O NOVO NOME DO AMOR, INTERVENÇÃO – 9 de Outubro de 2011

1. Quando no séc. XIX, em Paris, se viviam tempos de recessão económica, os jovens universitários multiplicavam-se em reuniões onde se discutia o problema da fome e a angústia de muitos mendigos espalhados pelas ruas. Um dia, Frederico Ozanan, estudante católico, conversava com um colega agnóstico que o interpelou com violência: “vocês, os católicos, conversam muito, rezam muito, e o que é que fazem?” Frederico Ozanan ficou tão chocado com a interpelação que criou um movimento de apoio aos mais pobres e mais desprezados pela sociedade. Nasceram assim as Conferências de S. Vicente de Paulo. Neste momento de dificuldades, qual será a missão dos cristãos? Poderão limitar-se a debates sobre o estado social? Poderão remeter-se a orações e vigílias? Poderão ficar-se por repetidas expressões de amor aos pobres? Ou não terão que envolver-se em actividades concretas que sejam o ponto de partida para a transformação da sociedade? É neste contexto que, no tempo de crise, os cristãos não se podem ficar pelo amor ou, melhor, têm que converter o amor em intervenção que transforme o rosto da cidade. Aliás, quem lê a Palavra de Deus encontra desafios fortíssimos que convidam à acção.

• Quando Deus criou o mundo, o par humano recebeu um mandato: “crescei, multiplicai-vos e dominai a terra” (Gn 1, 28). Era uma proposta de Deus para que o homem colaborasse na transformação do mundo.

• Todos os profetas falavam da responsabilidade do povo de Deus perante as injustiças que vitimavam os mais fracos. Quem lê Isaías, Jeremias ou mesmo Amós, vê que a linguagem dos profetas é sempre um desafio para a restauração do Reino de Israel.

• Quando Jesus entra na história humana, Deus exprime de tal forma o seu amor ao mundo que lhe dá o seu próprio Filho. Não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo (cf. Jo 3, 16). A missão de Jesus é salvífica, constrói a redenção.

• Os caminhos da Igreja, outra coisa não são do que uma forma de intervenção para mudar a sociedade. Nas Cartas dos Apóstolos há exigências para a construção da família, na relação dos pais com os filhos, há apelos para uma atitude de cooperação entre os trabalhadores e os proprietários, há mesmo um pedido à justiça feito aos governantes (cf. Ef 5, 21; 6,3 Col 3, 18-24).

• A Carta Magna, na defesa da liberdade para os escravos pode encontrar-se na Epístola de Paulo a Filémon “recebe Onésimo como se me recebesses a mim próprio” (Flm 1, 17).

A Palavra de Deus repete inúmeras vezes a exigência de um compromisso na transformação do mundo. Valores novos como a verdade, a justiça e a liberdade, reclamam atitudes novas. Para o respeito por cada um e a construção de uma comunidade de gente livre e feliz. Por isso os direitos humanos proclamados em 1948, outra coisa não fazem do que reclamar uma sociedade justa e fraterna que é, aliás, a proposta do Evangelho.

2. Se esta ideia da intervenção é uma constante na história da Igreja, ela torna-se mais clara a partir de Leão XIII, quando o Papa intervém na questão social. À Igreja não basta condenar os erros. Aos cristãos pede-se a intervenção na ordem temporal. O Concílio Vaticano II foi paradigmático ao afirmar que a missão dos leigos na Igreja é “tratar da ordem temporal e orientá-la segundo Deus para que progrida e glorifique o Criador e Redentor” (LG 31). É claro que os leigos precisam da oração e dos sacramentos, mas a sua missão está em intervir na ordem temporal. O grande vade mecum é a Gaudium et Spes, Constituição Apostólica sobre a Igreja no mundo. Ali se defende a dignidade humana como o valor a defender em todas as circunstâncias. Ali se refere a comunidade humana, lugar de encontro entre todas as pessoas, iguais em direitos e deveres. Ali se pede a actividade humana, fonte da realização de cada um, no projecto de uma sociedade nova, com gente feliz. Na segunda parte deste documento do Vaticano II, diz-se então onde os cristãos têm que intervir:

• no matrimónio e na família. A família é um espaço social onde a vida nasce, cresce e se desenvolve até à plenitude de todos os seus membros (CfL 40). A família é uma comunidade de pessoas ao serviço da vida para o desenvolvimento da humanidade (cf. FC 17 e ss.). A família para ser feliz está aberta aos mais pobres e aos que mais sofrem (FC 41).

