A FANTASIA DA CARIDADE – 2 de Outubro de 2011

1. O desafio da caridade é um ponto-chave do Programa Pastoral da Comunidade Cristã do Campo Grande. O programa está centrado na Palavra, é certo, mas para promover a Nova Evangelização todos têm de estar marcados pelo amor. É que a Boa Nova do Evangelho centra-se num mandamento novo, isto é, na caridade vivida à exaustão por todos os cristãos. Há inúmeras dimensões da caridade mas todas convergem para o amor proclamado no Evangelho. Senão vejamos:

• a caridade enquanto amor fraterno é condição indispensável para ser-se reconhecido como discípulo de Cristo. É Jesus que o afirma ao falar do mandamento novo: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei, por isto vos reconhecerão como meus discípulos” (Jo 13, 34-35).

• a caridade enquanto serviço aos mais pobres revela a ternura de Jesus para com todos. Traziam-lhe os doentes dos mais diversos lugares e Ele curava-os a todos (cf. Mt 4, 22).

• a caridade enquanto atitude de amor é essencial para o viver cristão. Foi Paulo que o afirmou claramente ao dizer: “ainda que tenha uma fé capaz de transportar montanhas, ainda que tenha o dom de todas as línguas, se não tiver caridade nada sou, de nada me aproveita” (1Cor 13, 1-3).

• a caridade, uma garantia da presença de Deus, assim foi afirmada no Evangelho de Mateus que pôs na boca de Jesus estas palavras “onde estão dois ou três reunidos em meu nome, isto é amando-se, eu estou no meio deles” (cf. Mt 18, 20).

• a caridade como síntese da vida. É Paulo Apóstolo que o diz aos Coríntios: “a fé e a esperança vão desaparecer, mas a caridade perdura para sempre” e, ainda, “a fé e a esperança são extraordinárias, mas a maior é a caridade” (1 Cor 13).

É a caridade, presença de Deus que é amor, que conduz à unidade. Sem o amor recíproco nunca poderia realizar-se o sonho de Jesus: “que todos sejam um, como Tu ó Pai és um em mim e Eu em ti” (Jo 17, 21).

2. Convidando os cristãos a recriar o amor fraterno, João Paulo II fala com frequência da fantasia da caridade. E o que significa isto? Certamente a capacidade de deixar as rotinas e descobrir formas novas, mais oportunas, para responder ao sofrimento dos irmãos. É também um convite à inovação, na certeza de que o Espírito Santo, em cada tempo, sugere as melhores formas de significar o amor. O Novo Testamento traz-nos um exemplo claro desta fantasia da caridade. Está no gesto de Paulo que, da sua prisão em Roma, escreve ao amigo Filémon para que receba o escravo que tinha fugido. E Paulo pede mesmo que o receba como se fosse ele próprio, não como escravo, mas como amigo. É uma das páginas mais belas das cartas de Paulo, reveladora de que se podem deixar rotinas e abrir o coração a novos gestos de amor. Neste tempo de crise, os cristãos são chamados a esta fantasia da caridade. Não basta fazer festas a uma criança, dar uma esmola a um pobre na rua, contribuir para uma obra de caridade, inserir-se como voluntário numa associação. É preciso mais, é preciso reinventar o amor. Há elementos de marca para a fantasia da caridade:

• a mão esquerda não saiba o que faz a direita (cf. Mt 6, 39). É a gratuidade total no dom que a caridade pede e exige.

• a descoberta do próximo mais próximo, isto é, daquele que mais precisa, que está mais fragilizado, que não tem ninguém. Na piscina probática o paralítico pôde dizer “não tenho homem que me lance na piscina”. Em resposta Jesus foi mais longe e disse “pega no teu catre e vai para casa” (Jo 5, 7).

• o encontro com a solidão de um vizinho. Quantas vezes no prédio onde se vive, os cristãos ignoram quem está só e precisa de apoios. Antes das instituições, a pessoa em solidão precisa de alguém com quem falar.

• a capacidade de fazer economias que se não guardam para fazer uma viagem, mas se contabilizam para repartir os resultados com os mais pobres.

• o dom do perdão depois de muitos anos de relações tensas. Ser capaz de perdoar é a mais bela originalidade dos cristãos uma vez que o seu coração, possuído de Jesus, só tem Jesus para dar aos outros. Reinventar o perdão é urgência para a reconciliação entre as pessoas.

• dar tempo a quem precisa do “meu tempo”. Uma criança com dificuldade de aprender, o idoso que já não pode ler, um doente que precisa de ir ao médico ou, até, alguém que precisa de contar a sua história já muitas vezes repetida.

• reservar alguma parte do dia ao Senhor Deus em que se acredita e se define Ele próprio como amor.
São estas algumas marcas da fantasia da caridade mas, cada um, com a sua criatividade é sempre capaz de descobrir outras.

3. A Nova Evangelização, pela caridade, deve ser paradigma para a Comunidade Paroquial do Campo Grande em 2011/2012. A Catequese, por muito organizada que esteja, é insuficiente; os grupos de jovens, por muita reflexão que proporcionem, não formam integralmente a pessoa; as liturgias dominicais onde participam tantos cristãos, por si só, não fazem crescer a comunidade cristã. Só o exercício da caridade completa o trabalho dos catequistas, dos animadores de jovens, das liturgias dominicais. Não há Boa Nova da Evangelização sem a expressa acção de uma caridade organizada.

• O aprofundamento da fé nas catequeses das crianças, jovens e adultos revela-se nos gestos de amor que uns e outros sabem realizar, respondendo a problemas humanos muitas vezes difíceis.

• O fundo de solidariedade recolhe bens que dados anonimamente permitem ajudar quem mais precisa e quer manter o silêncio sobre as suas dificuldades.

• As conferências de S. Vicente Paulo são uma presença de amor junto de dezenas de famílias que ao longo do ano recebem o apoio espiritual e material, essencial ao seu bem-estar.

• Os grupos de universitários consagram o sábado a visitar idosos e doentes acamados para lhes proporcionar, no arrumar da casa, um ambiente agradável no seu tempo de vida.

• O Centro Social e Paroquial pôde acolher este ano mais crianças, mais jovens e mais seniores, a quem quer ajudar, não apenas na sobrevivência mas sobretudo numa mais qualidade de vida.

• O Clube de Jovens aposta no desenvolvimento integral de tantos e tantos que sem esta ajuda correriam o risco de acabar marginais.

Muitas outras coisas, com criatividade, a Paróquia está a realizar. A grande preocupação é servir o homem todo, e todos aqueles que nos procuram ou que encontramos no caminho.

4. Resta-nos formular uma pequena oração: Senhor, ajuda-nos a descobrir novas formas de amor, porque só na fantasia da caridade é possível vencer as crises e pôr em prática a Nova Evangelização.

Comments are closed.