NA QUARESMA, FAZER-SE PRÓXIMO DOS OUTROS – 21 Março 2010

1. O cristão que aceita todas as exigências do Evangelho facilmente compreende que não é cristão para si mesmo, é-o para os outros. O exemplo de Jesus é claro quando se faz próximo do justo ou do pecador, do crente ou do menos crente, do homem ou da mulher. Jesus tem a mesma atitude para com todos, faz-se perto de todos, não exclui ninguém. Digam-no Nicodemos, sinedrita ou Levi o publicano; confessem-no Zaqueu, um homem rico de Jericó ou a Samaritana, uma mulher simples de Sicar; reconheçam-no o fariseu Simão, grande senhor na sua casa ou a mulher pecadora, desprezada por todos na cidade. Jesus foi ao encontro de todos, e para cada um tinha a palavra ou o gesto que era sempre salvador. Ao leproso disse “vai mostrar-te ao sacerdote”; à mulher adúltera pediu “não tornes a pecar”; a todos os doentes, na piscina probática ou nas ruas de Jerusalém, soube dizer “vai em paz, estás curado” Jesus fez-se próximo de todos os que cruzaram com Ele nas suas vidas.

2. A grande lição do Evangelho é o apelo à proximidade. Quem lê a parábola do Samaritano, compreende-o facilmente. O doutor da lei perguntou a Jesus “e quem é o meu próximo?” Jesus respondeu com a história de um homem, o samaritano, que se fez próximo do outro caído na estrada. Porque era uma pessoa sensível, o Samaritano viu o outro, parou, desceu da montada, pensou-lhe as feridas, pegou nele ao colo, levou-o à estalagem e pagou todas as despesas, isto é, fez-se próximo. Assim sendo, o grande mandato feito aos cristãos é precisamente este “façam-se próximos dos outros homens”. Quantas páginas do Evangelho reclamam a proximidade!

“O que fizeres ao mais pequenino dos teus irmãos é a Mim que o fazes”. Quem quer que seja, o outro precisa de ti e no outro está sempre presente Jesus (cf. Mt 25, 40).

“Em qualquer casa onde entrardes, dai a paz” (Lc 10, 5). A paz é um sinal de amizade, de acolhimento e de serviço humilde e universal. Então “curai os enfermos que lá houver” (Lc 10, 6).

“Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura” (Mt 28, 19). O coração do discípulo é universal, está perto de todos, faz-se próximo para todos, não exclui ninguém, tem uma disponibilidade sem fronteiras.

“Dai a boa nova aos pobres, a libertação aos oprimidos, a liberdade aos cativos, a alegria aos que sofrem” (Lc 4,16-19). Os mais desprezados da sociedade são aqueles que o cristão privilegia, na missão que lhe foi confiada, missão de proximidade solidária, para resolver todos os problemas que enchem de sofrimento os outros homens.

Quando o Vaticano II pede ao cristão para “tratar da ordem temporal e orientá-la segundo Deus, para que progrida e glorifique, assim, o Criador e Redentor, outra coisa não está a pedir se não que o cristão se aproxime de todos os homens e contribua, para que eles sejam felizes.

3. O cristianismo é a religião das relações humanas. São inúmeros os textos do Novo Testamento em quem se afirma o amor para com o outro, como a expressão do amor que se tem a Deus. A 1ª. Carta de S. João, no capítulo IV, multiplica expressões em que se afirma que o amor aos irmãos é o sinal do amor que se tem a Deus. “Como podes amar a Deus que não vês, se não és capaz de amar os irmãos que vês”, “Quem ama a Deus, ame também o seu irmão”, “Se dizes que amas a Deus e não amas o irmão, és mentiroso”. Estas e muitas outras expressões significam que o cristianismo se realiza na relação fraterna, sinal do amor que se tem a Deus. Torna-se urgente, para o cristão, uma relação de proximidade.

A relação com as pessoas que estão mais próximas, especialmente a família, a mulher, o marido, os filhos, os pais, os avós, procurando ser um só, uma família cristã.

A relação com os vizinhos, até porque a família alargada contempla uma relação de entreajuda com os que vivem no mesmo andar, no mesmo prédio, na mesma rua, no mesmo bairro.

A relação com os colegas de trabalho, fazendo brotar mecanismos de solidariedade, de apoio no tempo de dificuldade, de alegria colectiva no tempo de realização, na colaboração constante para resultados melhores e nascidos na competência de todos.

A relação com os amigos do café, os sócios do mesmo clube, os companheiros da mesma tertúlia, os colegas de muitas aventuras em passeios, em tempos de lazer, em fases de descontracção.

A relação com os mais pobres e mais necessitados, numa partilha de bens que ajuda os outros a sair de “buracos” em que, com ou sem culpa, um dia caíram.

O cristianismo, na sua génese, contraria todo e qualquer egoísmo e convida a uma relação constante e universal que abre a porta à construção de uma comunidade viva, em última análise, ao que chamamos Igreja.

4. A Quaresma faz apelo a palavras e gestos de proximidade. Cristo fez-se próximo do homem, aceitando “ser igual a nós em tudo, excepto no pecado” (cf. Hb 4, 15). Jesus ensinou os discípulos a serem próximos de todos, tomando Ele a iniciativa de lavar os pés aos apóstolos e pedindo-lhes para fazerem como Ele fez (cf. Jo 13, 16). O Senhor deu a maior prova de proximidade, dando a vida por aqueles a quem amava. Serão os cristãos capazes de exercer a proximidade na sua vida quotidiana?

Ser próximo pede o conhecer o outro nas suas capacidades e limites.

Ser próximo convida a saber estar com o outro, disponibilizando-se para uma relação de ajuda.

Ser próximo desperta para a solidariedade, chamando à partilha de bens materiais, económicos e sociais.

Ser próximo desafia à comunhão, pondo em comum bens espirituais como a cultura, a alegria, a relação fraterna.

Ser próximo provoca a construção da comunidade, para que todos sejamos um só, como Cristo e o Pai são um só.

O desafio da proximidade pode ser a conclusão normal de um tempo de jejum, de oração e de penitência, a conclusão objectiva da Quaresma.

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