“O TENTADOR APROXIMOU-SE E DISSE-LHE: «SE ÉS FILHO DE DEUS, DIZ A ESTAS PEDRAS QUE SE TRANSFORMEM EM PÃES». JESUS RESPONDEU-LHE: «ESTÁ ESCRITO: “NEM SÓ DE PÃO VIVE O HOMEM, MAS DE TODA A PALAVRA QUE SAI DA BOCA DE DEUS”» (Mt 4, 3-4)
I LEITURA – Gen 2, 7-9; 3, 1-7
«O pecado original»
Leitura do Livro do Génesis
O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?». A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’». A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal». A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu fruto da árvore e comeu; depois deu-o ao marido, que comeu juntamente com ela. Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.
Palavra do Senhor.
SALMO – 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)
Refrão: Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós. Repete-se
Ou: Tende compaixão de nós, Senhor, porque somos pecadores. Repete-se
Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia,
apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas. Refrão
Porque eu reconheço os meus pecados
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.
Pequei contra Vós, só contra Vós,
e fiz o mal diante dos vossos olhos. Refrão
Criai em mim, ó Deus, um coração puro
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Não queirais repelir-me da vossa presença
e não retireis de mim o vosso espírito de santidade. Refrão
Dai-me de novo a alegria da vossa salvação
e sustentai-me com espírito generoso.
Abri, Senhor, os meus lábios
e a minha boca cantará o vosso louvor. Refrão
II LEITURA -Forma longa Rom 5, 12-19
O bem é mais forte que o mal.
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos: Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens. E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação. Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos.
Palavra do Senhor.
II LEITURA – Forma breve Rom 5, 12.17-19
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos: Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos.
Palavra do Senhor.
EVANGELHO – Mt 4, 1-11
A tentação no deserto.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo deixou-O e aproximaram-se os Anjos e serviram-n’O.
Palavra da salvação
I DOMINGO DA QUARESMA
A Quaresma é o tempo da conversão: libertação do pecado, procura de uma fidelidade maior.
O Evangelho desta missa (Mat 4,1-11, com paralelo em Luc 4,1-13) fala de tentações. Ser tentado é ser atraído para o mal. Pelo nosso egoísmo, vaidade ou sensualidade, pela civilização em que estamos inseridos, por alguém que contacta connosco. A tentação não é ainda pecado, pecado é ceder à tentação.
S. Mateus e S. Lucas contam que, após o baptismo no Jordão, Jesus foi rezar para o deserto pedregoso da Judeia e aí foi tentado pelo demónio. O demónio ter-lhe-ia feito três propostas: que transformasse as pedras em pães para matar a fome que sentia; que subisse ao pináculo do templo e se lançasse no vazio para deslumbrar a multidão; que negociasse com ele o domínio do mundo. Pensam alguns exegetas que estes textos são a transposição das tentações que Jesus teve de enfrentar ao longo da sua vida.
O demónio não conhecia a divindade de Jesus, via nele um profeta extraordinário. Mas com base na sua larga experiência dos homens, achou que valia pena tentá-lo. Sabia que a fé é a grande força do crente, mas sabia igualmente que a fé é às vezes muito dura. Perante o espectáculo do mal no mundo, o crente pode duvidar se Deus existe, ou então pode pedir-Lhe um sinal. “Tens mesmo a certeza de que és o Filho de Deus? Então, por que não transformas estas pedras em pães?” Dostoievski, num texto célebre, imagina que a pergunta era mais forte: “E, se queres converter os homens, por que não começas por lhes dar pão, transformando as pedras que forem precisas?” Tentação que se assemelha à segunda: “Por que te não lanças no vazio, num milagre que os deslumbre?”
Jesus não responde à insinuação “Se és o Filho de Deus…”. A fé está para além de discussões deste tipo. Mas responde que nem só de pão vive o homem. Neste momento tem fome porque resolveu fazer jejum. Não se arrepende, muito menos vai empenhar o sobrenatural na solução.
Também não vai suscitar a conversão dos homens realizando maravilhas ou distribuindo pão. Sabe que os homens precisam de pão, mas a conversão não pode ser objecto de negócio. É claro que, com isto, sabe que perde conversões e perderá o apoio da multidão quando Pilatos perguntar: “Qual quereis que vos solte: Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo ?”(Mat 27,17).
É verdade que Jesus ensinou que os homens podem e devem pedir a ajuda de Deus. Mas é na noite do Jardim das Oliveiras que nos ensina o mais fundo, quando reza: “Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice. Mas não se faça o que eu quero, e sim o que tu queres.” (Mc 14,36 = Mat 26,39 = Luc 22,42). Deus colocou-nos neste mundo onde há verdade e amor, mentira, injustiça, morte e sofrimento. Pediu-nos que enfrentássemos esta condição com fidelidade e coragem. Veio depois, na pessoa do Filho, experimentar este destino. Jesus tem a humildade de pedir ajuda. Acredita que o Pai o pode salvar. Mas não sabe se o Pai lhe vai fazer a vontade ou lhe vai pedir que, para a salvação de todos os homens, aceite a cruz. Diz antecipadamente que sim; e, como o Pai se mantém em silêncio, compreende que é essa a sua vontade.
A terceira tentação é a mais descarada, mas só parece estranha a quem não conhece este mundo. “Tu disseste que são bem-aventurados os pobres, mas claro que não és tão lunático que ignores a força do dinheiro e do poder. Olha que precisas de dinheiro para construir igrejas, criar universidades, abrir novos meios de comunicação social. E precisas de dinheiro para os pobres. Precisas de que os governantes não te barrem o caminho. Sabes que eu me dou bem com os banqueiros, com os políticos, com os que mandam. Vamos fazer uma aliança: eu consigo que eles te dêem o que precisas, tu finges que não conheces os meus projectos e acções.”
Jesus não caiu nesta esparrela. Mas nós?
Pe. João Resina Rodrigues – (texto publicado neste site em Fevereiro de 2008)