VIVER AO RITMO DO BAPTISMO – 9 de Janeiro de 2011

1. Para terminar o Ciclo do Natal, a Igreja celebra o Baptismo do Senhor. É a passagem da vida privada de Jesus para a sua vida pública. A vida de Jesus na Galileia começa com o seu encontro com João Baptista, o precursor. São lindíssimas as expressões que lemos nos Evangelhos e que apresentam o diálogo de Jesus com João a propósito da sua missão.

“Depois de mim virá quem é maior do que eu e eu não sou digno sequer de lhe desatar as suas sandálias” (Mt 3, 11). Na sua humildade, João faz o primeiro anúncio de Jesus, o Messias.

“Eu é que tenho de ser baptizado por Ti e Tu vens ter comigo?” (Mt 13, 14). É com estas palavras que João quase recusa baptizar Jesus. Mas “é preciso que se cumpram as Escrituras” (Mt 3, 15).

“Este é o Meu Filho muito amado em quem pus todo o meu encanto.” (Mt 3,17) No Baptismo de João foi revelado pelo Pai que Jesus é o Filho de Deus.

“Eis o Cordeiro de Deus, o que tira o pecado do Mundo” (Jo 1, 29). O próprio Baptista indica Jesus ao povo, para que O acolha e O siga.

“Que Ele cresça e que eu diminua” (Lc 3, 30). Expressão maravilhosa do Precursor, reveladora de que a pouco e pouco a Boa Nova trazida por Jesus será conhecida em toda a terra.

“Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3, 16). É o último grito de João Baptista a marcar a diferença entre o seu baptismo e o Baptismo que Jesus instituía.

“Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus…aquele que nasce do Espírito é espiritual.” ( Jo 3, 5-6). Neste dito a Nicodemos, compreende-se que o Baptismo do cristão não é apenas na água, mas é na água e no Espírito.

Nestes textos dos Evangelhos compreende-se a importância do Baptismo para o cristão. Por ele o cristão adere à pessoa de Jesus, aceita segui-l’O sem condições e deixa-se conduzir pelo Espírito, o que o torna de verdade filho de Deus. (cf. Rm 8, 14).

2. O Baptismo, o primeiro sacramento de iniciação, introduz o cristão na Igreja. Pelo Baptismo entra-se oficialmente na família de Deus. É um rito iniciático cheio de cargas simbólicas, que significam a radical mudança de vida do cristão. É certo que a maioria das pessoas, na nossa cultura, foi baptizada em pequenino, sem consciência do que estava a fazer. Mas é por isso mesmo que, repensar o rito baptismal é uma exigência para o cristão adulto, até porque a celebração baptismal por excelência é a que se confere no estado adulto. É nesta perspectiva que se torna importante renovar as promessas do Baptismo. E quais são os gestos simbólicos do rito baptismal?

A entrada no templo significa a chegada à comunidade cristã com o acolhimento que esta proporciona à pessoa que quer tornar-se cristão, membro oficial do Povo de Deus, a Igreja.

A escolha do nome tem uma carga simbólica extraordinária. Durante muito tempo os pais indicavam um nome dum santo, significando assim também uma opção de vida para o seu filho. Havia adultos que no Baptismo mudavam de nome.

A presença dos pais que trazem os seus filhos pequeninos a baptizar é de extraordinária importância, uma vez que se comprometem a educar cristãmente os seus filhos. Tal não seria possível sem o testemunho de vida. São os pais cristãos de verdade que desejam que os filhos sejam cristãos também.

A fonte baptismal, com a água benzida na ocasião, significa a purificação da vida. A oração da bênção faz a história da água no projecto da redenção.

A luz que brilha no círio pascal significa Cristo ressuscitado. O círio tem os sinais de Cristo e foi aceso pela primeira vez na Vigília da Ressurreição. O cristão só tem como luz, a iluminar o seu caminho, Cristo Ressuscitado.

Os óleos santos, perfumados com o bálsamo, aquando da bênção em Quinta-feira Santa, anunciam o testemunho a que todo o cristão é chamado. O perfume permite que o cristão seja conhecido e possa dar testemunho de Jesus.

A veste branca e a vela acesa no círio pascal dão o sentido do que é diferente na vida do cristão. Tem um coração bom iluminado pela luz do Evangelho.

A apresentação à comunidade daquele que se tornou cristão é um rito de alegria para todos os que participam na celebração do sacramento.

Os padrinhos são sobretudo os garantes de que a família que trouxe ao Baptismo aquela criança ou aquele adulto, estão disponíveis para o ajudar no caminho cristão.

Reflectir sobre os ritos simbólicos que envolvem a celebração baptismal pode ajudar cada cristão a rever o seu baptismo e a renovar-se nas exigências que ele contém. O Baptismo não é um acto social, o Baptismo não é ocasião para uma festa, o Baptismo não é o cumprimento de uma tradição, o Baptismo é sobretudo compromisso de vida, para o adulto que o recebe ou para a família que apresenta a criança a este extraordinário rito de iniciação.

3. Viver o Baptismo é assumir compromissos. Tem-nos acontecido na Paróquia haver pessoas que aqui foram baptizadas há muitos anos e que agora pretendem renunciar ao seu Baptismo. Há uma norma canónica para esta renúncia. É necessário, porém, que os cristãos convictos façam o exercício diferente, confirmando-se na fé e reafirmando o seu desejo de serem cristãos de verdade. Isto implica compromissos.

Reconhecer a senhoria absoluta de Jesus Cristo: o cristão não tem outro Senhor, não tem outra referência, não compromete a fé com ideologias, com opções filosóficas ou com práticas contrárias à beleza do Evangelho.

Ter consciência dos próprios erros e dispor-se a superá-los para viver em tudo ao ritmo de Cristo.

Aceitar deixar-se conduzir pelo Espírito Santo, ainda que aparentemente pareça que as exigências de Deus são demasiadas.

Participar na vida da comunidade, quer nas Assembleias dominicais, quer na prática da caridade junto dos mais pobres e dos que mais sofrem.

Dar tempo à oração, autêntico diálogo com Deus, que reforça a coragem de ser fiel até ao fim.

E, finalmente, enformar de valores cristãos a família, o trabalho, a intervenção política, a vida social, a administração económica e mesmo a sensibilidade cultural, uma cultura que não tem medo da transcendência e de se rever no mistério de Deus.

É este repensar o Baptismo que neste dia do Baptismo do Senhor constitui desafio para os cristãos que gostariam de rever-se no projecto de vida que Jesus veio trazer.

4. Hoje, na nossa Paróquia serão abençoadas todas as crianças, especialmente as que foram baptizadas na fonte baptismal da nossa igreja. Que cada um de nós adultos possa repensar o seu próprio Baptismo.

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