PARA A UNIDADE DOS CRISTÃOS – 23 de Janeiro de 2011

1. Ao longo dos séculos foram acontecendo, de tempos a tempos, algumas crises na Igreja. Se as primeiras foram crises doutrinais em que se chegava, facilmente, à heresia condenada pelos Concílios, outras houve, as mais graves, que provocaram roturas profundas na unidade dos cristãos. A estas a história chamou Cismas: o Cisma do Oriente, que deu origem ao surgir das Igrejas Ortodoxas, e o Cisma do Ocidente, que provocou a Reforma da qual nasceram as Igrejas Protestantes.

Foi entre o séc. IX e o séc. XI que várias comunidades cristãs, no Oriente, se separaram da comunhão com o Papa. Fócio e Miguel Cerulário foram os líderes dos movimentos que deram origem às Comunidades Cristãs Ortodoxas. São presididas por Patriarcas e mantêm entre si uma total autonomia.

Depois, no séc. XVI, numa tentativa de purificação da Igreja, Lutero, Calvino e mesmo Henrique VIII deram origem ao Cisma do Ocidente, a Reforma Protestante nascida na Alemanha, na Suíça e na Inglaterra. Os motivos foram diferentes, com boas ou menos boas intenções, mas o resultado foi mesmo a rotura da unidade, multiplicando-se as Igrejas Protestantes que se espalharam pelo mundo inteiro.

Também agora, sobretudo na segunda metade do séc. XX, têm surgido inúmeros grupos, seitas diversas, que recrutam fiéis entre os cristãos, constituindo, de alguma maneira, um “Cisma de Conveniência”. Também elas provocam uma rotura de unidade na Igreja, porque cristãos com uma formação muito deficiente voltam-se para grupos religiosos que lhes oferecem expectativas quase sempre frustrantes.

Todos os cristãos que reconhecem Jesus Cristo como Filho de Deus devem ter presentes as palavras de Jesus aos seus discípulos: “Que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo 17, 20). A unidade é a condição para que todos acreditem em Jesus Cristo.

2. O Movimento Ecuménico nasceu em finais do séc. XIX para gerar a unidade dos cristãos. Ele realiza-se no conjunto de iniciativas e actividades tendentes a provocar o regresso à unidade dos cristãos, quebrando os cismas e as roturas. Há passos do Movimento Ecuménico em que a Igreja Católica se envolveu profundamente. Teve início em duas correntes que levaram à criação do Conselho Ecuménico das Igrejas: “Vida e Trabalho” e “Fé e Constituição”.

Paul Wattson (1863-1940), ministro episcopaliano, co-fundador da comunidade dos Irmãos e Irmãs da Reconciliação, convocou pela primeira vez em 1908 um oitavário de oração pela unidade dos cristãos. Pio X, em 1909, associou-se a esta iniciativa, convidando a Igreja inteira a rezar pela unidade.

Paul Couturier, em 1935, deu um novo impulso ao Movimento Ecuménico, convocando a semana universal de oração pela unidade dos cristãos. Além dos protestantes, também os ortodoxos se associaram. Foi Bento XV que aceitou envolver a Igreja Católica em todas estas iniciativas.

Paulo VI, quase a terminar o Concílio Vaticano II, responsabilizou a Igreja Católica no esforço pela unidade dos cristãos. O decreto Unitatis Redintegratio é a expressão máxima do diálogo ecuménico para uma possível comunhão.

João Paulo II, em 1986 e em 24 de Janeiro de 2002, congregou os cristãos e as outras religiões no Encontro de Assis. Foi um marco na aproximação dos homens e mulheres que com credos diferentes se batem pelas mesmas causas, aquelas que podem trazer novos valores à humanidade.

Bento XVI continua este esforço ecuménico, não apenas na abertura à Igreja Anglicana como, sobretudo, convocando para Outubro o terceiro Encontro de Assis, na procura da paz.

Se a etapa primeira do movimento ecuménico foi o encontro de Edimburgo em 1910, hoje todas as Igrejas cristãs, com a Igreja Católica à frente, lutam pelo diálogo necessário e pelas acções comuns que, passo a passo, vão gerando a unidade.

3. Foi o Concílio Vaticano II que definiu claramente, na Igreja Católica, o propósito da unidade. Em 7 pontos João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, marcam o caminho a percorrer no diálogo com todas as igrejas cristãs. São 7 passos, todos eles difíceis mas necessários para a construção da unidade desejada, à volta de Jesus Cristo, Senhor.

A renovação da Igreja, deixando os proselitismos e abrindo-se à sensibilidade das outras confissões cristãs.

A conversão dos corações, porque só um coração disponível é capaz de aceitar e entender o diferente.

A oração com os irmãos separados, porque todos adoramos o mesmo Deus, seguimos o mesmo Cristo e nos amamos uns aos outros.

O mútuo conhecimento fraterno, porque ninguém ama o que não conhece e o encontro de irmão é sempre estímulo para chegar mais longe.

A formação ecuménica dos sacerdotes, dos religiosos, de todos os fiéis, porque a todos é necessária uma sensibilidade de encontro, de perdão, de reconciliação, de amor.

As assembleias de diálogo entre fiéis e teólogos das várias confissões religiosas, como forma privilegiada da fé em Jesus Cristo, fundamento do ser cristão de cada um.

A mútua colaboração entre as confissões religiosas no serviço à humanidade, quer em tempos de crise, quer em tempos de prosperidade e de paz.

Todas estas linhas de acção foram definidas pelos Papas para que o Movimento Ecuménico se torne opção de acção pastoral na Igreja Católica.

4. A semana da oração para a unidade dos cristãos está como habitualmente em curso entre 18 e 25 de Janeiro. Termina precisamente na festa da Conversão de S. Paulo, o Apóstolo dos gentios, expressão da universalidade da mensagem de Jesus. Jesus veio para todos e para que todos sejamos um só. Bento XVI escolheu um texto dos Actos dos Apóstolos para o considerar tema desta semana ecuménica. A partir de um grupo ecuménico que se reuniu em Jerusalém, o tema da oração é este: Unidos no ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, na fracção do pão e nas orações. (Act 2, 42). O tema foi escolhido pelo Conselho Pontifício para a unidade dos cristãos e a Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial das Igrejas. Sublinham-se os objectivos:

Palavra: à luz da Palavra de Deus é mais fácil criar-se unidade.

Comunhão: é numa relação profunda sem preconceitos que é possível fazer irmãos.

Eucaristia: na fracção do pão celebra-se acção de graças pelos dons de Deus recebidos por todos.

Oração: o encontro com Deus faz-se melhor quando juntos nos damos as mãos a pedir a graça da unidade.

Pode dizer-se que a súplica de Jesus, na oração sacerdotal, “que todos sejam um” (Jo 17, 21) é uma exigência para os cristãos na procura e no compromisso de chegarem à unidade. Por isso se celebra a semana de oração pela unidade dos cristãos.

5. Na nossa Paróquia do Campo Grande todos estamos envolvidos na oração pela unidade. Por isso, na noite de 22 de Janeiro, reunimo-nos com outras confissões cristãs, pedindo ao Senhor a graça de nos reencontrarmos, apesar dos difíceis caminhos percorridos através dos séculos. A nossa oração ecuménica é também uma súplica para a conversão do coração de cada um. Pode fazer-se nossa a oração de Ezequiel “Tira Senhor do meu peito um coração de pedra, e põe nele um coração de carne, um coração capaz de amar” (Ez 36,26).

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