A INTERVENÇÃO DOS CRISTÃOS NA ORDEM TEMPORAL – 16 de Janeiro de 2011

1. Há na Igreja documentos que não envelhecem, tal a força que têm para movimentar os cristãos para a construção do mundo novo, um mundo de verdade, de justiça e de paz. É o caso da Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Foi em 1965 que o Concílio Vaticano II ofereceu à Igreja este documento notável sobre a intervenção dos cristãos na ordem temporal. Tem duas partes distintas. A primeira para referir a vocação do homem, a comunidade humana e a sua actividade. O Concílio ajuda a estudar a pessoa humana, a relação de todos na construção de uma comunidade de vida e a actividade humana, que permite a realização da pessoa e a construção do bem comum. A segunda parte debruça-se sobre questões concretas das quais depende o desenvolvimento dos povos, a par do culto constante da dignidade e da liberdade humanas. São estes os grandes capítulos que desafiam a intervenção dos cristãos no mundo.

A dignidade do matrimónio e da família: a relação entre o homem e a mulher fundamenta-se no amor uno, indivisível, fiel e fecundo. A família não nasce apenas de um contrato, nasce de um sacramento que exprime a fé de cristãos e fortalece os laços de um compromisso duradouro.

O são fomento do progresso cultural: a cultura transforma por completo as relações entre os homens, pelo que é indispensável que os cristãos se envolvam não só no progresso científico e técnico, mas num quadro cultural que mergulha na sua história.

A vida económica e social: a sociedade alicerça-se numa relação responsável entre todos aqueles que a constituem. A participação de todos com espírito democrático permite mais a ultrapassagem das dificuldades e a construção de um desenvolvimento permanente. O equilíbrio económico, sem ser o mais importante, é então indispensável na forma de viver.
A vida na comunidade política: as pessoas vivem na cidade, são responsáveis pela cidade, têm, por isso, uma intervenção política que empurre a comunidade para o bem-estar, o desenvolvimento, a felicidade para todos. Ninguém pode estar alheio à intervenção política. Todos os cidadãos participam na vida política e devem saber fazê-lo.

A promoção da paz: na comunidade de todos os povos é este o desejo mais importante em toda a família humana. Porém, como é extremamente difícil construir a paz, exige-se um exercício constante da cidadania para que a comunhão entre os povos aconteça, como fruto maduro da compreensão, da reconciliação e da comunhão entre todos.

No texto da Gaudium et Spes aparece uma frase luminosa que obriga a reflectir: “O maior escândalo do mundo contemporâneo é o divórcio entre a fé e a vida, na vida de muitos cristãos” (GS 43). Os cristãos são-no, quando intervêm como cristãos, na família, na cultura, na vida económica, na política, na construção da paz. Se não intervêm alguma coisa fica por fazer.

2. A vocação dos leigos na Igreja consiste em “tratar da ordem temporal e orientá-la segundo Deus, para que progrida e assim glorifique o Criador e Redentor” (LG 31). A maior tentação dos cristãos está precisamente em refugiarem-se numa espiritualidade que os não compromete na vida de toda a gente. Esperam receber de Deus a solução para os seus problemas mas ainda não compreenderam que são eles que têm de enfrentar os problemas da cidade para os resolverem favoravelmente. Como dizia alguém “o novo nome do amor é intervenção”, parafraseando assim um dito de Paulo VI, “o novo nome da paz é o desenvolvimento”. De facto, o amor não é uma ideia que paira sobre a cabeça das pessoas. Transforma-se, quando é verdadeiro, em serviço para uma nova humanidade e é assim que se chama intervenção. São vários os campos onde os cristãos têm o dever de intervir:

No repensar da família, na sua construção, na sua estabilidade, na maneira de ela tornar-se fonte de felicidade para todos. A família tem que reencontrar-se como espaço onde a vida nasce, cresce e se desenvolve para a felicidade de todos (cf. CFL 40).

Na reestruturação da economia, uma vez que é tempo de ultrapassar conceitos neo-liberais, para redescobrir formas novas de participação de todos nos bens, que, no dizer de Paulo VI, a todos pertencem. O destino universal dos bens da terra é tema difícil de encarar e mais difícil ainda de pôr em prática.

Na intervenção política, talvez o campo mais difícil onde os cristãos se deverão mover. Todos os homens querem uma sociedade nova e se interrogam como construí-la. É lógico que não basta participar em actos eleitorais. É urgente contribuir activamente para o destino dos povos. Isso faz-se umas vezes pela denúncia, outras vezes pela proposta, sempre pela participação activa e pela competência nas tarefas que a cada um são entregues.

Na construção da paz, que não é o silêncio das armas mas a atitude de reconciliação com o perdão e a justiça indispensáveis. A paz, porém, é mais do que um valor da relação entre os povos. Ela tem de conseguir-se também nas famílias, no mundo do trabalho, no diálogo político, na igualitarização possível numa sociedade que se quer melhor.

curioso que a Carta dos Direitos Humanos, proclamada em 1948, consagra estas formas de intervenção. Pena é que tenha sido traduzida em reivindicação de direitos e não no assumir de deveres através dos quais todos participavam no bem comum. Num mundo assim, os cristãos têm de ser os verdadeiros intérpretes do mundo novo que os direitos humanos desejavam consagrar.

3. Os cristãos estão presentes na vida da sociedade política. O problema está em como é que intervêm. O Senhor Patriarca, em carta aos sacerdotes, pedia para se manterem suficientemente equidistantes das posições diversas em tempos de eleições. Porém, recordava aos cristãos que era um dever cívico votar, e votarem em consciência, tendo como objectivo o melhor para o presente e o futuro do País. Recordar este dever obriga a discernir claramente como contribuir para o bem comum, sabendo que não há homens perfeitos, todos têm virtudes e defeitos e, sendo os candidatos homens de causas, são as suas causas que motivam a definição da atitude eleitoral. Porém, o problema político não se esgota em eleições. Há outros campos da vida comum que obrigam a atitudes cristãs. É o caso do tempo de crise que exige austeridade, da falta de valores que pede a luta pela verdade e pela justiça, a perda da fé que reclama a clareza dos cristãos na afirmação da sua fé, em todas as situações da vida. Não é fácil ser cristão na vida política. É, porém, indispensável agir como cristão no difícil momento político que em Portugal estamos a viver. A 23 de Janeiro, todos são chamados a participar num acto eminentemente político. O futuro depende da intervenção de cada um.

4. Gostava de convidar os cristãos da Comunidade Paroquial do Campo Grande a estudarem o capítulo 4, da segunda parte, da Gaudium et Spes, sobre a vida na comunidade política, do número 73 ao 81. É que, como cristãos, temos deveres únicos a cumprir. Ninguém nos substitui.

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