NA QUARESMA, DAR MAIS TEMPO À ORAÇÃO- 7de Março 2010

1. A oração constitui o normal respirar, na vida do cristão. Quem esquece a oração, em termos de vida cristã, quem abandona a oração, acaba por morrer, porque lhe falta o contacto habitual com Cristo, o único que dá vida e vida em abundância. Daí a recomendação de Jesus: “Convém orar sempre, sem nunca desanimar” (Lc 18,1). A Quaresma traz consigo o convite a uma oração frequente. A Igreja, no séc. IV, propôs quarenta dias para a preparação da Páscoa, porque quarenta dias tinha sido o tempo de deserto a que Jesus se sujeitou ao preparar a sua vida pública. A Quaresma é este tempo de deserto que os cristãos podem viver em oração, antes de chegarem à alegria da Páscoa. Aliás, depois, ao longo de toda a sua vida pública, Jesus de muitas maneiras fará silêncio, para se encontrar com o Pai, em oração profunda.

• No Baptismo, nas águas do Jordão, tomado do Espírito, aceitou a missão que o Pai lhe dava: “Este é o meu Filho muito amado em quem pus todo o meu enlevo, escutai-O” (Lc 3, 21-22).

• Na Transfiguração, no Monte Tabor, arrastara consigo três discípulos, para com eles, recordar a libertação do povo de Israel (Moisés) e a constante presença de Deus nas profecias (Elias). Também os discípulos foram envolvidos na contemplação do Pai (cf. Mt 17, 1-9).

• Nas canseiras do anúncio da Boa Nova, muitas vezes deixou os discípulos e subiu sozinho ao monte para rezar. Era ali que o surpreendiam as multidões famintas de graças e de bênçãos.

• No Jardim das Oliveiras, mesmo com os discípulos a dormir, Jesus pede ao Pai que lhe afaste este cálice de dor. “Mas não se faça a minha vontade, ó Pai, mas só a Tua vontade.” (Mt 26, 34).

• Na Cruz, na densidade da maior dor, aceitou cumprir a missão dando a vida, mas, ao mesmo tempo, pede pelos homens prometendo o paraíso a um que com Ele fora crucificado.

Para Jesus, o diálogo com o Pai foi uma constante. Em todas as circunstâncias, descobriu a forma de se relacionar com o Pai e de viver ao ritmo da sua vontade. A oração de Jesus era mais do que um encontro com o Pai, era um compromisso constante.

2. Perguntar-se-á, como é a oração dos cristãos sobretudo neste tempo de Quaresma? Será mesmo encontro, diálogo e compromisso? No mundo de hoje, mesmo os cristãos, quase todos perderam o hábito da oração frequente. O mundo tem muito ruído, as pessoas andam muito atarefadas, a ciência, as filosofias, os interesses ocuparam o lugar de Deus. A ciência tem respostas que dispensam Deus, na solução dos problemas dos homens. As filosofias justificam tudo pela razão, pelo que Deus já não tem lugar como grande arquitecto do universo e garante do agir humano. Os interesses satisfazem-se com o jogo de influências onde Deus não tem lugar. A oração tornou-se artigo dispensável, porque dela não vem qualquer lucro. A perda de fé é uma consequência e a oração é desnecessária. Num mundo assim, torna-se essencial, para o cristão, uma redescoberta da relação com Deus, através da oração, encontro, diálogo, compromisso.

• A oração é encontro. O encontro com Deus supõe alguma intimidade. Razão pela qual Moisés “plantou a tenda da oração fora do acampamento” (Ex 33, 7). Também Jesus disse aos discípulos “fecha-te no teu quarto e ali, a sós com Deus, fala com Ele como um amigo fala a seu amigo” (Mt 6, 6).

• A oração é diálogo. O diálogo exige comunicação, o dar e receber, o transmitir alegrias e dificuldades, esperando logo depois as respostas que dão sentido ao que se está a viver. Com razão o Vaticano II, na Dei Verbum diz que “a Deus falamos quando rezamos e a Deus escutamos quando lemos a Sua Palavra” (D.V.25). É um diálogo vivo.

• A oração é compromisso. Quando se está com um amigo e ele fala, interpela, propõe, sentimo-nos comprometidos a agir, para responder com eficácia a tudo aquilo que motivou a nossa conversa. É assim com Deus, na oração. Eu que vivi a experiência de Deus, comprometo-me a dar continuidade, na vida, a tudo o que na oração “conversei”.

Infelizmente, a maior parte dos cristãos vive orações rituais, normalmente marcadas pela rotina e sem influência na vida que se vive em família, no trabalho, na sociedade.

3. Podem sugerir-se alguns desafios para uma oração mais exigente neste tempo de Quaresma. Para dar-se mais tempo a Deus, na intimidade de um encontro que se quer profundo, fora do barulho do mundo. Podem ensaiar-se conversas com Deus, sabendo que na Palavra de Deus se descobrem respostas para os problemas do dia-a-dia. Podem assumir-se compromissos, para uma vida diferente, de autênticas atitudes cristãs, assumindo a ordem temporal na verdade, na justiça, no amor. Para consegui-lo, há várias propostas:

• A “Lectio Divina”, com a leitura e reflexão sobre a Palavra de Deus. Métodos? É simples: ler, reler, sublinhar, fazer silêncio, e tentar aplicar à vida o que se reflectiu. Um quarto de hora, ou mais, todos os dias.

• A “Liturgia das horas”, com a oração de laudes (de manhã) e de vésperas (à tarde) saboreando os salmos e as pequenas leituras que são desafio para o ser cristão.

• A “Eucaristia ferial”, ao menos uma vez por semana, utilizando a celebração do mistério pascal para uma mais profunda comunhão com Cristo Redentor e Senhor.

• Um tempo especial dado a Maria, eventualmente a celebração dos mistérios da luz, para compreender a riqueza do Rosário na perspectiva da vida cristã.

E tantas outras iniciativas onde não faltarão livros de leitura, conversas em tertúlias, debates sobre temas de actualidade, tudo componentes de uma Quaresma vivida com mais intensidade e verdade cristã.

4. A meio da Quaresma, a Comunidade Paroquial do Campo Grande tem oportunidade de avaliar como está a vivê-la. Não pode acontecer que seja um tempo como os outros. A renovação quaresmal depende de cada um de nós.

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