1. Com a Quarta-feira de Cinzas começa o caminho de preparação para a Páscoa. A Quaresma, enquanto tal, só foi instituída no Concílio de Niceia, em 325. Sendo a Ressurreição do Senhor o grande acontecimento para os cristãos, impunha-se preparar para ele toda a comunidade, e sempre com maior exigência. Tal aconteceu com os primeiros cristãos que, depois do Pentecostes, passaram a celebrar o Dia do Senhor em cada domingo. Havia um domingo, porém, que era a festa de todas as festas. Era o Domingo da Ressurreição, na Páscoa do Senhor.
• Na comunidade de Jerusalém celebrava-se já o Tríduo Pascal. Quinta-feira estava consagrada ao mandamento do amor, com a Santa Ceia, Sexta-feira recordava-se a Paixão e Morte de Jesus, com a adoração da Cruz e, na madrugada de Domingo, os cristãos celebravam festivamente a Ressurreição de Jesus, na Vigília Pascal.
• No séc. II, sentiu-se que o Tríduo Pascal era insuficiente para celebrar a Páscoa cristã. Por isso, as comunidades começaram a consagrar uma semana inteira, com leituras da Palavra e esforços de conversão.
• No séc. III, as exigências de uma preparação cuidada, levaram as comunidades a consagrar três semanas para, em atitude de renovação e penitência, todos se prepararem para a Ressurreição do Senhor, na Vigília Pascal, quando os catecúmenos fossem baptizados.
• Só no séc. IV, porém, foi instituída a Quaresma. O Concílio de Niceia no ano de 325, depois de o cristianismo ser aceite no Império, propôs 40 dias de caminho, na oração e na penitência, como forma de preparação próxima para a celebração pascal.
Compreende-se que não é possível celebrar a Páscoa sem um tempo de conversão em que cada um se renova para ser sempre mais fiel às exigências do Evangelho, com a identificação plena com Cristo na sua Paixão, Morte e Ressurreição. Se toda a vida do cristão está centrada na alegria pascal, a festa da Páscoa tem de ter uma preparação exigente, renovadora de todo o sentir, amar e servir, valores próprios do cristão.
2. Bento XVI, na habitual mensagem para a Quaresma, convida as comunidades cristãs a viverem estes 40 dias como “caminho de purificação no Espírito, a fim de aurir, com mais abundância, o mistério da Redenção, a vida nova com Cristo Senhor”. O Papa centra a sua mensagem no viver do Baptismo: “sepultados com Ele no Baptismo, foi também com Ele que ressuscitastes” (cf. Col 2, 12). O Baptismo não é uma coisa do passado, é antes o encontro renovado com Cristo que enforma a vida toda do baptizado na vida divina e na chamada a uma conversão sincera e contínua. Então o baptizado faz da Quaresma um itinerário que o leva ao encontro de Cristo Ressuscitado. É assim o caminho de preparação para a Páscoa, que, através de seis domingos convida a uma renovação interior profunda.
• A nossa condição humana neste tempo está significada nas tentações que Cristo sofre no deserto. As tentações são sempre as mesmas: o ter, o poder e o prazer. O cristão é convidado a dizer não, porque conhece Deus, e reconhece a Sua vontade. (1º Domingo).
• Cristo na Sua glória anuncia a divinização do homem. A transfiguração no Monte Tabor desafia o cristão a deixar-se também transfigurar para poder, com valores novos, transformar a humanidade. O cristão que aceita Jesus Cristo pode, de facto, transfigurar-se e ser testemunha no mundo. (2º Domingo).
• A sede de Jesus exprime a Paixão de Deus pelos homens. No diálogo com a samaritana Jesus não hesita em pedir água, mas aquela mulher acabou por pedir também água para a vida eterna. O cristão já tem sede de Deus, já pode beber desta água viva, já pode anunciar a todos que Jesus é o Salvador. (3º Domingo).
• Cristo é a luz do mundo. O cego de nascença foi surpreendido pela ternura de um homem que ele não conhecia. Quis ver e Jesus foi para ele a luz que mudou radicalmente a sua vida. Jesus abre o nosso coração à luz da fé, para aceitar definitivamente que Ele é o único Senhor. (4º Domingo).
• Enfrentar o mistério da Morte permite, em Jesus, acreditar na vida. A ressurreição de Lázaro convida a compreender o mistério da morte. Lázaro ressuscita para a vida antiga e voltará a morrer. O homem, tocado por Jesus, depois da morte viverá para sempre. É o mistério da nossa existência cruzada com a certeza da nossa fé. (5º Domingo).
• A entrada de Jesus em Jerusalém reflecte o bem e o mal, a alegria e o sofrimento, o êxito e o fracasso. O mistério do homem no seu claro-escuro é vivido por Jesus Cristo com toda a intensidade. A leitura da Paixão de Cristo permite entender a paixão do homem e como Cristo entra nela para operar a Redenção. (Domingo de Ramos).
Com o Tríduo Pascal, ao viver o mistério de Jesus, morto e ressuscitado, completa-se a conversão de cada um, na medida em que a caminhada quaresmal foi tempo de preparação e compromisso.
3. A Quaresma é considerada nas comunidades cristãs como tempo privilegiado de oração, de penitência, de conversão. Na nossa Comunidade Paroquial tomamos como “slogan” a Palavra de Pedro na sua Primeira Carta: “dar a razão da esperança que há em nós” (1 Pe 3, 15). Importa por isso testemunhar a nossa alegria pela Ressurreição de Jesus, e para tanto dar alegria aos outros fazendo-os ressuscitar também. Na Comunidade Paroquial procuraremos:
• A renovação pessoal, que depende de cada um na avaliação do ser cristão, na reconciliação com Deus e com os irmãos, na oração programada e na efectiva mudança de vida.
• A transformação comunitária, que pede um serviço generoso aos mais pobres, mas também um encontro fraterno na afirmação de comunhão profunda e ainda nas celebrações rituais expressão do amor que circula entre todos na sua relação com Deus.
• A partilha de bens, que se concretiza no contributo penitencial, que se entregará ao nosso Bispo para ajuda às comunidades mais pobres.
• A celebração festiva, que acompanha toda a Quaresma, porque mesmo o tempo de penitência é tempo de alegria na esperança da Ressurreição.
• A alegria pascal, que irradia na comunidade com a certeza de Cristo Ressuscitado, com o baptismo dos catecúmenos, com o mistério de comunhão total vivido entre todos os crentes, com a certeza de que o Senhor está connosco, isto é, está com todos os membros da Comunidade Paroquial.
Viver a Quaresma é um desafio para qualquer comunidade cristã. É-o também para todos e cada um de nós.
Desejamo-nos uns aos outros uma boa Quaresma. Entreajudamo-nos na busca constante da reconciliação e do amor. Afirmamos sempre mais a nossa fé na Ressurreição. Por Cristo, com Cristo e em Cristo, queremos viver uma Santa Quaresma.