A QUARESMA, OPORTUNIDADE DE CONVERSÃO – 14 Março 2010

1. Quando se aproxima uma grande festa, está-se atento aos mais pequenos pormenores, para que tudo resulte na perfeição. Pode ser o casamento de um filho, as bodas de prata ou as bodas de ouro dos pais, o doutoramento de um colega que na universidade se distinguiu, uma outra festa qualquer. Em todos há sempre a preocupação de preparar bem esse grande acontecimento. Limpa-se a casa com esmero, arrumam-se os móveis de outra maneira, chamam-se costureiros, escolhem-se toiletes, e tudo isto antes ainda da preparação do banquete – a preparação de uma festa é já vivida num ambiente de alegria e, também, com preocupação de exigência, para que nada falhe. É assim também, na vida cristã, na preparação para a Páscoa. Há lá festa melhor que a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo! Preparar a Páscoa é, sobretudo, viver um processo de conversão, superando rotinas, vencendo comodismos, afirmando valores. Aliás, foi este o pedido constante de Jesus:

• “Convertei-vos, porque o Reino de Deus está próximo” (Mc 3, 2) é o primeiro anúncio de Jesus, a síntese da sua mensagem.

• “Produzi frutos de conversão” (Mt 3,8) é a exigência do Evangelho, uma vez que não basta acreditar, é preciso conseguir que a fé dê frutos em abundância.

• “Quando te converteres, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 23) é o pedido de Jesus a Pedro, para que mudando ele de vida, ajude os outros a mudarem de vida também.

• As parábolas da conversão apontam o caminho, na capacidade de pedir perdão, o Filho Pródigo (Lc. 15. 11/24), na alegria por reencontros que pareciam importantes, a ovelha perdida (Lc 15, 4-7) e a dracma debaixo da arca (Lc 15, 8-10).

• Converter-se, em última análise, é seguir Jesus, como Filipe que, depois de estar com Ele, ouviu o apelo “segue-me” (Jo 1, 43) e toda a sua vida se transformou.

A conversão não é apenas o passar da não fé a uma fé esclarecida, do pecado à graça, do agnosticismo à adesão incondicional a Cristo. A conversão é uma mudança de vida, reconhecendo coisas em que posso mudar ou devo mudar, para uma vida de fidelidade ao essencial, à Pessoa de Jesus.

2. Os sinais da conversão são muitos. Quando o cristão se converte, mudam-se as palavras, os gestos, as atitudes, o que revela a transformação da vida. A conversão supõe a reconciliação com Deus e a reconciliação com os irmãos. Quem reza o Evangelho, cruza-se com expressões lindíssimas, reveladoras da conversão urgente:

• “Quantas vezes podemos perdoar, 7 vezes?” perguntava Pedro, ao que Cristo respondeu 70 x 7, o que quer dizer “sempre” (cf. Mt 18, 21-24).

• Se estás diante do altar e aí te lembras que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a oferenda no altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão” (Mt 5, 21-23), é a exigência do perdão total.

• “Perdoai-nos as nossas ofensas, como nós perdoamos a quem nos ofende” (Mt 6, 12), é a condição para o perdão de Deus, que o homem perdoe primeiro.

• “Se não perdoardes, o vosso Pai não perdoará os vossos pecados” (Mc 11, 25), é o rigor de um pai que ama e espera a circulação do amor em todos, com Deus e com os irmãos.

• “Depois, Jesus envia ao seus discípulos a perdoar em seu nome” (Lc 24, 27) para que o perdão não fique nas suas mãos, mas, por meio dos discípulos, chegue a toda a gente.

Um grande teólogo, Bernard Haering, fez um dia a síntese do perdoar: “Deus perdoa sempre, os homens perdoam às vezes, a natureza não perdoa nunca”. É uma fórmula lindíssima para aceitarmos o perdão de Deus e nos reconciliarmos bem com as pessoas e com as coisas.

3. O grande sinal do perdão, para a conversão verdadeira, é o sacramento da reconciliação. Se os sacramentos são “sinais que exprimem a fé e a fortalecem” (C.D.C Cân 840), a reconciliação revela que o pecador já se reencontrou com Deus pelo arrependimento sincero e, pelo sacramento, manifesta a toda a comunidade o seu reencontro com o Senhor que o ama e que por ele é amado.

• A reconciliação foi instituída por Jesus Cristo como sacramento, na tarde da ressurreição, quando Jesus entrou no cenáculo e disse aos discípulos “Recebei o Espírito Santo, os pecados daqueles que perdoardes, serão perdoados” (Jo 20, 23).

• E Jesus Cristo quis dar a homens pecadores o poder de perdoar. Pedro negou o Senhor, Tomé duvidou ainda da ressurreição, muitos tinham-nO abandonado. Foi a estes que Jesus deu o poder de perdoar. Hoje continua a ser assim, com sacerdotes, também eles pecadores.

• É fácil recorrer ao perdão de Deus. Basta uma atitude de arrependimento, a contrição; uma capacidade do pecador se libertar da culpa, partilhando-a num diálogo amigo; o desejo sincero da mudança de vida, passando do pecado à graça de Deus.

• O pecador que na sua humildade se abre à ternura de Deus, cumpre depois uma penitência, um acto de reparação que outra coisa não é de que o sinal da mudança de vida.

Em cada absolvição que o pecador acolhe e que o sacerdote oferece, significa-se a misericórdia de Deus que, em Jesus Cristo, a todos quer fazer participantes da redenção.

4. No quarto Domingo da Quaresma a Igreja celebra, por antecipação, a alegria da Páscoa que está a chegar. Chama-se Domingo “laetare”, o domingo da alegria. Na liturgia, lê-se a parábola do Filho Pródigo que, por razões meramente humanas, procurou reencontrar-se com o Pai. O amor do Pai provocou nele um arrependimento verdadeiro. E foi a festa na casa paterna. Toda a conversão tem o sentido de festa. O Sacramento da Reconciliação é também um grito de alegria, um tempo de festa. Quando a 17 de Março celebrarmos na Paróquia o Sacramento da Reconciliação, é a festa antecipada da vitória de Cristo sobre as mortes que carregamos na nossa vida – Queremos estar em paz.

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