A PENITÊNCIA, EM TEMPO DE QUARESMA – 28 de Fevereiro de 2010

1. Sempre, na tradição da Igreja, se considerou a Quaresma, como tempo de penitência. Era tanto assim que os comportamentos sociais correspondiam à austeridade pedida aos cristãos, como forma de preparação para a Páscoa. Não havia festas, entre quarta-feira de cinzas e a noite pascal. Admitia-se, a meio deste tempo, alguma expressão de alegria. Era a “mi-carême”, normalmente a coincidir, com a liturgia do domingo “letare”, o domingo da alegria. Ninguém comia carne às sextas-feiras e nos mercados vendia-se peixe e nos restaurantes privilegiavam-se refeições de “abstinência”. Nas igrejas, as populações acorriam a especiais pregações e, depois, participavam em via-sacras, em desobrigas e comunhões pascais. Todos estes ritos faziam parte da celebração quaresmal a que se associavam as pessoas mais gradas da terra, com os mais simples e mais pobres, sem distinção de classe.
Era a Quaresma.
A nível pessoal, cada um tentava também viver a seu modo a penitência quaresmal.

• A renúncia era vivida no deixar de fumar, no não comer chocolates e outras doçarias, no privar-se de ir ao cinema ou a outro espectáculo.

• A oração era privilegiada, com a frequência diária da Eucaristia, a reza do Rosário, um tempo significativo de silêncio e contemplação e outros actos de culto.

• A caridade era exercida com a visita frequente a alguns doentes marcados pela solidão, com a ida às cadeias para levar lembranças aos prisioneiros, com pequenos gestos de ternura em esmolas dadas aos pobres.

Era assim que se viva a penitência quaresmal, com uma austeridade que se sentia na vida de família, nas relações sociais e até na organização dos acontecimentos públicos onde não faltavam a Procissão dos Passos, o Enterro do Senhor, e a explosão de alegria no domingo de Páscoa, com o compasso, levando o Senhor a beijar em todas as casas da aldeia, da freguesia ou da cidade.

2. A sociedade perdeu as suas características de sabor cristão. É uma sociedade materialista, hedonista, permissiva que não tem o sentido de Deus e proclama a secularidade e o laicismo como suas marcas fundamentais. Não querendo nada com Deus, a cidade não sente a importância de uma penitência a viver. Aos cristãos compete descobrir as novas formas de penitência que podem transformar o viver comum dos cidadãos. É bom ter consciência de que, sendo o jejum a expressão máxima da penitência, aos cristãos compete descobrir as autênticas formas de jejum. Curioso é, porém, que o verdadeiro jejum está definido desde há muito e não consiste na privação de alimentos.

• O profeta Isaías, 500 anos antes de Cristo, dizia que o jejum que agrada a Deus é: “libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, repartir o pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o irmão” (Is 58, 4-7).

• O profeta Zacarias, em nome de Deus, para o jejum exigia ainda mais: “Praticai uma verdadeira justiça e excedei-vos em bondade e compaixão, não oprimais o órfão, a viúva, o estrangeiro e o pobre e não formeis nos vossos corações maus desígnios uns para com os outros” (Zc 7, 9-10).

• O Papa S. Leão Magno, no séc. V, recomenda aos cristãos de Roma: “Nós prescrevemo-vos o jejum, recordando-vos não só a necessidade da abstinência, mas também as obras de misericórdia. Assim, aquilo que tiverdes poupado nas despesas ordinárias torna-se alimento para os pobres” (Hom. em Roma).

• O Pastor de Ermas, num livro cristão do séc. II, diz: “Durante o dia de jejum comerás apenas pão e água; depois calcularás quanto terias gasto com o teu alimento e oferecerás o dinheiro a um pobre. O teu sacrifício sirva a alguém para matar a fome”.

Muitos outros exemplos poderiam dar-se, para exprimir o que é o verdadeiro jejum e a penitência. Era Nossa Senhora que, aparecendo a Lúcia em 1925 quando estava em Tuy, lhe disse: “A verdadeira penitência que peço e exijo é o cumprimento da lei de Deus e a observância dos deveres de cada um, na sua vida quotidiana” (Memórias).

3. As comunidades cristãs do 3º milénio também devem descobrir o verdadeiro jejum, com a exigência do amor aos irmãos, numa verdadeira comunhão na unidade. As atitudes fundamentais são fáceis de encontrar, o difícil, depois, é pô-las em prática. Que atitudes são essas?

• A reconciliação, isto é, o reencontro com Deus e com os irmãos, que é muito mais do que o sacramento ritual. Uma atitude de perdão para quem nos tenha ofendido e, ao mesmo tempo, o arrependimento pelo que de mal se fez, na relação com Deus e com os outros.

• A partilha, isto é, o pôr em comum, com os outros, todos os dons recebidos de Deus. Oferecer aos outros o tempo, a presença, a palavra oportuna, o sorriso, a compreensão, a par da oferta de bens materiais, para que seja menor o sofrimento de alguns.

• A aceitação das dificuldades, isto é, a descoberta de que pode ter sentido o levar da cruz de cada dia. Manter a alegria em casa, no trabalho, no grupo social, transmitindo aos outros a tranquilidade que mora no nosso coração, apesar dos normais sofrimentos com que se cruzam as nossas vidas.

• A diligência na acção, isto é, a capacidade de ser eficaz no trabalho ou mesmo na missão evangelizadora. Seria impensável um cristão acomodar-se e não ter o engenho de chegar mais longe, na capacidade de serviço que lhe é pedido.

Muitas outras atitudes poderiam ser descobertas, como expressão de penitência, no caminho para a Páscoa que nos espera.

4. Na Paróquia do Campo Grande, há um programa quaresmal, um caminho de exigência e esperança. Inserir-se nele com alegria exigente é uma forma pascal de penitência. A noite da misericórdia e da paz, as celebrações da reconciliação, as missas dominicais, o fundo de solidariedade, as catequeses do Sr. Patriarca, a celebração do Tríduo Pascal são elementos muito fortes para viver a Quaresma com sentido penitencial e de esperança.
Assim Deus nos ajude.

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