AS FÉRIAS DE CARNAVAL- 14 de Fevereiro 2010

1. O carnaval é um tempo de memórias. Desde os tempos mais antigos se chamavam, a estes dias, as férias de carnaval. As escolas fechavam, as crianças ficavam livres, os pais acompanhavam-nas nas mais diversas iniciativas, sempre para divertir os mais pequeninos e para os mais velhos estarem um pouco mais tempo com as crianças. Recordo as minhas fantasias, pelos meus quatro ou cinco anos. Ainda encontro velhas fotografias em que me vejo vestido de rato Mickey, com minha irmã a fazer de Minnie. Lembro um pouco mais tarde as fantasias da Columbina e do Arlequim que meus irmãos mais novos vestiam a preceito. Na alegria geral, respirava-se a ternura que perpassava nas mais pequenas coisas. Julgo que continua a ser assim “para mais tarde recordar”.

• Os avós contam aos netos as suas histórias de carnavais distantes, onde não faltava “um pico de maldade” absolutamente inocente.

• Os pais organizam festas que são, sobretudo, simples entretém, para os filhos pequeninos se sentirem diferentes nas fantasias trazidas dos programas de televisão. Uns são o Noddy, outros o Zorro, a Pauly, o Ruca, os Simpson ou outros ainda.

• As crianças divertem-se com as muitas personagens que tentam imitar e com as “partidas” que pregam aos mais velhos, sempre surpreendidos com as brincadeiras que anualmente se repetem.

• Todos dão azo à alegria geral, uma alegria que anda no ar, que se respira, que se transmite em sorrisos para todos e que contagia mesmo os desconhecidos.

São muitas as iniciativas, mas a festa, a verdadeira festa de carnaval, é das crianças e é com elas que os pais, os avós, os tios e os amigos se sentem mais felizes.

2. O carnaval, para os adultos, é também um tempo livre que os torna disponíveis para fazer muitas coisas que, noutra altura, são difíceis de fazer, por falta de tempo. Aproveitar estes dias para visitar um museu que tem novas colecções, para ir ao cinema ver filmes que receberam prémios, para ler uns livros que nem sequer o índice ainda foi possível ver, para visitar um amigo com quem se não está há muito, para inúmeras coisas que estão pendentes e nos dão alegria. O carnaval cria disponibilidade. Pode aproveitar-se

• Para um ou dois dias de retiro, num convento, num lugar distante, fazendo silêncio no encontro com Deus.

• Para um passeio a lugares desconhecidos que se apreciam pela beleza das montanhas cobertas de neve, pela força da natureza, revelada nas florestas ou na vastidão do mar, pela simplicidade do povo que acolhe e que sorri.

• Para um repouso merecido, oportunidade para estar em casa, ouvir música, ver filmes, conversar com amigos ou, simplesmente, “descansar”.

• Para fazer coisas que se deixaram atrasar, como seja catalogar os livros na estante, arrumar as gavetas, experimentar novas receitas, programar as férias de verão, um número de coisas para que nunca se tem tempo.

Este tempo disponível até pode ser, simplesmente, para a “contemplação”, para ver as pessoas e as coisas de outra forma, para as ver com os olhos de Deus. Fazer silêncio, repensar a vida, reencontrar as pessoas com um coração novo, são formas de contemplação essenciais para o equilíbrio da nossa vida.

3. O carnaval é, para os cristãos, um tempo de alegria contida, uma certa maneira de preparar a Páscoa que está a chegar. De facto, os três dias de carnaval antecedem a quaresma. Se esta é tempo de rigor, de penitência, de preparação para as festas pascais, o carnaval predispõe para aceitar o caminho, nem sempre fácil, do jejum, da oração, da esmola que a quaresma supõe. Daí a expressão “carnaval” que quer dizer “adeus à carne” (do latim carne vale), isto é, começo da austeridade, da frugalidade na refeição e da atitude generosa na aceitação das dificuldades da vida. Se o tempo da quaresma é um tempo de penitência, no rigor da exigência cristã, o carnaval é uma oportunidade de criar as condições necessárias para viver o caminho para a Páscoa com redobrada exigência. Assim sendo:

• A alegria é contida, quer dizer, não é barulhenta, não se multiplica em gargalhadas, não magoa os outros, mas é antes dom do Espírito e fonte de amor e de paz.

• O humor é inteligente, isto é, tira partido das situações, ridiculariza os acontecimentos mais vulgares, encontra graça nas palavras e nas atitudes, mas respeita as pessoas, nunca as magoa.

• A anedota pode ser mordaz, mas é sempre pedagógica, provocando o riso ao mesmo tempo que pede a mudança necessária constante, enche a sala da alegria contagiante.

De tudo isto se faz o carnaval ao sabor cristão, convidando a descontrair ao mesmo tempo que oferece um bem-estar e uma harmonia acrescidos.

4. Seria a Igreja capaz de organizar carnavais? É a pergunta que se faz muitas vezes, sabendo que as festas de carnaval se multiplicam, com tradições interessantes, em muitos lugares do mundo. Não são só os carnavais do Rio. Em algumas das nossas cidades também há carnavais.
Com uma intuição extraordinária, o Cardeal Lercaro, ao tempo Arcebispo de Bolonha, em plena década de 60, organizava o carnaval com os alunos da universidade pontifícia. Numa cidade que se afastou da Igreja, a iniciativa do cardeal criara uma festa maravilhosa ao redor da Igreja Mãe da Diocese, a Catedral de Bolonha.
Há inúmeros apelos, na nova evangelização. Talvez um dia, entre nós, a Igreja também possa transformar o carnaval em tempo feliz de evangelização.

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