1. Na velha tradição dos povos cristãos, antes de entrar na Quaresma, tempo de austeridade, viviam-se alguns dias de intensa alegria. Era o carnaval, do latim carne vale, o que quer dizer, “adeus à carne”, isto é, adeus à mesa com suculentos manjares. A quaresma era tempo de penitência, o carnaval tempo de alegria esfusiante, a quaresma tempo de silêncio, o carnaval tempo de barulho ensurdecedor, a quaresma tempo de tranquilidade e conversão, o carnaval tempo de festa inesgotável. Daqui resultou a paganização do carnaval, dando origem a todos os excessos. Quem não conhece o Carnaval do Rio, e outros carnavais que terminam com pessoas que morrem ou que vão parar aos hospitais. Na tentativa de retomar a dimensão cristã do carnaval, em algumas cidades são as comunidades, de inspiração cristã, que enchem de alegria as praças, as ruas, com festões os mais diversos, com cortejos cheios de crítica, com cantares carregados de ritmo. Toda esta alegria pode ter uma marca cristã. O cardeal Lercaro, Arcebispo de Bolonha nos anos 60, organizava os carnavais da sua cidade, contrariando o dito de que “no carnaval nada tem mal”. Nesta cidade do Norte da Itália, eram os jovens cristãos que assumiam a alegria geral e contagiavam todas as populações com o seu “fazer festa”. É neste contexto que se justifica uma reflexão profunda sobre a verdadeira alegria.
2. Há a sensação de que, no mundo de hoje, se perdeu o sentido do humor. Pelas dificuldades do tempo presente parece que as pessoas perderam a capacidade de rir, de transmitir alegria, de descobrir o lado positivo das coisas. As pessoas andam amarguradas, e já não sabem como comunicar de uma maneira positiva, transmitindo a alegria que perderam. É urgente, então, descobrir o sentido novo da festa, na relação entre as pessoas, de tal maneira que a descontracção, a partilha, o fazer felizes os outros, seja moeda corrente mesmo nas expressões de humor.
• Saber dizer uma graça que não ofende, descontrai, alivia e estabelece uma corrente geral de paz, mesmo quando as pessoas têm preocupações.
• Atirar uma boa piada que desconcerta sem ferir, é expressão de proximidade, de confiança, de simplicidade que transmite ternura e mesmo amor.
• Contar uma anedota com pormenores que prendam os amigos até ao final inesperado é uma arte que cria relação feliz entre pessoas as mais diferentes.
• Dar uma boa gargalhada perante uma situação engraçada rompe a tensão e contagia levando todos a sorrir também.
• Pregar uma partida inocente que surpreende sem magoar, que tenha graça sem ridicularizar, abre caminho à alegria geral permitindo comentários que fazem crescer o à-vontade, que aumenta a simpatia e o ambiente de gente feliz.
Tudo isto são sinais de grande humor que dão à vida um tom diferente de boa disposição e de alegria a circular entre todos.
3. Infelizmente, os humoristas deixaram de ter graça. Pode ter sido por falta de cultura, pelo pessimismo na vida, pelas crises que se acumulam. O certo, porém, é que se precisa do humor para ultrapassar as dificuldades e encontrar forma de enfrentar a vida, descobrindo novos caminhos, para além da crítica que o humor contém. Quem não recorda os humoristas do passado? Vasco Santana, Ribeirinho, António Silva, não precisavam da piada brejeira para aliviar as tensões que, ao tempo, o povo suportava. Raul Solnado, Mário Viegas, Badaró, conseguiam críticas generosas que abriam porta a novos projectos, capazes de galvanizar a gente. Tantos outros poderiam ser recordados: com graça fácil, mas também com o sentido da dignidade de cada um a salvaguardar sempre os sonhos de um futuro melhor a construir com alegria. As televisões, as rádios, como os filmes e as peças de teatro devem ser espaço de cultura onde a partir da graça, bem estruturada, se faz crítica política, se ensaiam propostas de mudança, se perspectivam futuros melhores. Também no bom humor é preciso mudar a cidade. O mau humor cria revoltas que destroem gente e impedem a mudança de atitudes. É assim em algumas situações:
• A graça política, sendo essencial na crítica que contém, não pode destruir as pessoas que têm uma dignidade própria. Já dizia um autor que “a crítica é fácil e a arte difícil” (Boileau). O humor na política tem que ser uma arte.
• A graça social ridiculariza muitas vezes pessoas que são humilhadas eventualmente pela sua extravagância. Será que essa graça ajuda as pessoas a descobrirem que vale a pena ser diferente? Esta seria a função normal da crítica social, chamando todos à liberdade e à dignidade de gente sã numa sociedade melhor.
• Os sketches de rádio e televisão, pretendendo ter graça, são muitas vezes pornográficos e até obscenos, favorecendo uma subcultura que não ajuda a comunidade humana a crescer para valores diferentes assentes na dignidade humana.
• As festas cheias de barulho nos bares ou nas discotecas são muitas vezes “lavagens ao cérebro”, proporcionando atitudes de que mais tarde muitos se arrependem.
A sociedade de hoje cria formas de alegria que, como dizia alguém, têm sabor a “papel rasgado”, são reveladoras de um vazio que não torna a gente feliz. A alegria, a alegria verdadeira tem de ser outra coisa.
4. S. Paulo na Carta aos Gálatas diz que há a liberdade dos instintos e a liberdade do Espírito. Os frutos da primeira são as imoralidades, as rixas, as brigas, as contendas, os ciúmes, os excessos. Os frutos da liberdade do Espírito são o amor, a alegria, a paz, a benevolência, o domínio de si próprio. Com uma sabedoria inspirada no Evangelho de Jesus, Paulo veio dizer que a verdadeira alegria é fruto do Espírito Santo. Sem dúvida que nasce no coração, um coração tranquilo e pacificador, mas transmite-se nas palavras, nos gestos, nas atitudes, no viver comum em que todos se intercomunicam transmitindo a festa que vai nos seus corações. É esta alegria, vivida em família, partilhada no grupo social, celebrada nestes dias que precedem a Quaresma, é esta alegria diferente que se deseja a todos os membros da nossa comunidade. Bom tempo de Carnaval.