O JEJUM QUARESMAL – 20 de Março de 2011

1. A entrada na Quaresma convida a três atitudes essenciais, à renovação espiritual, que é a preparação para a Páscoa. O jejum, a oração e a esmola são práticas de austeridade que desafiam a uma exigência maior na vida do cristão. Convém, no entanto, sublinhar que o jejum que hoje se propõe não é o jejum vivido na simples ausência do comer e do beber. Todas as religiões contemplaram o jejum como caminho espiritual. Os israelitas praticavam-no como expressão ritual e social, forma de expressão do luto pela morte de alguém, mas também o usavam como forma de penitência. Quem não recorda a alegoria de Jonas que, enviado a Ninive para anunciar a justiça de Deus, encontrou no povo uma extraordinária capacidade de jejum, vestindo-se de saco, sentando-se sobre a cinza, rapando o cabelo e vivendo em austeridade radical. Era o jejum numa expressão social que agradou a Deus. Alguma coisa de semelhante acontece no islamismo. Uma vez por ano, e durante um mês, os muçulmanos celebram o Ramadão, tempo de jejum total, durante o tempo em que é dia, do nascer ao pôr-do-sol. Segundo o Corão, este jejum é também forma de purificação. Neste contexto religioso compreende-se que os cristãos queiram utilizar o jejum como forma de renovação espiritual, na sua preparação para a Páscoa. Quer no A.T., quer no N.T., aparecem referências que oferecem o verdadeiro significado do jejum.

O jejum não pode ser hipócrita. S. Mateus, no seu Evangelho, é muito claro: não jejuem para serem vistos pelos homens, mas quando jejuarem perfumem a cabeça e lavem o rosto para ninguém notar a exigência com que pautam a sua vida, caso contrário já teriam recebido a recompensa (cf. Mt 6, 17-18).

O jejum foi vivido por Jesus, no início da sua vida pública, como preparação para a missão que ia realizar: foi levado pelo Espírito ao deserto onde jejuou 40 dias e 40 noites; pôde então dizer ao tentador, nem só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que vem da boca de Deus (Mt 4, 4).

O jejum verdadeiro, já na voz dos profetas consistia no cuidado a ter com os pobres, no sustento dos órfãos e viúvas, na preocupação constante pelos que mais sofrem (cf Is 1, 17-23; Jb 29,13).

O jejum consiste na aceitação incondicional da vontade de Deus. Nas aparições de Nossa Senhora a Lúcia em Pontevedra, pode ler-se: o verdadeiro jejum que eu peço e exijo é o cumprimento dos mandamentos da lei de Deus, e da observância dos deveres de estado (cf. Memórias de Irmã Lúcia).

Nestes e em tantos outros textos, facilmente se compreende que o jejum é muito mais do que a privação de alimentos, é uma atitude de austeridade, assumida livremente, como processo de purificação e exigência de uma vida mais identificada com o projecto de Deus.

2. A sociedade de hoje tem muitas formas de viver o jejum. Não são expressão religiosa, mas são o culto de novas divindades que se vão impondo às pessoas que, perdendo o sentido de Deus, não deixam de descobrir outros cultos aos quais tudo sacrificam.

Jejua-se por razões de estética para não aumentar o peso ou desfigurar a silhueta. As medidas exigidas aos manequins nas passerelles, são referência para muitos jovens e alguns adultos.

Jejua-se por razões higiénicas de tal forma que se estudam as calorias de cada alimento, seleccionando os consumos, a ponto de que tudo possa corresponder à prática alimentar recomendada pelos manuais.

Jejua-se por razões de saúde, uma vez que há produtos que são extraordinariamente negativos para o organismo e que cada um sabe dever controlar. É o caso do açúcar com os diabéticos, o caso dos produtos que causam alergia, ou os que chocam com as doenças genéticas com as quais pode-se ter nascido.

Jejua-se também, infelizmente, por razões sociais, quando a falência das políticas dão origem à fome na comunidade humana. É trágico que pessoas possam morrer à fome numa sociedade hoje caracterizada como sociedade da abundância.

Jejua-se por razões de egoísmo, quando alguém não é capaz de dar um pão e um copo de água a quem no sofrimento máximo pede ajuda para sobreviver ou para dar de comer a um filho pequenino. Sendo de avaliar cada situação, no entanto, um pão e um copo de água nunca podem recusar-se. Os jejuns forçados têm de ser vencidos.

É mesmo uma sociedade onde o jejum pode não ter nenhuma razão religiosa, mas que convive com os cidadãos nas mais pequenas opções do dia-a-dia.

3. Os cristãos têm de aprender a jejuar, não tanto na privação dos alimentos, mas na mudança radical de estilos de vida. Há gestos extremamente generosos, mas que podem ser insuficientes. Na Quaresma não comer chocolates, renunciar a todos os doces, deixar de fumar, não beber álcool, não ir a espectáculos, ou coisas semelhantes, são atitudes muito significativas do esforço que cada um quer fazer. Porém, o mais importante, no verdadeiro jejum, está em conseguir uma fidelidade aos dons de Deus que abrem o coração à dádiva ao próximo. Como diziam os padres do séc. II: o que economizares no jejum que fizeres, contabiliza-o e dá-o ao próximo mais próximo que tem necessidade maior. É o jejum convertido em caridade. Formas de jejum para o nosso tempo, podem ser estas:

A ocupação do tempo. O tempo é um maravilhoso dom de Deus. Desperdiçá-lo é contrariar o que Deus tinha o direito de pedir. Orientar o tempo livre para os outros, para quem está só, ou está doente, ou foi abandonado pelos mais íntimos, é forma de jejuar.

A descoberta da proximidade. Na grande cidade as pessoas passam umas pelas outras sem se conhecerem. São as mesmas no mesmo horário do autocarro, são as mesmas no café do bairro, são as mesmas na Eucaristia da Igreja Paroquial que frequentam, são as mesmas na mercearia ou nas outras lojas da rua, porém, não se saúdam nem se cumprimentam. Reconhecer os outros e estabelecer com eles um dinamismo de proximidade é importante forma de jejum.

A partilha de bens. Pôr em comum com outros alguns dons recebidos de Deus, como o sorriso, a palavra, a ajuda concreta, a par de alguma generosidade material, são também expressão de jejum porque implicam a renúncia de si mesmo para, na preocupação pelos outros, os fazer felizes.

A austeridade e a simplicidade. Uma certa reserva neste tempo de Quaresma, procurando tempos de silêncio, momentos de oração mais intensa, disponibilidade para todos, como forma de relação com Deus presente em cada um, são momentos de jejum em que, libertos do egoísmo, cada um se abandona em Deus para servir os irmãos.

Estas e muitas outras maneiras de jejuar convidam a fazer da Quaresma um tempo de alegria pascal, em que cada situação de renúncia pessoal, a nossa paixão e morte, se torna razão de festa para os outros, a saborearem já a ressurreição.

4. A nossa Comunidade, ao repensar o jejum quaresmal, não esgota a criatividade de ninguém. Cada um à sua maneira, deverá inventar o seu jejum, para com ele se relacionar melhor com Deus, e aliviar mais o sofrimento dos irmãos. Continuo a dizer: Bom caminho para a Páscoa.

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