada pessoa tem direito, para que possa escolher, decidir, afirmar-se, sabendo que ser livre é o elemento fundamental para a realização integral da pessoa.

• A garantia da verdade em todas as relações humanas, sobretudo através da informação bastante para percorrer caminhos pessoais de autêntica realização e não caminhos de outros que conduzem à desilusão e à frustração completa.
• O sentido de Deus que permita ver todas as coisas com os olhos de alguém que é superior e viver com alegria todos os momentos de realização num projecto diferente, marcado de uma mais valia, a da construção do bem comum.
• A pertença à Igreja, valor eminentemente cristão que assegura que em situação alguma se está só, uma vez que a Igreja é uma comunidade de irmãos em que a grande lei é o amor.

Estes e muitos outros valores iriam permitir vencer todas as crises, uma vez que cada pessoa e cada grupo deixaria de estar no centro de todas as atenções. Bem ao contrário, seria o bem comum a referência para todas as mudanças de atitude, em cada pessoa e em cada grupo de influência.

4. Para mudar o rosto do mundo, para superar a crise, o cristão poderia alicerçar-se no pensamento de Bento XVI, com as suas três grandes encíclicas:

• Em “Deus é Amor”, aprendia-se a arte de, com justiça, amar, perdoar e reconciliar-se.

• Em “Salvos na Esperança”, descobria-se que a partir do trabalho e do sofrimento, também com a oração, tudo pode ser diferente, encontrar um sentido novo.

• Em “Caridade na Verdade”, compreender-se-ia que a grande transformação económica e social também passa pela conversão do coração, a única que é capaz de vencer os erros dos sistemas.

Os cristãos estão na vanguarda ao procurarem uma nova cultura: alicerçados na Palavra de Deus, confiantes no pensamento da Igreja, privilegiando sempre os mais pobres, é possível transformar radicalmente o mundo, fazê-lo melhor.

5. O desafio está lançado: por uma atitude cristã é possível ir mudando o nosso pequeno mundo, na família, no trabalho, na vida económica, na interpelação política ou na vida social. Pelo testemunho dos cristãos e pela sua acção responsável à sociedade no seu todo pode ser lugar de esperança, lugar de felicidade.

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