A ÚLTIMA SEMANA DA QUARESMA – 28 Março 2010

1. O tempo da Quaresma em que os cristãos se preparam para celebrar a Páscoa termina com uma semana a que os antigos chamaram Semana Maior. É a Semana Santa.
Nas nossas comunidades cristãs, começa com as vésperas de Domingo – o Domingo de Ramos – e termina com a soleníssima missa paroquial, na manhã do Dia de Páscoa. Estes dias eram, na tradição da Igreja, tempo de oração intensa, com celebrações de rara beleza dentro dos templos, com procissões pelas ruas, elemento religioso da história de cada terra, com expressões claras de devoção das gentes que se reuniam nesses dias, com o objectivo único de celebrar a Páscoa do Senhor. Havia um recolhimento sentido que, vivido nas casas, inundava todo o ambiente na convivência normal das pessoas. Com o passar dos anos, todo este clima de espiritualidade se perdeu. A sociedade deixou cair valores, a vida religiosa desapareceu da convivência social, a celebração do mistério de Jesus já não é referência, e caiu-se num certo racionalismo, gerador da total secularização. Ninguém perseguiu os religiosos, a religião é que se perdeu no viver comum da cidade. Como celebrar então a Páscoa, como aproveitar a Semana Santa, o que fazer nestes dias?

Uns vão para o campo, até porque a primavera acaba de chegar, os campos acordam do inverno rigoroso e as árvores começam a sorrir com as primeiras flores.

Outros vão para a neve, a aproveitar o que resta de um tempo que cobriu de branco as montanhas e, depois, correm felizes pelas pistas de ski, saboreando a beleza que se estende a perder de vista.

Muitos preferem a praia, uma vez que o sol, nalguns lugares, já oferece umas tardes saborosas junto ao mar, casamento aprazível de calor e de brisa que convida a descansar.

Alguns ficam por casa, a pôr as leituras em dia, a consultar a Internet, a entreter-se em jogos de playstation, sempre a conversar sobre o que os jornais noticiam e as revistas cor-de-rosa revelam.

Pergunto, sem maldade, será isto a Semana Santa para o cristão? Nada disto é mal. O que é, é insuficiente para quem deseja preparar a Páscoa. E a Semana Santa é tempo único de preparação próxima para a Ressurreição do Senhor.

2. Talvez fosse possível, a par de tudo isto, inserir elementos de espiritualidade nesta semana única. Quando se fala de espiritualidade, há quem pense estar a falar-se de religião, ou mesmo de “beatices”. A espiritualidade é muito mais. Supõe a cultura, as relações e a transcendência. A cultura favorece o enriquecimento da inteligência e da sensibilidade, com os inúmeros padrões que a vida pessoal e de ambiente proporcionam. As relações abrem a porta a um convívio saudável, no encontro com os outros, na partilha desinteressada, na troca de ideias, na alegria geral. A transcendência assegura a ultrapassagem que qualquer ser humano deve conseguir. É que ninguém está satisfeito consigo, quer sempre chegar mais longe. É por isso que, no transcendente, está também a procura de Deus. Viver a Semana Santa com valores espirituais permite:

Ouvir um bom concerto, como a Paixão segundo S. Mateus, de J. S. Bach, oportunidade que recorda, com arte, a paixão e morte de Jesus.

Visitar um bom museu, talvez o de Arte Antiga, para contemplar a fé de um povo, nos Painéis de S. Vicente (Nuno Gonçalves) ou nas Tentações de Santo Antão (Jerónimo Bosh).

Ler um bom livro, como Alegria de Crer e de Viver de François Varillon, ou Milieu Divin de Teilhard de Chardin.

Tudo isto, no entanto, para um cristão é insuficiente. Na Semana Santa, as celebrações pascais desafiam a identificação com Cristo, em todas as situações da vida. E como é bom saber que Cristo, na prova máxima de amor, deu a vida por todos os homens!

3. As grandes celebrações da Semana Maior dão um sentido único à vida de um cristão. Desde Domingo de Ramos, até à alegria pascal no Dia de Páscoa, há um itinerário lindíssimo que vale a pena percorrer.

Domingo de Ramos, com a entrada de Jesus em Jerusalém, celebra-se a glória do Filho de Deus que entra na cidade, não como rei, mas como redentor. É a redenção operada pela Cruz. Por isso, se lê a Paixão.

Quinta-Feira Santa, vive-se o Mistério do Amor, no Sacerdócio de Cristo de que os homens participam, no gesto de amor que o lava-pés significa, na Eucaristia, a Santa Ceia em que o Amor atinge a Plenitude.

Sexta-Feira Santa convida a acompanhar Jesus Cristo na Sua Paixão e Morte. A Cruz, sinal de sofrimento, vai converter-se em sinal de esperança. Que grito o do centurião Romano “Este homem é de verdade o Filho de Deus”.

A Vigília Pascal, na noite de Sábado para Domingo, recorda a cada um o seu Baptismo, nos ritos da água, cantam-se aleluias e tocam os sinos, na aclamação da glória em Cristo Ressuscitado, celebra-se a Eucaristia com Cristo vivo para sempre.

O Dia de Páscoa começa com a procissão eucarística, congrega-se o povo na celebração dominical e vai Cristo Ressuscitado visitar as casas das famílias (tudo isto nos meios mais pequenos). É Cristo vivo que inunda a cidade para a transformar completamente.

Este ciclo dá o ritmo da vida cristã que, também ela, diariamente passa da morte à vida, numa conversão permanente.

4. A Comunidade Paroquial do Campo Grande está a viver a Semana Maior. É o tempo mais importante da nossa vida comunitária. Que a Páscoa do Senhor esteja sempre connosco

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