QUARESMA 2010-21 de Fevereiro 2010

1. Desde 4ª feira de cinzas que os cristãos entraram na Quaresma e vivem, se quiserem ser exigentes, a preparação para a Páscoa. É certo que, na cultura do homem contemporâneo, estes quarenta dias em nada são diferentes dos restantes dias do ano. É a mesma vida profissional, com as normais tensões e as sempre iguais dificuldades; é o mesmo ambiente familiar que não esconde rixas, brigas ou contendas; é a mesma atitude económica, sem se notar a preocupação pelos novos pobres ou pela muita pobreza envergonhada; são as mesmas tensões políticas, alimentadas nos noticiários e difíceis de ultrapassar sem a responsabilidade dos dirigentes. Em qualquer destes mundos, não se nota que os cristãos estejam a viver a Quaresma. Parece que a Quaresma faz parte do passado, já não influencia a vida familiar, profissional, económica ou social dos cidadãos.
Para os cristãos não deveria ser assim. A história da Quaresma revela exigência posta pela Igreja na preparação para a Páscoa da Ressurreição.

• As primeiras comunidades cristãs preparavam a Páscoa com uma vigília, a noite inteira de oração, antes de celebrarem a Ressurreição do Senhor, no 1º de todos os Domingos.

• Nos finais do séc. I, princípios do séc. II, passou a consagrar-se a preparação para a Páscoa com dois dias que, acrescidos à vigília, constituíram o tríduo Pascal: a última Ceia, a adoração da Cruz, a aurora da Ressurreição.

• No séc. III sentiu-se a necessidade de consagrar três semanas à preparação da Páscoa, já então com a ideia forte de penitência para reparar erros, e oração para implorar bênçãos.

• Mas é no séc. IV, no Concílio de Niceia, em 325, que se consagra definitivamente a Quaresma como tempo específico de cada comunidade cristã e cada cristão se prepararem para a Festa da Páscoa.

Os 40 dias evocam a caminhada de Elias até ao monte Carmelo, preparação para a revelação de Deus, o tempo do deserto em que Moisés levou o Povo de Israel, do cativeiro Egípcio até à Terra Prometida, sobretudo, os 40 dias de silêncio e oração vividos por Cristo no deserto da Judeia, antes de iniciar a sua missão na Galileia.

2. As três atitudes a que os cristãos são convidados, neste tempo de Quaresma, fazem parte de qualquer preparação com marca de espiritualidade. Em todos os tempos, a esmola foi recomendada para ajudar os pobres, em todas as religiões a oração faz parte da relação com o Deus em que se acredita, em todas as civilizações, o jejum, em certas etapas do ano e por diversos motivos, foi recomendado como medida higiénica. Então, onde estará a originalidade cristã nestas práticas? É o Evangelho de Mateus que responde: tudo isto é feito muitas vezes “para ser visto pelos homens” (Mt 6, 16) a recomendação de Jesus é de que se faça tudo tendo em consideração o outro e não o próprio engrandecimento: que não saiba a mão esquerda o que faz a direita, que não se multipliquem as palavras, que não se carregue de tristeza o próprio olhar (cf. Mt 6, 3-4). É então redescobrir a esmola, a oração e o jejum.

• A esmola, hoje, está na capacidade generosa da partilha. Os bens materiais são de propriedade universal. O homem é apenas o seu administrador. Então, reparte o que lhe sobra e é generoso nas situações mais difíceis vividas por muitos.

• A oração, hoje, está na capacidade de criar intimidade com Deus, o Outro por excelência. Orar não está em repetir fórmulas, está antes em viver a experiência de Deus, comunicar com Ele, escutar as Suas respostas, no segredo da oração e agir, depois, como Ele pede.

• O jejum, hoje, está no exercício pleno da justiça, no dar a cada um aquilo que lhe é devido. Já Zacarias profeta, séculos antes de Cristo, falava do jejum que agrada a Deus: “praticar uma verdadeira justiça, exceder-se em bondade e compaixão, para com o seu irmão; não oprimir o órfão, a viúva, o estrangeiro e o pobre e não ter maus desígnios para com os outros.” (Zc 7, 9-10).

Repensar para os nossos tempos estas obras de penitência é abrir portas para uma sociedade verdadeiramente fraterna. Dar esmola é partilhar, orar é fazer experiência vital de Deus, jejuar é praticar a justiça em todas as circunstâncias.

3. É por este caminho que vão as mensagens para a Quaresma do Papa Bento XVI e do senhor Patriarca.

• Bento XVI, citando o Apóstolo Paulo, diz que “a justiça de Deus se manifestou, mediante a fé em Jesus Cristo” (Rom 3, 21-22). Define depois a justiça, lembra o porquê das injustiças, refere o caminho da justiça em Israel, para terminar com a afirmação clara de que só Jesus Cristo é justiça de Deus. Texto lindíssimo que nos “atira” para Cristo Redentor e Salvador.

• O senhor Patriarca centra a mensagem na preparação para a visita do Papa à cidade de Lisboa: “acolher o Papa é aceitar o desafio da Redenção”. Retomando a ideia da justiça como apelo urgente para a nossa cidade, faz-se um convite exigente para a “santidade e missão”, a partir de uma fé profunda e sincera, uma caridade generosa, um testemunho claro, uma intervenção eficaz para transformar a sociedade na linha do Reino de Deus. “Só homens justos podem ajudar a transformar a sociedade na justiça”.

Estes dois textos, distribuídos hoje na comunidade paroquial, podem dar capacidade para um tempo diferente, uma Quaresma de conversão.

4. A Quaresma 2010, na Paróquia do Campo Grande: três ideias chaves podem marcar o nosso caminho para a Páscoa.

• Reconhecer aquilo em que cada um precisa de mudar, na vida pessoal, dentro da vida familiar, profissional e social, e no trabalho que presta à comunidade cristã.

• Descobrir as atitudes novas que podem fazer felizes os outros, em autêntica afirmação de ressurreição. É a conversão em acto.

• Actuar em tudo com um espírito novo, a alegria que é dom do Espírito e que permite um amor sempre mais generoso e universal.

• Provocar a unidade, “para que todos sejamos um como Cristo e o Pai são um só” (cf. Jo 17, 20).

A todos os nossos Paroquianos desejamos muito uma Quaresma carregada de generosidade.

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