• no fomento do progresso cultural. Numa sociedade fortemente materialista o desenvolvimento da cultura é um imperativo para os cristãos. Para além da informação, muito para além de uma formação escolar impõe-se a educação para valores que é urgente implantar na sociedade do tempo presente. Nas raízes da civilização europeia estão os valores da cultura cristã. É imprescindível que os cristãos os implantem em todas as relações humanas.

• na vida económico-social. Vivendo-se um tempo de absolutização do económico é urgente que os cristãos sejam diferentes. Sem dúvida que o equilíbrio económico é uma constante, mas a preocupação pelos mais pobres e que mais sofrem requer uma sociedade onde não seja o lucro a referência para tudo, mas seja antes a pessoa e a sua dignidade o valor a promover, sempre.

• na vida da comunidade política. A Igreja não está fora da cidade dos homens. Os cristãos devem assumir a sua responsabilidade na construção de uma sociedade humana e fraterna. A Igreja enquanto tal não tem partidos mas os cristãos têm o dever de organizar-se a partir das suas próprias opções para o relacionamento entre grupos em ordem à prática do bem comum. Os cristãos têm o dever de aceitar cargos políticos para a partir deles intervirem na cidade dos homens com os critérios de verdade, de justiça e de liberdade essenciais à felicidade de todos.

• no fomento da paz. De muitas maneiras se pode promover a paz entre os homens e os povos. O esforço de reconciliação, para além das atitudes de justiça, é o motor de uma sociedade nova onde todos os homens se podem considerar irmãos.

Estas, as grandes linhas de uma intervenção urgente que se pede aos cristãos no mundo contemporâneo. Passaram-se quase 50 anos sobre o Concílio Vaticano II e a intervenção na cidade dos homens continua a ser alguma coisa de vago na prática dos cristãos. Não se pode ser simples espectador, embora solidário, com os que mais sofrem. É preciso ser actor com capacidade de mudar as coisas. Só abertos à intervenção conseguimos redescobrir o verdadeiro sentido do amor.

3. No difícil tempo de crise do mundo contemporâneo, justifica-se uma nova organização dos cristãos. Seria interessante constituir grupos de prédio, grupos de rua, ou grupos de bairro que gostassem de reflectir sobre o tempo presente e sobre a forma de intervir como cristãos na cidade dos homens.

• Há problemas que é possível detectar, sobre os quais vale a pena reflectir, que merecem um suficiente aprofundamento. A opinião de muitos ajuda a conhecer melhor os problemas.

• Há atitudes que podem ser tomadas não apenas em termos de solidariedade, mas também em termos de co-responsabilidade. Ser administrador de um condomínio pode ajudar à pacificação entre as pessoas, ou à entreajuda na educação dos filhos, ou na resposta a um sofrimento mais intenso de alguém.

• Há capacidade de agir que faz despertar lideranças que um dia, valorizadas, projectam responsáveis capazes de ajudar toda uma comunidade.

O dinamismo da mobilização para a acção pode dar ao ser cristão uma beleza diferente. O cristão precisa da oração para ter mais força, precisa da comunidade para o intercâmbio de ideias, precisa da liturgia dominical para uma formação constante, mas a missão do leigo é na ordem temporal, porque é aí que pode converter o amor em intervenção exigente. É nesta intervenção dos cristãos que colocamos a nossa esperança.

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