EPIFANIA – 2 de Janeiro de 2011

 

Adoração dos Reis - Fra Angelico - National Gallery

 

 

«NÓS VIMOS A ESTRELA NO ORIENTE E VIEMOS ADORÁ-LO.»  (Mt 2, 2) 

 

I LEITURA – Is 60, 1-6 

«Brilha sobre ti a glória do Senhor» 

Leitura do Livro de Isaías
Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor. Vê como a noite cobre a terra e a escuridão os povos. Mas, sobre ti levanta-Se o Senhor e a sua glória te ilumina. As nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor da tua aurora. Olha ao redor e vê: todos se reúnem e vêm ao teu encontro; os teus filhos vão chegar de longe e as tuas filhas são trazidas nos braços. Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração, pois a ti afluirão os tesouros do mar, a ti virão ter as riquezas das nações. Invadir-te-á uma multidão de camelos, de dromedários de Madiã e Efá. Virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando as glórias do Senhor.
Palavra do Senhor.  

SALMO – 71 (72), 2.7-8.10-11.12-13 (R. cf. 11) 

Refrão: Virão adorar-Vos, Senhor,
                todos os povos da terra.
 

Ó Deus, concedei ao rei o poder de julgar
e a vossa justiça ao filho do rei.
Ele governará o vosso povo com justiça
e os vossos pobres com equidade. Refrão  

Florescerá a justiça nos seus dias
e uma grande paz até ao fim dos tempos.
Ele dominará de um ao outro mar,
do grande rio até aos confins da terra. Refrão  

Os reis de Társis e das ilhas virão com presentes,
os reis da Arábia e de Sabá trarão suas ofertas.
Prostrar-se-ão diante dele todos os reis,
todos os povos o hão-de servir. Refrão  

Socorrerá o pobre que pede auxílio
e o miserável que não tem amparo.
Terá compaixão dos fracos e dos pobres
e defenderá a vida dos oprimidos. Refrão  

II LEITURA – Ef 3, 2-3a.5-6 

“Os gentios recebem a mesma herança que os judeus.” 

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios
Irmãos: Certamente já ouvistes falar da graça que Deus me confiou a vosso favor: por uma revelação, foi-me dado a conhecer o mistério de Cristo. Nas gerações passadas, ele não foi dado a conhecer aos filhos dos homens como agora foi revelado pelo Espírito Santo aos seus santos apóstolos e profetas: os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho.
Palavra do Senhor

EVANGELHO – Mt 2, 1-12 

A adoração dos Magos

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. «Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O». Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém. Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta: ‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo’». Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela. Depois enviou-os a Belém e disse-lhes: «Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-l’O». Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.
Palavra da salvação. 

EPIFANIA DO SENHOR – Comentários do P.e João Resina (in a Palavra no Tempo II

            O tempo do Natal começa e acaba com duas celebrações que se completam: o nascimento de Jesus e a Epifania. A primeira contempla a entrada na nossa História de Jesus, Filho de Deus, Filho da Virgem Maria. A segunda convida-nos a tomar consciência de que Ele veio para contactar com todos os homens, para nos manifestar o amor de Deus (“epifania” significa manifestação).
            S. Lucas narra a visita dos pastores ao presépio. S. Mateus recorda que houve uma outra visita, a dos magos. Os primeiros eram homens simples e ignorantes, os últimos eram sábios, há muito fixados na esperança do Messiads. Os pastores tinham sido despertados por um anjo e tinham percorrido um breve caminho, os magos tinham meditado longos anos e viajado longos dias. Uns e outros puderam ver o Messias Senhor, o Rei. Hoje, a Epifania está-nos entregue. É a nós, cristãos, que cabe manifestar Jesus Cristo aos homens do nosso tempo. Aos ignorantes e aos sábios, aos ricos e aos pobres, aos apaixonados pela Verdade e aos que descrêm de tudo, aos bons e aos maus.
            Os primeiros cristãos partilhavam com alegria a Boa Nova que transformara as suas vidas: a entrada de Jesus no mundo, a sua Palavra, a sua morte e a sua ressurreição, o reino que ia crescer. Vieram logo a seguir apologistas e teólogos, que começaram a sistematizar a doutrina, a resolver dificuldades. Mas uma coisa se tornou clara desde então: o anúncio fundamental de Jesus Cristo podia ser transmitido por cristãos muito ignorantes; os refinamentos teológicos tinham o seu lugar, mas um lugar secundário. A grande força dos cristãos não estava no seu “saber”, estava na sua identificação com Jesus Cristo, no seu amor sem condições nem fronteiras. Em breve vieram as perseguições: “o sangue dos mártires foi semente de cristãos”.
            Veio depois o tempo em que os cristãos puderam enriquecer e mandar. Imaginaram – como os judeus do Antigo Testamento – que uma Igreja rica e poderosa, com um cerimonial esplêndido, seria para os homens uma manifestação de Deus. Quiseram tutelar a cultura, pretenderam que toda a verdade, nomeadamente a da ciência, tinha de ser passada ao crivo da sua doutrina. Duvido de que este projecto tenha tido alguma vez eficácia. Mas de uma coisa estou certo, hoje é um contra-sinal, uma contra – manifestação de Jesus Cristo.
            Certamente que os cristãos têm de estar presentes em todas as actividades honestas da terra e aí devem dar testemunho de Cristo. Esperamos nomeadamente que os cristão empenhados nos vários campos da cultura mostrem que o cristianismo está em condições de dialogar com os homens e de enriquecer tudo o que é verdadeiramente humano. Mas temos de voltar à pobreza do Evangelho. A Igreja tem de ser uma presença forte e fiel, mas humilde e sem poder. Deve ser fermento, não pode confiscar a vida. Não pode ignorar que o testemunho mais fecundo não é dos sábios, é dos santos.
            As estatísticas mostram que de ano para ano são menos as pessoas que vêm às nossas celebrações, que se casam na Igreja, que mandam os filhos à catequese. Será que nós, em vez de manifestar Cristo, O ocultamos? Será que as nossas homilias, as nossas devoções, os nossos catecismos, ignoram cada vez mais as bem-aventuranças e a cruz e se fixam em coisas secundárias, teologias marginais (há margens à esquerda e à direita…) e formas que irritam a sensibilidade do nosso tempo?
            Uma questão importante é da linguagem. A Igreja soube dialogar com as várias épocas e não teve medo de falar as suas línguas. Importa que, desde as Encíclicas dos Papas às lições de catequese, passando pelas homilias dominicais, a Igreja fale como falam os homens, as mulheres, as crianças do tempo e do país em que se encontra.

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