DEUS É RICO EM MISERICÓRDIA – 1 de Maio de 2011

1. O Papa João Paulo II instituiu em Maio do ano 2000 no segundo domingo da Páscoa, a Festa da Divina Misericórdia. Com esta decisão o Papa respondia ao apelo de Santa Faustina, uma religiosa polaca que em 1931 tivera uma visão de Jesus com sangue e água a jorrarem do seu coração trespassado. A água, dizia a vidente, significava a transparência de quantos, fiéis à mensagem do Evangelho, seguiam Jesus com o coração puro. O sangue significava a purificação de quantos, apesar de pecadores, se tinham reencontrado com a Misericórdia de Deus. É que, como diz o salmista, o nosso Deus é “lento para a ira e rico em misericórdia” (Sl 145, 8-9). O Senhor Jesus participa eternamente desta misericórdia do Pai.

Jesus é o Filho de Deus dado ao mundo pelo Pai na sua eterna misericórdia. “Deus amou de tal forma a humanidade que lhe deu o seu próprio Filho Unigénito” (Jo 3, 16).

Jesus revela que Deus perdoa todos os pecados em parábolas muito simples, do filho pródigo, da dracma perdida, da ovelha que se tresmalhou (cf Lc 15) nas quais se percebe perfeitamente como “Deus perdoa sempre” (Mt 18, 21).

Jesus compadece-se dos pobres e dos aflitos revelando-se assim cheio de misericórdia: “Vinde a mim todos os que andais cansados e oprimidos, que vos aliviarei” (Mt 11, 28).

Jesus privilegia as crianças e os simples exercendo sobre eles toda a sua ternura: “deixai vir a mim os pequeninos, só quem se tornar simples como eles entrará no reino de Deus” (Mc 10, 14).

Jesus manifesta-se em tudo cheio de amor e o amor não é possível sem um coração misericordioso. A sua grande misericórdia é fonte de esperança (cf. 1Pe 1, 3-6).

João Paulo II foi um arauto da Misericórdia de Deus. Na sua encíclica Dives in Misericordia afirma claramente que ao cristão não basta ser justo, mas em comunhão com o Pai, por Cristo, deve deixar-se possuir pela misericórdia. Só assim cumprirá o código das Bem-Aventuranças onde pode ler-se “Bem-Aventurados os que usam de misericórdia porque alcançarão misericórdia também” (Mt 5, 7).

2. Jesus Cristo na sua mensagem convida todos os homens a deixar-se possuir pela misericórdia: “Sede misericordiosos como o vosso Pai do Céu é misericordioso” (Lc 6, 36). Quem lê o Evangelho de Mateus compreende que a justiça proclamada por Jesus desafia à misericórdia universal. É ao descrever o juízo final que o Senhor se volta para os eleitos e diz: “vinde benditos de meu Pai possuir o reino que vos está preparado, porque tive fome destes-me de comer” e acrescenta “o que fizeste ao mais pequenino dos teus irmãos foi a mim que o fizeste” (Mt 25, 34-40). Com base nestas palavras de Jesus, a Igreja criou um catálogo com as chamadas obras da misericórdia. Muito simples, são muito belas e exigentes.

Dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede: A misericórdia exerce-se nos gestos mais simples da sobrevivência. Quantos hoje, com a crise do mundo, têm fome e sede à espera de um pão ou de um copo de água.

Visitar os enfermos e os encarcerados: há hoje muitas doenças físicas, psicológicas, sociais. O drama maior dos mais frágeis é a solidão. A verdadeira misericórdia pede para estes a presença amiga, muitas vezes sem palavras, mas estímulo para continuar a viver. Também os reclusos são frágeis, à espera de uma visita redentora.
Vestir os nus e dar pousada aos peregrinos: no mundo actual multiplicam-se os migrantes e os sem-abrigo. A misericórdia sugere um lugar à mesa para os que passam e um agasalho para os que têm frio. Repartir com estes os bens é uma expressão radical de amor.

Ensinar os ignorantes: sendo no mundo de hoje o analfabetismo um dos maiores flagelos, a misericórdia sugere a entrega à alfabetização, a ajuda nos estudos, à informação verdadeira, à especialização por pequenina que seja.
Corrigir os que erram: esta obra de misericórdia não tem nada de repressivo. É antes uma ajuda fraterna para quantos, nas normais dificuldades do dia-a-dia falham os objectivos e mantém a esperança nos apoios indispensáveis.

Muitas outras obras de misericórdia poderiam enumerar-se. Recordando o velho catecismo encontram-se sugestões práticas, para redescobrir a verdadeira misericórdia. Já no Antigo Testamento Ezequiel fazia a súplica a Deus: “Tira do meu peito o coração de pedra e põe nele um coração de carne, um coração capaz de amar” (Ez 36, 26). Só um coração novo é capaz de usar de misericórdia para com todos.

3. Os Apóstolos, nas suas mensagens aos cristãos, sejam os discursos de Pedro, sejam as cartas de Paulo, recomendam constantemente que se use da misericórdia de Deus porque “o amor de Deus está difundido nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5). É neste contexto que os cristãos se deixam possuir pela misericórdia de Deus quando tornam novo o seu coração. E o que é um coração novo?

É um coração de pobre, que não se prende às coisas, às pessoas, às situações, mas é sempre livre, disponível, para quantos passem por si e necessitem de um cuidado, de uma palavra, de um sorriso, de um gesto de amor.

É um coração que perdoa qualquer que seja a ofensa recebida. Já Jesus dissera que é preciso perdoar 70 vezes 7 vezes, o que quer dizer, sempre. O perdão é expressão máxima do amor.

É um coração verdadeiro e sincero, que não mente, que aceita as dificuldades, que encontra forças para chegar mais longe, que tem como grande objectivo fazer os outros felizes.

É um coração que constrói a paz, o que só é possível quando se torna ponte de reconciliação. Ter um coração em paz é fácil. Propor a paz aos outros é mais difícil. Conseguir a reconciliação chega a ser heróico. Mas é esta a vocação do cristão.

Com estas e outras expressões se poderia falar de um coração misericordioso. Jesus, na Última Ceia, ao lavar os pés aos Apóstolos deu-nos o exemplo. Teve gestos de misericórdia para com João o discípulo amado, mas também com Pedro que o iria negar e também com Judas que o iria trair. Um coração misericordioso é um coração universal.

4. Neste Domingo da Divina Misericórdia todos na nossa comunidade somos convidados a usar palavras e gestos de misericórdia. Saiba cada um de nós inventar a forma de viver com a experiência de Jesus, a Misericórdia de Deus. Deus é rico em misericórdia.

Comments are closed.